A origem de “A Origem” foi em Patópolis

Saí da sessão de “Inception” achando que alguém fez isso em mim quando comprei o apartamento na planta.

A idéia do filme não é nova, mas é divertido ver o processo quase em papel carbono que foi feita pela Disney, numa história em quadrinhos ilustrada pelo Don Rosa em que os Metralhas usam uma máquina para entrar no sonho do Tio Patinhas pra roubar segredos e o Pato Donald tem que entrar no sonho também pra protegê-lo.
Uma das coisas legais do Don Rosa é que ele usa elementos de histórias criadas por Carl Barks em outras situações. Só os bravos lembram de Dora Cintilante.

A história completa, “The Dream of a Lifetime” tá aqui nesse link. Don Rosa não é Christopher Nolan, mas é tão genial quanto.

Pinóquio, The Vampire Slayer

Não, você não leu “Buffy”.

O que acontece quando você mistura melancia com gema de ovo crua? Ou futebol com kung fu? Ou contos de fada com vampiros? Algo muito bom ou lixo exponencial.
Essa eu vi no Omelete. Muita coragem é preciso quando um nariz de madeira que vira estaca é mote pra um gibi inteiro.
Pinoq
Sai em setembro nos EUA. Tem um ar trash de “Tartarugas Ninjas”

Em breve, Chapeuzinho Vermelho adolescente caçando lobisomens com roupa de latex rubro.

Como ler um calhamaço de 590 páginas e se sentir leve como uma espuma

Na minha pequena antibiblioteca não existem muitos quadrinhos. Foi-se a época em que os quadrinhos de super-heróis e os mangás me divertiam só pelos seus traços, mas me decepcionaram tristemente com o conteúdo, com suas devidas exceções, que fazem a regra.

E lá vai a lista dos quadrinhos que viraram referência mais como literatura do que como quadrinhos em si: os trabalhos dos gêmeos Fábio Moon e Gabriel Bá, do Grampá, Persépolis, Maus, Preto-e-Branco, Gorazde, Flight, etc., etc. Bem fresco e eclético, como diriam alguns em estágio inicial de alfabetização. É o círculo da vida. Para cada pseudomangá mequetrefe surge um “Catatônico” para equilibrar o caos.
retalhos
O último dessa lista foi “Retalhos”, de Craig Thompson (49 paus bem gastos, Editora Quadrinhos na Cia). Faz tempo que um quadrinho não me impressiona desse jeito, mais exatamente uns 4 meses.
O livro é fantástico, a história e a maneira de contar a história, muito pesada em alguns pontos e cercada de exorcismos pessoais, cujo cara tem que ter 3 bolas pra ter coragem de se expor assim em um romance, é uma aula de como um quadrinho jovem, e não necessariamente adulto, tem que ser feito. Foi escrito e ilustrado em 2003, e confesso que não o conhecia. Ganhou merecidamente os Harveys e os Eisners.
craig
Eu li o calhamaço de 590 páginas em 2 horas e um pouquinho, terminando o volume admirado com a narrativa. Tudo bem, posso ter me identificado um pouco com a história de Thompson em alguns aspectos na minha infância, que não foi exatamente um veludo macio.

Tem um pouco de tudo com o que acontece com um garoto pobre, um pai autoritário, cercado pela Igreja fazendo pressão em seu ser jovem como uma gorda sentada em um pequinês, sufocante. E o que acontece com esse garoto, que só consegue fugir desse mundo escroto através do desenho, quando ele se apaixona pela primeira vez por uma garota metade muito legal e metade muito pobrema.

E o traço dele é simples e belo, com linhas feitas a pincel muito soltas e suaves. Aprendam garotos, que nunca, jamais o traço será melhor do que a história (se bem que um desenho genial acompanhando uma grande história é duplamente arrasável).
thompsonpencial
Vale a pena checar o blog do Thompson. O boa-pinta desenhista mostra lá os projetos e ilustrações. E fica uma dúvida, como é que esses caras conseguem ser magros e encorpados sendo ilustradores?

A nova cara da Flight 6

Fãs! Regozeiem-se!!
Aos poucos, porém crescentes, fãs da revista Flight, eis que Kazu Kibuishi, ilustrador de todas capas desta revista, já apresentou a cara da edição de 2009. Digna de soltar um palavrão de admiração.

Para quem não conhece, aí vai o post que escrevi detalhadas rasgações de seda. Considero a Flight uma das melhores edições em quadrinhos do momento, mesmo com o conteúdo às vezes irregular, mas só o fato de ser uma galeria de quadrinhos de gente que eu limparia os pés beijando (Scott C, Jen Wang, Catia Chien, Hope Larson, Vera Bee, afe), já garante um espaço vitalício na minha estante.

Engrenagem de metal sólida

Ainda me recompondo da ofensa em forma de game que foi Street Fighter IV – que foi devidamente trocado por Animal Crossing pra Wii – em compensação deparei com uma surpresa nas bancas ao ponto de soltar um “oh!”.

Sketcheiros e desenhistas que não se contentam com as linhas acadêmicas, emiti fluidos pela boca quando vi um gibi de Metal Gear Solid com as mesmas ilustrações que foram usadas no manual – ilustrados por Ashley Wood (será ele ou ela?). Tudo muito solto e espirrando tinta pra todo lado. É um festival de técnicas – digital, guache, aquarela, lápis, nanquim, óleo diesel e cocô de periquito – que em algum momento lembram os trabalhos do velho Bill Sienkiewicz e o John J. Muth. Aliás, alguém tem “Big Numbers” pra emprestar?

A história é bem remerrenha, os diálogos tem a naturalidade polímera da novela dos mutantes, mas as ilustrações compensam os 32 dinheiros gastos. Uma pechincha perto dos quase 300 dinheiros que o game cobra, se bem que o game Metal Gear Solid pra Play3 tem culhões pra ser chamado de game.

Watching the Watchmen

[img:watchbook.jpg,full,alinhar_esq_caixa]Mais um livro que comprei que faz você se lembrar para que dinheiro serve.

Para um über fã de Watchmen como eu – que li pelo menos umas dez vezes sem exageros, pois cada vez você reparava em coisas novas – e também um devorador de sketches, esse livro, Watching the Watchmen, que você encontra por 100 arames em qualquer livraria decente, esse livro é tão bom ao ponto de tirar sua libido. Assim como eu, muita gente deve ter tomado a decisão de ler Watchment em três partes diferenetes: primeiro a história, depois os “Contos do Cargueiro Negro” e depois as notas dos personagens no final da revista, e depois juntar as três coisas.

São centenas de sketches, planilhas de programação e pensamentos de Dave Gibbons (sem Alan Moore, que azeda até copo de leite se estiver por perto) dessa obra prima que, ao lado do “Cavaleiro das Trevas” de Frank Miller – o Benjamin Button dos quadrinhos, pois começou muito, muito bom e foi desaprendendo com o tempo – fez com que qualquer moleque nerd fã de quadrinhos tenha saudade do ano de 1986.


Entre outros estudos, Rorschach tinha um uniforme todo feito do tecido da máscara, o que dava pra ele uma aparência de um dálmata. Dêem um dólar pra mente de bom senso que não aprovou esse costume.

Watchmen foi a mola que me fez interessar por ler sobre teoria dos caos, fractais e filosofia da ciência – o livro de James Gleick, Caos, é de tirar o chapéu, e esse livro me levou a outro melhor ainda, por tratar de desenho, chamado “O Poder dos Limites”, de Gyorgi Doczi, que mostra como estruturas, formas e proporções se repetem constantemente na natureza em todos os níveis de tamanho, até chegar a junção com o I Ching, esse um conhecido bem mais velho.

Esperemos agora o filme. Se não for no mínimo ótimo, mandaremos sentimentos de ódio aos milhões para Zack Snyder para suas bolas caiam no chão e virem brinquedo de gato vadio.

Por Tutatis!

Saiu hoje na Folha.

A Record lançou no Brasil o livro “Asterix e seus amigos” (cerca de 25 dinheiros). É uma compilação joinha de 60 ilustradores europeus que deram a sua versão para Asterix. No jornal também tem umas ilustrações feitas por ilustradores brasileiros, como Orlando e Caco Galhardo feitas a pedido do mesmo mas ainda não encontrei nenhuma imagem na internet ainda.

Aqui tem uma pesadérrima versão aperitivo online.

As versões de baixo são de Milo Manara e Vicar, que faz um crossover com Patópolis no estilo Carl Barks, tornando-se assim no meu preferido.

Pra quem é ilustrador, Asterix faz parte da mesma fenda do tempo em que se lia compulsivamente Moebius, Bilal, Manara e Hugo Pratt, devendo a eles uma parcela de culpa de terem seguido essa profissão que corre risco. Quem tem mais de 40 teve uma pilha de Asterix ao lado de uma pilha de Playboys, ambos sagrados e sem permissão de manuseio por terceiros, sob pena de tecidos do corpo humano serem rasgados com justa causa.

Mickey de bermudão e sem camisa era mais charmoso

Eu prefiro o Charlie Brown no começo de carreira, quando ele e Snoopy eram mais fofinhos e alegres, tornando-se depois deprê demais pro meu gosto sensível e anti-uruca (mas isso fica prum próximo post).

A lógica também se repete com o Mickey. Gosto mais das ilustrações do começo, da era de ouro da década de 30. Ele era mais minimalista, mais gráfico, os desenhos eram mais limpos e podem tacar tatus e pedras, mas acho que ele tinha mais personalidade.

O responsável pelo Mickey de bermudão vermelho e botões amarelos (que na verdade eram preto e branco) foi Floyd Gottfredson, talvez não tão famoso quanto Carl Barks com seu fantástico trabalho com a família Pato, mas tão icônico e importante quanto.

No blog Inspiration Grab, do cartunista Clark Snyde, estão dezenas de tirinhas de jornal desse Mickey agradável. É nostalgia suficiente para fazer Dercy Gonçalves virar mocinha.

Mr. Wonderful é wonderful por que é do Daniel Clowes e é de graça

Baixar coisas da internet é o atualmente o esporte preferido de 8 entre 10 seres que vivem na frente de um computador, mas quando aparece algo de graça, com qualidade e com permissão, é um evento quase místico. É prato cheio para a nação do Movimento dos Sem Um Puto.

No site do New York Times está disponibilizando uma obra inteira de Daniel Clowes, chamada Mr. Wonderful. Para quem lê inglês um pouco mais do que “The book is on the table” ou “shut up, motherfucker”, é biscoito fino oferecido de graça. Quem gostar dessa história, pode comprar Ghost World, que até virou filme, e Eightball, outros trabalhos dele pra se colocar na estante.

A base científica-pneumática do laço da verdade da Mulher Maravilha

alexrosswwAssistindo a um programa idiota de TV sobre super-heróis, na History Channel, eis que surgem várias pérolas da cultura inútil, que, para mim, são como grãos de feijão que podem um dia virar assunto de lâmina de bandeja.

William Moulton Marston foi o criador da Mulher-Maravilha, em 1941. No começo ela não se chamava “Wonder Woman”, e sim “Suprema”. Moulon era feminista (gostava tanto das mulheres que tinha duas esposas ao mesmo tempo), e era inventor.
E eis que Moulton foi o pai do polígrafo, o famigerado detetor de mentiras. Moulton criou um sistema que permitia perceber variações de pressão do sangue se o sujeito estava mentindo através de uma faixa apertada no peito e nos braços, e olha só, o laço dourado que faz qualquer cangaceiro falar a verdade deve ter sido baseado nesse invento, pois é só dar um aperto que o sujeito abre o bico.

E outra curiosidade do mundo pop que apareceu lá: Arnold Schwarzenegger não era a primeira escolha pra ser o primeiro Exterminador do Futuro. A primeira escolha, que recusou por motivos escusos, era…O.J. Simpson!!

O cara virou Exterminador na vida real.

A Caixa Forte do Tio Patinhas não é oca

Enquanto existirem pessoas com tempo e disposição sobrando, o mundo vai ser mais divertido.

Quem leu as histórias do Carl Barks sabe que ele foi o melhor desenhista de quadrinhos da Disney. A história do Donald inventando a Patomite a partir do estojo de química dos sobrinhos é mijante de dar risada. Daí veio o Keno Don Rosa, que é atualmente o melhor ilustrador da família pato.

Num momento de muita inspiração, Don Rosa criou as plantas da Caixa-Forte do Tio Patinhas, aquela que a gente jurava que era oca pra caber mais moedinhas quando criança. Mas não é, tem mais andares que o prédio da McCann. Fuçando um pouco no São Gúgol, encontrei as benditas plantas:

Mat Skull então pegou as plantas e criou uma maquete muito convincente da Caixa-Forte. Incluindo a Sala da Preocupação e as armadilhas de urso. É um iluminado desocupado. Só não vi o canhão que o Tio Patinhas usava para molestar os Irmãos Metralha.

Estava lendo um gibi do Donald ilustrado pelo Don Rosa e caiu uma ficha. Ao mesmo tempo em que os desenhos dele tentam seguir o melhor possível o estilo de Carl Barks, no fundo ele tem uma pegada underground. O uso das hachuras, das áreas escuras, tudo fica com uma cara “Robert Crumb” mais suave. Somado ao humor negro que ele usa em suas histórias, é uma mistura irresistível.

Guerra dos Mundos grátis

Visto no blog Drawn, uma oferta irrecusável de uma adaptação de 125 páginas de “A Guerra dos Mundos”, de H. G. Wells, adaptada para o estilo da época em que ele foi criado originalmente, totalmente di grátis, na faixa, escrita e adaptada por Ian Edginton e ilustrada por D’Israeli.

Embora bem adaptada, sem muitas inovações (creio que propositais) ainda acho melhor o livro original, sem ilustrações. H. G. Wells era um ótimo construtor de “imagens mentais”, você viaja em seus livros em primeira classe, era um mestre pra descrever ações, ambientes e climas tétricos. Infelizmente trituraram “A Ilha do Dr. Moreau” em adaptações abismais, principalmente a última com o Marlon Brando. E um dia irão descobrir “O Alimento dos Deuses” e algum ilustrador inspirado vai fazer uma adaptação da história em que animais e pessoas comem um alimento misterioso e aumentam de tamanho.

Flight

Chegou quentinha o volume 4 da revista Flight. R$69,00 pedindo na Livraria Cultura, que também traz os outros volumes em um mês mais ou menos.

Virei fã da Flight desde o ano passado. Comprei numa livraria do aeroporto de Munique pra ter o que ler no avião, arriscando mais por causa da capa, e depois disso virei fã da maioria dos seus autores. É um livro em quadrinhos editado por Kazuo Kibuishi, autor de 3 das 4 capas, e sai todo ano. A linha editorial da Flight envolve autores que não possuem uma linguagem muito convencional de quadrinhos, uma parte deles trabalham com animação (alguns fazem sketches pra Warner, Pixar e Nickelodeon) e outros tem mesmo um pé na ilustração comercial. E outros fazem quadrinhos bem diferentes do circuito mangá-Marvel-DC (tem alguns que derrapam um pouco nesse campo, mas é natural).

Nem todo o conteúdo da Flight é genial. É como um CD com 24 músicas, nem todas são legais (no meu gosto, as histórias envolvendo bichinhos falantes, fadas, duendes e guerreiros musculosos em um universo futurista são um ponto baixo). Mas as outras histórias compensam em dobro, quiçá o triplo. No geral, elas possuem uma criatividade inspiradora, ficam no limiar do underground e do corretinho pão-com-manteiga, ou seja, são trangressoras mas não são pretensiosas, não precisam de um manual urbano-artístico pra entender a leitura, e a maioria delas, pelo fato de serem histórias curtas, conseguem sintetizar um bom roteiro junto com desenhos magníficos.
E a edição é primorosa, não faz feio na estante.

(Destiny Express, de Jen Wang, Flight 2. É a história de uma menininha que desenha enquanto espera o trem. Mais sintético, só fazendo :-o)
Alguns dos autores mais freqüentes da Flight são meus colírios para esta vista cansada de ver tanta guerra. Vera Brosgol, Jen Wang, Justin Ridge, Cris Appelhans, Hope Larson, Catia Chien, Bill Plimpton, Israel Sanchez, uma belíssima supresa nesse quarto número. Fábio Moon entrou com uma história singela chamada “Cortina”. Se parar pra pensar, o trabalho de Bá e Moon tem mesmo a cara da Flight.

É quase um catálogo criativo, uma Heavy Metal menos pretensiosa e mais simples.

(The Espresso Police, de Yoko Tanaka, em Fligh 3. Um crítico de café espresso e seu ajudante macaquinho. Só.)

(The Blue Guitar, de Neil Babra, Fligh 4. Desenhos maviosos.)
O blog Flight também é um acepipe criativo quase comparado ao blog Drawn ou Line and Colors na quantidade e variedade de informações, mas voltado pro conteúdo e pros colaboradores da revista.

Em tempo, se tiver que escolher só duas por causa da grana, compre o volume 2 e o 4 que são os melhores. Vem com musa inspiradora de brinde.

Carlos Estevão

Houve uma época em que as coisas pareciam mais ingênuas, as notícias eram em preto-e-branco, os pais davam o nome de “Getúlio” aos seus filhos e os carros tinham uma lataria da grossura de uma pizza.

Nessa época, mais ou menos na época de 60, havia um ilustrador e chargista muito pelúcio, como diz o Hector Gomes. Tinha um humor negro refinado e um traço que lembrava muito o tipo de trabalho do Aragonés ou do Prohias, autor de Spy vs Spy, da Revista Mad. O nome dele era Carlos Estevão.

Eu achei há alguns meses um exemplar de “Ser Mulher” em um sebo (o nome sebo vem de “ensebados”, o estado de que alguns livros se encontram à venda nesse tipo de recinto, o que não faz juz porque já encontrei pérolas baratinhas nesses lugares). É uma compilação dos trabalhos antigos de Carlos Estevão na finada revista “O Cruzeiro”, o preferido da sua avó nas leituras no cabelereiro (que há anos eram a maioria japonesas e se chamavam “Neusa”). Era conterrâneo do Péricles, criador do famoso “O Amigo da Onça”, personagem totalmente incorreto que, nos dias de hoje, seria passivo de processos e reclamações por uma pequena turba (falsa) moralista. Ri à beça com essa revista.


No site Memória Viva (entre na opção “Carlos Estevão) tem uma coleção com outras charges do Carlos Estevão. Você vai ver que naquela época, marginal no Rio era o sujeito que andava todo de branco, na estica, tocando um sambinha na madrugada e filando cerveja dos outros. Que piada.

Hope Larson

Senhores, contemplem!

Admiro há tempos o trabalho de Hope Larson, que faz parte do mesmo time (que sou fã) da Vera Brosgol, Jen Wang, Catia Chien e de mais uma cambada de talento, que podem ser vistos em bando na revista Flight (essa semana ainda vou postar algo sobre essa revista, só esperando a nº 4 chegar nessas mãos ansiosas).

Eu tenho dois livros dela, o Grey Horses e o Salamander Dreams.

Quem curte uma história sem supersujeitos, mas com uma boa dose de poesia e delicadeza com aquele toquezinho de limão feminino, sorria que hoje o sol nasce mais cedo. Para felicidade dos mortais gostam desse tipo de trabalho e contam os centavos no final do mês, ela disponibilizou “Salamander Dreams” inteirinha pra download!

Ela merece um beijo de agradecimento (e comentário típico de homem, além de talentosa também tem uma beleza suspirável). Muy hermosa.

De graça e com autorização da criadora não é toda hora que aparece.

E esse é o cafofo onde saem essas delicadezas na forma de quadrinhos. Por que toda ilustradora tem um gato no estúdio?

American Born Chinese

Esse final de semana comprei “American Born Chinese” , escrito e ilustrado por Gene Luen Yang, na Cultura, fisgado pelos elogios e pelos prêmios que ele ganhou por aí afora.

Grata surpresa, American Born Chinese é um livro que todo descendente de orientais deveria ler. Principalmente aqueles adolescentes que se sentem leprosos dentro da própria comunidade e fora dela ao mesmo tempo. Atire a primeira merda aquele de olhos puxados que, se não for o próprio, tem um irmão ou um primo que queria nascer ocidental, aparentemente achando que as coisas seriam mais fáceis ou sofreriam menos preconceitos se fossem loiros, ao mesmo tempo que negam as raízes e o goham (arroz) grudento da mamãe.

O enredo também serve como uma meia de náilon sexy pra todos os que se sentem deslocados por um motivo ou outro, seja por questões de nacionalidade, cor, religião, profissão ou crença. Basicamente o mote do livro é” entender qual a sua natureza e não tentar ser outra coisa”.

A nação Alien é maior do que se pensa.

A história não é tão cabeça ou genial como “Maus” ou “Persépolis”, mas pega no nervo de quem se reconhece no protagonista. Várias vezes pensei “esse carinha sou eu quando era skatista calhorda e mal-resolvido na vida”.

Tem uma história do Laerte maravilhosa sobre um cara que descobre que todo mundo na família dele não é o que parece. Todo mundo tem um zíper nas costas e no mometo da revelação, o pai se mostra mãe, a mãe vira pai e o próprio cara abre o zíper e a pele cai, mostrando que ele na verdade é negro.
Eu vivia procurando esse zíper nas minhas costas quando adolescente.

Sempre fui do contra, a ovelha gorda e negra da família. Me sentia num limbo genético, afinal não era nem japonês nem brasileiro, mas alguma coisa no meio do caminho, dúvidas essas que somem quando você chega aos quarenta anos. O problema é quando isso persiste depois de velho.
Evitei escolas japonesas na minha infância (ironicamente porque meu português era putrefato), não ia em festinhas de orientais, nem em casamentos intermináveis pra gritar banzai e sair com japoneses bebaços. O Kako fala japonês melhor do que eu, e percebo que perdi uma bela oportunidade de ler kanji como Mestre Miyagi.
Todo meu universo na adolescência foi cercado por italianos e espanhóis (principalmente das italianas e espanholas).

Escutar alguém dizer “undokai”, “missê”, ou “shoogatsu” me davam arrepios, da mesma forma que me davam arrepios ver a Rosa Miyaki cantar com seu microfone com luvinhas na TV. Hoje se escuto um estranho dizer essas palavras me dá saudade.

Voltando ao livro, o desenho não é elaborado, tem um estilo bem cartum, quase infantil. Tudo é bem sintético e econômico, a diagramação dos quadrinhos é comportada, sem nenhum devaneio de estourar quadros ou recursos visuais nheco-nhecos, o que facilita a fluidez da história, que é o mais importante.

São três histórias contadas paralelamente: a do menininho que veio da China morar nos EUA e quer se integrar na escolinha em que estuda, a história do deus-macaco chinês que quer ser aceito entre os grandes deuses chineses e a história de um adolescente americano que tem vergonha de um primo idiota chinês. No final essas histórias se encontram fechando a historinha de maneira bem redondinha.

Se você se sente estabanado e frutinha como o Hiro (o do seriado, não eu) e tem raiva disso ou você acha que trocaram você na maternidade, esse livro vai te trazer um pouco de paz de espírito.

Sumimassen!

Calvin e Haroldo, o Filme

Sem trombetas nem corações entrando em colapso.

Persépolis vai ser uma animação em longa metragem. Calvin, o filme, não.

É uma experiência feita por uma aluno italiano chamado Donato di Carlo para seu curso de artes.
Embora seja um projeto amador, com falhas de desenho e continuidade, no geral ficou muito bom! Existem parte animadas por colagem, talvez feitas num Flash, mas outras são desenhadas na munheca mesmo. Como experiência de um outro olhar sobre Calvin, vale a pena. Mas acho que se fosse feito pelo próprio Watterson, as cenas, enquadramentos e ate mesmo a musiquinha seriam beem diferentes.

Mas quem tiver a esperança disso virar algo mais profiça vai ficar esperando Godot.

Bill Watterson sempre foi contra a utilização de Calvin em outras mídias que não fossem os quadrinhos. Em merchandising então ele é visceralmente contra.
É por isso que nunca se viu nenhum joguinho, camiseta, chocolate ou xarope do Calvin. Se existem é coisa da terra de Camelot.

Agora, quem quiser ver uma versão bem trash do Calvin, também tem um sketch do “Frango Robô”, que passa no Adult Swim. É tosco ao quadrado, uma animação de massinha feita por indigentes. Não é todo mundo que vai gostar, mas acho divertido por não se levar a sério. Onde mais você veria um Transformer morrendo de câncer de próstata?

Quem criou “Frango Robô” é o ator Seth Green, o filho do Dr. Evil em Austin Powers e namorado lobisomen da feiticeira lésbica de Buffy, a Caça-Vampiros. Um currículo de mestre.

Persépolis, o filme

Dei um pulo na cadeira quando vi a notícia no Drawn!

Persépolis virou animação de longa metragem!

E parece que é muito, muito, muito bom! Arre! E nem sabia que isso estava em produção. Dá uma sacada no teaser!

Já comentei sobre Persépolis aqui. Pra mim é um dos melhores quadrinhos já feitos, ao lado de Maus. Nem é quadrinho, é literatura mesmo. Sem explosões, espadas ou gente soltando raio pelas ventas, mas com muita sensibilidade. O melhor exemplo de quadrinhos onde o menos é mais.
O desenho é simples, sintético, sem firulas diagramóides nem cores ardidas. Mas é maravilhoso. E a história é muito boa, pra mim ganha longe do Livreiro de Cabul ou do Caçador de Pipas. Marjani Satrapi, a própria protagonista, põe você dentro de 40 anos de história polvorosa do Irã. Acima dos fatos históricos, o que faz Persépolis campeão são os pequenos detalhes, como a venda de fitas K7 piratas da Madonna ou os passeios de carro numa cidade em polvorosa pela revolução islâmica. Não é isso que o ditado diz? Que o diabo mora nos detalhes?

A grosso modo, seria uma Mafalda muçulmana, que ficou jovem e virou mulher. E fuma. (Se Mafalda ficasse velha, ficaria igualzinha a Oriana Falacci, uma jornalista italina cano-grosso que morreu há pouco tempo).

(Essa é a Marjani Satrapi, tem a cara da Marji do Persépolis, dãã!)

Pelo pouco que vi da animação, os traços estão mais refinados que o gibi, como movimentos leves e delicados. E ótimo, é em preto-e-branco. E em francês! E de francês só sei o que é Camembert!

No Youtube ainda tem 3 pequenos clips de um minuto e meio. É conferir e arrepiar os pelinhos do braço. E aproveitem porque acho que logologo eles vão ser retirados.



Ainda dá pra comprar os livros em lugares como a Cultura.

Art Spiegelman em Paraty

Saiu hoje na Folha, Art Spiegelman vem ao Brasil pra Feira Literária de Paraty, o Flip, em julho desse ano.
Dá até uma tentação de pegar um ônibus e ir pra lá.
Valeria a pena, ficar de frente com Art Spiegelman só pra ver o que ele tem pra falar. O cara tem conteúdo, e lembraria dos meus tempos de tiete quando pedi um autógrafo pro Will Eisner. Veremos o que acontece em julho.

Pra quem não conhece o figura, Spiegelman é o criador de “Maus”, uma das melhores histórias ilustradas já feitas. Acho que é leitura obrigatória pra quem pretende escrever, seja livros ou histórias em quadrinhos, por causa da maneira que ele escreve, a estrutura da história e a qualidade dos diálogos. De certo modo, ele é até melhor do que “A Lista de Schindler”, por eliminar o contexto “emotivo” de uma história sobre campos de concentração contada por um judeu.
A narrativa é crua e didática, não faz concessões nem pro pai, retratado no livro. Não foi à toa que ganhou o prêmio Pulitzer de literatura em 1992 e a revista Time o elegeu como uma das 100 pessoas mais influentes no mundo.

Olha ele aí como um “Maus”, com o indefectível colete preto.

É o tipo de história anos-luz à frente de uma historinha em quadrinhos simples, tanto que nem vale a pena comparações. Um dos erros que não cometo mais é empurrar esse tipo de literatura para quem pede sugestões, mas adora Quarteto Fantástico e Dragon Ball. Se ele tiver que pegar gosto por esse tipo de livro, tem que ser naturalmente, para não acontecer o contrário e pegar aversão. Aí só o tempo vai fazer esse amadurecimento, como acontece com o mamão verde. Só dou o nome do livro, sempre acompanhado com as sempre presente frases “ah, o desenho não é muito bom”, ou “tem texto demais, dá preguiça de ler”, ou ainda “não tem explosão, não acontece nada”.

Outra que é nessa mesma linha e tão bom quanto é Persépolis, que já está no volume 4. Também pra quem não sabe, é a autobiografia da ilustradora/escritora Marjane Satrapi, e paralelamente conta também a história da revolução cultural no Irã. Desenhos simples que apóiam uma história rica e bem-contada.


Outro dia estava numa reunião com um cliente e uma diretora de marketing perguntou se eu havia lido “O Livreiro de Cabul”. Eu disse que sim, o que foi um gancho pra ela soltar a verborragia sobre o que achou do livro, que era maravilhoso e tal, a maioria retirada de matérias da Veja ou Folha de São Paulo. Igual na época em que filmes iranianos estavam na moda. De qualquer forma, ela perguntou se eu havia gostado do livro e eu disse “é bem didático, mas como história sobre o Oriente Médio, Persépolis dá de dez a zero”.
E ela: “Persépolis? Não ouvi falar, não deve ser muito bom”.

Afe! Vai ler “O Segredo” e seja feliz, então.

Sociedade das Camas Voadoras

Esse desenho saiu da lâmina de bandeja do McDonald’s chamada “Grandes Direitos para Pequenas Crianças” que fiz há alguns anos atrás. Especialmente esse desenho teve um gostinho especial de fazê-lo porque eu esboçava essa menininha voando na cama desde a época de 70, quando fazia o primeiro grau em Mogi das Cruzes. Ou seja, carreguei essa imagem na minha cabeça por 30 anos, e num momento oportuno ela virou uma ilustração até que bem feitinha pra ser vista por mais de 10 milhões de pessoas. Bah!

Felizardo fui eu que tive um pai que me deu Little Nemo in Slumberland com Continue reading

Blacksad

Blacksad é um dos gibis mais bonitos feitos nos últimos anos. Sem exageros.
E encontrei esse livro feito de açúcar para os olhos na livraria Continuara, a maior loja de gibis de Barcelona. Um livro de sketches do Blacksad.

Sketches são como churrascos de filé feitos em churrasqueira de barril. Dependendo do churrasqueiro ficam divinos ou coisas que o gato joga terra em cima.

Blacksad é um personagem que mistura Batman, o detetive Sam Spade, de Raymond Chandler, Disney e Thundercats. Ele é o próprio Cavaleiro das Trevas que ronrona, o gato preto detetive com porte do ator Jean Reno.

As histórias são escritas por Juan Diaz Canales e o desenho, ah o desenho…quem faz é Continue reading

Spirit

Meses atrás redescobri dentro de uma caixa que não era aberta desde que mudei de casa, duas coisas que achei que tinha perdido pra sempre: minha coleção da revista Kripta e a revista do Spirit autografada pelo Will Eisner.

Foi numa das vezes que ele veio ao Brasil, há uns 15 anos atrás. Fiquei um tempão na fila no MIS esperando Continue reading