Obrigado ao melhor cachorro do mundo

UPDATE

Hoje o Bisteca deixou de ser um cachorro pra virar uma estrela.
Ele se foi depois de 13 anos de serviços prestados abanando o rabo e me dando amizade incondicionalmente se eu estava de bom humor, deprimido ou colérico. Não tem cafuné que me faça sentir menos culpado por ele estar passando os últimos dias na casa dos meus pais e não perto de mim, nem adiantou ver dezenas de vezes o final de “Marley e Eu”para ver se acontecia uma catarse e passar por esse dia menos emotivo.

Estava os últimos meses sofrendo com crises asmáticas, dificuldade de respirar e mesmo assim nunca deixou de abanar o rabo quando me via. Morreu dormindo, em paz, como gostaria que todos os meus queridos também se fossem.

Dá vontade de chorar feito menina atropelada só de pensar nas vezes que ele pegava a sacolinha com garrafinhas de plástico com a boca para levar na reciclagem, mesmo sabendo que era só pra ganhar um Biscroc, ou quando ele ficava embaixo da minha bancada de trabalho em dias frios, só pra eu colocar meus pés no quentinho do corpo dele enquanto eu o massageava esporadicamente com meus dedões. Ou quando ele ficou deprimido quando matei um camundongo que só depois descobri que era amigo de ração dele.

Cachorro é amigo mesmo.

Obrigado por tudo.

Esse simpático aí é o Bisteca.

Não é o Marley, mas é quase. Só não dá tanto dinheiro como ele.

Tem uma história curiosa a respeito dele. Continue reading

Seu casamento vai arrasar, disse seu padrinho agourento

Isso não tem nada a ver com ilustração, mas dá uma pausa pro café porque é uma história mutcho boa.

Já vi noivas que viam sinais em tudo. Mancha de batom no vestido, pombo cagando no carro da noiva, mendigo moribundo aparecendo no meio da escadaria na frente dos noivos sainda da igreja, tudo era sinal de que o casamento não daria certo.

E o que dizer de um terremoto no meio do casamento? Quando as forças da natureza impedem o laço é porque alguém deve ser medalha de ouro em olho gordo.

Essas fotos não são de filmagens ou pegadinhas. Tem muito mais no site em chinês. Enquanto o enlace dos pombinhos corria solto, aconteceu o fatídico terremoto de 7.9 pontos na escala Richter, que desmorona até integridade de virgem. Isso aconteceu em Sichuan, cidade mais atingida pelo evento catastrófico e conhecida por ser a capital do mais-do-que-mimado urso panda.
Não sei ler chinês, mas pelo que vi em outro site, pombinhos e convidados não perderam a vida, o que infelizmente não aconteceu com milhares de crianças em escolas na mesma cidade.

A história de Picasso que não é de Picasso, mas serve como parábola para quem tem cliente chorão

Eu tenho uma prima que adoora (com dois “os” mesmo) enviar todo tipo de mensagem sem analisar a credibilidade da fonte, tais como slideshows melados de filhotinhos fofentos ou que elevam sua taxa de açúcar no sangue com mensagens sobre amor e amizade com um fundo musical arrepiantemente brega, alertas sobre o potencial assassino dos adoçantes e dos xampus, dicas imprestáveis de como não pagar estacionamento em shoppings ou pra piorar, ultimamente tem mandado fotos horripilantes de crianças queimadas pedindo ajuda financeira. Porém ela me enviou esse texto sobre uma história que aconteceu com Picasso, mas na realidade não teve Picasso nenhum na parada e nem foi escrito pelo Veríssimo também, mas que tem um fundinho de algo que a gente sempre briga com cliente com habilidades de negociação de em Jerry Lewis. É piegas ao extremo, é uma variante desavergonhada da história do encanador e do parafuso mas serve como parábola do tipo da raposa e as uvas do mundo da ilustração:

“Certo dia Pablo Picasso estava desenhando no parque quando uma mulher gorda aproximou-se dele.

- É você, o grande Picasso! Oh, você precisa fazer um desenho meu, por favor, eu insisto!

Picasso concordou. Depois de estudá-la por um momento, ele precisou de apenas uma pincelada para fazer seu retrato.

- Oh, ficou perfeito, perfeito! – exclamou a mulher – você capturou minha essência apenas com uma pincelada, em um só momento. Muito obrigada. Quanto você vai cobrar pelo retrato?

- Cinquenta mil dólares, madame – disse Picasso.

- Como assim cinquenta mil dólares?? Como você tem coragem de cobrar tanto dinheiro por esse desenho? Eu vi, você não levou nem dois segundos pra fazê-lo! – disse a mulher indignada.

Picasso replicou: – Madame, isso não levou dois segundos, levou toda a minha vida.

Sim Gafanhoto, pode se sentir iluminado por essa parábola fake ou medir sua taxa de glicose no sangue.

Ele é de plástico, mas não passa pelo detetor de metais.

Chamem esse ser de rabugento digital, mas não consigo apertar os botões do joystick em jogos baseados em Lego. Lego Star Wars, Lego Senhor dos Anéis, Lego Ugly Betty. Brincar com o Lego no mundo real é mais divertido, pena que uma vez montado ele fica com a função decorativa e acumulativa de poeira.

Lego e Playmobil são empresas que caçam lucro como quem caça o almoço, portanto é natural que em alguns momentos eles tenham temas oportunistas para serem vendidos, os chamados temas sazonais, com um pouco de sorte jamais veremos um set Lego ou Playmobil de Big Brother ou da Elba Ramalho, embora acredite que deve ter muita intenção rolando por lá de fazerem uma versão para fanfarronear do Capitão Nascimento. Pelo desenho e pelo design, me apetesce ainda mais os brinquedinhos de Kinder Ovo. Quem cria os brinquedos é um gênio matemático, principalmente pra calcular o encaixe das peças dentro do frasquinho, é tudo tão compacto e todo espaço milimetricamente aproveitado que nem bactérias conseguem proliferar ali dentro.

Enviaram pra mim esse snapshot tirado do site Amazon, e provavelmente ele não estará mais à venda, até reporem os estoques.
Você pode tirar a roupa dos bonequinhos, que vêm com orifícios íntimos para serem vasculhados, e se pressionar demais deve sair bolinhas marrons na parte de trás.
A lembrança perfeita para quem foi barrado de maneira canina lá em Madri.

O Playmobil de Guantánamo é vendido separadamente.

A base científica-pneumática do laço da verdade da Mulher Maravilha

alexrosswwAssistindo a um programa idiota de TV sobre super-heróis, na History Channel, eis que surgem várias pérolas da cultura inútil, que, para mim, são como grãos de feijão que podem um dia virar assunto de lâmina de bandeja.

William Moulton Marston foi o criador da Mulher-Maravilha, em 1941. No começo ela não se chamava “Wonder Woman”, e sim “Suprema”. Moulon era feminista (gostava tanto das mulheres que tinha duas esposas ao mesmo tempo), e era inventor.
E eis que Moulton foi o pai do polígrafo, o famigerado detetor de mentiras. Moulton criou um sistema que permitia perceber variações de pressão do sangue se o sujeito estava mentindo através de uma faixa apertada no peito e nos braços, e olha só, o laço dourado que faz qualquer cangaceiro falar a verdade deve ter sido baseado nesse invento, pois é só dar um aperto que o sujeito abre o bico.

E outra curiosidade do mundo pop que apareceu lá: Arnold Schwarzenegger não era a primeira escolha pra ser o primeiro Exterminador do Futuro. A primeira escolha, que recusou por motivos escusos, era…O.J. Simpson!!

O cara virou Exterminador na vida real.

Ele é ilustrador, ele é tetraplégico e ele desenha (muito) melhor do que eu.

Nada melhor do que comemorar um ano de blog com um post que faz qualquer um se sentir mais humilde.
Cortesia do Alvaro Sasaki, que enviou essa dica.

Olhar para o vídeo de Shiro Kotobuki, um ilustrador tetraplégico, trabalhando apenas com a boca e um tablet bem calibrado fez com que eu me sentisse do tamanho de um cupim por eu ter reclamado de umas dores nas costas por ter desenhado a noite inteira. Mesmo sendo em japonês sem legendas dá pra entender perfeitamente.

Essa é a segunda parte do documentário:

Ele é um dos criadores de personagens do jogo para marmanjos Rumble Roses (que a partir de hoje vou jogar com mais respeito) e ilustra garotas maravilhosas melhor do que eu ou qualquer outro sujeito com dez dedos funcionando. Já havia visto essas ilustrações, mas jamais havia pensado que isso era obra de alguém nas condições do sr. Kotobuki. Merece meu reverenciamento virtual e minha declaração oficial de humildade reconhecida.

Chega ser uma ironia ele ilustrar essas beldades deliciosas em sua condição. Em seu site, aliás com muito conteúdo, tem seu portfólio, que vai fazer muito carinha ficar de mamilo duro de inveja ou admiração.

E a gente aqui, com todas as partes funcionando, inclusive as de baixo, é uma panelada na testa quando sentir preguiça de estudar pra desenhar melhor.

Mortadelo e Salaminho 9/11

O assassinato de Kennedy foi um trauma tão grande que é comum algumas pessoas que viveram aquela época perguntarem para outros: “o que você estava fazendo quando Kennedy morreu?”.
A mesma coisa se repete depois de 6 anos. “O que você estava fazendo no 11 de setembro?”.

Todo mundo se lembra o que estava fazendo. Em detalhes.
Eu pessoalmente só vi tanta gente de boca aberta olhando pras TVs de shoppings, bares e nas ruas no dia em que o Senna morreu.

Recebi isso de um amigo meu, Felisberto, que mora em Tampa.

É uma reprodução de uma página de Mortadelo e Salaminho de 1993 (Mortadelo y Filemon, em espanhol, que aliás, fazem ainda um baita sucesso por lá).
É pura coincidência, sem nada sobrenatural ou com intenções terrorísticas humorísticas. Mas que é curioso, é.

Da mesma forma que são curiosas as coincidências com o número 11 relacionadas com esse dia, principalmente por que acho que eu tenho um pouco de TOC relacionado a números.
Existem às dúzias circulando pela net, 99% delas palermices, mas tem uma que me arrepia os pelinhos do pescoço: 11 de setembro é o 254º dia do ano (2+5+4=11). Depois ainda restam 111 dias até o final do ano. Uia!

Hadoukens animais

Pra pensar e inspirar, alguns colocam fotos de bichinhos fofinhos em poses ainda mais fofas, chegando ao nível diabético, como gatinhos dormindo junto com cãezinhos. Outros adoram fotos de crianças rosadas, tipo Anne Guedes, remetendo a uma época angelical e inocente onde não era necessário trabalhar pra sobreviver. Eu gosto dessas fotos onde o bicho dá o troco, nem que seja o último movimento dele. Tornam-se histórias dignas de serem escritas ou desenhadas.

Essa foto da lula foi retirada de um blog francês, o Lilela. O cefalópode apetitoso solta um hadouken líquido no adversário, não suficiente pra livrá-lo da panela, mas será lembrada com admiração pelas companheiras moluscas no fundo do mar.

Esse outro é um filme que eu escutava na faculdade de Biologia e sempre acreditei que fosse uma lenda urbana. É um atestado da imbecilidade humana, uma linha de raciocínio digna de Homer Simpson. Pra eliminar uma carcaça de baleia na praia, a prefeitura decide usar dinamite, achando que, como nos desenhos do Pernalonga, ele seria pulverizado.
A chuva de carne podre, vísceras e ossos destruindo carros é coisa de Charles Fort.

Quem jogava Street Fighter e a barra de vida do seu personagem só tinha um risquinho vermelho, era questão de soltar um combo bem planejado que ele podia virar o jogo (o vídeo abaixo só tem sentido para aqueles que molhavam a cama ou a mão pensando na Chun Li).

Coisas que comi com pão

A faculdade foi uma das melhores fases da minha vida, pela farra, pelas festas, pelas viagens e pela liberdade. Mas foi um período em que eu era mais duro e liso que azulejo.
Nessa fase, eu não era carnívoro, nem herbívoro nem onívoro. Eu era panívoro. Embora existissem vários grupos alimentares, o meu só consistia de uma coisa: Pão Pullmann, aquele que insistia em grudar no céu da boca e só saía com uma copada de líquido.

De dia o metabolismo era mantido pelo bandejão do Crusp ao custo de uma moedinha (naquela época era uma sujeira, tinha até vira-lata andando no meio das mesas). De noite, pão com alguma coisa que encontrava no meio do caminho, não necessariamente na geladeira ou em locais higiênicos. E naquela época não tinha essas coisas chiques e nobres como Wickbold (o de grãos é a finesse dos pães de forma). Era Pullman ou Seven Boys, porque eram mais baratos (novamente, sons de violinos tristes e gaitas de foles).

Esses desenhos foram layouts para uma toalhinha de bandeja maluca que encontrei por acaso no meio da bagunça digital. É óbvio que ela nunca saiu, mas a idéia era ótima: todas as coisas que comi com pão na época das Diretas Já.

Todos esses recheios não são mentira. Eles existiram e eu realmente comi essas alquimias, dignas de torcer as tripas do pessoal dos Mentes Ociosas.
Hoje descobri o significado da frase “o que não mata, engorda”.

Por fim, como golpe de misericórdia, cheguei a usar um ferro elétrico virado de cabeça pra baixo pra fazer um misto quente, num dia miserável em que a única coisa que eu queria era o afago de uma mulher (que eu não tinha) ou uma refeição quente (que também não tinha, pois ninguém comprava gás naquela república).
Passar roupa com isso depois era impossível e a camisa ficava cheirando a gordura de mussarela.

“É quadro de criança”

Foi isso o que algumas pessoas disseram quando viram o quadro de Jackson Pollock cotado a 140 milhões de dólares.

É obvio que a questão aqui é mais complexa e envolve outros fatores que devem ser levados em conta antes de julgar a arte dele como simplista e pueril (afinal 140 milhões de dinheiros não podem estar errados), mas o fato é que a maioria dos cidadãos comuns, que não tem contato freqüente com a arte, pensam a mesma coisa.

Coincidentemente, foi filmado um documentário chamado “My Kid Could Paint That”, ou “Meu Filho Pintaria Isso”, sobre uma menininha de 4 anos chamada Marla Olmstead, que pintava quadros abstratos próximos ao estilo de artistas como Pollock e Kandinsky. Ganhou em torno de 300 mil dólares pelas pinturas e foi suficiente pra gerar polêmica digna de passar no programa da Oprah. Os pais foram acusados de explorar a garotinha como uma vaquinha que dá leite. A mesma história que aconteceu com Macaulay Culkin e o cantorzinho mirim que dava vontade de esganar de tão irritante chamado Jordy.

Novamente a questão do que é arte. Pessoalmente, comecei a achar que o conceito de “arte”, além do sentido do dicionário, é algo pessoal como a escolha de um time de futebol. Cada um vai interpretar o que é arte de acordo com suas experiências, vivências e crenças. Coloque isso numa lista de discussão ou numa conversa de bar e pronto, está montado um cenário propício para farta distribuição de porrada.

Quem teve apoio, segurança e é bem resolvido em vários aspectos na vida e adora arte vai interpretá-la de uma maneira. O contrário, de outra. O meio-termo, também. Aquele que nunca ligou pra arte vai ter outra visão. Talvez nenhum deles esteja errados.

Eu, por exemplo, somente há alguns meses, depois de refletir muito, assumi que o que eu faço, ilustração, também é arte. Pelo fato de ter vindo de uma família mais simples, sem muitas opções, escolher essa carreira era uma roleta russa (sons de violinos tristes e gaitas de fole). Não tinha muita margem pra errar, então para minimizar isso, só admitia que fazia ilustração, deixando a arte, que era algo mais livre e “irresponsável” dentro de uma gaveta escura. Agora que as coisas já estão estabilizados, era hora de conciliar o que eu sou e que faço.

Tem gente que vai esbaforir e dizer que ilustração não é arte. Mais uma discussão onde o punho e o perdigoto falam mais forte que a razão.

Fuck you, como diria Milton Glaser

Essa perolazinha encontrei no blog do Alarcão.

Essas pestes que aplicam golpe do vigário envolvendo ilustradores, fotógrafos e toda sorte de fornecedores de serviços, aparecem a todo momento, inclusive tentando flertar com lendas vivas como Milton Glaser:

Essa quem me contou foi o ilustrador Mirko Ilic, amigo do Milton Glaser, fundador do histórico Push Pin Studios e designer gráfico de fama internacional.

O designer liga para o “gentleman” Glaser para orçar um projeto de cartaz. Sem ter a menor noção de que fala com um profissional que é uma lenda-viva nas artes gráficas, o jovem dá início à sua abordagem profissional.

- “Mr. Glaser, queremos contratá-lo para fazer um cartaz, etc e tal… Quanto o Sr, cobra?”

- “Entre 10 e 20 mil”

- “Whoa! Tudo isso? Será que podemos chegar a um meio-termo? Pense bem, afinal um cartaz terá sua ilustração bem grande, ficará exposto em vários locais de circulação onde muita gente vai poder vê-lo…”

Silêncio do outro lado da linha.

_ “Isso sem contar na divulgação do seu nome, Mr Glaser. Será que conversando podemos chegar a um valor mais em conta, dentro do nosso orçamento?”

_ “Fuck you” , disse o gentleman Milton Glaser antes de bater o telefone.

A saga de comprar um Adobe CS3

Uma das coisas que compreendi nesses três anos trabalhando como autônomo foi respeitar a propriedade intelectual. A minha e dos outros.

Por diversos motivos sincronizados, resolvi comprar o novo Adobe CS3. Foi a primeira vez que eu comprei um produto da Adobe diretamente pela minha empresa (as outras versões foi o responsável pela parte de informática da agência que eu trabalhava que fez o trabalho sujo).

É caro pra bedéu, mas tem que considerar o seguinte: é ferramenta de trabalho, é através dele que você ganha seu pão e sua TV a cabo. Ferramenta de trabalho tem que ser tratada com respeito.
Pra evitar esse tipo de pensamento funesto, é só pensar em quanto tempo esse programa se paga. Com 5, 10, 20 trabalhos, uma hora ele se paga. Portanto, quanto mais consciência na hora de cobrar pelo trabalho, mais rápido ele se paga. Simples como dois mais dois.

Ou não?

O problema da Adobe, assim como da Apple, pode ser resumida nessa frase: Eu amos os produtos deles, mas eles não me amam.

Na minha parca ingenuidade, achei que comprar um Adobe CS3 seria como comprar um pacote de maizena. Eu pago, eles entregam.
Mas nananina. Comprar um CS3 é como abrir um crediário numa loja de móveis de Tupaciguara. Tem que enviar cadastro da sua firma, telefone, e-mail e referências bancárias! Açougue da esquina não vale.

A empresa que você contacta pra comprar o programa NÃO vende o programa, mas você descobre isso só mais tarde quando aparece uma encrenca. Todo o processo é feito por uma distribuidora, que é contactada pela loja, que repassa pro comprador. Aí já viu, tem a porcentagem de cada um.
Dá pra comprar direto da distribuidora pra ficar mais barato?

É óbvio que não!

Então a novela continua. Depois de enviar as informações, tem que esperar um mês pro produto ser entregue. Se nesse processo você quiser mudar alguma informação, como telefone de contato, o pedido é destruído e feito um novo. E você volta pro começo da fila.

Se você tiver uma empresa num endereço, mas quiser entregar em outro, por exemplo na sua casa, nem em seus piores pesadelos. Tem que chorar feito uma Joana D’Arc na fogueira pra que entreguem em outro endereço. Só conversando com o gerente da loja que NÃO vende o programa. Ai, ai.

Aí te ligam avisando que o programa chegou. Tem que ter alguém em casa senão já era. Parece até que eles vão entregar uma geladeira na sua casa, mas são só uma caixinha de programa e uns documentos, certo? Erraaadoo!

O portador vem e me entrega um envelope. No envelope estão os boletos com cifras alarmantes, a documentação e o protocolo de entrega.

Aí eu digo pro portador: “Cadê a caixa com os programas?”

“Não tem caixa”, responde ele exigindo o protocolo de entrega.

Não entrego o protocolo porque não recebi nada, ele fica uma arara e mando ele esperar até resolver a situação. Ele vai tomar um pingado na esquina e ligo pra loja que me vendeu o programa:

“Hiro, você não sabia? Não tem mais caixa de programa, agora é tudo por download. Se você quiser a caixa com manual físico demora mais um mês ou dois pra chegar”.

“Não, não sabia, ninguém me avisou”.

“Ah, mas todo mundo já sabe disso, é pra diminuir os custos”.

Fato número 2: Vieram duas notas e dois boletos. Um com o valor do uso do programa e outro, no valor de 160 reais pela mídia. Só isso já era caro, 160 reais por um punhado de DVDs, caixa e manual, mas tudo bem. Aí eu pergunto:

“Escuta, se é por download, por que eu tenho que pagar a mídia? É minha conexão de internet, vou usar meus DVDs pra gravar o programa e ainda tenho que pagar?”

E a resposta do vendedor:

“Hiro, esse preço da mídia é o preço que a Adobe cobra pra você entrar no hotsite, fazer o login e baixar o programa”.

!!!!!!!!!!!!!!!

Discussão de meia hora, chegando ao ponto de discutir a semântica da palavra “mídia”, o portador quase dormindo no portão de casa e no final ele argumenta:

“Não posso fazer nada, somos apenas revendedores. Se quiser questionar esse pagamento da mídia, só diretamente com a Adobe”.

Nesse ponto já havia dispensado o portador puto da vida porque havia perdido quase uma hora da vida dele na frente da minha casa.

Resolvi baixar o programa enquanto chorasse as pitangas na central da Adobe.

Mas cadê o e-mail com o link pra baixar o programa??

Ligo de novo pra loja, reclamo que eles não enviaram o link conforme instruções e eles duvidam da minha conversa.
Vasculho o e-mail de dez dias atrás, junto com centenas de mensagens da SIB e da Ilustrasite. Nada.

“Ô fulana, não veio mesmo! O que eu faço?”

E a resposta:

“Com certeza você jogou o e-mail fora achando que era spam. Agora só na Adobe, a gente é só revendedor!”

“Mas vocês podiam ter me avisado eu iria receber um e-mail da Adobe com as instruções.”

“Mas eu não disse isso pra você?”

“Não, já disse que não”.

E novamente: “Ah, mas devia saber. Todo mundo sabe, trabalhamos com grandes agências que sabem os procedimentos”.

Fui chamado de ignorante e insignificante sem nenhuma sutileza. Se fosse sensível estaria chorando de raiva.

“Tá, eu sou pequeno, sou ignorante, mas preciso que vocês resolvam esse problema. Como faço pra conseguir baixar o programa?”

“Agora só na Adobe”

“Putaquipariu!!”

E ligo na Adobe, 20 minutos esperando minha vez. Conto meu problema, eles mandam um novo e-mail, com as instruções. Relativamente fácil.

Recebo o e-mail, entro na página de download, refaço minha senha senão o processo não vai pra frente e leio as instruções.

São seis arquivos para download, ao total dão mais de 3 gigas de download.

O primeiro, e principal, de mais de 2 Gigas, levou 4 horas, mesmo com banda larga. No final deu um erro de transmissão e tive que começar tudo de novo!

“Putaquipariu!”

São uma da manhã, há 8 horas baixando o arquivo porque hoje, justo hoje, a internet tá lenta.

Amanhã de manhã vou ter os arquivos na minha máquina e de repente fico nervoso de novo porque esqueci de reclamar sobre a cobrança da mídia que não existe.

Sem caixa, sem manual, sem nada pra tocar, uma sensação estranha de ter comprado um pacote de ar. Tudo bem, é ecologicamente mais correto desse jeito, mas pô, avisa antes!

É uma desorganização tamanha que parece que o Pateta dirige a empresa.

Nessas horas entendo porque existe pirataria.

Em tempo, comprei o novo Painter há algumas semanas e foi paft-puft. Comprei na loja, paguei e levei. Numa caixinha preta bonitinha com um CD e manual mais do que físico dentro.

A Lenda do Quadro do Diabo

Eis que por acaso, devido ao tópico sobre pinturas em veludo negro, algumas almas gentis vindas de Portugal me escreveram informando mais sobre quadros de crianças chorando. Parece que eles foram muito, muito populares nas terrinhas de Cabral, mais até que no Brasil. Toda casa tinha um, era um ítem de decoração obrigatório como um galo de Barcelos ou paliteiro de porcelana.

É impossível falar desses quadros sem falar da fama horrorenda que os cerca. Graças aos correspondentes de Portugal, essa história ficou mais evidente. Fiquei curioso e procurei através dos links que eles me enviaram (são vários) como seria o danado do quadro amaldiçoado pra postar aqui.

E qual não foi minha surpresa em descobrir que TODOS os quadros de criança chorando são considerados do mal? Que todos os quadros com crianças chorando trazem tragédias pra casa, que trazem doenças e o diabo dança na mesa de jantar…essa lenda urbana não é brasileira, ela é comum em todos os países latinos e alguns outros da Europa, como Holanda e República Tcheca.

Todos eles dizem que se virar o quadro ao contrário, olhar a imagem em um espelho ou mesmo procurar atentamente você vai encontrar a cara do chifrudo!

Não é o que diz o ditado? Que o diabo mora nos detalhes? Hahaha!

Imaginem! Pintores fazendo pacto com o diabo! E pensava que a gente só fazia isso quando negociava valor de uma ilustração com o diabo do editor ou do art buyer.

A lenda urbana completa dizia que o Quadro do Menino Chorando, quando virado ao contrário, surgia a imagem do Continue reading

Coisas que meu cliente diz

Já tive cliente – especificamente um diretor de arte – que me pediu uma ilustração desse jeito, sem mostrar nenhum rafe:
” A cara da garota tem que ficar entre a senhora do logotipo da Casa do Pão de Queijo e a coelhinha do filme Space Jam”.
Entendeu? Nem eu.
Depois de umas cinco refações, o que ele queria era um desenho de uma senhora feito em estilo de uma xilogravura!!
Já tive um cliente que reprovou um desenho a partir do rafe, porque ele não gostou do acabamento! Ele achou “sujo e primário demais”…
Já tive um diretor de marketing que bateu o pé que queria que queria que a menina da ilustração de um pôster usasse uma camisa cor laranja cítrico, aqueles laranja fluorescentes – pra imprimir em quadricromia!

Todo ilustrador tem sua coleção de historinhas bizarras envolvendo entidades de um plano superior e incompreensível: o cliente, podendo ser esse um diretor de arte, um diretor de marketing ou a mulher do diretor de marketing.
São casos onde você se pergunta se estamos falando a mesma língua, se acha que ficou burro de repente por que não consegue entender uma linha de raciocínio que deveria ser linear ou ou simplesmente dá vontade de agarrar o sujeito pelo pescoço e berrar: “Explica direito, porra!”

E fuçando a internet à procura de uma referência de catedral gótica, eis que me deparo com um site que é o Muro das Lamentações de designers, ilustradores e até mesmo de diretores de arte: Clientcopia

O site (clique aqui) traz mais de 5 mil histórias de terror do mundo das artes gráficas. É o desabafo digital de gente que tem que trabalhar com clientes obtusos, ignorantes e arrogantes. É o saco de pancada dos fracos e oprimidos da publicidade e do mundo editorial.

Dá pra você colocar sua própria história de dor e angústia para ser partilhada e avaliada. Com sorte você recebe 5 estrelas de apoio incondicional (recomendo ler apenas as historinhas com 4 ou 5 estrelinhas, senão você vai perder seu tempo precioso lendo as pérolas de sofrimento alheio).

Tem histórias que você passa raiva.
Por exemplo, a do cliente que liga para a agência na véspera de Natal pedindo um anúncio para o dia 26 e quando é informado que não tem gente pra fazer o anúncio ele questiona “Por quê?”
Ou a do cliente que exige que o webdesigner comprima as imagens do site dele pra ficarem com 1k de tamanho sem perder a qualidade, e quando o designer diz que não dá pra comprimir as imagens sem perder a qualidade, o cliente diz que ELE consegue comprimir imagens desse jeito, então ele também tem que conseguir…

É, vai dando risada que amanhã (ou hoje mesmo) pode acontecer com você.

Fiat Lux

Comecei minha carreira de desenhista numa revista da Editora Três, chamada Vida-Um Guia de Auto-Suficiência. Eram fascículos que ensinavam a plantar, criar e fazer sabão com gordura de vaca.

Eu fazia ilustrações como no estilo abaixo, típico passo-a-passo americano (era só o que eu fazia, passo-a-passos de como consertar portão, montar biodigestor, limpar cocô de vaca, essas coisas).

Não são ilustrações minhas, mas o que fazia era bem parecido.
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Intolerância de Plantão

Trabalhar com entretenimento popular não é fácil. Você entende perfeitamente a expressão “não dá pra agradar a gregos e troianos”.

Afinal, esse trabalho das toalhinhas tem uma tiragem mensal de 12 milhões de unidades. É visibilidade demais. O tamanho da vidraça é muito grande(Será que dá pra me incluir no Guiness?)

Se o assunto é sobre água no mundo, tem sempre um estatístico de plantão para confrontar os dados publicados, ou alguém que reclama que trabalho com os temas superficialmente (como se eu tivesse espaço, intenção e objetivo para sê-lo).

Se o tema é folclore e crendices, tem sempre céticos armados com pitbulls querendo uma retratação imediata perante processo na justiça porque acreditam que o objetivo do trabalho é o obscurecimento da ciência, como se fosse a época de Galileu e Giordano Bruno. Esse perdeu a língua por causa do que acreditava.

Já fui ameaçado porque eu não coloco nada sobre poesia nas toalhinhas. Inclusive um senhor me ameaçou porque ele pediu para eu colocar as poesias dele nas toalhinhas e eu recusei, por motivos óbvios. Ele se sentiu duramente ofendido e me chamou de imperialista vendido. Coisa parecida aconteceu com uma senhora que escreveu um conto junto com o neto e queria que eu publicasse nas toalhinhas com meus desenhos. Pelo menos essa não quis me processar, mas ofendeu meus antepassados.


Já teve gente que reclamou que eu ilustrei uma coisa que não existia. Era uma invenção lúdica, a toalhinha era sobre besteirol. Ele mandou várias cartas pedindo para me retratar publicamente, dizendo que aquela invenção não tinha lógica e que se funcionasse, representaria perigo para as crianças.

Já tive reclamações por que eu não faço nada em estilo mangá. Teve uma menina que inclusive fez uma toalhinha de personagens de animê famosos, por conta própria, na esperança dela ser publicada. Esperta, no meio dos desenhos tinha a personagem dela. Quando recusei, disse que eu era intolerante com a “causa” dos mangás. Será que existe uma ONG para defender os mangás?


Essa lâmina, por exemplo, embora tenha dado um trabalhão para fazer as constelações vistas no hemisfério sul, na melhor das intenções, foi bombardeada por cartas que reclamaram que eu coloquei informações (no box lateral, isolando do resto do trabalho) sobre poesia (que tipo de gente reclama de uma poesia do Olavo Bilac?), um adendo sobre crendices (que apontar o dedo para uma estrela dá verruga) e uma crendice que as pirâmides no Egito foram construidas baseadas na posição das estrelas da constelação de Órion.
Me senti o Salman Rushdie das curiosidades, na época.

Já fomos ameaçados de processo na justiça porque ilustrei um cidadãode um país porque havia colocado um chapéu que não é usado regularmente lá (pra ver a gravidade da situação, quase que colocaram a embaixada do país no meio da história).

Tem gente que não acredita que elas sejam feitas no Brasil, que são feitas nos EUA, pois tudo o que sai não tem familiaridade com o país. Teve gente até que disse que isso era uma estratégia de marketing imperialista…

Pois é, tecnicamente eu não existo.

Em tempo: eu não acredito na maioria dessas coisas esotéricas, extraterrestres ou fantasmagóricas, mas gosto de ler sobre isso. Como Mulder dizia, faz a gente pensar nas “possibilidades extremas”. Não é por que não acredito que deixo de gostar.