Alberto Ruiz e as mulheres, e que mulheres.

Último post sobre minha viagem a NY, e esse eu tinha que postar nem se eu estivesse na fila do crematório.

Alguns leitores assíduos, assazes e asseados já leram aqui que eu já mandei a fada do cartão de crédito passear numa fantabulosa livraria virtual, a Brandstudio Press, criada pelo Alberto Ruiz e que basicamente vende sketchbooks e outros livros com aquilo que é mais difícil para entender no universo dos homens: as mulheres. Para quem quiser deixar suas verdinhas passearem no hemisfério norte e gostar de desenhos de mulheres, recomendo com mel em cima os livros do Bill Presing e Shane Glines.
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Bom, após o encontro com Brad Holland, que foi uma porrada agradabilíssima, ainda havia um encontro que o Ricardo Antunes tinha que fazer: com o próprio Alberto Ruiz. E após algumas pesquisas e muita cara de pau, descobrimos seu contato. E como eu era um fã quase alucinado do trabalho desse homem, não tinha como dizer não a essa reunião, nem que fosse pra ficar de longe ou servindo cafezinho. Seu estilo latino de desenhar mulheres é único, tem essa coisa de volúpia pulsando em seu desenho, e seu traço é tão seguro, firme e curvoso que parece uma máquina com um lápis na mão.
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A surpresa foi encontrá-lo no meio da Madison Square Garden e o danado, mesmo sem saber que eu estaria nesse encontro, me reconheceu na hora com um sonoro “and you are Hiro!”. Foi o suficiente pra arregalar os olhos que já não são muito abertos naturalmente.

E por que isso? Por causa do post que escrevi sobre a Brandstudio Press neste blog, que geraram dezenas de visitas em seu site e mais dezenas e dezenas de pedidos de livros de brasileiros inspirados pelo que escrevi. Senti na veia o que é um networking bem feito. E honrado por ele ter reconhecido essa cara gorda.

E sentamos eu, ele e o Antunes num bate-papo muito informal e tietado, falando de ilustração, mostrando cadernos e rabiscando mulheres.

Se Brad Holland é o lado acadêmico, classudo e charmoso da ilustração, o Alberto Ruiz é o lado assumidamente apaixonado, solto e tarado por mulheres, mas ambos terrivelmente talentosos e amantes da ilustração.

E a empatia entre nós foi tanta que ele nos convidou, para meu embabascamento, para conhecer seu estúdio no dia seguinte, no Queens, pois a noite estava chegando e ele tinha que voltar pra casa.
RIZ
No dia seguinte, estávamos lá em um condomínio que parecia Wisteria Lane, de Desperate Housewives, tipicamente americano, com direito a yardsales e crianças vendendo limonada na frente de casa. Alberto Ruiz, que falava pelos cotovelos, nos recebeu e já nos colocou dentro do seu estúdio onde estavam dezenas de sketches e – pasmem – todos os livros que ele vende pela internet.

Como um dos motivos que fui pra lá, além de conhecer melhor o homem, também era o de fazer compras, me senti como o gato dentro da peixaria. Livros, livros e mais livros, Ruiz me deu todos o que eu queria sem cobrar nada por eles, a nãos ser um almoço.
PINUP
Ficamos conversando por horas em um diner típico dos anos 50, que servem hambúrgueres tão grandes que parecem um bezerro amassado e tortas de maçãs servidas por garçonetes pin-ups. Diferente do que aconteceu com Brad Holland, com Ruiz nos sentimos muito, muito à vontade. Ele falou muito sobre seu trabalho, o mercado de ilustração nos EUA e sua paixão, que é desenhar mulheres e publicar livros, todos eles com um controle de qualidade ferrenho. Ele realmente é apaixonado pelo seu desenho e pelos livros que ele edita, mas tudo isso acompanhado com um lado empreendedor e estratégico que fica escondido debaixo desse boné preto puído que não sai da cabeça dele.

Aprendi muito com essa conversa, é o tipo de coisa que não tem preço, e se tivesse seria pornograficamente caro. E outra coisa que não tem preço são os estreitamento dos laços e a oportunidades que surgem nesse tipo de encontro. Pelo visto, ele ficou tão satisfeito com nosso encontro que ele até postou isso em seu blog.

Graças a ele também descobri a maravilha que é fazer sketches com lápis Col-Erase da Prismacolor. Ele só usa essa marca e da cor vermelha pra desenhar as beldades curvilíneas.

No final da tarde, nos despedimos dele com a promessa que ele virá ao Brasil pra comer um filé colosso no Bistecão, muito contentes por termos conhecido um sujeito tão fissurado em ilustração como nós e com diversos projetos debaixo da manga, além de livros, livros, e mais livros e a felicidade de termos feito mais um amigo na terra do Obama.
MERUIZ
Muchas gracias e hasta la vista, Alberto!

New York vista por um New Yorker

Vejam só como são as coisas. Quando o meio ou as circunstâncias favorecem, as inspirações são as mesmas para todos.

Voltei de viagem, desenhei muito, fiz muitas aquarelinhas de Nova York, de coisas pitorescas que acontecem por lá e da fauna bípede que toma café andando na rua ou se veste como se fosse Stevie Wonder em um brechó. Todo mundo gostou, inclusive eu, elogios, incentivos, etc., etc., etc.

Mas eis que, mesmo prometendo pra mim mesmo que não iria comprar livros no Brasil por alguns meses, depois de trazer quase 30 quilos de papel encadernado nas malas, não pude resistir e comprei o precursor dos sketches novaiorquinos.
BIGCITY
A Companhia das Letras reformulou sua marca para quadrinhos, chamando-se agora de “Quadrinhos na Cia.”, ô nomezinho perrengue, e uma das suas primeiras edições é nada menos do que o livro do fantabuloso Will Eisner “Nova York, a Vida na Grande Cidade”, que na verdade é uma compilação de 4 obras suas: “Vida na Cidade Grande”, “O Edifício”, “Pessoas Invisíveis” e “Caderno de Tipos Urbanos”.

Will Eisner, que é mestre, dispensa apresentaçõe, e merecia muuito mais respeito por parte de alguns tipos que caíram no meu conceito como catarro de chinês na sola de sapato, mais conhecido como Frank Miller, que fez aquela matéria fecal que larapiou o nome de “Spirit”, e que deveria levar uma surra com um pernil de porco até evacuar sua rótula. É um prazer ler novamente “O Edifício” nessa edição luxuriente.
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Porém, para quem curtiu as aquarelas assimassim que fiz de NY, Will Eisner fez antes sua versão do cotidiano e dos tipos estranhos novaiorquinos, também, só que da década de 50. É o pai – ou avô – desse trabalho!!
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Principalmente “Vida na Cidade Grande” e “Caderno de Tipos Urbanos”. Estão lá suas observações rasbisqueiras sobre o metrô, os cheiros, os sons da cidade, sobre os apartamentos tão pequenos que cabem apenas corpos sem alma, sobre o lixo que se acumula nas calçadas, e os tipos urbanos daquela época.
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Perto dos sketches de Eisner, as aquarelinhas que fiz em NY viram ovinhos de mosca, mas de moscas bonitinhas.

Falando no Eisner, fiquei sabendo que “O Contrato de Deus” virou uma ameaça para mentes jovens escolares, na visão de pais e mestres com essência microcéfala, pois as insinuações de sexo, incesto e papo adulto podem incinerar os olhos e as cabeças dos impúberes, ou seja, censura mesmo. Faltará pouco para que “Vidas Secas” do Graciliano Ramos seja banido por mencionar maus tratos aos animais, que “O Cortiço” seja cortado por insinuações de consumo sexual ou que “Caminho Suave” seja retirado do mercado por racismo, pois só tem um casal de branquinhos andando felizes para a escola.

Em breve um post muito bilicoso sobre o “politicamente correto”, que já me torrou o saco.

Uma tarde com Brad Holland

Uma das coisas que não posso deixar de comentar aqui foram os encontros com grandes ilustradores pós-Scott C., que eu considerava a cereja do bolo da viagem e que nada poderia ser mais magnificente e reluzente. Pois estava eu errado como um ônibus na contramão.

Ricardo Antunes, pai do Guia do Ilustrador, veio partilhar a experiência de conviver comigo na Grande Manzana por uma semana e trouxe na bagagem uma entrevista com nada menos com o mestre Brad Holland, que eu considero o que ele é para a ilustração o que Oscar de La Renta é pra moda ou Jacques Costeau foi pra França.

[img:sodebate_1104.jpg,full,alinhar_esq_caixa]Vou apresentar um pouquinho do homem: como ilustrador e artista plástico, ele é de fraturar o maxilar em queda livre ao chão, ele é uma das grandes referências americanas e mundiais da ilustração, tanto que até hoje os bancos de imagem contratam ilustradores zumbis para fazerem ilustrações com seu estilo de maneira canhestra e sem alma a preço de milho de pipoca para quem faz, mas vendendo a preço de coroa de rei para quem compra.

E é justamente nesse quesito que Brad Holland é especial. Ele é um literato, ele escreve tão bem quanto pinta, e seus textos são letrinhas orquestradas formando críticas e ensaios iluminados, eles não só inspiram como também educam, uma combinação que é uma porrada no cérebro ou no coração, dependendo de quem lê.
Ele é um defensor canino nas questões de ética, postura e direitos autorais, e o irônico é que, mesmo sendo um dos maiores defensores destas questões, ele mesmo se considera um mero “artista que virou ilustrador por acaso”.
[img:0101.jpg,full,alinhar_dir_caixa]
Para aqueles que querem se tornar ilustradores com um pouco mais de conteúdo que não seja banha e preocupação, recomendo o livro “The Education of an Illustrator”, que eu já comentei aqui, e que tem alguns de seus textos muy poderosos. Mais textos dele nesse link, tem que escrever “Brad Holland” no campo de busca por autor.

Pois bem, lá vai o Antunes que consegue um tempinho com o homem por telefone. Saímos correndo pra encontrar com ele no Soho, tivemos que pegar até um táxi clandestino preto pra chegar em tempo. Dentro do táxi, depois de perceber que fizemos uma cagadinha, pois o russo com cara de quem deixou a mãe morrer sozinha na Ucrânia, 35 dólares pra ir até lá numa corrida que não daria nem 20, fiquei no cagaço e achei que nem deveria ir, pois Brad Holland era mais ocupado do que formiga desesperada em dia de chuva, além de deixar bem claro que ele só teria 30 minutinhos pra bater um papo e olhe lá.

Achei que iríamos no máximo sentar em um Café, tomar um expresso, comer uma bolachinha, apertar as mãos e cada um seguir pro seu caminho. Ledo engano.

A lenda viva e cabeluda da ilustração pareceu de uma hora pra outra arranjar tempo na agenda e além disso, a fada da generosidade desceu no seu cangote, pois ele simplesmente abriu seu magnífico estúdio, um apartamento gigantesco em um prédio no Soho que também era seu estúdio.

Era muito bom pra ser verdade, uma honra de dimensões cetáceas ser convidado para conhecer o lugar do homem.

Lá, ele candidamente conversou conosco sobre ilustração no Brasil e nos EUA, abriu seu coração e seu sketchbook que ele preencheu quando veio ao Brasil em Florianópolis, mostrou seu apartamento como um cicerone gentil, mandou seu gato afiar as unhas em outra vizinhança e deixou a gente ver seus trabalhos mais recentes e o caos criativo que era seu estúdio. A gentileza era tanta que juro que pensei que uma hora ele iria dar de presente um dos seus abundantes quadros que estavam em sua parede. Mas aí já era pedir demais.

No final, a conversa durou mais de uma hora e nos despedimos de maneira muito cândida, deixando este homem impressionado com a grandeza, suavidade e gentileza que um ilustrador e profissional de tamanha envergadura recebeu dois matutos brasileiros.

Sim, talvez este post esteja grande demais para quem não sabe quem é Brad Holland ou nem conexões com o mundo da ilustração, mas posso garantir que a experiência de ter passado uma parte da tarde com este homem foi algo que exigiu que eu escrevesse e deixasse um relato para que, no mínimo, alguns fiquem curiosos e conheçam quem é ele, o que ele faz e por que a gente ficou babando feito cachorro feliz com osso de açougue em seu estúdio.

E também foi pra agradecer a generosidade incondicional que Brad Holland nos ofereceu naquela tarde. Muito obrigado mesmo.

Gunga Diner, Tic Toc

Colocando as últimas coisinhas que restaram da viagem a NY.
Só agora consegui um tempinho pra organizar as fotos – maldita inclusão digital, porque antigamente a gente tirava no máximo umas 100 fotos por viagem, por causa do preço da revelação, e agora mais de 3 mil fotos digitais pra olhar uma por uma é tarefa pra qualquer bunda ficar achatada – encontrei essa fotinha que achei deveras legal postar aqui.

Eu passava na frente desse diner quase todo dia, e não é a cara do Gunga Diner, o lugar amigo, como em Seinfeld e Friends, onde o Coruja e a lasciva Silk Spectre se encontravam?

Só que se chama Tic Toc, fica na esquina da 34 com a 8ª Avenida, e a comida é abominável. Tudo tinha o mesmo gosto de óleo velho queimado e o molho das saladas são aqueles que vem em bisnaguinhas,

Mas eu tive que entrar pelo menos uma vez, e tá lá o mané comendo um frango nauseabundamente frito, se sentindo como um figurante de Watchmen.

Escape From New York

Mil perdões aos leitores deste humilde mas não serviente blog.
Retornei com pesares de NY há uma semana, com uma dor no coração e outra na carteira. Mas ter ficado um mês inteiro quase sozinho trouxe uma série de novas perspectivas para este ser que vos digita, perspectivas essas com tentáculos expansíveis para todos os lados, principalmente na carreira, nas consequências benquistas de conhecer gente nova e dessa gente nova que apresenta pra mais gente de respeito e admiração, e de projetos futuros que vieram embalados com cuidado nessa viagem e que serão abertos ao público no seu devido momento.

Mas como não vivo de essência de jasmim, cheguei em São Paulo com 4 malas, uma mochila e um elefante hidrofóbico chamado cliente em cima da minha mesa de trabalho, esperando por mim. E aproveitei pra fazer o desenho acima com a versão 11 do Painter, que comprei lá numa pechinchota bacana na BH, a terra dos judeus eletrônicos.
Assim, após um mês de regozijo no hemisfério norte, passei uma semana em 78 rotações. Além de entregar jobs acumulados, fui dar uma palestra na Universidade de Mogi das Cruzes, dei entrevista pra TV e só agora consegui abrir o blog.

Ainda faltam postar muitas aquarelas feitas lá, muitos desenhos a lápis e muitas observações. Muitas delas ainda vou colocar aqui, principalmente sobre Alberto Ruiz e Brad Holland, mas as outras tomei a decisão de realmente fazer um livro sobre essa viagem a NY. Assim, vou completar algumas aquarelas, escanear de maneira decente e organizar os textos para diagramar um livrinho, talvez chamado “Ilustrações ilustradas de Nova York” ou “1000 Coisas Para se Ver em Nova York Antes de Ficar Cego”.

Faltaram as observações sobre o tamanho gigantesco do Museu Metropolitan (3 dias e ainda não vi tudo), e do também gigantesco Museu de História Natural; da maravilha escondida que é o Cloister, o museu medieval no Bronx.

Faltaram muitas figurinhas estranhas/esquisitas, como esse tiozinho muito à lá vonté num flip-flop.

Faltou também um post sobre os testes maluquetes que o pessoal dessa organização não governamental fazem nas ruas pra detectar stress e dislexia, duas coisas que eu tenho e que me fazem um candidato suitável pra ser um cientologista, e não vi o Tom Cruise como brinde.

Faltaram os posts sobre os espetáculos bizarros Off-Broadway, como esse que faria minha carteira encolher em posição fetal de medo, além dos testes para a estréia da peça “Coraline – o Musical”, que deve ou ser muito bom ou muito ruim, assim como foi o filme do Wolverine, que pendeu feito pedra pra segunda opção.

Faltou também os posts sobre Nova York para ilustradores, como a visita às Galerias Arcadia, da maravilhosa tarde com Shaun Tan na Book of Wonders, uma livraria de respeito só com livros infantis e as visitas à Illustration House e a busca infrutífera para ver um original do Al Hirschfeld.

Isso entre outras dezenas de assuntos funestos e bizarros, como a grossura pornográfica dos hambúrgueres, o mal-humor dos balconistas, a proliferação hindu novaiorquina, a curva de aprendizado para se pegar metrô, a magia do café ralo e delicioso, o paraíso dos hipocondríacos que são as farmácias dali, os classificados atrozes à procura de cobaias humanas para testar novas drogas, as instituições que pagam dez dólares pra você descabelar o palhaço e vender seu esperma, os gays coreanos que andam de mãos dadas na 9ª avenida, os esquilos treinados pra roubar biscoitos de turistas descuidados, os sinistros táxis negros piratas dirigidos por seres também sinistros do leste europeu, a experiência de liquidificador que é despachar 10 quilos de livros numa agência do correio americano, etc., etc., etc.. Enfim, se eu ficasse um ano ali ainda teria assunto, então como tudo que é bom uma hora acaba, então tá.

Sopa de esgoto e cheiro de fogão a lenha na 5ª Avenida

Uma das coisas que a TV não transmite (por enquanto) é cheiro. Por isso algumas coisas a gente tem uma visão mais romantizada de Nova York, quando na verdade elas são muito fedegosas, purulentas e excruciantes.

Aquele vaporzinho que sai do bueiro, como já comentei antes. Parece bonito na TV e no cinema (aliás, tô pesquisando desde que cheguei aqui pra que serve tanto vapor debaixo da terra, questiono-me se os prédios e condomínios recebem esse vapor das ruas e por que tem tanto tambor de nitrogênio líquido nas calçadas, e novamente questiono-me se essa é uma das razões da água ser tão gelada, mesmo nos dias quentes, ao ponto de fazer chá gelado direto da torneira). Porém, o aroma nauseabundo é como se você tivesse fervendo esgoto na panela de pressão. Tampopo!

Outra coisa que ofende as narinas são esses carrinhos de pretzel e cachorro quente de esquinas, antes operados por novaiorquinos originais, pelo menos na época do Michael Jackson negro, e agora em sua maioria com um hindu atrás das suas panelas.

Eu pensava em minha ingenuidade que o vapor que saía desses carrinhos era….vapor! E tinha cheiro de salsicha cozida. Mas o quê!
Esse vapor é na verdade fumaça, daquelas de deixar olho vermelho e lacrimejado, que vem de madeira ou carvão usados pra fazer pretzels.
Fique ao lado desse carrinho esperando a hora de atravessar a rua e será defumado como uma peça de bacon.

Homem Aranha, Homem Aranha, já não bate, só apanha

Eu que pensava que o auge dessa viagem eram o Sketch e Jazz da Sociedade dos Ilustradores e o encontro com o Scott C, eis que ainda me sobram surpresas gigânticas, pois encontrei pessoalmente com o monstro da ilustração Brad Holland e um superfodástico encontro com o Alberto Ruiz, da Brandstudio e possuidor dos livros mais cobiçados pela minha carteira já magra.

Assim que baixar as fotos, adaptar pro blog e chegar mais cedo no apê pra aprontar os posts, vou colocá-los aqui, porque são importantes e tem muito dedo pra bater nos teclados.

Enquanto isso, sessão ternurinha com amenidades novaiorquinas.

Aquele cara que encontrei no sábado à noite vestido de Ghostbuster não deve ser um “guerrilla” marketeiro do game, como eu pensava. Deve ser mais um novaiorquino que decidiu gastar tempo e dinheiro pra fazer algo bem feito pra competir com o fake mais verdadeiro do Homem-Aranha.


Segundo um hindu do deli aqui da esquina, o sujeito vive andando pelas ruas da Broadway pra fazer sensação.

Essa foto a gente tirou na 8ª Avenida lá pelas 8 da noite, perto das bocadas das cabines de Peep-Show de sexo animal e peludo malcheiroso que ainda resistem nessa avenida.

Maluco por maluco novaiorquino, esse aqui pelo menos impressiona. Tem o mesmo porte e físico do Homem-Aranha do filme, e o uniforme é bem feito, um cosplay de respeito. Pra deixar criança maluca e garotas batendo palminhas lá embaixo.

E se debaixo dessa máscara viver um sujeito muito, mas muito feio, igual ao Marmaduke?

Mas acho que no metrô ele passa desapercebido.

Scott C é um cara duca e batuta

No post passado falei das estrelas que encontrei na rua, do James Gandolfini a Marcia Gay Harden. Bah, isso é fivela de sandália de mocinha perto do que passei ontem. Que o diga Ricardo Antunes, pai do Guia do Ilustrador, que estava comigo na hora e pode provar isso.

Posso considerar sem dúvidas como o grande evento que fez valer a pena ter vindo pra NY.

Quem acompanha esse blog e não recebe pagamento por isso sabe que eu sou fã obstinado desses dois ilustradores: Scott C e Vera Bee. Tanto que chega ao ponto da idolatria/euforia.

Pois bem, ontem conheci pessoalmente Scott C. E joguei minha compostura oriental pra dentro da boca de lobo e assumi meu lado tiete, soltando a franga em um inglês arranhante e claudicante.

(Scott C é o cara de bom menino de barba da esquerda, o da direita é o seu amigo ilustrador surfante californiano Nathan Stapley e eu sou o com o sorriso de gato de Alice no meio).

Sim amiguinhos, vocês não tem idéia da emoção que foi pra mim encontrar esse sujeito que é o grande inspirador do meu trabalho, juntamente com Al Hirschfeld, com a diferença que ele é jovem e vivo, provavelmente com a metade da minha idade e com uma simpatia e humildade que já era vista quando nos comunicamos por email e confirmada e sublinhada ao vivo e tracejado.

Scott C é um sujeito simplérrimo, com cara de bom moço que a mulherada deve soltar ganidos de cachorrinho carente e atitude de bom moço que faria até o Bento XVI dar um sorriso.
Junto com ele estava também o seu amigo e outro ilustrador fantástico, Nathan Stapley, que também tive o prazer de conhecer, o primeiro surfista californiano que ilustra, divertido como um saco de risadas.

(Autógrafo! Autógrafo! Autógrafo!)

Passada a tensão inicial (afinal eu poderia ser um terrorista oriental ou o vetor de uma doença fatal), conversamos de maneira agradabilíssima como se já o conhecesse há tempos, mesmo com algumas engasgadas no português-inglês. Conseguimos ensiná-lo a falar “isso é do caralho!” quando ele quiser falar “that’s fucking good!”, cada um falando a mesma expressão em linguas diferentes sobre o trabalho do outro.

Ele realmente ficou surpreso quando disse que vários ilustradores e desenhistas brasileiros eram fãs dele.

Após uma noitada de rasgação de seda, trocas de links e a criação de potenciais futuros contatos com ilustradores amigos deles, alguns deles do calibre de um canhão, ele se sentiu tão seguro comigo que me convidou no dia seguinte de conhecer seu estúdio.

Honrado é a palavra correta. Conhecer a toca do homem foi a cereja do bolo que eu não esperava acontecer.

Por motivos de privacidade, que ele preserva muito, não vou postar as fotos do seu estúdio, mas não posso deixar de mostrar um dos seus trabalhos magníficos, essas marionetes articuladas feitas por um pessoal que trabalhou nada menos com Jim Henson (pra quem não sabe quem é, basta dizer “Vila Sésamo”, “Muppet Show” e “O Cristal Encantado” e vai procurar na net). Ele pretende encenar uma peça com esses personagens, escrita por ele.

Foi uma honra enfiar a mão dentro desse homem das cavernas, com sua próstata pulsando de alegria.

Alem disso, tivemos o prazer de ver seus trabalhos mais recentes e inéditos, além de um trabalho megafodástico que será mencionado por este humilde blog em outubro ou novembro.

Após um almoço em seu magnífico terraço, onde se pode ver toda Nova York, trocamos desenhos, elogios, abraços e negócios. Como diria Luiz Toledo, meu antigo e hilário mestre de criação publicitária: “Mesmo de roupa foi um prazer”.

E saí do seu estúdio mais leve e mais feliz, dando a sensação que já posso voltar pra casa, pois o termômetro que mede felicidade chegou no limite.

E pra terminar, hoje não vou colocar nenhum desenho meu, mas um do Scott que fez em meu caderninho aquareloso.


Scott, you are an awesome illustrator and an awesome person. You are a batuta guy. Really.

Agora, me dêem um tapa na cara pra me recompor e voltar ao normal.

Encontro com as estrelas

Momento Tiete Ilustrado, pois nem só de desenho e nota fiscal vive o ilustrador. Um pouco de diversão e “estilo Caras” faz bem pro fígado e coração em doses pequenas.

Na Broadway, descobri que é comum a prática das pessoas esperarem pela saída dos atores depois de terminada as peças de teatro, pra pedir um autógrafo básico, uma tirada de foto junto com a estrela e a cara impagável de alguns atores que acreditam estarem pagando o mico em dobro.

Na saída da peça “God of Carnage”, eis que de uma batelada só sairam, como ovos saídos da mamãe tartaruga, os quatro atores principais:
Jeff Daniels

Hope Davis, vulgo “mulher do Harvey Pekar”

James Gandolfini, vulgo “Soprano”

e Marcia Gay Harden, vulgo “mulher do Pollock”.

O máximo que você vai ficar perto de um astro de Holywood ao ponto de sentir seu bodum. E planejem a sua noite na Broadway, porque um espetáculo desses é muuuuito caro! (God of Carnage custa entre 110 (lugares fecais) a 150 dólares por ingresso).

Como minha religião não permite que eu peça autógrafos, deixei imaginar meu alter-ego fazendo isso.


Como a noite era uma criança sem sono, ainda apareceu esse sujeito anônimo desconhecido na Times Square vestido de Caça-Fantasma.

Diquinhas Basiquinhas

Tem gente que tem enviado umas mensagens um pouco sebosas, reclamando que eu só posto o óbvio ululante sobre NY. Obviamente, pra deixar o blog limpinho como banheiro de avó, eu não posto essas mensagens porque a crítica além de não ser construtiva, só faz ruído desagradável.

Em resposta única e sem retorno, tenho na minha defesa o fato de nunca ter visitado NY, o que me dá crédito pra ficar deslumbrado com a fauna urbana dessa cidade.

Em segundo, se aquele que escreveu já veio ou mora em NY e se sente enfastiado, tem culpa eu? Quantas milhares de pessoas nunca vieram pra cá e se divertem, nem que seja uma fração de alegria, com esses posts? Se eu tivesse lido algumas dessas dicas antes de vir pra cá teriam sido muito úteis. Portanto, um bandeide no cotovelo por favor.

Mas é por isso mesmo que desenhei essas dicas mais-do-que básicas, daquelas que você já usa assim que põe o pé pra fora do avião.

Dinheiro

Além dos carne-de-vaca dólar, traveller checks e cartão de crédito, existem opções pra levar dinheiro pros EUA sem parecer um traficante de cocaína, tevando os dólares num pochete fininho contra o peito ou debaixo da cueca. Existem cartões de débito que você compra em qualquer casa de câmbio no Brasil e usa em qualquer caixas automáticos, aqui conhecido como ATMs (e que impressionantemente estão distribuidos em todos os lugares, assim como pombos) pra retirar dinheiro ou fazer compras. Caso sua epifania consumista exceder o bom senso e o crédito do cartão, basta ligar pra sua mama pra ela colocar mais dinheiro e a festa do caqui nas lojas continua.

Porém, existe outra maneira de não carregar tanto dinheiro na carteira. E isso vai virar propaganda gratuita, mas dane-se, é dica do bem.

Se você for correntista do Itaú e tiver um cartão 5 estrelas douradinho, você pode desbloquear o serviço de retirada de dinheiro internacional no site e usar seu cartão do banco pra retirar dinheiro dos ATMs. Eles descontam além do dinheiro convertido, uma taxa de 9 paus pra cada retirada. É uma grana, mas compensa quando o dinheiro vivo estiver virando pássaro Dodô na sua carteira.
Se tirar dinheiro em um ATM, você vai pagar 2 dólares de taxa de uso.

Melhor ir em qualquer agência da Chase, que abunda por aqui, porque os ATMs de lá não cobram taxa.

Imagino se esse serviço existe no Itaú, deve existir também em outros grandes bancos.

Táxis


Os táxis daqui são um festival da ONU sobre rodas. A maioria dos motoristas é imigrante, e sabe-se qual é o evento milagroso que faz com que um estrangeiro consiga se locomover de carro com facilidade em NY.
Como nos filmes, é comum você ver um senhor de barba, bigode e turbante dirigindo um amarelinho, além de africanos, coreanos, chineses, russos, hindus e italianos.

Motoristas de táxi aqui não puxam papo, não falam oi nem falam obrigado. Mas xingam no trânsito e correm feito a Lola. Na dúvida se eles entenderam seu inglês pastoso, melhor escrever o destino num pedaço de papel e mostrar pro homem.

Os táxis cobram 45 doletas cravados pra sair do aeroporto JFK e ir ao centro de Manhattan, fora a gorjeta. O comum aqui é pagar 15% de gorjeta, e ai de você se não pagar o extra. Ele sai do carro e te xinga de uma maneira que você se sente ofendido mesmo não entendendo a língua dele.

Num táxi daqui cabem 3 pessoas de maneira civilizada. Alguns cobram um pouco a mais se sua mala tiver um tamanho maior que um cadáver.


Gorjetas


Falando em gorjetas, uma que você não pode esquecer aqui é a gorjeta da garçonete. Tirando os McDonald’s e Starbucks, qualquer lugar que você for fazer uma boquinha tem que pagar entre 15 a 20% da conta como de gorjeta.

Num primeiro momento, calcular a gorjeta parece um trabalho de uma HP científica, por causa dos centavos quebrados. Mas o novaiorquino ensinou uma dica pra isso:

Toda conta vem discriminada o que você comeu e os impostos, mas não a gorjeta. Os novaiorquinos simplesmente dão de gorjeta duas vezes o valor do imposto. Ou seja, se você comeu uma tripa de cordeiro por 11 dólares, o imposto deve sair por volta de 1,2 dólares e a gorjeta então deve sair por 2,4 dólares.

Celulares

Comprar celular aqui é mais fácil, literalmente, do que comprar um biscoito de polvilho decente em São Paulo.

Se você pretende ligar pro Brasil pra falar com sua mãe que está no alto do Empire State e tá pensando nela, seja pra não se jogar do alto, seja pensando no King Kong, melhor comprar um telefone sem contrato, os chamados “pay-as-you-go”, vendidos em qualquer loja de operadoras ou lojas de eletrônicos, como Best Buy ou Radioshack. Um celular básico aqui custa 15 doletas e com mais 25 dólares de crédito dá pra conversar um bocado e infelizmente ser encontrado.

A operadora que tem melhores preços é a Virgin, que cobra 2 centavos por minuto se você ligar pra um telefone fixo no Brasil, ou 25 centavos por minuto se ligar pra um celular.

Hospedagem

Tome um pouco de cuidado quando alugar um apartamento no centro de Manhattan ao inves de pagar um hotel. Alguns prédios olham com olhos rodando a baiana quando turistas sublocam um apartamento em seu condomínio. Parece que essa prática não é muito bem vista pelos moradores do prédio e inclusive existe aqui um debate se isso deve se tornar ilegal ou não, se é que já não é.

De qualquer forma, se não quiser se sentir um marginal que paga aluguel, pergunte antes pro seu locador se o prédio em que você alugou o apartamento tem tolerância pra turista.

Como não fiquei em hotéis aqui, fico devendo essa.


Idioma

Se seu inglês é grudento como tentáculos de polvo querendo sair da sua garganta e isso for um motivo inibidor de conhecer NY, não se preocupe. A segunda língua oficial (e às vezes a principal em alguns lugares) é o espanhol, seguida por algum dialeto hindu, pelo íidiche e pelo coreno e chinês.

Ou seja, se seu inglês não passa do “The book is on the table, motherfucka”, não se preocupe que mesmo assim você se vira.

Na verdade, o turista médio aqui conversa pouco em inglês. Ele só usa essa língua em pequenas situações, a maioria delas envolvendo o pedido de uma comida ou informações nas lojas. Como o americano também não puxa papo, é capaz de você morar aqui por 5 anos e voltar pra Bauru sem falar uma sentença completa em inglês.

Segurança

Muitos na minha idade achavam que nunca mais sairiam ilesos se visitassem o Soho, por causa do filme “Depois de Horas” do Scorcese, ou sairia do Central Park dentro de um saco preto, por causa do Charles Bronson em “Desejo de Matar”.
Pois o tempo passou e o projeto Tolerância Zero, criado pra dar uma limpa na criminalidade novaiorquina, deu certo. Assim, andar em Manhattan é um passei extremamente seguro.
Amigos meus de longa data sabem o quanto eu sou neurótico com esse assunto, e aqui você pode andar com uma melancia e uma máquina fotográfica no pescoço que não tem problema.

Lógico que esse paraíso na Terra é relativo, acidentes, paixões e assaltos acontecem quando voce está desprevenido. Mas andar no centro de Manhattan dá essa tranquilidade. Mas aconselha-se a ter um pouco mais de cuidade no Brookin, Bronx, Harlem ou Chinatown, andar com a máquina dentro da bolsa é um ato de caridade pra você mesmo.

A visão do novaiorquino médio por um paulistano fora da média

[img:close.jpg,full,alinhar_esq_caixa]Segundo o criativo Marcelo Lourenço – e eu concordo com ele – o iPod foi fundamental para a cidade de Nova York. Com o iPod, cada novaiorquino fica conectado em seu próprio mundinho, como se estivesse dentro de uma Matrix.

É só colocar as coisinhas no ouvido, olhar pra frente com olhar blasé e jamais fazer contato visual com outro ser.

Já disse antes, e agora ilustro, que é engraçado como o novaioquino médio vive dentro de uma bolha. O que ele faz dentro dessa bolha não é da conta de ninguém, contanto que você não incomode o outro. Se eu quiser sair vestido de papel higiênico na rua, ninguém vai me incomodar.
Isso existe também em Barcelona, e acredito que em diversas cidades de grande porte, mas aqui em NY entra um elemento que não tem nesses lugares – o novaiorquino pode ser tanto über elegante como extremamente ridículo, mas ambos acham que estão bombando. Por isso que eu vi um mexicano gordo vestido de Spock. O europeu já tem uma preocupação em não ser a segunda opção constante.

Aqui você percebe que um novaiorquino não encosta em outro, e ai de você se esbarrar superficialmente na derme de um morador local. Flechas sairão dos olhos em fúria deste.

Junto com a bolha, vem de brinde também uma área de segurança, uma área de uns 30 cm em volta do indivíduo que é seu terreno sagrado, como se cada novaiorquino andasse junto com seu solo soberano.

É comum inclusive você ver gente prevendo uma tensão de toque, alguns avisam à distância pra você tomar cuidado ou que eles estão chegando. Tocar em um americano sem querer é quase uma ofensa, mas tocá-lo de novo, como todo brasileiro faz, pra pedir desculpas, é provocação.

Não tive essa oportunidade de testemunhar isso aqui, mas as pessoas dizem que é uma maravilha ver um show ao ar livre no Central Park. Apesar de irem aos milhares pra ver um show do Pavarotti, todo mundo crava seu cobertorzinho na grama com uma área de respiro em volta. Não fica aquele pudim de gente viva no Ibirapuera quando a Rita Lee canta, uma terapia de choque pra quem tem agorafobia.

Homens aqui não cantam as mulheres, nem as feias nem as lindas. Nem vice-versa. Eu comentei com uma balconista que ela era muito bonita – ela tinha a cara da filha do Jack Bauer de avental – e ela me deu um tabefe com os olhos. Desculpa.

Pode ser até impressão minha, e não é preconceito, mas sinto nos meus velhos ossos uma tensão racial um pouco mais exacerbada aqui. Embora todos convivam em harmonia, parece que basta cair um prato no chão que sons de tiros irão acontecer. Quem andar de metrô ou pegar um táxi vai saber que isso procede.

Elois e Morlocks de Nova York

Quem não sabe o que são Elois e Morlocks não teve infância e não assistiu “A Máquina do Tempo”, a versão antiga, com o Rod Taylor. Existem Elois e Morlocks em NY, e eles vivem no Central Park e no Metrô.

Se tem uma coisa que dá pra dizer que São Paulo tem de bom são as estações de metrô – veja bem, as estações, não a malha viária. Pelo menos elas são limpinhas e sempre tem um tiozinho ou tiazinha com uma vassoura com uma pá por perto. Ao contrário das estações de metrô novaiorquinas.

Se alguém me disser que elas nunca foram varridas desde a época em que Donna Summer começou a carreira, eu acredito. Mesmo porque não vi nenhuma faxineira, o chão tem camadas de sujeira e chiclete acumuladas de maneira paleontológicas, as escadas são um catálogo da poeira através dos anos. Quando chove então é a festa do caqui para as Salmonelas, algumas estações têm tantas goteiras que não é exagero dizer que você pode esperar o trem com um guarda-chuva.

Torça para nunca tropeçar e cair no chão, pois acredito ser necessário tomar uma injeção contra tétano.

Ao menos os vagões não são mais pichados com tinta e fezes, dando a impressão que o elenco inteiro de “Warriors, os Selvagens da Noite” vão pular pra fora assim que a porta abrir.

A favor do metrô de NY é a eficiência, e embora numa primeira vista entender como pegar o metrô aqui seja serviço de um engenheiro, com o tempo, pouco tempo aliás, você volta a lembrar o significado das palavras “cartesiano” e “lógica matemática”, e pegar um vagão é coisa facinha. Tem condução a noite inteira, e a quantidade de gente bizarra que entra nos trens é um festival de malucos anônimos.

E também existem espalhados am algumas estações, algumas esculturas de metal inadvertidamente divertidas. Lembram um pouco o Tio Patinhas de Carl Barks.

E com um pouco de sorte – ou azar – você vai ver, entre as montanhas de detritos entre os trilhos, ratos esticando as pernas à procura de um Cheetos perdido. E são ratos do tamanho de gatos! Alguns tão grandes que devem roubar salgadinhos dos usuários com uma faca.
E nessa hora você percebe quem é turista e quem é local – geralmente somente o turista aponta, grita ou para o que está fazendo por causa da nojidade dos ratos.

Esses mamíferos abjetos vivem na Columbus Circle.
Em contrapartida, roedor por roedor, na superfície, dezenas de esquilinhos cuti-cuti parecem que fazem pose nos gramados do Central Park pra você. E eles realmente são bonitinhos.

New Yorkers part 3

Continuando com a série da fauna novaiorquina aquarelada, apresento mais umas figuras que realmente passaram na frente deste ser e que mereceram ser eternizadas em água e tinta.

Fui ver “Star Trek” no dia da estréia, uhu, nos cine AMC, que fica perto da Times Square (25 salas de cinema distribuidos em 6 andares, é cinema a sair pelo ladrão), e ainda por cima em uma sala Imax, de estourar os miolos.
Na extensa fila, haviam diversos trekkers ansiosos pela entrada na sala de cinema. Esses eu achei que eram os mais figuras – um Spock adiposo e com feições latinas, bebendo um copo de coca de 750ml; um sujeito que devia ter uns 40 anos cumprimentando todos seus semelhantes com o sinal “longa vida e prosperidade” com as mãos; uma tenente Uhura 10 anos mais jovem e 40 quilos mais pesada e uma gateenha trekker com um belo par de pernas. Como eu já fui um trekkie na adolescência, chegando a ter um uniforme de oficial de ciências, dei um desconto pra esses caras. E complementando, o filme é vooda!

Embora não beba cerveja e nem nada que contenha algo etílico, e isso inclui ingestão de bombons de licor e Biotônico Fontoura, achei criativa o penteado neopunk dos atendentes de uma cervejaria chamada “Red Rooster”, ou “Galo Vermelho”. Embora não sejam todos funcionários que sacrificaram a cabeleira em troca de um merchandising abjeto, os poucos que estavam lá enchendo os copos da freguesia eram muito figuras. Tudo por dinheiro.

Essa mocinha muito estranha, um pouco acima do peso e com cabelos roxo, com dois piercings na face e talvez mais alguns nas partes pudentas, estava vestido de capa de chuva amarelinho, e nos pés, uma singela havaianas e um par de meias que não sei o nome, mas que são parecidas com aquelas usadas pela Jennifer Beals em “Flashdance” antes dela incorporar uma lésbica. Combinação deveras esdrúxula.

Andando na Segunda Avenida, perto da sede da ONU, em um dia de muito frio e ventania, em minha direção vinha um judeu devidamente caracterizado, mas com tudo esvoaçando, como se fosse uma versão “Matrix” judaica. Tanto tecido esparramado no ar me fez assustar um pouco, porque além do visual dinâmico e agressivo, o sujeito vinha com muita pressa em minha direção.

E esse senhor negro e muito magro vive na Times Square, na frente dos ônibus turísticos, fazendo performances tipo comédia pastelão, em troca de alguns quarters de dólares.

Uma mente ociosa é a oficina do diabo, já dizia o velho ditado

Não tive tempo de desenhar algo sobre isso, mas não deixarei de constar aqui por ser uma história digna de viagem na maionese das bem escorregadias.

Existe um mirante perto da ponte Queensboro, que é a ponte que vocë passa por ela se quiser ir para o aeroporto JFK, muito bonito e muito bem conservado, no extremo oeste da ilha, num lugar onde existem poucos turistas. Sem trombadinha nem cheiro de mijo nos cantos, tudo muito lindo e bem civilizado (aaah São Paulo duma figa…)

Sentei uns momentos pra curtir a paisagem quando de repente surge um senhor idoso, mas extremamente bem vestido com um terno de cortes caros, uma camisa cor de rosa e segurando um buquê de rosas brancas.

Ele para um momento na frente da grade contemplando o rio.

O primeiro pensamento que você tem quando vê aquilo é: “Olha só o tiozinho marcando um encontro romântico aqui”.

Mas minutos depois, o elegante senhor atira as rosas no East River e fica alguns minutos contemplando, para depois sair tranquilamente escadas acima. E deixa a pergunta no ar, em seguida a sua mente começa a imaginar as possibilidades do que pode ter acontecido.

Obviamente, a primeira coisa que vem na cabeça é que ele deve ter perdido a mulher ou filha e ele está lá pra prestar uma homenagem. Mas se não for isso?

Hummm, amanhã é o dia das mães aqui também, então ele não pode ter perdido a mãe, cremado seu corpo, jogado as cinzas no rio e todo ano ele aparece por aqui pra homenagear a mamita com rosas flutuantes? Pode ser, mas se não for?

Em seguida comecei a imaginar nas possibilidades mais criativas. Como, será que ele não levou um fora da namorada e foi lá pra decidir que ia chutar o pau da barraca e tomar todas até cair com coma alcoólico?

Será que ele não é um homossexual que terminou um relacionamento de longa data e agora ele estava se sentindo perdido como cachorro no dia de mudança e aquelas flores nao tinham mais utilidade?

Ou será que ele não é um homem muito solitário vivendo numa metrópole também solitária, que marcou um encontro pela internet com uma usuária do Twitter mas ela não foi, deixando nosso amigo com cara de jumento que não jantou?

Ou na pior viagem no melhor estilo acid trip, poderia ser este elegante senhor um terrorista que jogou um buquê no East River infectado com uma nova cepa de vírus que atacaria toda água de Nova York e deixaria seus habitantes numa crise aguda de diarréia que fariam evacuar seus próprios intestinos virados do avesso?

Seria ele um ex-combatente do Vietnã que, arrependido de tanta matança decidiu viver uma vida de elegância e celibato, homenageando seus amigos que morreram capturados pelos amarelos e morreram em jaulas cobertas de fezes?

Será que ele teria agendado uma abdução definitiva nessa noite e ele estaria dando um adeus solitário?

Ou simplesmente o sujeito é um maluco, cujo hobby é gastar uma grana preta em rosas brancas pra serem jogadas no rio e fazer mind games com os frequentadores do parque?

Mais gente estranha, gente esquisita, mas gente divertida

Postar desenho sem scanner é escovar os dentes com palha de aço, mas tem que servir por enquanto.

Mais aquarelinhas de gente que a gente encontra nas ruas de NY. Observar a fauna humana daqui é como observar a vida selvagem no meio do mato. Num primeiro momento não pare nada de novo. Aí, se você montar uma tocaia e ficar quietinho e só observar, tipo parado na frente de um cruzamento, será questão de minutos para que algum ser bizarro apareça.

Depois eu posto minha teoria do porquê as pessoas aqui serem assim. Com desenhinho fia mais explicativo, então a teoria fia pra depois.

E essa era a velhinha que apareceu no meio da noite no Starbucks perto da Times Square. Vestia um colante cor de rosa que nem Jennifer Beals teria coragem de usar em “Flashdance”. E tentei capturar o momento fúnebre em que reparei que a bunda dela era toda estufada, como se tivesse uma fralda geriátrica por baixo daquele pesadelo pink. Deus meu, elimine essa memória da minha cabeça….

A coisa mais comum de se ver aqui é gente passeando com dois cachorros ao mesmo tempo! Segundo informações de um proprietário de dupla canicidade, as pessoas compram dois cachorros porque um fica fazendo companhia para o outro quando o ilustre novaiorquino tem que ficar ausente pra trabalhar. Duas vezes alegria, duas vezes cocô.

Passei ontem no Ground Zero, antes o local onde ficavam as Torres Gêmeas, e lá vi esse operário com rabo de cavalo, que parecia ter saído daquele filme do John Carpenter, “They Live”. Um operário com musculatura bovina e com uma cabeleira nórdica.

Aqui também o que mais se vê é o estilo novaiorquino do executivo se vestir. Aqui no Brasil seria coisa pro Ronaldo Esper engolir espinha de peixe, de espanto, mas ver um marmanjo de terno e gravata com um boné, geralmente de algum time de basquete, baseball, hoquei ou futebol americano, é mais comum do que ver caixas automáticos aqui em NY. E o patinete, desses que um fedelho no começo de vida usa no Brasil, é muito fácil de ser visto carregando executivos indo ao trabalho. Também, NY é uma cidade cartesiana e plana, assim fica fácil.

E essa menina de shortinho minúsculo correndo numa tarde frigidíssima no Central Park, vestindo um cachecol e uma blusa, é uma visão bem comum. O curioso é que aqui em NY ninguém fica olhando pra bunda da mulher, ao contrário no Brasil, onde uma onda de fiu-fius e cantadas de primatas no cio inundariam os ouvidos da linda dona.
Alguns shorts eram tão pequeninos que é possível ver a cor da calcinha ou a dobrinha da bunda por dentro da vestimenta.

E essas duas são as modelos da sesão Sketch +Jazz da Sociedade dos Ilustradores.

Desenhos de maçã grande

Como prometido, estou postando alguns sketches que fiz nessa viagem. Algumas imagens crescem se você clicar nelas.

Verão que, ao contrário de outros ilustradores, eu não sou nem um pouco organizado nos desenhos. Tudo é muito misturado, confuso, incompleto, da mesma maneira que é a minha mente.

Mas é a maneira que eu gosto de rabiscar, não vou fugir disso só pra ficar bonitinho. O importante é que esse caderno de sketchbook virou meu cachorro, me segue pra todo lado e sempre tá abanando o rabo.


Basicamente, os sketches viraram uma maneira de organizar as idéias. É que de repente, no meio de uma anotação ao vivo de uma mulher vestindo uma roupa indecentemente divertida, vem uma idéia de um desenho que não tem nada a ver, mas tenho que desenhar na hora pra não esquecer.
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Mas tem um lado bom, sempre levo na bolsa agora um kitzinho de aquarela. Nos bloquinhos eu tento fazer desenhos mais organizados e um pouco melhor acabados, mas sem perder essa coisa de fazer na hora ou de não se importar em errar.


Essa é uma série que tô aquarelando dos tipos figuras que vejo aqui em NY, como a senhorinha de 80 anos que entrou numa Starbucks de colante, ou de uma japonesa vestindo uma fantasia de Cinderela no meio da Times Square.


Vou fazer depois uma com as coisas bizarras ou divertidas que vi em NY e que são corriqueiras aqui mas no Brasil são uma piada ou um ultraje, como os bueiros que saem vapor, que parecem lindos nos filmes mas que na verdade tem cheiro de merda quente e úmida, ou as máquinas que vendem comida de cachorro na rua por 25 cents ou a pizza de macarrão que vende na Domino’s Pizza, para os amantes de amido, acredito eu.

Sketch & Jazz na Society of Illustrators

A fada da TV a cabo passou no apartamento e finalmente instalou a TV (a sensação de ver o penúltimo episódio da temporada de House direto na TV, sem baixar no torrent, é quase igual a sexo) e também a internet.

Semana passada já havia conhecido a Society of Illustrators, um pequeno sonho realizado que eu tinha desde que me tornei ilustrador.

É um local de respeito, tem todo o clima novaiorquino que lembra algo das décadas de 30 a 50, muito bem organizado, e que deixa aquela sensação de que ilustração é uma profissão não apenas que deve ser respeitada, mas que também tem muito estilo. Aqui não é Londres, mas senti uma lufada de nobreza assim que entrei aqui (invejinha brasileira, mas nós temos o Bistecão, bem mais informal).


(além de tudo, bati um rango no restaurante, que vira salão de sketch, olhando os quadros de ilustradores porretas)

De qualquer forma, aqui deveria ser um ponto de visita obrigatório para qualquer ilustrador que vem visitar esses lados.


Estava lá, namorando os quadros expostos, a exposição “Fashion Illustration” que rolava lá, comprando um bonezinho quando vi um cartaz anunciando “Sketchnight every Thursday and Tuesday”. Perguntei se era aberto pra qualquer um. Of course, se pagar 15 dólares.

Pois bem, retornei ontem lá com muita expectativa, devo confessar. Afinal eu, um matuto de Mogi das Cruzes numa sessão de modelo vivo em Nova York na Sociedade dos Ilustradores no meio de alguns mitos da ilustração americana (se desse sorte, algum megaboga ilustrador como Anita Kuntz, Brad Holland ou Mark Ryden poderiam dar as caras por lá, segundo a atendente) seria o suficiente pras artérias entupirem de satisfação.

Mas não amiguinhos. A coisa foi muito melhor. Nada me prepararia para o que eu considerei até agora “A Night to Remember” dessa viagem.

Infelizmente, não era permitido tirar fotos da sessão de sketches, mas tentarei descrever nos mínimos arrepios.

Só podia tirar fotos até aqui, antes das ladies entrarem em pelo na sala.

Duas modelos superultramegaprofissionais entraram na sala, vestindo quimonos japoneses. Uma magricela alta linda e totalmente careca e outra gordinha baixinha, também linda, vestindo um chapéu de penas no estilo cabaret.

Todo mundo sentadinho em volta das ladies – senhores, caras engravatados, punks, garotos, franceses…quando o alarme toca, uma voz vai comandando a sessão: ‘First session, twelve minutes”.

E instantaneamente, as modelos assumem uma pose como se fossem bonecas automáticas. Arrepiosas!

Agora de repente, atrás de mim, acontece o tiro de misericórdia na cabeça! Uma coreana num piano e um sujeito parecido com o Elvis Costello no contrabaixo….tocando uma sessão de JAZZ ao vivo enquanto a turma desenhava! E era uma jam session porque eles improvisavam a todo momento.

Era um som de altíssima qualidade, e eu, que estava seco pra ir numa casa de jazz aqui em NY, matei duas vontades numa paulada só.

Por alguns minutos eu deixei de desenhar, pra só ficar observando todo mundo ilustrar as modelos com aquele fundo musical. Quase saiu uma lagriminha. Na verdade, saiu, mas foda-se, todo mundo tava de olhos nas peladas.

E vou lá eu, desenhando as modelos durante 3 horas (com intervalo de 20 minutos porque ninguém é de ferro, e mulheres com a pele à mostra devem tomar chazinho quente regularmente). No intervalo fucei os desenhos dos outros e a sensação foi de que todo mundo tem mais talento no fio do cílio do que você no corpo inteiro.


Chegou uma hora que eu só fiquei observando o indivíduo da frente, um senhor de luvinha amarelinha, que parecia tão fragil, rabiscar com uma facilidade com um toco de carvão. Eram obras de arte instantâneas.

No final, saí de lá com uma sensação morna e gostosa que não sentia há tempos, mesmo nesse frio agressivo que está fazendo, e feliz porque isso se repetirá toda terça e quinta. Na volta, ainda tive essa visão frígida e monstruosa do Empire State Building, de onde dois King Kongs tomaram um tombo.

Foi muito emocionante, o problema é que nunca mais vou conseguir desenhar modelo vivo no Brasil sem um piano e jazz ao fundo.