A cabeça de Miyazaki

Em épocas nada gloriosas da minha vida, particularmente quando minha carreira era fétida e sem perspectivas como uma bola de pelo de gatos, quando havia desistido de ser ilustrador para trabalhar com publicidade, uma das coisas que me deram força pra continuar gostando de desenho em circunstâncias adversas foi Totoro. Toda vez que via Totoro eu ficava fascinado como uma criança que repete o filme dezenas de vezes e canta a musiquinha no final, e esse fascínio me fazia pegar no lápis e rabiscar alguma coisa mesmo sem utilidade, sem qualidade ou sem pretensão. As cenas da árvore gigante crescendo ou do Gato Ônibus mexiam comigo. Sem esses rabiscos esporádicos durante essa fase, dificilmente eu retornaria a trabalhar com ilustração alguns anos depois.

Ninguém como Hayao Miyazaki consegue fazer trabalhos que inspiram tanto uma criança com cheiro de leite na roupa como um adulto com dívidas no banco, passando obviamente por uma renca de ilustradores, animadores e escritores que ergueriam um altar para ele em um cantinho especial da casa. Lógico, tem gente que torce o nariz pra ele, mas esses a gente não convida pra brincar.

Quem é fã dele e tem um inglês azeitado deve tem que ler “Starting Point” – R$68 dinheiros na Livraria Cultura.

O livro é um apanhado de entrevistas, ensaios e pensamentos de Miyazaki durante o período de 1979 a 1996. É um livro delicioso, é um TED escrito em papel. Ali Miyazaki fala sobre a paixão de desenhar, de como as idéias nascem, do que uma história tem que ter para ser boa, como ele constrói um personagem, o que ele acha sobre mangás, a paixão dele por aviões e pelo voar, ou as referências de filmes noruegueses e italianos, como “Ladrões de Bicicleta”. Além disso também conta o ponto de partida que levou ele a criar Totoro, Kiki, Princesa Mononoke, etc. Deliciosamente obrigatório para quem não só trabalha com desenho, mas para quem trabalha com criatividade.

Um exemplo do que ele fala sobre o ato de desenhar, devidamente traduzido:

Quando você fala sobre um belo pôr-do-sol, você sai correndo atrás de referências fotográficas de pôr-do-sol ou vai em buscá-lo em qualquer lugar? Não, você fala sobre o pôr-do-sol desenhando o que conhece dos muitos por-do-sol que você tem armazenado dentro de você, basicamente sentimentos sobre ele arraigados dentro do seu consciente, dos por-do-sol que você via nas costas da sua mãe, cujas memórias são quase um sonho, ou do primeiro pôr-do-sol da sua vida que você viu em um penhasco e deixou você perplexo e encantado, ou aqueles por-do-dol em dias de angústia, solidão ou entusiasmo…

….desenhe muito, o máximo que você puder. De vez em quando, a partir disso, um mundo pode ser criado.

O livro é lotado dessas “conversas de velhinho sábio”, deliciosamente sábias.

Esse é um dos vários sketches que Miyazaki fez sobre idéias soltas, apresentadas por um Porco Rosso fofo.

Softy kitty, neko kawaii

Até num comercial japonês de 30 segundos o estúdio Ghibli faz coisa pra soltar palavrão. Fofura pura até a úvula.

Corrijam se eu estiver errado, mas parece que foi feito pelo filho do Miyazaki, o Miyazaki Jr.

Enquanto isso, aqui, comercial de cheirinho de carro com sujeito cantando cobradora de pedágio, nanana forever young e China in Box histérico faz parecer esses 30 segundos uma eternidade. Teoria da relatividade de Einstein.