Ma vie de nerd

Embora Paris seja regada a arte, e ela própria é um modelo vivo meio esnobe, não é muito fácil encontrar um programa para ilustradores aqui. Nova York tem dezenas de locais pra fãs do traço, como a Sociedade dos Ilustradores e suas aulas de modelo vivo, a Illustration House, a Animazing, etc. Mas Paris tem seus museus, suas galerias e vira e mexe tem uma exposição com algum ilustrador ou quadrinista por aqui. No momento tem uma do Robert Crumb e do Sempé. Em outro post eu falo da experiência de frequentar um museu abarrotado por chineses mal-educados.
DSC02581
Pra compensar, eu conheci logo que cheguei a rua mais nerd de Paris: a Rue Dante, perto da catedral de Notre Dame, do museu Cluny de Idade Média e do Boulevard Saint Germain.

O nome da rua se justifica: nerds com cartão de crédito, deixai aqui vossas esperanças.

É uma rua abarrotada com lojas de cultura POP. Logo de cara, fãs de mangás, otakus alienadamente orgulhosos (sim, ser chamado de otaku também é palavrão aqui em Paris), tem essa lojinha, Le Maison du Mangá, pequena mas com muita coisa legal e diferente. Tem um Totoro tipo relógio cuco, por 500 euros, pelúcias do Ponyo assustadoramente fiéis e outras japonices. Além de gibis.
museudomanga
Logo depois tem uma loja ao lado, Jeux Video, que vende videogames antigos, de Atari, nintendinho e Mega Drive. Em estado trincando de novo. Procurei por Might And Magic pra Mega Drive mas não encontrei, se você tiver um eu até compro.

Na frente tem a loja Gotham, uma perdição pra quem gosta de filmes de terror e filmes de terror trash. Tem quase tudo o que foi feito no mundo com essa temática, desde os filmes atuais, passando pelos tranqueiras-espreme-sangue japoneses, fimes holandeses de terror dos anos 70, filmes mexicanos, franceses, pornografia antiga sueca, tipo Rudolph pra baixo. Além vendem muitos objetos de filme. Lá vende a melhor máscara do Jason que já vi. Comprei Mic Mac, o filme novo do Jean Pierre Jeunet e que ainda nem estreou nos EUA. Achei que seria um novo Amelie Poulain, acreditando no trailer. Uma bosta com cheiro de roquefort.
DSC02579
Por fim, o golpe de misericórdia da carteira, a guilhotina afiada que corta sem causar dor. As lojas Álbum. Eu conheci só uma logo de cara, o que já me fez um estrago danado, mas depois ao tomar um café com a Mariana Newlands – post futuro sobre isso – me apresentou pra mais 3 lojas da mesma rede, ou seja, fudeu.
DSC02580
Album é uma mega loja de quadrinhos. Até aí tudo bem, mega loja de quadrinhos não fazem mal pra quem tem algum controle. Uma delas é gigantesca e só vende gibis e livros europeus. Um dia é pouco pra visitar essas lojas.
O problema, e bota problema nisso, é que ela também vende….sketchbooks! De todo mundo, do Alberto Ruiz, da Brandpress, da Fluide Glacial, do Stuart NG…aí a coisa pega. Vi livros que só achava que conseguiria comprar pela internet, como os do Stuart Ng, além de novas editoras só de sketchbooks.

Eu acabei com boa parte do dinheiro da viagem nessa loja, com um livro generoso do Peter de Seve, sketchbooks do Guarnido, do James Jean, Ronnie del Carmen, os novos do Adam Hughes, Chris Sanders, etc., etc., e bota etcetera nisso. Deu uns 7 kg de livros nessa brincadeira. Somado com a outra passada que eu dei numa loja de livros infantis chamada Chantelivre, perto do metrô Sevres, a coisa deu uns mais um quilo de conhecimento não-perecível.

E a cereja no topo do mamilo: uma bonequinha da Clara, a personagem voluptosa do Artur De Pins. Não sou do tipo que compra bonequinhos, mas meu caro, essa gostosa tinha que voltar pro Brasil comigo.
depins1
Alguns vem aqui pra comprar Cartier e Luís Vitão na Champs Elisées. Não é o meu caso, desolée.

Detalhe cruel e sexista: dentro dessas lojas de quadrinhos você não encontra os mesmos tipos que encontraria na Forbidden Planet, em NY, ou nas lojas paulistas.

Meu amigo, o que tem de menina bonita e bem vestida e fãs de quadrinhos frequentando essa loja só faz você se sentir mais nerd ainda. Realmente aqui é outro país.

UPDATE:

Voltei pra rua Dante hoje e descobri MAIS UMA loja que vende quadrinhos e sketchbooks: A Pulp comics. Ela estava fechada quando eu fui pela primeira vez, e tem tantos livros de ilustração quanto a Album, só que é mais organizada. Lá encontrei o último livro do Ronnie del Carmen, “And There You Are” e descobri um grande livro de um grande ilustrador, chamado Stephen Silver.

Ele é ilustrador, ele é tetraplégico e ele desenha (muito) melhor do que eu.

Nada melhor do que comemorar um ano de blog com um post que faz qualquer um se sentir mais humilde.
Cortesia do Alvaro Sasaki, que enviou essa dica.

Olhar para o vídeo de Shiro Kotobuki, um ilustrador tetraplégico, trabalhando apenas com a boca e um tablet bem calibrado fez com que eu me sentisse do tamanho de um cupim por eu ter reclamado de umas dores nas costas por ter desenhado a noite inteira. Mesmo sendo em japonês sem legendas dá pra entender perfeitamente.

Essa é a segunda parte do documentário:

Ele é um dos criadores de personagens do jogo para marmanjos Rumble Roses (que a partir de hoje vou jogar com mais respeito) e ilustra garotas maravilhosas melhor do que eu ou qualquer outro sujeito com dez dedos funcionando. Já havia visto essas ilustrações, mas jamais havia pensado que isso era obra de alguém nas condições do sr. Kotobuki. Merece meu reverenciamento virtual e minha declaração oficial de humildade reconhecida.

Chega ser uma ironia ele ilustrar essas beldades deliciosas em sua condição. Em seu site, aliás com muito conteúdo, tem seu portfólio, que vai fazer muito carinha ficar de mamilo duro de inveja ou admiração.

E a gente aqui, com todas as partes funcionando, inclusive as de baixo, é uma panelada na testa quando sentir preguiça de estudar pra desenhar melhor.