Aprendendo a desenhar com Rad Sechrist. E Mort Drucker, Glen Keane, Ralph Bakshi

Eu adooro colocar posts com nome “Aprenda a desenhar com….”. São os posts mais visitados, atraem incautos como moscas em carne fora de geladeira, e como prova que o ser humano ANSIOSO só lê as primeiras quatro palavras de uma frase, centenas de pessoas pensam que EU ensino a desenhar. No começo isso me incomodava, mas algumas perguntas são tão grotescas e mal escritas, do tipo “aê meu, kero desenhar pra caralho, comofaz?” que de incômodo a coisa virou um tipo masoquista de entretenimento. Se não sabem ler um post, como querem aprender a desenhar?

Da mesma forma que eu vivo repetindo, e o Ricardo Antunes também, que mesmo a Revista Ilustrar sendo gratuita e pra download, dezenas de pessoas perguntam onde comprar e quanto custa.

EU não ensino a desenhar, ainda não tenho cacife, créditos e gônadas suficientes pra isso. Mas Rad Sechrist ensina, e ensina muito bem.

Vi essa no blog Drawn. Sechrist é um puta ilustrador e além de fazer storyboards pras animações da Dreamworks, também foi responsável pela melhor história da última revista Flight, que tava bem fraquinha, a do samurai que busca a mulher raptada por um sujeito malvado (Kidnapped).
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Seu blog “Rad How To” tem gigas de informação, apenas e simplesmente de posts que ensinam a desenhar. Dicas de anatomia, perspectiva composição, dentro do contexto de comics e animação.
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Coisas que se aprende TREINANDO constantemente com uma orientação, não se aprende anatomia de segunda pra terça e dormindo entre esses dois dias, e com AUTOCRíTICA, pra não se achar o rei da cocada preta quando conseguir desenhar uma mulher com a bunda no lugar e achar que não precisa aprender mais nada.

Fazer o quê, meu amigo, escolheste uma profissão que exige estudar e praticar sempre. E aproveite agora que você está no começo de carreira e tem pouco trabalho, porque depois que começar a trabalhar de verdade, tempo pra estudar vai se tornar tão valioso como virgens pra sacrifício. Virgens bonitas.

O blog pessoal de Sechrist também seca os olhos.

Além dele, o leitor Kleverson me deu uma dica de outro blog fantástico, o On Animation. Dentro dele existem centenas de filmes, entrevistas, matérias, sketches, análises de ilustradores e animadores com carreira com peso de elefante, uma miríade (gostou do “miríade”?) de foderosos do traço do mundo da animação. Só na primeira página tem uma amostra grátis do Mort Drucker desenhando, (quem nunca leu uma sátira de filme no MAD feita por ele?), e os sketches de Glen Keane quando fez Tarzan.
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É outro blog deixa passando fome por dias quem gosta de animação.

Os últimos dias do portfólio de couro?

Coincidências não existem, portanto duas perguntas pra mim no mesmo dia sobre portfólios num momento em que eu estava tirando minhas pastas do armário pra decidir o que fazer com elas podem ter um significado cósmico?
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Tomei a decisão de não mais atualizar o portfólio real, aquela pasta de couro lindona que mofa sempre depois das estações de chuva, como agora.

A razão é simples: Há mais de 6 anos que eu não mostro a pasta pra ninguém, há 6 anos eu não imprimo ou monto pranchas novas. Minhas pranchas pretas viraram cinza por causa do tempo.

Creio que isso não acontece só comigo, mas o portfólio que conta hoje, é o que fica hospedado virtualmente no site. E surpreendentemente, mais do que isso, o blog tem dado mais resultado que o site oficial, por vários motivos.

Quem vai olhar sua pasta nunca tem tempo. De diretores de arte a art buyers, os caras quando muito tem tempo de ler um gibi enquanto fazem o nº2 no banheiro da empresa. Talvez nem isso. Eu não tinha esse tempo. Hoje em dia, fazer o cara perder uma hora conversando numa entrevista que poderia ser resolvida em minutos olhando na internet é improdutivo.

Talvez os dias do portfólio de couro realmente estejam contados, sei que existem ainda profissionais que resistem a isso, tanto ilustradores como diretores de arte que ainda fazem questão de fazer o contato morno social, mas são poucos.

Acho mais do que nunca, vale sim a pena investir é no seu site, ou blog, e fazer isso de maneira profissional, e não profiça, com purpurina soltando no seu site que leva 2 minutos pra carregar mesmo com banda larga. O brega e mau gosto nunca deveriam chegar na internet.

Mesmo em reuniões onde o cliente participa, seja ela por causa do início de um projeto grande ou simplesmente porque o cara quer te conhecer e ele, como não é da área, nunca viu seu trabalho ou se viu, não tem noção, eu substituo o portfólio de verdade pelo MacBook e uma apresentação dos meus trabalhos em Keynote, o equivalente maçãnico do PowerPoint.

Mesmo assim, melhor ter um portfólio de verdade do que não ter nenhum. E há alguns anos escrevi um post sobre isso, ainda servindo pro gasto. As dicas pra montar aquele tipo de portfólio também se encaixam no virtual, com a vantagem que você não tem mais que ficar na frente do diretor de arte se explicando porque colocou um desenho ruim na sua pasta. Na verdade, este post só reforça o que já vinha acontecendo em 2007.

Quem tem grana sobrando ao ponto de comprar aquele lápis da Faber Castell de R$23 mil pode mandar imprimir um portfólio em forma de livro. Passaram alguns na minha mão e isso vira um livro pra colocar na estante de diretor de arte. Invejinha e pensamentos primatas invadiram minha cabeça quando vi um.

Ainda não é hora de jogar a velha pasta do Omar Olgun, a Louis Vuitton dos portfólios da década de 90, no lixo. Talvez, um dia, ela irá salvar o dia deste ilustrador. Como no dia em que a internet ou a energia elétrica acabar e as pessoas passarão a bater nos outros na esperança de cairem dinheiro e itens, como nos videogames.

Design gráfico e assalto à mão armada, ou símbolos para saber se sua casa dá mole pra bandido

Há algum tempo, quando postei sobre símbolos gráficos usados por pedófilos (cuspe, cuspe), o Alarcão havia comentado sobre símbolos que eram pichados no Rio de Janeiro como forma de aviso para outros malandros assaltarem a morada. Nessas, fiquei curioso e imaginando como seriam esses símbolos.

E eis que encontrei no UOL essa imagem. Hiro, o alarmista, ataca novamente e diz: “Tenha medo, tenha muito medo”, nhá! (pode clicar na imagem pra ela aumentar).
Mais uma vez o mal encontra o design gráfico. Encontrou um símbolo desses na sua casa? Fique à vontade pra ficar paranóico.

Por via das dúvidas, melhor passar um esfregão naquele picho apareceu no portão na madrugada de sábado.

Esse corpinho tá bom pra você?

Para aqueles que precisam estudar anatomia e não possuem espelhos, primas peladas ou dinheiro pra comprar o programa Poser, um programa que gera qualquer posição humana e não humana para ser ilustrado, utilizado largamente por ilustradores de quadrinhos (o mangá Gantz foi feito com uma larga contribuição deste software), o pessoal lá da SIB enviou essa dica de dois sites que fornecem corpos e partes de corpos para estudo e, talvez, algum deleite fetichista depravado.

Neste site eles fornecem corpos inteiros, que você pode rotacionar somente em um eixo, mas quebra um galho para aqueles que precisam ter um galho quebrado no quesito “posições clássicas mas não tenho referência”. É um Versalius interativo.

Neste são apresentados partes de corpos - mãos, pés, cabeças e troncos com um pênis em repouso – mas que você pode rotacionar no melhor estilo “free will”.

Como comprar livros da Amazon pela Cultura?

Esse post é pra esclarecer muita gente que pede informações como se compra livros na Amazon.

Bom, na Amazon é fácil, basta ter os poderes mágicos de um cartão de crédito internacional e audácia para jogar os dados na internet. Dependendo da compra, paga-se mais 30 dólares de frete e espera-se 3 ou 4 semanas até os livros chegarem pelo correio, e chegam direitinho, com plástico-bolha do tamanho de morangos cobrindo o produto.

Agora, outra maneira que eu faço pra comprar os livros é pela Livraria Cultura. Não é propaganda, é praticidade mesmo.
Mesmo se você não encontrar os livros no site da Cultura, basta que esses livros constem no site da Amazon ou da Barnes & Noble que a importação é fácil.

Basta você anotar o ISBN dos livros que você quer trazer, ligar pra Cultura ou mandar um e-mail, fazer o pedido e passar o ISBN.
A importação vem no mesmo tempo e o valor é quase o mesmo, com a vantagem de não ter que passar aperto jogando seu cartão no mundo selvagem da internet.

Acabei de receber dessa maneira dois livros supimpas: The Art of Wall.e (R$89,00) e The Art of Kung Fu Panda (r$109,00). Esses livros de sketchbooks de animações em 3D são recheados de desenhos de produção e conceitos e já são tradição. Valem a pena cada centavinho, principalmente para aqueles que trabalham com ilustração. Embora o filme da Pixar seja melhor que o da Dreamworks, o livro do Kung Fu Panda é mais rico, até por que rascunhos de bichos animados ganham de dez de rascunhos de caixas, cubos e cilindros.

Imagine FX


Aí vai a dica de uma revista que considero a linguiça do caldo verde para muitos que estão procurando por informações e dicas de como desenhar que saiam do café-com-leite-com-pão-com-manteiga. Ela é muito conhecida entre os ilustradores que arregaçam a manga todo dia, mas talvez a maioria dos leigos não a conheça. A revista inglesa Imagine FX é centrada em arte fantástica, e a maioria dos seus tutoriais são sobre arte digital. Mas é lotadaça de dicas que ensinam o caminho do Caveira para coisas esdrúxulas e inusitadas, tais como fazer brilho molhado em bundas de fadas, como fazer escamas de peixes mutantes ou como estudar a intrincada anatomia de um bico de seio. É o tipo de arte que puxa muito, mas muito mesmo para a arte acadêmica, aquele tipo de arte que você não tem escapatória: se quiser desenhar caras musculosos e mulheres apetitosas tem que estudar anatomia, e de preferência, ter aulas com um professor meticuloso e talentoso. Você pode até tentar aprender como autodidata, mas vai levar mais tempo até o resultado desejado. O problema não é aprender sozinho, o problema é não saber ONDE olhar e saber onde está errando para poder acertar.

Além de tutoriais fabulosos, a revista tem muitos concept art de ilustradores famosos e ferosos, caras de quadrinhos, ilustradores da indústria de games, desenvolvedores de conceito para cinema. E todo número vem com um disco com imagens e programinhas pra experimentar.

Aqui você encontra em poucas lojas (só consigo encontrar na Fnac do Morumbi Shopping), mas o preço é um assalto a mão armada, quase 90 reais. Melhor ficar com a opção de assinatura diretamente no site da revista. A assinatura de um ano custa 73 libras, o que dá maizoumenos R$255. Vale a pena, considere isso como investimento pois assim você não sente dores no peito.

E, sim, tem que saber ler em inglês uma revista em inglês feita na Inglaterra.

Pegando no pincel de verdade

Nos últimos meses tenho dividido a ilustração digital com a ilustração convencional, retomando uma prática perdida por causa do Steve Jobs e da pauleira da agência de publicidade. E as primeiras impressões quando você volta da loja de material artístico depois de alguns anos, é: como é caro! Como ocupa espaço! Mas em compensação a paz de espírito de rabiscar com um lápis profissional e mexer com uma aquarela de gente grande é calmante como uma meditação zenbudista. Méritos ao Bistecão que me fez voltar a mexer com grafite de novo.

Seguindo uma dica do Montalvo, encontrei e indico esse site gringo, o Dick Blick, que envia materiais artísticos pra cá, para alegria da Mastercard. Mas os preços compensam. Pelo menos os pincéis série 7 são muito mais baratos que os daqui e os estojos de aquarela profissinal custam quase 4 vezes menos, isso sem falar nas outras comesticidades tolas mas interessantes que pipocam por lá, como godês de porcelana, que são difíceis de se encontrar por aqui e outras traquitanas modernosas pra incrementar o estúdio.

A internet é a arma do demônio para quem é curto de grana. Esse conjunto de aquarela de metal da Winsor & Newton parece uma frasqueira de bebum dos anos 40 e eu tava namorando há um tempo. Custa aqui R$400, e lá só U$69. É a nossa maldição por nascer brasileiro, ‘pagarás juros altíssimos até tua alma definhar’.

A vantagem do Dick Blick são para as pessoas que moram em lugares menos favorecidos de provisões artísticas, onde é mais fácil comprar leite de garrafinha do que uma pastilha de aquarela Winsor & Newton. Vem coisa de qualidade na porta de casa.

Quanto ao problema de espaço, tirando a prancheta zero bala que não tem jeito de esconder, vá pra loja de pescaria. Todo o material de desenho, exceto papéis, pode ser acomodado e organizado em umas caixas de respeito que hoje são vendidas nessas lojas equivalentes a sex-shops para pescadores, japoneses e estressados. Antigamente só existiam modelinhos bem favélicos de caixas de iscas, parecidas com kits de primeiros socorros vagabundos. Hoje, por duzentos reais, dá pra comprar uma estação de organização artística que cabe debaixo da prancheta.

Os melhores modelos são da americana Plano, parecem caixas de pescar dos Thunderbirds, de tanto plástico e tantas peças móveis. Além de separar por categorias, dá também pra levar essas gavetas na mochila em separado em qualquer lugar. Vira a lancheirinha do ilustrador pra levar em numa viagem pra praia ou num almoço modorrento de domingo com os parentes.

Dicas americanas de como se tornar um ilustrador profissional autônomo (puxando mais para os quadrinhos)

[img:Engageds.jpg,full,alinhar_esq_caixa]Uma dica de lustrar dourado que saiu no blog Drawn.
Dave Roman é um desenhista sintético, econômico mas com estilo. Eu curti muito uma historinha meiga que ele fez chamado “How We Got Engaged“, ou “Como Ficamos Noivos”, que ele fez com sua consorte contando como começaram a vida a dois. Tipo de história que parece ter sido feita com açúcar e afeto. Ela está inteira no site Webcomicsnation.

Ele trabalhou durante 9 anos na Nickelodeon Magazine, acumulando experiência dando aulas e olhando centenas de portfólios.
Em seu blog “It’s Yaytime!” ele dá várias dicas para os tenros e verdinhos na área da ilustração, quase uma versão novaiorquina do Guia do Ilustrador, mais focado para quem quer trabalhar com Comics. Logicamente, nem tudo pode ser adaptado para a realidade da terra da Rita Cadillac, mas uns 90% das informações são válidas para qualquer país com liberdade de expressão e pobreza.

Reproduzi todo o texto aqui, ele é grande e tá em inglês. Infelizmente, hoje não tem conversation, inglês hoje é uma necessidade. O volume de informação que você perde por não saber a língua nativa do Elvis é descomunal, fora as possibilidades de você ilustrar para outros países, graças à internet.

What kind of illustrator are you?
For any one assignment there are thousands of artists that could potentially be hired. Why should an editor or art director hire you? You need to figure out what makes your art unique. Because when there are a thousand artists who would all like the same gig, often just being good isn’t enough. You have to have a distinctive voice. It’s not about whether you can draw a bowl of fruit, it’s about how bad-ass, or realistic, or cute you can draw that fruit and convince people that no one has ever drawn it that way before. This sometimes gets confused with “the hot style,” but really it comes down to making art that lots of people find appealing and want to see more of. Figure out what your strengths are and what adjectives people use to describe the way you draw. Is it elegant, surreal, old-fashioned, cute, edgy, hip, classy, pretty, dynamic, dramatic, soft, hard, or all of the above? You may not want to categorize yourself, but to a certain extent you will need to if you want to focus yourself and find the places that will actually hire you. Continue reading

Mestres do desenho, grátis

Minha cabeça é mais fraca que a da Samanta. Há algumas semanas atrás, um leitor desse blog me deu uma dica, daquelas que você verve uma lagriminha de tão boa. E eu perdi o e-mail dele! Se foi você quem deu a dica santificada, por favor dê um toque que eu dou os devidos créditos.

O link que ele enviou é de um brilhante ilustrador. É o blog Process Junkie, de Alberto Ruiz, um amante das mulheres volumosas e voluptosas. E adora desenhá-las.

Esse sujeito boa-pinta postou em seu blog o link para baixar quase uma dezena de livros que ensinam a desenhar, di grátis. E não são livros quaisquer, de fundo de quintal. São os livros do Andrew Loomis, de George Bridgman e o um livro que eu estava seco pra conseguir há algum tempo, que é “The Practice and Science of Drawing”, de Harlold Speed. É uma oferta irrecusável para quem ama ilustração e desenho.

Andrew Loomis é um mestre conhecido há três ou quatro gerações, dependendo da idade que você teve seu filho. Muitos ilustradores talentosos, nacionais e de fora, tiveram ele como primeiro professor de desenho. No meu caso, não foi ele, mas o Harold Foster, que também segue a mesma linha.

Aqui vai a lista dos títulos e links para fazer o download desses acepipes da arte de desenhar:

The Practice and Science of Drawing, de Harold Speed;

Drawing the Head and Hands
, de Andrew Loomis;
Figure Drawing for All It’s Worth, de Andrew Loomis;
3-Dimensional Drawing, de Andrew Loomis;
Creative Illustration, de Andrew Loomis
Fun With the Pencil, de Andrew Loomis;
The Eye of the Painter, de Andrew Loomis;
Der Nackte Mensch, de Gottfried Bammes (em alemão germânico da Europa, OK?);
Construtive Anatomy, de George Bridgman;
The Human Machine, de George Bridgman;
• E finalmente The Complete Guide to Drawing From Life, de George Bridgman. Nesse tem que acrescentar a terminação “.pdf” antes de abrir.

Baixem e refestelem-se!


Buraco quente de livros mais quentes ainda

Se isso ainda não bastasse, fuçando o blog Process Junkie você conhece a editora do Alberto Ruiz, a Brandstudio Press. É uma ameaça aos fracos de coração e de cartão de crédito.

É uma editora especializada em publicar Sketchbooks de ilustradores porretas, uma boa parte deles são contratadas pela Pixar e Dreamworks. São criadores de personagens. Da mesma forma que a livraria de Stuart Ng, só encontram livros exclusivos, que você não acha na Amazon ou Barnes and Noble.

Arrisquei e pedi esses livros:

E surpresa, chegaram em duas semanas, e autografados! Total da compra, com o frete: US$124. Sorriso de moleque abrindo caixa do correio americano: não tem preço. E os livros são pequenas Arcas da Aliança dos sketchbooks, inspiradores e lindos. Dá até raiva de não fazer um parecido. E os misóginos que me perdoem, mas só tem livro com mulheeres, bem polpudas.

Altamente recomendável.

10 maneiras de raquetar um pedido néscio de um cliente

[img:Leone.jpg,full,alinhar_esq_caixa]Todo ilustrador, fotógrafo, diretor de arte, designer, pedreiro ou cabelereiro vai passar por isso um dia. Várias vezes na vida.
São os pedidos e argumentos acéfalos que alguns clientes microcéfalos fazem. Coisas como aumentar o logotipo, pedir pra esposa aprovar um trabalho, querer exatamente a mesma coisa que outra empresa já fez. São como rituais de passagem para a vida adulta. Quanto mais adulto e experiente, mais glicerinado e calmo você fica diante de uma entidade com palha no lugar do cérebro fazendo esses pedidos. E isso acontece em todas as classes sociais, todos os tamanhos de empresas, todo tipo de cliente. Desde a tiazinha que vende esmalte paraguaio na esquina até o diretor de marketing de multinacional automotivo.
Existirão momentos em que o cliente terá razão, mas serão poucas. Nesse caso a humildade e bom-senso juntas pedem pra você abaixar a cabeça e refazer o trabalho (refazer um trabalho sob um argumento lógico e pertinente do cliente é obrigação de um ilustrador). Mas na maioria das vezes isso não acontece, então, o melhor é saber conviver com isso. E isso é tão fundamental para a vida de um autônomo quanto saber desenhar ou saber cobrar.

O blog Ideas on Ideas ((via Drawn) lançou uma lista de dar um pitaco de maneira educada, polida e civilizada, os 10 pedidos mais equinos que os clientes cometem.
Existem períodos na vida de um freelancer em que o ideal é levar isso dobradinho na carteira.

Em inglês e sem legendas:

My neighbours don’t like it.

I can appreciate your looking to friends for support on this project; however, it’s often difficult for others to understand the needs of the project at this stage. If you really believe these parties’ opinions to be valuable, we should involve them in the full process. Let’s schedule a sit-down with any new stakeholders next week, so that we can review the brief, strategy and challenges with them, and see if they still hold the same perspectives.


We really liked your portfolio; can you make our project look more like what you did for Client X?

It’s funny you ask that because we try to do the opposite. In our minds, we have to look at each client’s needs individually, and deliver a solution that’s uniquely theirs. It’s funny that you mention Client X, as they were initially very unsure of the approach we took, and it has ultimately served them very well.

Let’s not worry about what others are doing. I want the approach we deliver to be distinctly yours. Think of it as a new suit that you wouldn’t have thought of trying on. We’re pretty objective, and as such will help you find something that meets your needs. In time to come, you’ll find that it fits you quite nicely.

Someone in accounting mocked-up a really neat idea for this.

We’re happy to take a look at other ideas but sometimes doing so increases the overall time requirement, as we would need to answer more questions and increase the number of meetings. If you would like to do this, I can draft an addendum to the estimate to make a provision for this. Alternately, if budget is a key concern, I’d ask you to sit down with this individual and find out if there’s a specific problem they are working to solve. This may save some billable time, and help crystallize the concerns in a fashion that will help us respond best.


It’s a great start, but we need to add this, and this, and this…

I can understand your desire to not leave anything out, and it’s a not an uncommon sentiment. At the beginning of the project, however, you noted that you really wanted to build something around your customers’ needs. In my experience, the organizations that do this best focus on a few key items, and work to deliver them in the best way possible. Adding more can confuse customers and sometimes even scare them away. Just look at the most successful brands in the marketplace and you’ll see that they are highly selective in their messaging.

I love beige; can we get more beige in this?

Personal preferences are powerful motivators; personally, I love hot pink, but it doesn’t work in all settings. I’d like to step back to the creative brief for a moment. You note that your company really wants to connect with adolescent males who love hardcore sports. Do you think beige will connect with them?

I don’t really know what I think about this approach.

That’s fair; this is a big change from what you’ve done in the past, and in my mind, it’s a bold new direction for you. As a result it may take a while for you to absorb this one fully. So, let’s start with more strategic concerns. I’ve made a copy of our original assessment document, and have flipped to the project and messaging directives section. Let’s look over that, and see if we’re not meeting any of the requirements we set out with.


I just don’t know; it’s just so different.

That’s great; different is good! A key aspect to positioning your firm is to find an approach that others aren’t employing. It makes sense that you’re not sure about it though; new things often make people feel that way. I remember hating espresso when I tried it for the first time! Thank goodness I gave it a chance, as I feel quite differently now. Let’s look at the creative brief, and see if we’re meeting your predetermined criteria for the project. If we are, it could indicate that we just need take a little time to get used to this new direction.


Can we make the text bigger?

Yes. Could you perhaps show me a couple of other websites that employ a text-size that feels right to you? We can then compare the two to see how much larger we should make it. (Note: This often leads to us finding that the proposed text is actually larger than what the client had believed.)

I’ll know what I like when I see it.

A lot of people feel that way when it comes to visual treatments, but it’s hard for us to respond with such vague direction. Can you imagine ordering food like that? “Bring me something that’s good, and I’ll eat it if I like it. Otherwise, you’ll just have to make different dishes until I’m satisfied.”

Let’s me ask some questions that might help us identify what you are looking for. Is this approach too conservative or non-traditional? Does it feel overly light or dark? Are the images too passive or overly active? (Note: These questions can go on for some time; the focus is to keep them polarizing, in order to extrapolate some kind of hard response to aesthetic leanings.)

I was at this sandwich shop the other day, and they have an amazing website. Can we make ours look like theirs?

I don’t believe that doing so would result in a solution that meets your needs. Creative strategies are generally tailored to meet the particular requirements of a specific effort. That being said, it sounds like their site really resonated with you. Let’s take a look at their site, and try to extrapolate what points felt good to you. Maybe it will help us better learn what sensations you’d like to elicit on behalf of your audience.

I’ll end with two other little suggestions that you may find helpful. First of all, don’t just toss the design comps in front of the client. Start meetings with a review of the problems you’ve solved and the steps you went through to do so. This sets the stage for you to unveil the work and orients the clients in your process.

Additionally, don’t screw-up. Make sure you’ve addressed all of the necessary design challenges thoroughly and accurately. If there’s a hole in one part of your solution, it can raise questions about the entire approach. Even a small chink in the armor can erode your client’s trust.

Quanto vale seu desenho?

Saber cobrar é uma arte, talvez mais difícil até que desenhar, para alguns.
Preços corretos são vitais par manter o mercado de uma profissão equilibrada e atuante. Cobrar menos por um trabalho sempre irá atarrachar os valores no mercado de forma contínua, portanto cobrar corretamente além de ser vital pra conta corrente do ilustrador, também é uma questão de ética e consciência com outros amigos do traço.

A SIB – Sociedade dos Ilustradores de Brasil – lançou uma tabela de preços editoriais baseados em pesquisa com vários ilustradores porretas. Tem a flutuação entre valores mínimos e máximos, mas não significa que seja o máximo que possa ser cobrado, são apenas referências. O importa é não cobrar menos do que o proposto. A tabela tem um peso significativo por ser confeccionada com carinho pelas mãos de ilustradores com talento reconhecido e a carcaça cansada de tanto trabalhar, não tem chutômetro e achismo no meio. E pra felicidade de todos que querem respeitar seu rico e suado dinheirinho com seu talento, a tabela está disponível para todos os seres viventes da face da Terra (clique em IRV – Índice de Referência de Valores).

O Manuel de Instruções para o Brasileiro que quer Virar Português

[img:Icaro.jpg,full,alinhar_esq_caixa]Icaro Doria é um publicitário de primeira grandeza, de um talento que dá tapa na caras daqueles que tentam vencer na vida como criativo sem ter a voltagem necessária para desenvolver idéias e conceitos como ele faz. É dele, por exemplo, a famosa e inteligente campanha das bandeiras para a revista portuguesa Grandes Reportagens.

Pois bem, em sua passagem por Lisboa, Icaro Doria aprendeu a comer o pão que o português amassou e deixou um relato interessante chamado o Manuel de Instruções, que são dicas bem-humoradas para brasileiros que estão pensando em trabalhar na terra de Roberto Leal.

O Manuel de Instruções está hospedado no site do Clube de Criação de São Paulo, e está dividido em 4 partes. Você pode ler aqui a parte 1, a parte 2, a parte 3 e a parte 4. Ali ele ensina como tirar o visto, como abrir uma conta, como lidar com o imposto de renda, como sondar um trabalho lusitano, como alugar um apartamento ou como arrancar um dente, entre outras dicas.

Embora pareça off topic, no fundo não é. O número de brasileiros com vento e entusiasmo cabeça e que vão tentar um emprego em Portugal sem o mínimo de conhecimento, contato e portfólio é imenso, e nisso incluem publicitários (a maioria) e alguns ilustradores que acham podem arranjar mais trabalho no velho mundo. Pessoalmente conheço alguns casos onde após sairem do Brasil cheios de planos e sonhos voltaram depenados e financeiramente falidos, só restando o orifício anal como bem mais valioso.
Não basta falar a língua nativa e ter um punhado de telefones de editoras e agências compilados no Google ou num disse-me-disse numa conversa de bar. Bom senso e lógica fazem falta nessa hora.
O ilustrador Ricardo Antunes, que mora em Lisboa e é pai do Guia do Ilustrador, pode confirmar que o número de brasileiros que quebram a cara por não ter informação e preparo é proporcional ao tamanho do entusiasmo e da ingenuidade que eles trazem dentro da mala.

Agora, para aqueles que conseguem colocar as idéias num pedaço de papel, planejar, colher contatos, pesquisar como está o mercado de trabalho lusitano e respeitar os portugueses e seus hábitos, as chances de a deusa da felicidade dar um sorriso e um pastelzinho de nata pra você são grandes.

Tempo é dinheiro

O Cris Vector (breve post sobre ele) mandou essa dica e vale a pena ser compartilhada para todo freelancer.

Eu já havia comentado sobre isso aqui no post que fala como cobrar um trabalho, e o Guia do Ilustrador tem uma parte só sobre isso, mas mesmo assim o número de pessoas que me escrevem perguntando quanto devem cobrar por um trabalho feito em papel A2 não é brincadeira.

Novamente eu digo, ilustração não é peça de flanela pra ser cobrada por metro quadrado. É fundamental saber quanto custa sua hora, pois é essa a base do cálculo. No meio, é chamado de hora-homem (sem conotações sexuais, por favor). A partir daí você calcula o resto.

O site Freelance Switch tem um calculador de custo de hora. Bem mais detalhado, ele calcula todas as variantes (ou seja, do cafezinho da padaria ao IPTU), planeja quanto você quer guardar pra sua aposentadoria na sua velhice e no final, dá o quanto você tem que cobrar por hora. Útil como um canivete suíço. Ele é em inglês e a moeda é em dólar, mas isso não influencia em nada, pode colocar os valores numéricos em reais que funciona.

Aí você descobre quanto custa uma hora da sua vida, quanto custa assistir uma sessão de Ratatouille e quantas horas você tem que trabalhar pra pagar aquela multa de trânsito que não foi culpa sua.

Bello!

A lenda da câmera digital de 10 megapixels

Tem coisas na vida que algumas pessoas acreditam que seja verdade porque parece lógico que seja.
Como por exemplo, fazer desenho de graça pra ficar no portfólio, fazer um filho pra salvar um casamento em crise ou achar que uma câmera de 10 megapixels vai gerar uma foto com o dobro do tamanho de uma câmera de 5 megapixels.

Pelo menos é isso o que a maioria das pessoas imaginam quando trocam a sua Sony calhambeque por uma novinha. Vá na Fnac e pergunte pra qualquer um interessado em comprar uma câmera digital qual a diferença entre uma câmera de 5 e 10 megapixels, além do preço. A maioria vai responder “faz fotos duas vezes ou quatro vezes (em se tratando de área) maiores do que a outra”.

A verdade é que a lógica matemática é cruel com quem gastou um dinheirinho suado pensando no benefício acima.
A área de uma foto de 10 megapixels é o dobro de uma de 5 megapixels sim, mas o tamanho da foto aumenta só 20%. E essa diferença fica cada vez menor a cada aumento de megapixels. É um cálculo geométrico puro e simples, mas que passa batido quando se é seduzido pela oferta semvergonha do dobro de megapixels na embalagem do produto.

Pra fazer uma foto com o dobro do tamanho (e 4 vezes a área) de uma câmera de 5 megapixels, ela teria que ser uma câmera de 20 megapixels.

Todo essa análise foi feita pelo New York Times (aqui tem o artigo inteiro), e David Pogue, o criador da matéria, tem sido escorraçado feito um cão sarnento por matemáticos, nerds e geekmaníacos que não se conformam com o posicionamento dele.

Mas é o suficiente pra acabar com aquela coceira quando sair a nova Sony de 12 megapixels. Se imprimir não for seu forte, então sua camerazinha ainda vai dar pro gasto por um bom tempo.

Assunto cabeludo

Uma das coisas que a gente tem que tomar cuidado quando vai desenhar pessoas são os cabelos, além de olhos, mãos, pés, ou seja, o corpo humano inteiro. Eu ainda continuo na minha guerra de um homem só de aprimorar todos esses detalhes, tenho fé que antes dos 60 eu chego lá.

Cortes de cabelos precisam de referência fotográfica ou ao vivo, senão você fica sempre nos cortes chapinha estilizados, feitos de memória, ou os cabelos de Miojo da Nicole Kidman na época em que era mocinha. As nuances de dobras, curvas, cores e movimentos podem ser contados aos milhares. As mulheres que o digam, coitadas, já que os homens tendem a não reparar nesses detalhes quando elas gastam 4 horas das suas vidas cortando dois dedos de cabelo. Isso é um bom sinal, se você virar um ilustrador, vai ter que reparar mais nesses detalhes e seu relacionamento vai melhorar.

Pra ajudar pobres almas no meio da madrugada ilustrando várias pessoas diferentes, como é meu caso, só com um catálogo de cabelereiro pra ajudar a variar os modelitos capilares. Pra ajudar, existe sites que são catálogos online de cortes de cabelo, uma faca pra passar manteiga se você não tem muito tempo de folhear a revista Estilo ou a Nova em busca de shapes diferentes.

O New Hair tem seções divididas por tamanho (longo, médios, curtos, supercurtos e desgraçadamente esquisitos), mas a qualidade das fotos é um pouco assim-assim, qualidade quenga e capenga, mas com bons cortes de cabelo, o que importa.

O site Rasisa é mais interessante. Embora seja totalmente em japonês, ele é mais sério. É evidente que ele é um site feito para cabelereiros e estudantes da arte de rapar, é muito bem feito, também dividido em categorias por tamanho, e lotado de japinhas bonitinhas de cabelo vermelho. É fácil de navegar, não tenha medo do ideograma.

Garotas orientais, aproveitem pra dar uma inspirada antes de ir no cabelereiro. Só não façam cabelo encaracolado, pelamordedeus, porque japonesas NÃO combinam com cabelo ondinha.

Aproveitando o tema, essa é uma toalhinha de bandeja que fiz com o tema cabelos bizarros. Coisa de condicionador fino.

How to start as an illustrator

Mais um texto de auxílio pra quem está começando a percorrer a estrada de tijolos amarelinhos da ilustração fornecido por quem entende. Não esqueçam de baixar, ler e santificar “O Guia do Ilustrador”, que é o manual do escoteiro mirim dos ilustradores em começo e meio de carreira.

Keri Smith deixa em seu site um prosaico texto chamado “How to start as an illustrator”.
Tirando uma ou outra dica que só acontece na terra do Tio Sam, o resto é amplamente aproveitável, pois são dicas globais, funcionam em qualquer país capitalista que tenham ilustradores trabalhando.

Em inglês sem legendas.

Ali também você encontra duas pérolas pra download em pdf. O “Artists Survival Kit”, que são minicards pra ajudar você quando estiver enferrujado ou com um bloqueio criativo; e 100 idéias para um ilustrador, divertido e ao mesmo tempo útil popurri destrava-mente.

O Guia do Ilustrador

O Guia do Ilustrador acabou de ser lançado. É um trabalho magnífico feito pela iniciativa de Ricardo Antunes, de quem eu tive o prazer de trocar alguns e-mails regados a mel, e de mais 10 ilustradores que valem ouro (Benício, Montalvo, Schaal, Kako, JAL, Mozart Couto, Orlando, Cárcamo, Shuman e Rogério Vilela). Tem trechos adaptados do famoso Guia do Estagiário, do Eugênio Mohallen, que aliás também foi minha leitura quando era moleque em publicidade, e revisão jurídica do advogado Eduardo Pimenta, especialista em direitos autorais.


Nem vem com a desculpa de que não tem dinheiro nem pra tomar um pingado na padaria esse mês. O Guia está disponível pra download sem ter que pagar um puto por ele. Mesmo de graça o valor desse guia é inestimável.
São 64 páginas divididos em 12 capítulos da mais rica fonte de informação para ilustradores já feita.
É uma leitura obrigatória. No Brasil não existe nada parecido dirigido especificamente para ilustradores.

Está tudo lá. Como começar a carreira de ilustrador, as dicas pra montar portfólio, pra se apresentar comercialmente, como trabalhar, posturas, montar uma empresa e passar nota, dicas pra formação cultural do ilustrador, como negociar dindim, trabalhar com materiais convencionais e digitais, aconselhamento sobre direitos autorais, entre outros e outros assuntos que são pertinentes não só pra quem está pensando em se tornar um ilustrador, está começando ou já é macaco velho na área. Coisas que afligem 10 entre 10 ilustradores, inclusive este que vos digita.

Numa profissão como a nossa, que tem por natureza misturar arte e paixão, é natural alguns mais inspirados deixem o profissionalismo seja deixado de lado, em função do ego ou do desequilíbrio emocional mesmo. Afinal, não existe um conselho ou nada oficial pra regulamentar a profissão, como ditar o que é certo ou errado? Pra acabar com essa história dita por alguns idealistas ou desinformados mesmos de que ilustrador só pensa em dinheiro, que é capitalista, que faz da arte uma prostituta sifilítica, mas não vêm uma profissão ali.

O Guia vem pra jogar um balde de água fria em quem pensa que desenhar é padecer num boteco tomando absinto ou tubaína enquanto tenta mudar o mundo numa folha de papel.
É uma profissão que merece (e vai, se depender da gente) ser vista como algo honrado e edificante como engenheiro ou médico. O Guia do Ilustrador é um grande passo pra isso. Ele dá 200 passos pra frente na carreira do ilustrador enquanto esse blog anda com patinhas de caranguejo.

Não existe orientação profissional nas escolas ou faculdades de artes ou mesmo em outros lugares, 10 entre 10 que estão começando se sentem como cristãos jogados numa arena, não sabendo se é pra pentear ou fugir do leão. Esse blog era um esforço minúsculo pra tentar ajudar a tapar um pouco esse buraco, mas o Guia é uma lufada de ar fresco num ambiente fechado e peidorrento.

Ele vai virar uma ferramenta tão útil e presente como um garfo ou um mouse, pra ser indicada e mencionada pra todo mundo que procura um lugar ao sol como ilustrador. Recusar a ler esse guia é deixar de ser ingênuo pra virar ignorante.

Se eu tivesse esse guia há 20 anos, minha vida teria sido mais fácil, teria evitado micos como comprar notas em lugares onde Lúcifer usa como banheiro, teria evitado de carregar sacola do Pão de Açúcar em reunião de job ou simplesmente aprenderia a cobrar e negociar como gente grande mais cedo. Pelo menos tarde do que nunca.

O valor de um desenho

Como o blog vem sendo acessado por muitos ilustradores em começo de carreira e estudantes, vou comentar sobre um fato que aporrinha 10 entre 10 desenhistas brotinhos (e também aqueles com taxímetro rodado há muito tempo):

Como cobrar por um desenho?

Antes de dizer como cobrar, é melhor dizer como não cobrar:

E aprendi na porrada que você não vende desenho. O ilustrador não vende ilustração.

Ele vende o direito de uso do desenho.

Por exemplo, um cliente pede pra você desenhar um patinho amarelinho.
Você não vai cobrar pela folha de papel Continue reading

Alex Ross mostra o caminho

Enquanto xeretava no que pode ser meu novo blog, levei um baita susto ao deparar com essa imagem do Ultraman dando um caldo no Baltan feita pelo Alex Ross que meu irmão colocou lá só pra teste. Capaz, como dizem os gaúchos! É o melhor dos dois mundos, melhor combinação entre oriente e ocidente depois das mestiças e do sushi Califórnia.

Por incrível que pareça, eu NUNCA havia entrado no site do Alex Ross, mesmo tendo devorado Mythology e ter duas versões de Kingdom Come em casa. São aquelas preciosidades que passam direto debaixo do nariz.

E as surpresas não acabaram!

Nada a comentar sobre a arte de Ross, todo mundo já sabe que ele é referência nesse tipo de trabalho, então qualquer coisa que vier nesse sentido é redundância.
Fui dar uma olhada na seção em que ele vende artes originais. Sempre fiquei me perguntava quanto esse cara cobrava por uma arte, e agora eu sei. O cara saber cobrar muito bem!
As artes vão de 500 dólares por um sketch a 30 mil dólares por uma capa, passando por 3 a 7 mil dólares por páginas de quadrinhos ilustradas.

(Esse sketch dos Homens Metálicos por módicos 500 dólares, dinheiro de pinga pra você!)
Simplesmente é um dos melhores exemplos que já vi de como um ilustrador deve gerenciar e cuidar dos seus direitos autorais na prática. Sem escrever uma linha de texto sobre isso, Ross passa no mínimo 3 lições sobre isso:

1 – Direito autoral: Novamente entrando nessa questão, o direito autoral sobre as obras é dele, e não da Marvel, ou DC ou de que for: Como deveria ser pra todo ilustrador, o que ele desenhou ninguém tasca a mão. Por causa desse ponto de vista, que é um direito inquestionável de todo autor, ele tem um acervo que pode garantir a aposentadoria dos seus netos e bisnetos. Isso não é diferente de mim ou de qualquer outro ilustrador em qualquer país. Tem gente que vai falar, “ah, mas é o Alex Ross! O cara pode”. Ainda bem que pode, pois o que ele faz ali é um exemplo. A lei garante que um ilustrador em início de carreira possa exigir o mesmo que Alex Ross. Garantia de direito autoral pode significar garantia de subsistência no futuro, como já havia dito em posts anteriores.

2 – Exigir os originais de volta: eu acredito que Alex Ross nem corra o risco de enviar a arte pra editora, ele mesmo deve escanear e enviar o arquivo digital pra ser impresso. Mas é um tapa na nuca de “vê se acorda” pra quem tem o hábito de entregar sua preciosa aquarela na editora e ser sequestrada por mãos impuras, ou mesmo pro ilustrador que não liga pra sua arte abandonada em uma mapoteca fria e úmida ad infinitum numa editora. Imagine se Alex Ross conseguiria vender isso se estivessem na parede da casa de um editor fã da sua arte ou de arte-finalistas e diretores de arte levassem seu trabalho de fininho?

3 – Não ter vergonha de cobrar! Tudo bem, nesse caso entra a expressão “Ah, mas é o Alex Ross, ele pode!”. Os preços que Ross cobra são caros, mas não são abusivos.
Todo ilustrador deve saber que o valor do seu trabalho está ligado diretamente com o potencial de lucro do produto do cliente. O que Alex Ross ilustra vende como pão quentinho, e isso para corporações como Marvel e DC que faturam centenas de milhares de dólares por cada revista que tem o nome dele. O que ele cobra deve ser proporcional a isso, como todo ilustrador deveria fazer em qualquer tipo de serviço. Infelizmente ainda existem ilustradores que cobram apenas se baseando na mão de obra do desenho, e não pelo uso, como se fosse algo que pudesse ser cobrado por metro. Já vi gente cobrando dois mil reais por um personagem para chocolates que valeria pelo menos 40 mil. E o pior, o cara NÃO era ruim, desenhava muito bem. Claro que contrataram o fulano.

No final, o que bate o martelo final é dinheiro, sempre dinheiro.

Se eu tivesse condições de limpar merda do Bisteca com notas de vinte dólares, eu compraria um trabalho original dele. Imagine quanto não deve custar a capa original de “Kingdom Come”?

(Essa capa de Justice custa 15 mil dólares, mas tem outros trabalhos lá que chegam até 30 mil!)
Nas suas devidas proporções, o que Ross faz é ter respeito pelo próprio trabalho, não dar de graça seus “desenhinhos”. Cada traço seu vale muito, talvez não tanto como os dele, mas tem seu valor. Tem gente que se vende por valores menores do que um serviço de pedreiro, tem gente que acha que vai virar capitalista selvagem se cobrar pela sua arte, ou acha que vão linchá-lo na saída se pedir o que é correto. A insegurança, excesso de oferta de trabalho e falta de caráter ainda vão acabar com o mercado de ilustração, e a gente vai ficar falando daqui a alguns anos que “a gente era feliz e não sabia”.

E tem outro detalhe: Esses valores são cobrados para o público final, mas até chegar nesse ponto, ele também foi pago pelas editoras pelo serviço. Ou seja, ele potencializa seu lucro baseado, em seus direitos autorais.
Só por curiosidade, fiz um cálculo por cima de todo o acervo que ele está vendendo no site. Sem exageros, chega a mais de meio milhão de dólares, folgado.

Tem gente que vai alegar que isso jamais ocorreria no Brasil porque não há mercado de quadrinhos, o que concordo, mas o que se vê aqui é além disso. Pra chegar nesse ponto, a ilustração já fez seu papel, que é o de solucionar um problema, cumpriu sua função e seus direitos voltaram para o artista. Nesse ponto, ele decide vender seu trabalho sem intenção de cumprir nenhum papel, então ele começa a vender ilustração como ARTE! E vendo por esse ponto, qualquer ilustrador pode (e deveria) fazer o mesmo.

(Se eu tivesse muito, muito, muito, mas muito dinheiro sobrando em minha conta eu iria comprar essa capa de Kingdom Come pra colocar na parede e mostrar pros meus amigos como sou fodão quando desse uma festa).
Nem todo mundo tem cacife de cobrar o que ele cobra, mas todo mundo tem cacife sim de fazer o mesmo que ele faz. Talvez a gente não consiga chegar a meio milhão de dólares, mas pelo menos o caminho é esse, então tudo o que vier dele é lucro, nem que sejam quinhentos reais ou passar seu acervo para seus herdeiros e garantir um pouco mais o futuro deles.

Freelancer: Ser ou não ser, eis a questão

Escaneei essa página da revista Computer Arts. Aliás, essa revista tem me surpreendido pela qualidade das matérias. Nem tanto pelos tutoriais ou informes sobre softwares e técnicas, mas ela é cheia de textos muito bons sobre direitos autorais, marketing pessoal e processo criativo. Tá valendo cada centavo suado pago nela.

É um infograma que valioso que mostra se você, que está começando na carreira ou está de saco cheio do seu trabalho, está pronto pra virar um ilustrador autônomo (na verdade, esse infograma serve para qualquer carreira freelancer). Mesmo direcionado pro público americano, os passos são perfeitamente adaptáveis pra nossa situação tupiniquim.

Tem que clicar na imagem pra ampliar, senão ninguém enxerga

Tá em inglês, sim. Não me peçam pra traduzir e sejam estimulados pra fazer um curso. Inglês é fundamental pra nossa profissão.

Não é uma escolha fácil, geralmente você pensa uma coisa de ser um autônomo, e na verdade ela é outra.

Não basta ter talento. Não basta saber negociar. Tem que saber se organizar também.
Quem disse que ser ilustrador é bolinho?

Eu fiquei um tempo ensebando antes de pedir demissão onde trabalhava. Era diretor de arte numa agência de respeito, eu era responsável pelo departamento infantil de uma das maiores contas do Brasil, que é o McDonald’s, tinha um salário decente e um office-boy pra pagar minhas contas. A decisão de se tornar freelancer só veio depois de muita, muita pesquisa e ponderação.

Nos primeiros dias era meio esquisito ficar em casa trabalhando, mas com o tempo você se adapta, tendo disciplina. Mas não é pra qualquer um, se você é daqueles que não agüenta ficar sem bater papo o dia inteiro ou tem claustrofobia de estúdio ou ainda precisa levantar da cadeira de meia em meia hora pra tomar cafezinho, vai ser difícil. E não se culpe se você não for do tipo pra ficar isolado o dia inteiro, isso faz parte da natureza humana.

E mesmo depois de virar freelancer de maneira organizada, fui tropeçando e apanhando no meio do caminho, ganhando experiência. Coisas sobre contador, sistemas de cobrança, gerência de dinheiro, como fazer orçamentos, gerenciar horas de trabalho, ter que pagar impostos que achava que só existiam na Rússia, gerenciar o custo de equipamentos e até o trabalho que dá em comprar material de escritório.

Achava que era só sentar na prancheta e vender desenhinho? Nhá!

O infograma é bastante explícito. Ou você tem condições de ser freelancer ou não. Não há meio termo. O bom é que ele pega em todos os caminhos possíveis para serem analizados, o que facilita a vida de quem está pensando um estilo de vida profissional “unplugged”.
É didático também, mostra todas as fases e ponderações que tem que se ter para se tornar um pássaro livre.

Disciplina é a palavra chave para isso. Numa profissão onde o futuro é mais incerto do que o final de Lost, todo gerenciamento, planejamento e parcimônia é necessária.

Também não dá pra se ter medo do futuro, senão é melhor você trabalhar com carteira assinada.

Confie no seu taco (ou no seu lápis), meu rapaz. E boa sorte!

O fim de um ilustrador

Há 9 anos eu vi uma cena que nunca esqueci, de tão doída.

Estava voltando do trabalho a pé pra casa, num dia frio de julho. Enquanto esperava pelo dono da banca arranjar troco, fiquei olhando um casal de mendigos bem velhinhos, com cachorros ao lado e um monte de sacos, sentados no banco da praça da frente. O senhor arrumava as tralhas enquanto a mulher dormia ao seu lado.
O velho desamarrou dois cobertores bem sujos e esfarrapados e ele cobriu a mulher com os dois, de maneira bem carinhosa. Aí quando ele terminou, ele deu um beijinho na testa dela. Aquela cena deixou meu peito pesado como um estepe de caminhão estivesse dormindo sobre ele.

Os dois, no final da vida, quando deveriam descansar e aproveitar por merecimento, estavam lá, jogados num banco de praça ao lado de sacos e sacos de latas de alumínio.
Mesmo assim, aquele senhor tentava cuidar dela da melhor maneira possível, dentro do possível e ainda com um carinho inusitado para a situação…

Imaginei uma cena dramalhão mexicano. O homem é provedor da família, acontece algo inesperado e ele vai dizendo: “calma, está tudo sobre controle”, “calma, a gente dá um jeito”, “calma, alguém vai ajudar a gente”, até chegar no “que Deus nos ajude”.

Quantas pessoas não entraram para o abismo agindo de maneira correta, sendo bons pais e maridos, mas arrastou todos à sua volta por falta de consciência e percepção? Justamente quando é tarde demais é que vem a vontade de reagir.

Desde que eu vi essa cena eu prometi pra mim mesmo que ninguém que dependesse de mim iria passar por aquilo, inclusive eu mesmo.
Pode chamar de paranóia aguda, mas é minha paranóia, e ela me faz seguir em frente.

Aqui entra o ilustrador
Pra quem vive pedindo conselhor pra mim como começar como ilustrador, vou dar uma de japonês e falar como TERMINAR como um ilustrador.


E você, amigo ilustrador JOVEM, deve estar imaginando…o que ISSO tem a ver?

Tem tudo a ver, e não só apenas pra ilustradores, mas pra qualquer profissional.
Tem a ver de ganhar seu sustento. E principalmente, tem a ver como você vai ser os últimos anos da sua vida.

Não vou retomar a questão de como cobrar nem de não fazer trabalhos de graça. A questão aqui é outra. É de como se programar pro futuro sendo ilustrador.

Como fazer isso com uma profissão que não é fixa nem é estável, que tem a fama de ser uma carreira isolada e solitária?

Primeiro: É preciso criar a consciência de que ninguém vai ser jovem pra sempre. É chavão, mas quando a gente é novo, não pensamos em nós como velhos ou inadimplentes. Afinal, cheio de hormônios e energia pra dar e arrebentar, pra que pensar em épocas decrépitas? Quando a ficha cai pode ser tarde demais.

Segundo, tem que mudar a mentalidade e perder a vergonha de cobrar o que é correto.
Tem gente que tem vergonha de cobrar caro por um trabalho que tem que ser cobrado caro mesmo. Tem gente que não sabe simplesmente cobrar.
A cada centavo não faturado é um centavo que não entra na sua conta.

Tem que pensar em sua carreira como algo pra fazer dinheiro. Simples e óbvio.

Terceiro, tem que poupar. Não importa você ganha 10 mil, 1 mil ou 100 reais, tem que poupar no mínimo, no mínimo, 15% disso e esquecer esse dinheiro lá. Tem que pensar que esse dinheiro é sua garantia na velhice. Nunca, jamais conte com esse dinheiro.
É difícil, principalmente pra quem tem filhos ou pais pra cuidar, mas TEM que ser feito. Isso não é um ítem negociável, é uma ação de sobrevivência.

Então pára de fazer desenho de graça, cobre direito, cobre a mais, aumente sua renda. Trabalhar por trocado hoje é trabalhar por latinha amanhã.

Uma dica é perder a vergonha e consultar o gerente da sua conta. Nem que você só tenha 200 reais pra investir, é um começo, que em pouco tempo pode se tornar 2.000 e muito mais além disso.

Invista em Renda Fixa, DI, poupança, ações, se tiver nervos de aço, mas poupe. É a única maneira honesta de fazer o dinheiro render. Senão você vai ter que passar vergonha e viver de favor de da caridade dos outros, mesmo que esses outros sejam seus pais ou seus filhos.

E outra dica, é chavão, mas é preciso. Nesse caso, a fábula da cigarra e da formiga encaixa direitinho, só que ao invés do violão a cigarra tem um pincel.
Planeje seus gastos, é impressionante o que dez reais aqui e quinze acolá fazem no bolso depois de um ano.

Quarto: fazer uma previdência privada com seguro em vida. Se você for embora desta para a melhor, pelo menos aqueles que estão perto de você vão receber uma renda. Caso você não morra, quando chegar aos 65 anos você vai receber um salário correspondente ao que contribuiu todo mês.
A soma de dinheiro guardado + previdência privada pode salvar sua velhice.

Garanto, já vi com meus próprios olhos doídos que a pior coisa de alguém é perceber que caiu a ficha tarde demais. Já vi ilustradores feras e que ganhavam rios de dinheiro na época de 70 caírem na miséria ao ponto de terem que dormir escondido na agência em que trabalhavam, por motivos que nem é da minha pertinência discutir aqui.

Quinto: Plano de saúde.
Plano de saúde é uma merda, é daquelas coisas que você paga uma grana esperando nunca usar.

Esse treco come um bocado de dinheiro, principalmente se você tiver filhos. E vai ficando mais caro quanto mais velho ou doente você fica. É impiedoso.
Essa dica descobri há pouco tempo, portanto vale a pena saber disso.

Primeiro, se você vive numa comunidade de tamanho razoável (igreja, clube) pode conversar com um corretor e pedir um plano de seguro em grupo.
Ilustradores, taí a dica. Por que não juntamos o pessoal da SIB pra ter um plano de saúde para ilustradores, assim como existe para advogados, engenheiros e dentistas? Tudo bem, essa é outra história.

Agora, se você é sozinho e independente, fica na dúvida em que tipo de plano comprar.
Então, se você é saudável, forte como um touro e come de maneira sapiente (ha ha), evite um plano que cubra todo tipo de exame, médico, os melhores laboratórios e os melhores hospitais.

É mais barato se você pagar alguns exames e médicos à parte, ainda com possibilidade de reembolso.

O que quebra qualquer um são diárias hospitalares. Então ao invés de pedir o melhor plano com médicos, hospitais e exames, é melhor centralizar o seu dinheiro em um plano que ofereça seguro e internações hospitalares. Ficar uma semana numa UTI pode quebrar toda sua poupança que você juntou em 20 anos, isso não é brincadeira. Tenho amigos meus que hoje estão na miséria porque tiveram que pagar dois meses de UTI, vendendo carros, apartamentos e zerando as contas.

Sexto: Pensar no que fazer quando ficar velho. Qual seu plano B?
É fato. À medida que o tempo avança a visão piora, a audição enfraquece, as juntas ficam mais duras e a cabeça começa a dar uns tilts. Sorte daqueles que conseguem ilustrar com mais idade, e com a mente funcionando beleza. Mas são poucos aqueles que conseguem ser como Ziraldo ou Hirschfeld. Mas também não precisam chegar no final da vida como grandes ilustradores que conheço que acabaram na miséria porque fizeram algumas besteiras na vida, besteiras que não podem ser mais consertadas.

Então, o que você vai fazer quando não desenhar mais? Ou o que você vai fazer pra continuar desenhando depois de velho?

Qual seu plano B?

E tem a agravante de somar a isso as seguintes idéias:
• Ninguém é insubstituível;
• Se você for empregado, um dia seu patrão não vai mais dar dinheiro pra você;
• Filhos não são garantia de que eles vão te sustentar na velhice;
• Nada é pra sempre, o que pode ser bom hoje amanhã pode ser péssimo.
• Um dia você vai embora e vai deixar o quê pra quem precisa?

Pra não extender, vou ser prático, mostrando em números.

Um fulano com 30 anos de idade. Ilustrador, tentando entrar no mercado, ganhando o básico do básico, nunca sobrando nada pra poupar. Com filhos, mulher e pais pra cuidar.

Vamos imaginar que você irá trabalhar até os 65 anos. A sorte é que ilustrador não é estivador do Porto de Santos, então o desgaste físico é menor, dá pra trabalhar além disso. Com um pouco de sorte vai chegar no patamar do Ziraldo, Hirschfeld ou Alex Toth.

Mas como um humano normal, você tem 35 anos pra fazer seu pé de meia. 35 anos pra juntar um patrimônio pra garantir sua vida e não ter que sair catando latinha em lixo de restaurante.

Não quero parecer dono da verdade, nem querer ensinar como ganhar e guardar o pão de cada um. Isso é experiência que eu tive e que comecei a (tardiamente) a colocar em prática. Não nasci em berço de ouro, venho de uma família de feirantes e não nasci com tino pra negociar até os 35 anos, bem tarde pra profissão. Mas como todo burro insiste no caminho, insisti nesse e talvez isso ajude quem tá começando a não cometer barbeiragens quando ficar mais velho. Mas tem gente mais organizada do que eu e que sabe dicas e macetes melhores do que esse pra se garantir, mas infelizmente (ou felizmente), foi isso o que eu aprendi até agora.

Para os amigos ilustradores da SIB, na faixa dos 40, 50 ou mais aninhos, essas dicas não são novidade. A vida vai dando pauladas na cabeça e a gente aprende com isso (se quiser). Senão a gente morre de overdose num quarto de hotel vagabundo no centro da cidade.

Mas pra quem é novo, onde tudo é possível, vale a pena frisar o que seu pai fala e você torce o nariz. Quanto mais cedo você guardar 20% do que você ganha, mais cedo você vai respirar aliviado na velhice.
Isso é garantia de velhice tranqüila? Claro que não, mas NÃO fazer isso com certeza vai trazer alguma conseqüência funesta nos seus anos dourados..
Ser ilustrador é fantástico e ao mesmo tempo um sacrifício. Fantástico porque me faz sentir orgulhoso do que sou e do que eu faço, e isso não tem preço. E um sacrifício porque ser ilustrador é como subir uma escada que não tem fim. Não pode parar. Sempre vai ter um degrau a mais pra escalar amanhã, e depois de amanhã, e assim por diante.

O que hoje está bom amanhã pode não estar mais. E vice-versa.

É uma merda? É, mas é nossa vida, nossa filosofia de ganhar dinheiro honestamente com ilustração.

Shuman e os mitos e lendas da ilustração.


O grande Angelo Shuman é muito conhecido entre os ilustradores, mas como a grande maioria de nós, desconhecida por maior parte do público consumidor. Mas com certeza você já comeu ou desembrulhou alguma coisa que tinha o desenho dele, a não ser que você seja vegan ou sua religião não permitir comer doces.

(Sim amiguinhos, ele é um dos culpados de você ganhar alguns quilos na frente do computador, ó doce remorso).

Como vocês podem ver em seu site, o foco dele é bem dirigido à publicidade, assim como eu. Pra trabalhar com grandes agências com grandes corporações como clientes é preciso ser, além de ilustrador, também Continue reading

O Zen e a Arte de Montar Portfólios

Durante dez anos trabalhando como diretor de arte da Taterka, devo ter visto mais de 200 portfólios de ilustradores. A grande maioria em início de carreira. Desse montante, eu me lembro de uns dez que me impressionaram. E não foi por causa da apresentação ou da qualidade da pasta, mas por causa do conteúdo.

Escuto muitas receitas pra se fazer um portfólio, umas absurdas, outras bem úteis. Tem umas regras básicas, mas pra mim só duas delas valem: Continue reading

Mais revistas para ilustradores digitais

O hábito de ler revistas de ilustração está mudando a cesta do banheiro, saem as VIPs e os Tio Patinhas e entram as Computer Arts, Design e Opera Graphica.

Andando pela Livraria Cultura, encontrei uma revista chamada Layers, específica sobre Photoshop e After Effects:

É uma revista até que boazinha. Tem um nível de informação médio, com muitos tutoriais e dicas. Não traz muitos textos mais complexos sobre os programas, como calibragem ou uso de canais, que são difíceis de se encontrar. Mas tem uma boa diagramação e a qualidade dos textos é boa. Vale os R$75,00, ainda mais porque ela é bimestral.

Essa outra, Illustrator Techniques, como o nome diz, só traz dicas para Illustrator. E tome dicas! Essa revista é melhor, a qualidade das dicas são melhores e a quantidade também é grande.

O ruim é que ninguém importa essa revista no Brasil. Tem que comprar através do site ou da Amazon. Só vale a pena se você tiver uma graninha sobrando (ha ha). Ela é baratinha, 7 doletas. O frete é que sai caro. Quando eu a compro é no meio de encomenda de outros livros a trabalho pela Amazon. Também é bimestral.

De lambuja, aqui tem o link para um tutorial para fazer ilustrações no estilo do filme “Scanner Darkly” e “Waking Life” de Richard Linklatter (esse último achei chato como um prato de moyashi). Scanner Darkly vem do texto de Philip K. Dick, de Blade Runner, então pode ser que seja um pouquinho melhor.

Neo vem agora em versão CS2.

Como tratar um ilustrador com carinho

Primeiro: O ilustrador ilustra, isso é óbvio.
[img:Brain.jpg,full,alinhar_dir]
Mas outra função do ilustrador é resolver problemas. Além de ilustrar, ele também é pago para pensar.

Assim, quando um anúncio é criado e um ilustrador é chamado para fazer o trabalho, seria mais do que normal haver uma conversa entre ambas as partes, explicar a situação e deixar na mão do ilustrador resolver o pepino da melhor maneira possível.
Continue reading

Softwares

Programas, ah, os programas.

Toda primeira pergunta que fazem quando conhecem a gente é em qual programa a gente trabalha.

Não existem muitas opções. Só trabalho com 3:
Photoshop, Painter e Illustrator 10. E os três tem o abençoado Santo Layer, Continue reading

Hardware

Há alguns anos troquei meu estúdio real, com pincel, ecoline e aerógrafos, pela direção de arte. E da direção de arte voltei pra ilustração, mas dessa vez com equipamento digital. Faço pouca coisa no papel e tinta, infelizmente, e invejo quem o faz com primor, como o Alarcão.

Mas de computador e equipamento digital eu entendo.

O Computador

Trabalho há muito tempo com computadores pra desenhar, especificamente Macintosh. Desde a época de reserva de mercado quando era crime comprar computador Continue reading

Aprendendo a desenhar

Para as várias pessoas que me perguntam se eu dou aulas de desenho, a resposta é não.

Por dois motivos:

O primeiro é que absolutamente não tenho tempo. Já dou aulas sobre outro assunto que não tem nada a ver com desenho e vivo atolado com pedidos de trabalhos, reuniões em agências duas ou três vezes por semana, entre outras coisas. É um sufoco. E ainda divido Continue reading

Revistas sobre ilustração

Tempos atrás existia uma revista americana sobre ilustração chamada Step-By-Step. Era ótima, dava dicas passo-a-passo de ilustração e pinturas convencionais e digitais. De repente ela sumiu do mercado e tchau-tchau conhecimento alheio por vias rápidas.

Quem trabalha com ilustração deve comprar de vez em quando o American Showcase, um livro caro pra diabos (na faixa dos R$580,00), mas que tem uma miríade gigantesca de ilustradores e estilos. Bom pra referências.

Mas voltando às revistas, existem algumas opções para quem desenha no computador:

Editada em Barcelona,Arte y Diseño por Ordenador, como o próprio nome diz, é uma revista sobre arte feita no computador. Tem muitos tutoriais de Photoshop, Illustrator, 3D Continue reading

Por que não ilustrar de graça

Todo mundo já ganhou uma caixa de lápis de cor ou um jogo de lápis de cera quando criança e desandou a desenhar os pais, monstros, o cachorro e o que passa na TV. Gastou uma floresta em cadernos de desenho e várias paredes tentando expressar sua criatividade.

Isso faz do desenhista o primeiro ensaio de profissão que uma criança pode ter, tanto quanto ser um jogador de futebol (virar médico por causa da prima não conta).

Portanto, é natural que todo ilustrador tenha uma paixão natural pelo seu trabalho.
Quem era desenhista e virou ilustrador é porque tem um talento nato ou desenvolveu com a prática, mas sempre teve um motivador que percebeu que tinha o poder de criar algo com a mente e as mãos.

Se você resolveu ganhar a vida com o dom do traço, com certeza passou por alguns micos na família e entre amigos. “Você vai morrer de fome”, ou “vai vender desenho na Praça da República”, ou “Seu irmão é quem deu certo, virou advogado”. Você vai conhecer um ou outro que foi abandonado pela namorada porque achava que ele não tinha futuro, que ia acabar com o cabelo sebento, com um bloco de desenho e um vira-latas amarrado com barbante, deitado no meio da sarjeta. Mesmo assim foi em frente, mesmo com o mundo apostando as fichas em outro cavalo.

Sou ilustrador e não desisto nunca

Nunca vi um ilustrador que desenhasse por obrigação ou só para pagar as contas. Nunca vi um ilustrador que ficasse olhando o relógio a cada 5 minutos na expectativa de chegar as 6 da tarde e ir embora correndo pra casa. Todo ilustrador tem uma característica: tem uma paixão pelo que faz.

E por que não me refiro mais como desenhistas, mas sim como ilustradores?

O desenhista desenha por pura paixão. Desenha a todo momento, aproveita qualquer canto pra rabiscar, fica traçando firulas enquanto assite novela, no meio da aula de moluscos, considera seu trabalho como arte e sem pensar em retorno financeiro, só retorno emocional e egóico .

O ilustrador também desenha por paixão. Mas ao contrário do desenhista, ele vira profissional.

E ser profissional não é simplesmente ganhar dinheiro com desenho. Primeiro grande erro que a maioria dos desenhistas têm.
O ilustrador têm que ganhar dinheiro sim, e isso se torna uma relação comercial. São negócios. O ilustrador vira um comerciante de si mesmo, vende o que tem de melhor que é seu talento.

O ilustrador segue regras. Simples assim.

Regras comerciais (entre ele e o cliente) , regras contábeis e financeiras (passar nota e administrar a grana), regras legais (saber seus direitos e deveres perante a lei), regras pessoais (para não desvirtuar do que acredita) e regras éticas (para ter uma coerência com toda a classe dos ilustradores).

Se não segue regras e desenha o que quer, por que quer e não consegue argumentar com o cliente, então desculpe, tá confundindo arte com negócios.

E um dos maiores erros que vejo por aí é a terrível combinação de talento + insegurança pessoal + picaretagem dando frutos monstruosos.

Isso gera gente que pede desenho de graça. E gente que aceita fazer isso.

Uma coisa é sua namorada ou sua tia pedindo um desenho pro cartão de aniversário da irmã.

Outra coisa é um empresário que pede uma ilustração de graça (ou para teste) com as mais variadas desculpas. As mais famosas são:
“Seu trabalho vai ter uma divulgação tremenda”.
“É bom pro seu portfólio”.
e a mais famigerada: “Esse é de graça, mas depois você vai ter outros bem remunerados”.
“É um trabalho de risco, se for aprovado você ganha”.
Tem uns mais indecentes que dizem simplesmente “Se não fizer, tem gente que faz”.

Pois bem. Acho que nesse ponto eu tenho alguma autoridade pra dizer que isso é a mais pútrida e cadavérica mentira.
Trabalhei mais de 10 anos numa grande agência fazendo o papel duplo de diretor de arte e iustrador. E nesse período, fiz o trabalho também do que hoje se chama “art buyer”, ou seja, contratava ilustradores e fotógrafos para alguns trabalhos.

E eu posso dizer com certeza:
• Nenhum trabalho garante que outros trabalhos virão por causa dele.
• A divulgação é uma conseqüência natural do seu trabalho, é como dizer para um barbeiro que não vai pagar o corte porque vai divulgá-lo por aí.
• Quem é a anta que disse que ilustrador precisa de material publicado para colocar no portfólio?

Primeira coisa que deve ser lembrada, ó desenhista desesperado por atenção e do vil metal para dar estímulo à carreira:
O que você vai dar de graça vai ajudar o lamuriante picareta a ganhar dinheiro. Seja em embalagem, anúncio, revista, tatuagem, o que for. Ele vai ganhar dinheiro e você não!

Isso é uma afronta, uma ofensa profissional e um desrespeito pessoal.
Você não sai na sorveteria pedindo um sorvete de graça prometendo comprar um monte na próxima vez, certo? Nem pede pra cortar o cabelo de graça pra você fazer divulgação do salão. Nem pede pro marceneiro fazer um armário de graça para ele colocar no portfólio.
Mas por que pedem isso pro desenhista?
Por que ele não liga, desenha com paixão e faz rapidinho…na verdade estão fazendo um favor pra ele.

Acontece algo parecido com os médicos.
Qualquer médico em uma festa é interpelado uma ou duas vezes por um gaiato que quer um diagnóstico na hora mostrando um furúnculo na bunda enquanto segura um copo de vinho.
Já que está ali, vamos aproveitar.
Mas pelo que eu sei, a maioria dos médicos já cortam o barato no meio. Dá o cartão e pedem pra passar amanhã no consultório.

Desenhistas deveriam ter a mesma postura.
Isso é necessário para ter uma integridade pessoal e financeira para o ilustrador, e principalmente, para todos os ilustradores.
A regra é simples: Se existem pessoas que pedem isso é porque existem pessoas que o fazem.
E não trazem leite pra casa, mas algumas promessas e um punhado de feijões mágicos.

Abrindo as portas da percepção

Eu já passei por isso. No começo da minha carreira como autônomo, inseguro, perdido e ingênuo como coelho Tambor, aceitei um trabalho de risco, ainda mais porque era amigo de um amigo meu que não vejo há anos.
Quando vi o quanto o cara ganhou com meu trabalho e vi que toda dor e lágrimas que me passaram eram falsas como as promessas, minha barriga doeu de raiva e indignação. A partir daquilo nunca mais.

Existem situações mesmo em grandes agências onde me pedem um “trabalho de risco”. Ou mais descaradamente, “precisamos de um desenho para layout da campanha que ainda vai ser aprovada”. Não é coisa vinda de um Zé Ruela da esquina.
Mesmo dizendo que tenho uma tabela de valores para ilustrações para layouts, sem aprovação do job, há aqueles insapientes que insistem na “filosofia do risco”.

Recuse e recuse com orgulho. É estupro profissional e pessoal, sua auto-estima vai ficar no nível da sola do pé com o tempo.

Não existem exceções? Claro que existem, mas são raras e tem critérios muito pessoais. Pra fins beneficentes, por exemplo. Nem encaro como risco, mas como doação mesmo. E pára por aí.

Recebo todos os dias pedidos de trabalho de graça, de ongs, de cultos religiosos, de escolas, de empresas falimentares, de meninas mimadas, de editoras sem noção, de tudo quanto é tipo.
Para estes, ignorá-los não se tornou apenas uma opção, virou uma necessidade.

O Efeito Borboleta

Só pra entenderem o que isso causa, há 20 anos os valores pagos por ilustração eram bem diferentes. Tudo bem que antes não existia computador e tudo era feito na raça, mas a relação entre valor e direito de uso de imagens não mudou.

A diferença é gritante, principalmente no meio editorial. Uma ilustração de página dupla que hoje sai por uns R$600,00 antes era o dobro do valor, e até mais do que isso. O achatamento dos valores foi progressivo até chegar o que é hoje. E sabe o que é pior? O achatamento não parou por aí. Vai continuar até chegar na espessura de uma panqueca. E, se isso acontece em uma das maiores editoras do Brasil, imagine o que não acontece nas Boca-de-Porco Publishings?

Cheguei a pegar uma época em que ser ilustrador era sinônimo de ser rico, sem exageros. Ganhava-se muito bem, e foi um dos motivadores de eu largar a Biologia pela Ilustração. Não me arrependi de ter feito a troca, mas fico triste e ensandecido quando vejo o respeito financeiro que a ilustração vem tomando no Brasil, o suficiente para cogitar a possibilidade de trocar de país.

Até mesmo Cacilda Becker, cansada de receber pedidos de convites de graça das suas peças de teatro, grudou um recado no vidro da bilheteria dizendo:
“Não me peça de graça a única coisa que tenho pra vender”.

Se você quiser aprender a cobrar pelo seu trabalho, nesse post eu dou umas dicas bem básicas de como montar um orçamento.