Grandes direitos das crianças – o livro

Há alguns muitos anos atrás, eu fiz uma lâmina de bandeja com textos do meu comparsa Marcelo Lourenço chamada “Grandes Direitos Para Pequenas Crianças”, ainda na época em que eu trabalhava na Taterka, a agência que cuida da conta do McDonald’s. Quem viu minhas palestras sabe que eu sempre a menciono como uma das minhas mais-mais lâminas preferidas, não por causa do desenho, mas por causa da candura dos textos, da idéia e a motivação que ela tinha aberto uma possibilidade dentro da minha carreira de fazer algo diferente do que a gente chama de ‘linha de produção industrial” dentro da ilustração publicitária. Em outras palavras, começava a coceira de fazer algo como autor. A lâmina tinha muito potencial e sempre tive vontade de fazer a segunda. E a idéia ficou conservada a vácuo por anos e no final já havia decidido que um dia iria transformá-la em livro, visto que dificilmente seria transformada em uma segunda lâmina de bandeja, já que os temas delas eu não tenho mais autonomia.

Mas também a vontade de fazer livros sempre empaca nesse ridículo complexo de Tolkien que eu e mais uma caralhada de escritores tem de achar que só livros pesados e com muitas páginas podem ser considerados livros perfeitos. Como perfeição não existe, ela vira desculpa pra não publicar nada, sempre revisando, sempre reescrevendo. Não é, sempre tive a consciência de que muitas lâminas de bandeja antigas tinham temas e desenhos tão interessantes que eram como se fossem um livro de uma página só. Então, por que não tentar?

Há alguns meses, a Panda Books me convidou para fazer alguns livros, o que vulgarmente damos o nome de juntar a fome com a vontade de comer, ou outras coisas mais vulgares não aconselháveis para crianças, e eis que orgulhosamente apresento o primeiro rebento, o que considero o primeiro livro autoral meu, em parceria também com o famigerado Marcelo Lourenço: O Livro dos Grandes Direitos das Crianças!

São 40 novos direitos, 40 páginas com 40 ilustrações novas e mais alguns de lambuja. As ilustrações seriam feitas a traço bem forte, característico dos meus trabalhos, mas o pessoal aqui concordou que deixando a lápis o traço mesmo imperfeito ficava mais agradável.

Confesso que estou empolgado como uma garotinha de vestido novo, porque ao entregá-lo e vê-lo inteiro, editado, bonitão e pimpão, deu uma puta vontade de escrever e ilustrar mais livros, coisa que vinha tentando há algum tempo e estava reprimida como uma roqueira em um convento pintado de cinza-chumbo.Vai que eu pego (e sinto que estou pegando) o gosto pela coisa?

O lançamento do livro em São Paulo será na Livraria da Vila da Alameda Lorena 1731 no dia 15 de outubro, a partir das 16h. Você vai? Você vai?

Obviamente, darei uma de Gustavo Duarte e farei um desenhinho em cada autógrafo que darei (pensei em fazer com Shaun Tan, de carimbar um só desenho em cada livro pra ficar mais rápido, mas achei um pouco cafajeste a idéia).

Estamos estudando também como fazer uma oficinazinha de desenho no dia para crianças, mais detalhes mais pra frente.

Também estamos estudando como lançá-lo no Rio de Janeiro e em outros lugares. Onde houver um a criança ou um marmanjo, estarei lá.

Em tempo: Heroines vai ser o próximo livro.

A cabeça de Miyazaki

Em épocas nada gloriosas da minha vida, particularmente quando minha carreira era fétida e sem perspectivas como uma bola de pelo de gatos, quando havia desistido de ser ilustrador para trabalhar com publicidade, uma das coisas que me deram força pra continuar gostando de desenho em circunstâncias adversas foi Totoro. Toda vez que via Totoro eu ficava fascinado como uma criança que repete o filme dezenas de vezes e canta a musiquinha no final, e esse fascínio me fazia pegar no lápis e rabiscar alguma coisa mesmo sem utilidade, sem qualidade ou sem pretensão. As cenas da árvore gigante crescendo ou do Gato Ônibus mexiam comigo. Sem esses rabiscos esporádicos durante essa fase, dificilmente eu retornaria a trabalhar com ilustração alguns anos depois.

Ninguém como Hayao Miyazaki consegue fazer trabalhos que inspiram tanto uma criança com cheiro de leite na roupa como um adulto com dívidas no banco, passando obviamente por uma renca de ilustradores, animadores e escritores que ergueriam um altar para ele em um cantinho especial da casa. Lógico, tem gente que torce o nariz pra ele, mas esses a gente não convida pra brincar.

Quem é fã dele e tem um inglês azeitado deve tem que ler “Starting Point” – R$68 dinheiros na Livraria Cultura.

O livro é um apanhado de entrevistas, ensaios e pensamentos de Miyazaki durante o período de 1979 a 1996. É um livro delicioso, é um TED escrito em papel. Ali Miyazaki fala sobre a paixão de desenhar, de como as idéias nascem, do que uma história tem que ter para ser boa, como ele constrói um personagem, o que ele acha sobre mangás, a paixão dele por aviões e pelo voar, ou as referências de filmes noruegueses e italianos, como “Ladrões de Bicicleta”. Além disso também conta o ponto de partida que levou ele a criar Totoro, Kiki, Princesa Mononoke, etc. Deliciosamente obrigatório para quem não só trabalha com desenho, mas para quem trabalha com criatividade.

Um exemplo do que ele fala sobre o ato de desenhar, devidamente traduzido:

Quando você fala sobre um belo pôr-do-sol, você sai correndo atrás de referências fotográficas de pôr-do-sol ou vai em buscá-lo em qualquer lugar? Não, você fala sobre o pôr-do-sol desenhando o que conhece dos muitos por-do-sol que você tem armazenado dentro de você, basicamente sentimentos sobre ele arraigados dentro do seu consciente, dos por-do-sol que você via nas costas da sua mãe, cujas memórias são quase um sonho, ou do primeiro pôr-do-sol da sua vida que você viu em um penhasco e deixou você perplexo e encantado, ou aqueles por-do-dol em dias de angústia, solidão ou entusiasmo…

….desenhe muito, o máximo que você puder. De vez em quando, a partir disso, um mundo pode ser criado.

O livro é lotado dessas “conversas de velhinho sábio”, deliciosamente sábias.

Esse é um dos vários sketches que Miyazaki fez sobre idéias soltas, apresentadas por um Porco Rosso fofo.

Vende-se design, fiado nem amanhã

Quer saber se vender sem se prostituir?

O amabilíssimo ilustrador e designer Bruno Porto, pessoa que eu nunca tive o prazer de conhecer pessoalmente mas virtualmente mantendo relações cordialíssimas (obrigado pelo documentário da Disney japonês que você me mandou lá da China) lançou o livro Vende-se Design, da série Manual do Freela, da editora A2B.

Um guia de bolso e banheiro para ilustradores, designers e qualisquer outra profissão que envolvam portfólios e clientes. Tem dicas de como montar um portfólio, como vender um trabalho, como vender bem sua sardinha fazendo autopromoção sem passar vergonha. Tem dicas de gente graúda como Alarcão, Orlando, Gilberto Struck contando cases, dicas e manhas de como se manter em pé nesse mercado lotado e competitivo como ônibus na hora da Ave Maria. Tem até uma participação de um texto meu de como montar pranchas para portfólios de maneira civilizada.

Abaixo tem um filminho com pequenas palavras emprestadas sobre o livro:

Vende-se Design. Bruno Porto. from Gabriel Penchel on Vimeo.

Não sei onde comprar nem quanto custa ainda, mas informações devem constar lá no site da editora.

Mais Sexo e menos Crimes para todos

Quem é fã do bom velhinho, vulgo Benício, o pais das gostosas dos cartazes de pornochanchadas e dos cartazes dos filmes dos Trapalhões, tem motivos para escovar os dentes e vestir camisa limpa no próximo dia 16, quarta feira, aqui em São Paulo.
Vai ser o lançamento do seu livro “Sexo e Crime”, publicado pela Reference Press, do pai do Guia do Ilustrador Ricardo Antunes, e da BrandStudio Press, do energético Alberto Ruiz, no Cartel 011 – Artur de Azevedo 517, em Pinheiros, das 19 as 22h.

Vai ter a presença em bigode e osso do Benício e também – ouvi o som de cheques sendo assinados? – a venda de diversos originais, gostosas e guachadas.

Segue um video feito pelo pessoal da Mandacaru Design, num esforço da serelepe Bebel Abreu:

E para quem está criticando publicamente o livro sem antes degustá-lo (sim, existem): vocês estão livres para usarem o dinheiro do próprio bolso (como fez Ricardo Antunes) para publicarem o livro de quem acha que precisa ser publicado, da maneira que bem entenderem. Assim todos ficam felizes e o mundo fica mais perfeito.

Prepara-te! As Hiroinas estão chegando!

Fiquei um tempão sem desenhar as Fast Girls, mas tem um bom motivo. Em 2011, no primeiro semestre, estarei lançando o meu livro de sketches! Sim, finalmente saiu do meu útero cerebral o primeiro livro que eu não tenho vergonha de esconder debaixo da cama. Vai se chamar Hiroines, e vai ser lançado pela Reference Press. Entendeu a piada? Hiroines?


Esse livro terá o mesmo conteúdo dos livros que muita gente já conhece dos livros da Brandpress Studio, como os livros do Bill Pressing, Shane Glines ou do próprio Alberto Ruiz, dono da BrandPress e de quem posso dizer que é meu amigo: sketches, esboços e bocetos (opa) das coisas que mais adoro desenhar: mulheres e alguns monstros. Eu, que sou fã diabético desse tipo de livro, agora tenho o meu, meu, todo meeu. Nas próximas semanas, todo meu esforço será direcionado para a feitura desse livro, uma vez que eu sou esquizofrênico e não dê um livro pra um esquizofrênico fazer porque ele muda a toda hora. Aliás, os poucos que já sabem da história já viram que eu tô mudando a capa como quem muda fralda de bebê diarréico. E vou continuar mudando até ter satisfaction garantida e nenhum dinheiro de volta.
Vai ter FastGirls novas sim, aquelas que não tem problema colocar por causa dos direitos autorais, vai ter mais Fadas Enfartadas, as fadas ordinárias, vai ter monstros feminóides, monstros que protegem mulheres, vai ter esboços de lâmina de bandeja que não foram aprovadas, vai ter trabalhos que foram detonados pelos clientes, vai ter gostosas, vai ter simpáticas, vai ter gostosas simpáticas, vai ter rabiscos, esboços feitos digitalmente, grafitalmente, pastelmente, aquarelamente, iPadmente, vai ter mulheres para todos!

A Reference Press nasceu dos esforços brancaleônicos do Ricardo Antunes, pai da Revista Ilustrar e Guia do Ilustrador. Aquela viagem que fiz pra Nova York há dois anos junto com ele deram frutos! A Reference Press terá uma coleção de livros de sketches fêmeos de diversos ilustradores porretas e terá parceria da incessante BrandPress. Os livros serão vendidos aqui na terrinha, nos EUA e na Europa, faltam ainda Ásia, África e Oceania pra dominar o mundo. E a Reference ainda tem mais cartas na manga, daquelas de fazer coringa chorar de cansaço, porque são coisas para ilustrador bater palminha. Esperai e aguardai.

E orgulhosamente serei o número 2 da Reference. O primeiro livro será do nosso patrono oficial da ilustração, o Todo-Fofo Benício (se houvesse um dinheiro rolando entre ilustradores teria e efígie do Benício, e diríamos para um ilustrador: “cara, isso vale mil Benícios!”).
Uma escolha nada mais justa, honrada e significativa para meu maior ídolo da ilustração e do Antunes também, será o primeiro livro colorido com as artes só do bom velhinho.

Ainda não tenho os preços, nem quando será oficialmente lançado e nem como será vendido, mas com certeza as informações serão repassadas aqui nesse blog e no site da Reference Press.

Vai ter festinha com direito a torradinha com patêzinho no lançamento? Matemos um bode virgem para isso acontecer, quando acontecer.

As roupas, as belas e as fofas

Não é segredo de ninguém próximo a mim e nem tanto, de que eu tenho minhas referências pulsantes como veia em pescoço de nervoso, não escondo que amo Totoro, Kiki, Aragonés, Hirschfeld, e da alas do cromossomo Y, a Vera Brosgol (ela tem quase a metade da minha idade e tem o talento de dois Hiros enfileirados). Foi observando os desenhos dela que eu perdi o medo de fazer as expressões das mulheres que eu faço hoje, pois ela é uma das poucas, assim como eu, que adora rostos redondos e olhos mais redondos ainda, emoldurados em sorrisos carismatizantes feitos com traços bem simples.

Agora ela e a amiga Emily Carroll fizeram um blog (Draw this Dress) onde elas ilustram vestimentas e outros acepipes da moda antiga vestidas por mulheres (ah, as mulheres, sempre elas caindo tão bem nos desenhos) sorridentes, blasés e elegantes.

E um adendo isolado, mas não menos interessante, em junho de 2011 será lançado o livro Anya’s Ghost, ilustrado e escrito por ela. Nham.

Pelos poderes de Amazon!

Sketchbooks – o primeiro livro brasileiro sobre…sketchbooks

Há algum tempinho fui convidado pelo Roger Bassetto e Cézar de Almeida, antigos proprietários da Livraria Pop, a participar de um projeto sobre um livro de sketchbooks. A proposta é interessante, era mostrar qual era o papel do sketchbook no papel criativo do ilustrador ou artista. Assim, cada convidado mostraria algumas páginas do seu caderno de rabiscos, ou caderno de manifestação de idéias, e faria uma declaração sobre esse caderninho salvador.

E agora o livro vai ser lançado. No dia 28/10, uma sexta (tem Bistecão nesse dia, quero ver como eu faço), no Museu da Casa brasileira, na Av, Faria Lima 2705, São Paulo City.

Participam do livro, além de moi, toda essa turma de peso pesado pesadésimo nas artes e ilustração: Alarcão – Alex Hornest – Amanda Grazini – Angeli
Arthur D’Araujo – Bruno Kurru – Carla Café – Cláudio Gil
Eduardo Berliner – Eduardo Recife – Elisa Sassi – Fernanda Guedes
Guto Lacaz – Hiro Kawahara – Kako – Kiko Farkas – Leo Gibran
Lollo – Lourenço Mutarelli – Montalvo – Mulheres Barbadas
Orlando – Rafael Grampá – Roger Cruz – Titi Freak – Yomar Augusto

E deixo no final a descrição do livro nas palavras dos próprios idealizadores:

SKETCHBOOKS
AS PÁGINAS DESCONHECIDAS DO PROCESSO CRIATIVO
O livro aborda as questões do processo criativo nas artes visuais,
amplamente ilustrado com imagens dos cadernos de esboços de 26
artistas contemporâneos brasileiros.
Foram selecionados pela sua diversidade de atuação, daí a participação
de designers, arquitetos, ilustradores, cartunistas, gra!teiros
e tipógrafos, entre outros.
“Sketchbooks” é um projeto inédito no Brasil, resultado de um
processo de mais de 18 meses entre a concepção e o produto !nal, com
visitas a ateliês e contato com um riquíssimo e vasto material registrado
em cadernos, gerando a difícil tarefa de compilar recortes que
re”etissem o trabalho e a personalidade artística de cada um do elenco.
Os autores esperam, com este livro, “alimentar e inspirar quem está
buscando ou já está percorrendo seu próprio caminho no campo das
ideias e quer exercitar sua criatividade nas artes visuais e na vida.”
Segundo Charles Watson, que escreve a introdução:
“É possível que nos últimos 10 anos tenham sido publicadas mais antologias
sobre desenho e o papel do desenho no pensar que nos 30 anos
anteriores. Isso sugere que hoje, em meio à idade digital, o processo de
esboçar ainda é fundamental para muitas disciplinas que vão além da
arte e do design.
“Sketchbooks” é um raro exemplo no Brasil de uma antologia desse
tipo. Num contexto de consumismo desenfreado e constante procura
por novos produtos da indústria e do design, é refrescante ver um livro
que visa à contemplação dos bastidores das linguagens criativas

E essas são algumas páginas-petisco do livro.




Be there!

Dice Tsutsumi, Toy Story 3 e o traço simples que é melhor que o traço exato

Após mais de um mês de secura nesse blog consegui finalmente entregar os trabalhos que estavam, como dizem os gaúchos, me atucanando severamente. Depois de colocar um Mika no talo enquanto o fiel Mac becapeava 40 gigas de trabalho e pagar contas atrasadas, me dei o direito adquirido de assistir “Toy Story 3″, soberbo e com direito a olho marejado no final e Totoro fazendo participação especial. Já tinha retirado antes “The Art of Toy Story 3″ e só fui folhear depois de ver o filme. Cada livro da série “The Art of…” é uma facada no bolso e um carinho no coração ao mesmo tempo pra quem adora ilustração e animação, todos são maravilhosos, mas alguns são mais maravilhosos do que outros, como “The Art of Kung Fu Panda” ou esse (pra quem ainda não conhece, essa série de livros mostram sketches, conceitos, estudos, desenhos reprovados feitos por dezenas de ilustradores em cada filme, um bufê livre para os olhos).
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Nesse especificamente tem um cara que merece destaque, Daisuke Tsutsumi ou Dice Tsutsumi, que fez a direção de arte e color scripts do filme. Se amor à primeira vista acontece, então foi com o trabalho dele. Já trabalhou em “A Era do Gelo”, “Robôs” e “Horton”, já vi antes seu trabalho mas por algum motivo agora seu traço salta feito perereca agoniada na frente dos meus olhos. E acho que sei o motivo.
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O traço de Tsutsumi é ao mesmo tempo imperfeito, indefinido e ao mesmo tempo maravilhosamente e esquizofrenicamente perfeito. O traço dele é simples mas passa toda o clima, a idéia (e a iluminação também, o cara sabe enxergar luzes e sombras). Às vezes ele nem desenha olhos e expressões do rosto, mas a mancha toda parece um fotograma de tão perfeito. Quem disse isso mesmo? Menos é mais?

Curiosamente o nome do seu blog é “Simplestroke
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Quem fez a minha mini-oficina sabe que foi sobre isso que eu tenho agora procurado trabalhar e passar pra frente, tenho pensando em valorizar cada vez mais a idéia junto com um desenho expressivo, mas sempre mais o primeiro vive sem o segundo, mas o contrário não acontece. Um desenho rápido e seguro é muito mais expressivo e significativo do que um desenho perfeito mas que não consegue mostrar a que veio. Isso é um exercício, e tem que ser diário. Dez mil horas treinando isso devem bastar para quebrar 16 anos de rigidez criados por um mesmo tipo de trabalho e também por falta de orientação e referências.

Olhando para o trabalho dele você percebe que ainda tenho muito, mas muuuito ainda pra fazer e aprender, o suficiente pra repensar se o que estou fazendo na minha carreira vai levar para esse caminho, se devo abrir mão de outras coisas para atingir isso ou até mesmo se um sabático de alguns anos deve ser cogitado. Nada muito sério, afinal a função desses caras muito porretas é essa, dar um tapão na nuca pra cair no chão e ao mesmo tempo estimular pra fazer coisas novas.

Barba Ruiva, tão bonitim na aquarela

Acontece nesse sábado, 24/04, o lançamento do livro “O Pirata Barba Ruiva”, da editora Arvoredo, na Livraria da Vila (Fradique Coutinho 915, Vila Madalena), das 15h às 18h. Foi escrito por Manoel Artur Villaboim e ilustrado pelo já sem adjetivos de tão bom, Gonzalo Cárcamo. Puxando saco mesmo, um dos maiores aquarelistas que já pousaram meus cansados olhos.
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Ao invés de gastar dinheiro em feijoada oleaginosa nesse sábado, vá lá e faça seu lado direito do cérebro feliz. O esquerdo também agradece.

Paúra, ou medos antigos de coisas idiotas

O grande compadre ilustrador Gustavo Duarte, um aficcionado pelas artes futebolísticas e de traço fluído e flexível como cabelo de modelo bem cuidada, ilustrou o livro Paúra, escrito por Sérgio Franco.
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Eu já li o livro e é hilário. Como ele trata de assuntos de medos de crianças, que vão desde o famigerado Papai Noel com cheiro de álcool saindo pelos poros e que você tinha que sentar pra tirar foto em loja de departamentos, tipo lojas Marisa de quinta categoria, até medo de palhaço, esse um clássico que virou histeria coletiva quando saiu o filme Poltergeist. Não tem como não se identificar ao menos com um medinho listado no livro.
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Eu, por exemplo, tinha pavor de tirar foto em cima de carneiro colorido e de briga de gato no cio no telhado, achava que era o Bebê Diabo brigando com outro Bebê Diabo. Também tinha medo de virar mendigo e de descobrir que eu tinha sido adotado.

É djóia, não tem politicamente correto no meio, é a finesse do cuzinho apertado.

O lançamento do livro acontece nessa quinta, 15/04, na Livraria da Vila (Fradique Coutinho 915), das 18h30 às 21h30 . Vai lá, compra um que ele autografa no maior capricho.

E cultura inútil: o nome que se dá pra esse fenômeno que falei do Papai Noel, de gente que bebe tanto que parece que é suor de álcool velho na pele se chama “uremia”.

Disney a lápis

Se você tem 100 reais sobrando, gosta de sketches e não quer gastar a nota da garoupinha verde com coisas que desaparecem com o tempo, como chocolate, drogas ou o amor de uma mulher, então passa lá na Fnac que chegou uma leva do livro “Disney, The Archive Series: Animation”.
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É uma delícia de livro, só tem pranchas de desenhos a lápis (sim amiguinhos, antes do 3D existia e ainda existe o lápis, que nunca vai te deixar na mão quando a luz acabar e 2012 chegar) de todos os desenhos que levantaram a Disney e aumentaram um passo na pesquisa da criogenia. Existe um outro livro da mesma série, mas se chama “Stories”. Pelo que eu vi, esse trata mais do roteiro e das idéias que se aglutinaram pra criarem as animações.
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Quase não tem textos e tem uns quatro ou cinco folhas de estudos, alguma duplas formando uma prancha, de personagens de cada filme, começando pelo “Steamboat Willie” o primeirão onde aparece o Mickey, passando pela Branca de Neve, Alladin e tem até sketches de “A Princesa e o Sapo”.
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Livros, livros e muitos livros para ilustradores lerem e desenharem depois

bIBLIOS

O Renato Alarcão passou na lista da SIB – Sociedade Dos Ilustradores do Brasil – uma compilação de dezenas de livros que podem ser úteis como um macaco dentro do carro – o metálico, não o felpudo. São todos livros referentes à arte do desenho, ao estudo do desenho ou à filosofia do desenho. Como o que Alarcão fala deve ser considerado e pesado em uma balança, pois vale ouro, vale a pena fazer disso um checklist pra quem interessar. Tem desde os já clássicos e conhecidos livros do Andrew Loomis, que estão disponíveis pra download na internet e que já coloquei os links neste post, até livros pouco conhecidos só pronunciáveis por aqueles que tiveram o toque da fada da intelectualidade na cabeça.

Massironi, Manfredo. Ver pelo Desenho. São Paulo: Martins Fontes, 1982

Martins, Itajahy. Desenho: Arte e Técnica. Prefácio de Fábio Magalhães. São Paulo: Ponte Editorial/Fundação Nestlé de Cultura, 1992

Martins, Itajahy. Desenho: Arte e Técnica. São Paulo: Ponte Editorial/Fundação Nestlé de Cultura, 1992

Busscher, Jean-Marie de. Instituto Francês de Arquitetura. A Arquitetura na História em Quadrinhos. São Paulo: Martins Fontes, 1985

Loomis, Andrew. Creative Illustration. New York: The Viking Press, 1947 (disponível na internet/download)

Loomis, Andrew. Eye of the Painter. New York: The Viking Press, 1947 (disponível na internet/download)

Loomis, Andrew. Fun with a Pencil. New York: The Viking Press, 1947 (disponível na internet/download)

Loomis, Andrew. Successful Drawing. New York: The Viking Press, 1947 (disponível na internet/download)

Loomis, Andrew. Figure Drawing for All its Worth. New York: The Viking Press, 1947 (disponível na internet/download)

Loomis, Andrew. Drawing the Head and Hands. New York: The Viking Press, 1947 (disponível na internet/download)

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BELLUZO, Ana Maria. Voltolino e as Raízes do Modernismo. São Paulo: Marco Zero, 1992.

BLANCHARD, Gérard. La Bande Dessinée. Verviers: Marabout Université Editions Gérard & C., 1969.

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Norman Rockwell usava foto pra pintar e isso não é crime

Vi essa no Gizmodo. É coisa que é obvia, mas quando a gente vê na frente fica um pouco surpreso, como ver enterro de anão, porque não é coisa que a gente, mesmo acostumado a trabalhar com desenho, vê frequentemente.
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O óbvio, nesse caso, é que Norman Rockwell, talvez um dos maiores artistas divulgadores da arte alto-astral, tanto que ele foi fundamental pra bola de milhares de pessoas não cair nos dias mais perrenguentos da América durante e pós guerra, dono de um traço ingênuo e realista que é impossível não abrir um sorriso na maioria das capas que ele fez pro Saturday Evening Post (já escutei que quando tinha capa do Rockwell a tiragem da revista dava um salto de perereca). Tanta riqueza de detalhes, tanto apuro, é claro que ele usava referências fotográficas. Mas como ele é um ícone da pintura e ilustração, quase uma entidade desenhante, tem horas que a gente acha que esses caras atingiram um nível que dispensam a lente e o flash. E ver isso é ótimo porque sim, eles também são humanos.
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Esse livro, “Norman Rockwell Behind the Camera” lançado lá nos EUA, mostra esse lado referencial dele. A cada quadro que ele fazia ele tirava uma chapa. E isso só aumenta o fascínio pelo trabalho do cara, até pelo registro farto de vários objetos, roupas, cabelos e expressões da época. E de quebra, dá pra ver que muitos apatetados que ele pinta, inclusive ele mesmo, são realmente e simpaticamente aparvalhados.

E não só ele, mas também Gil Elvgreen, Al Hirschfeld e vivo Alex Ross e absolutamente todos os que trabalham com ilustração realista usam fotos como referência de trabalho. Sem exceção. Afinal, ninguém sabe como é um trenó de cachorro gelado ou um limpador de bunda de lutador de sumô de cabeça, e imaginar isso de cabeça é pecar e errar nos detalhes.

Tem muito franguinho que se decepciona ao saber que seus ídolos usam fotos e não a memória fotográfica pra fazer pinturas de fraturar o maxilar. É pura tolice.
Ainda vou escrever um post só sobre isso, mas não existe essa coisa de ter dom pra desenho. O que muda é o nível de habilidade de cada um, mas de nada adianta um fodão que acha que tem o dom de desenhar se isso o faz pensar que não precisa de professor, aula, conselho ou tapa na cabeça. Mil vezes preferível um aspirante a desenhista que não tem muita habilidade mas tem muita vontade e dedicação de aprender.

A foto de referência é uma ferramenta, assim como é um lápis ou uma tablet. Rockwell sabia das coisas.

New York vista por um New Yorker

Vejam só como são as coisas. Quando o meio ou as circunstâncias favorecem, as inspirações são as mesmas para todos.

Voltei de viagem, desenhei muito, fiz muitas aquarelinhas de Nova York, de coisas pitorescas que acontecem por lá e da fauna bípede que toma café andando na rua ou se veste como se fosse Stevie Wonder em um brechó. Todo mundo gostou, inclusive eu, elogios, incentivos, etc., etc., etc.

Mas eis que, mesmo prometendo pra mim mesmo que não iria comprar livros no Brasil por alguns meses, depois de trazer quase 30 quilos de papel encadernado nas malas, não pude resistir e comprei o precursor dos sketches novaiorquinos.
BIGCITY
A Companhia das Letras reformulou sua marca para quadrinhos, chamando-se agora de “Quadrinhos na Cia.”, ô nomezinho perrengue, e uma das suas primeiras edições é nada menos do que o livro do fantabuloso Will Eisner “Nova York, a Vida na Grande Cidade”, que na verdade é uma compilação de 4 obras suas: “Vida na Cidade Grande”, “O Edifício”, “Pessoas Invisíveis” e “Caderno de Tipos Urbanos”.

Will Eisner, que é mestre, dispensa apresentaçõe, e merecia muuito mais respeito por parte de alguns tipos que caíram no meu conceito como catarro de chinês na sola de sapato, mais conhecido como Frank Miller, que fez aquela matéria fecal que larapiou o nome de “Spirit”, e que deveria levar uma surra com um pernil de porco até evacuar sua rótula. É um prazer ler novamente “O Edifício” nessa edição luxuriente.
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Porém, para quem curtiu as aquarelas assimassim que fiz de NY, Will Eisner fez antes sua versão do cotidiano e dos tipos estranhos novaiorquinos, também, só que da década de 50. É o pai – ou avô – desse trabalho!!
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Principalmente “Vida na Cidade Grande” e “Caderno de Tipos Urbanos”. Estão lá suas observações rasbisqueiras sobre o metrô, os cheiros, os sons da cidade, sobre os apartamentos tão pequenos que cabem apenas corpos sem alma, sobre o lixo que se acumula nas calçadas, e os tipos urbanos daquela época.
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Perto dos sketches de Eisner, as aquarelinhas que fiz em NY viram ovinhos de mosca, mas de moscas bonitinhas.

Falando no Eisner, fiquei sabendo que “O Contrato de Deus” virou uma ameaça para mentes jovens escolares, na visão de pais e mestres com essência microcéfala, pois as insinuações de sexo, incesto e papo adulto podem incinerar os olhos e as cabeças dos impúberes, ou seja, censura mesmo. Faltará pouco para que “Vidas Secas” do Graciliano Ramos seja banido por mencionar maus tratos aos animais, que “O Cortiço” seja cortado por insinuações de consumo sexual ou que “Caminho Suave” seja retirado do mercado por racismo, pois só tem um casal de branquinhos andando felizes para a escola.

Em breve um post muito bilicoso sobre o “politicamente correto”, que já me torrou o saco.

Quem mandou não estudar e virar James Jean?

[img:Fable.jpg,full,alinhar_esq_caixa]James Jean é um mito e fonte de inspiração entre os ilustradores hoje em dia tanto quanto foi James Jean para as garotas com hormônios pingando pelos poros na década de 50.

Foi com a felicidade de um moleque que ganha picolé caro da tia que recebi meu pacote da Amazon com uns 5 quilos de livros pra trabalho das lâminas de bandeja, e no meio também veio o pedido maroto que fiz pra acompanhar o frete, o bendito livro “James Jean’s Fable Covers” – que custa U$ 125 verdinhas. É dinheiro do grosso, mas como não consumo cocaína nem gasto com carro, me dou o direito de me dar um presentinho e abraçar minhas próprias costas em agradecimento a mim mesmo.

Fables, pra quem não conhece, e duvido que quem ama um bom desenho e uma boa história não conheça, é uma série de quadrinhos muito boa, recontando fábulas clássicas numa visão mais moderna e pervertida, ilustrada por gente como Tara McPherson, Rick Milligan e Jill Thompson, entre outros. Chego a dizer que é uma das poucas opções boas atualmente que mais chegam perto do que foi Sandman. E as capas, ah, as capas, são todas feitas por James Jean (quer dizer, eram feitas, porque ele parou de ilustrá-las, muchas condolências). Foda é palavra pequena demais pra virar adjetivo das suas capas.

James Jean é o tipo de cara que, se encontro na rua faria questão de espancá-lo até virar kibe cru, de tanta raiva do cara ser tão bom. Berraria com todos pulmões “Vá se f*%$er fiadaputa, você é bom pra car@$^lho!!” Ou no máximo apertaria sua mão e não largaria, num ato de constrangimento homossexual voluntário, pra ver se passa um pouquinho do talento dele por osmose.

No site dele tem outros trabalhos, inclusive as mesmerizantes pinturas. Se eu fosse rico como jogador de futebol da primeira divisão, não gastaria meu dinheiro com carros com nome de personagem dos Transformers, mulheres com prazo de validade cerebral ou com fontes de jardim em homenagem à minha mãe e que geram vergonha alheia pras visitas. Eu gastaria dinheiro com isso:

Watching the Watchmen

[img:watchbook.jpg,full,alinhar_esq_caixa]Mais um livro que comprei que faz você se lembrar para que dinheiro serve.

Para um über fã de Watchmen como eu – que li pelo menos umas dez vezes sem exageros, pois cada vez você reparava em coisas novas – e também um devorador de sketches, esse livro, Watching the Watchmen, que você encontra por 100 arames em qualquer livraria decente, esse livro é tão bom ao ponto de tirar sua libido. Assim como eu, muita gente deve ter tomado a decisão de ler Watchment em três partes diferenetes: primeiro a história, depois os “Contos do Cargueiro Negro” e depois as notas dos personagens no final da revista, e depois juntar as três coisas.

São centenas de sketches, planilhas de programação e pensamentos de Dave Gibbons (sem Alan Moore, que azeda até copo de leite se estiver por perto) dessa obra prima que, ao lado do “Cavaleiro das Trevas” de Frank Miller – o Benjamin Button dos quadrinhos, pois começou muito, muito bom e foi desaprendendo com o tempo – fez com que qualquer moleque nerd fã de quadrinhos tenha saudade do ano de 1986.


Entre outros estudos, Rorschach tinha um uniforme todo feito do tecido da máscara, o que dava pra ele uma aparência de um dálmata. Dêem um dólar pra mente de bom senso que não aprovou esse costume.

Watchmen foi a mola que me fez interessar por ler sobre teoria dos caos, fractais e filosofia da ciência – o livro de James Gleick, Caos, é de tirar o chapéu, e esse livro me levou a outro melhor ainda, por tratar de desenho, chamado “O Poder dos Limites”, de Gyorgi Doczi, que mostra como estruturas, formas e proporções se repetem constantemente na natureza em todos os níveis de tamanho, até chegar a junção com o I Ching, esse um conhecido bem mais velho.

Esperemos agora o filme. Se não for no mínimo ótimo, mandaremos sentimentos de ódio aos milhões para Zack Snyder para suas bolas caiam no chão e virem brinquedo de gato vadio.

Coraline, ou como fazer um marmanjo gostar de bonecas

[img:coralinevisual.jpg,full,alinhar_esq_caixa]Vou dar uma de Silvio Santos e falar sobre Coraline, que eu ainda não vi por causa de um cliente que desceu na Terra na forma de um diabo, mas que eu sei que é muito bom! Logo abrirei um espaço na agenda a faca para ver esse acepipe de animação.
Pois bem, já aguardava algum tempo por ser apaixonado por Harry “A Nightmare Before Christmas” Selick e duplamente apaixonado por Vera Brosgol, que fez os storyboards do filme.

Na impossibilidade de assistir o filme (e espero que não aconteça o que aconteceu com “Juno”, que eu só assisti nesse sábado na TV a cabo porque não baixo filmes no estilo caribenho e, pasmem, o dono da locadora perto de casa não comprou o filme porque o achava imoral, mesmo alugando os filmes da Silvia Saint e Ginger Lynn mofados mostrando as mortadelas fatiadas no meio da perna), comprei o livro “Coraline, a Visual Companion” – 124 mangos na Cultura, que mostra o making of do filme.

E não é que minhas pestanas berraram de agonia quando vi que o conceito visual de Coraline foi feito por nada menos que Tadahiro Uesugi, o japonês mais francês do mundo e que já foi devidamente relatado neste blog. E analisando com outros olhos, você percebe que Coraline realmente tem traços do danado.


É a feijoada da ilustração animada, Harry Selick, Vera Bee, Tadahiro Uesugi, Chris Applehans…eu PAGARIA sete libras de carne da própria bunda pra trabalhar com esses caras!

Voltando pra Juno, se eu sobresse que veria desenhos da Tara McPherson ali eu teria assistido o filme antes. Aliás, Juno e Coraline, como não se apaixonar?

Thundercats, gooo!

Jogando as meninas de lado agora, tem outro filme onde ilustrador é um personagem principal, e não é “American Splendor”, aquele sobre a vida de Harvey Pekar e bom pra carvalho – e assustadoramente, o amigo de Harvey é aquilo mesmo, um alienígena mamífero, ele apareceu em um episódio do programa do Anthony Bourdain e ave maria….

Não sei como se chama o filme em português, mas em inglês é “Secondhand Lions”, com Michael Caine, Robert Duvall e aquele menino que via gente morta. O personagem do garoto é um cartunista, mas os desenhos feitos para o filme foram de autoria de Berke Breathed, autor de uma tirinha muito, muito boa chamada “Opus”.

Conheci “Opus” quando comprava regularmente as revistas italianas “Corto Maltese” e “Linus”, há uns vinte anos atrás, o que me consumia todo o dinheiro da minha já parca alimentação, forçando-me a manter uma dieta exclusiva de pastel de palmito quando era dia de comprar essas revistas. Foram as melhores revistas em quadrinhos que tinha naquela época. Aos poucos leitores que tiveram o privilégio de acariciar suas páginas, sabe que foi uma das poucas revistas que misturavam reportagens e quadrinhos de gente de peso com uma elegância que só um europeu conseguiria dar.

Continua Proibido Para Maiores

Mais um jabásico, momento “fuieuquemfiz” pra massagear o coração minúsculo deste ser.

Fiz a capa da segunda versão do Proibido Para Maiores, chamada “Continua Proibido Para Maiores“, editada pelo grande chapa Paulo Tadeu, da Editora Matrix. O primeiro vendeu muito bem, obrigado, o que o motivou de maneira quase irrecusável de fazer uma continuação.

É um livro para crianças mais pitocas, sessão família em forma de papel e tinta. Em média 16 reais nas boas casas do ramo.

Livros que eu não recomendo – parte 1

Sempre dou dicas de livros que acho em minha humilde opinião que são cocadinhas para a mente e para os olhos, pois vivo sem água mas não sem algo encadernado para ler.

Porém vou dar uma dica, também na humilde opinião deste vivente, de livros que não servem nem como descanso de panela mas que, da mesma forma que namorado canalha, tinham cara promissora na hora da compra.

Tem esse livro, que pelamordedeus, não sejam atraídos pela capa bonitinha e nem pelo CD que vem junto.

Pattern Pallete é uma série que você encontra em algumas livrarias, e não é barato. Custam em média 77 reais, preço de um almoço com sobremesa e Coca-Cola farta no Ráscal, o que seria um dinheiro melhor gasto.

Estava com um trabalho extenso vetorial onde precisava de muitos patterns vetoriais, que é um alicate no testículo para serem criados do nada e ainda saírem bem feitos. E esse livro parecia ter sido obra de um anjo que faz design gráfico naquele momento. Oras, você vê um livro que se chama “Pattern Pallete”, recheado de patterns vetoriais, e ainda com um CD que se diz interativo, o que você imagina? Que os patterns viessem inclusos para serem trabalhados.

Mas que nada, no CD só tem um programinha mequetrefe que troca as cores de tudo o que está no livro, e ainda só com uma paleta RGB daquelas bem ardidas de tão fluorescentes.

Aí você olha de novo pro CD e percebe tardiamente que o significado de “interativo” desse livro se aproxima daquelas meninas que dançam agarradas no poleiro: só pode olhar, se quiser pegar e mexer nos arquivos vai passar vontade.

No final são 77 reais de um amontoado de combinações de cores, coisa que tinham seu valor há 18 anos atrás – eu mesmo tinha um monte desses livros no começo da minha carreira – mas que com o maravilhoso mundo do computador isso se tornou útil como um bambolê pro Stephen Hawking.

Como dizem os caras do Mentes Ociosas: não presta!

Kripta, aquilo sim é que era revista (e mais uma puxação de saco de Alex Toth)

Hoje em dia a moçadinha que começa a desenhar, e também aqueles que já estão rodando na estrada há algum tempo, em sua maioria tem duas referências principais: mangás e quadrinhos de super-heróis.

Eu também tive minha fase de adoração por esses dois estilos, comprei Dragon Ball quando saia na Shonen Jump, pra ver como isso é velho. Embora lesse à exaustão, nunca usei isso como referência de desenho. Ou em outras palavras, jamais pensei em desenhar mocinhas de olhos gigantes e homens de peitorais também gigantes.

Tampouco eram as historinhas da Mônica e Cebolinha, outra grande inspiração para aspirantes a desenhistas (eu até pensei em escrever algo sobre a conversão pseudomangá que fizeram deles, novamente devorados por essa praga chamada “politicamente correto”, que vai matando o humor na sua forma mais pura, mas o Fábio Yabu, criador dos Combo Rangers e Princesas do Mar, a quem estou devendo um post aqui, já escreveu tudo o que tinha que ser escrito sobre isso em seu blog, leiam, leiam.

Minha inspiração desde criança veio de 3 fontes: UltraSeven, a revista Mad e a revista Kripta.

Os que tem mais de 35 se lembram muito bem dessa revista. Foi a revista mais caralhosa, mas inteligente e mais variada em estilos e histórias de terror e ficção. As histórias eram muito bem boladas e os ilustradores eram geniais, tudo lençol egípcio de primeira qualidade. Eu era daqueles moleques que contavam nas moedas o dinheiro pra comprar a Kripta e montava tocaia nas bancas de jornal esperando chegar o exemplar de Kripta do mês.

Durou só 60 exemplares, e como naquela época não tinha internet, a Rio Gráfica Editora fez uma gambiarra no final dizendo que a Kripta iria passar por uma mutação e passou a se chamar Terceira Geração, uma bosta no formato impresso e que de Kripta não tinha nada. Mas a gente não sabia que a revista original nos EUA havia acabado (Eerie e Creepie). Se fizeram isso é porque a revista vendia bem.

Alguma editora de coração bondoso, o que é difícil, poderia comprar os direitos e republicar as histórias, que eram sementes de filmes de terror de qualidade. E é impressionante como não se acha quase nada na internet.

Para os saudosistas e viciados em naftalina, encontrei um site com TODAS as 60 capas da revista. Vale a pena relembrar a época em que tudo era feito na raça e no nanquim.

Naquela época era analfabeto visual, mas sabia que gostava dos traços da maioria dos desenhistas, somados roteiros de arrepiar os mamilos.
Tinha o argentino Leo Duranona, que na época achava o traço meio sujo, mas hoje acho magnífico, que fez a série “Viajantes do Horizonte” – que por um lado tinha um episódio magnífico de um enxame de criaturas cegas saindo do subsolo pra atacar o que restou da civilização, teve um final muito muito broxante, daquelas soluções tipo “Deus Ex Machina”, que se você não sabe o que significa isso, tem na Wikipédia)
duranona
Tinha a série do Dr. Archaeus, desenhada pelo Isidro Mones, que lembrava um pouco o Abominável Dr. Phibes, que contava a história de um ex-enforcado, que tinha o rosto inclinado como o George Clooney, que matava os jurados que o condenaram seguindo uma canção de Natal, que é a mesma canção usada por Carl Barks em uma genial história do Pato Donald, que havia hipnotizado Tio Patinhas para ganhar um monte de presentes, mas tudo ia pra um cachorro (lembram? “Dez perdizes numa pereira, oito tocadores de gaita de foles, e assim vai).
Archaeus

Tinha a série “Os Quatro Cavaleiros do Apocalipse”, tão bem escrita que mereceria uma versão romanceada, desenhada pelo José Ortiz. Minha memória não se lembra de quanto tenho que pagar de imposto, mas lembro muito bem da cena final do episódio “A Fome”, a dos soldados de Napoleão no inverno russo e do Gaston levando o amigo em pedaços no saco como marmita pra matar a fome no longo caminho de volta pra casa.
ortiz
Adorava as histórias desenhadas por Berni Wrightson, especialmente “Ar Frio”, do conto de H. P. Lovecraft, do cara que estavam morto e só se mantinha inteiro por causa do apartamento gelado., pois essa história lembrava muito uma agência gélida (no ambiente físico e no ambiente social) que eu trabalhei.
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Tinha uma história genial, que eu não me lembro quem desenhou ou escreveu, de uma plataforma de petróleo no meio do gelo que era invadida por vampiro, lembrando um pouco a história “30 dias de noite”.

No final, tudo isso é pra puxar esse segmento pra falar do meu favorito: Alex Toth. Esse cara era porreta, era, desculpe o palavreado, fudido ao extremo. E quando descobri que tinha mão dele em Space Ghost, ah, aí ele tinha dado um passo para o nível “divindade” dos ilustradores.
Ele fez três histórias muito muito geniais: Kui, sobre um casal que entra numa pirâmide peruana e morre soterrado por rios de areia, em três pagininhas safadas de boas; “Papai e o Pi”, sobre um alienígena bonzinho que se chamava 3,1415 e foi o precursor do E.T, e uma outra que não me lembro o nome, de um avião do correio que era seguido por um disco voador.

Vi no blog Drawn que foi criado uma galeria para Alex Toth, recheado com sketches. Olhem, olhem, como pode um homem desenhar coisas tão másculas e elegante ao mesmo tempo? Oras, ele foi o Sean Connery dos ilustradores (não ele fisicamente, ó boiola, mas o seu traço). Podem clicar na imagem que ela aumenta de tamanho, é nos detalhes que mora o diabo.
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O traço refinado e hoje ainda é atual. Trabalhou um tempão na Hannah Barbera fazendo os desenhos (Shazam, Laboratório Submarino, Cavalaeros da Arábia, Space Ghost, afe) que formaram o caráter de quem tem mais de 40 e da maioria dos nerds e ilustradores, ou seja, é um patrono da cultura pop. E morreu em 2006, em cima da prancheta.
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Poder e riqueza não significam nada para aqueles que tem o livro do Ratatouille ao lado da cama.

Nada circula tanto a economia nacional do que um nerd com dinheiro. Eles são capazes de comprar tudo relacionado a algum tema que tenha sua tara, em sua grande maioria Star Wars ou Star Trek.

Também não existe ser mais frustrado e desejoso por coisas que um nerd sem dinheiro. Este só não rouba pra conseguir o que quer porque deve calcular as consequências de seus atos a todo momento, somado com uma falta de complexidade física para tanto.

No entanto, existem aqueles que dividem o pão com linguiça que possuem. Teo Yih Chie, um americano coreano que se autodenomina Parka é um nerd com dinheiro. Seu prazer não é gastar com garotas que dançam no mastro ou comprar toda coleção anual da Hustler, incluindo as edições especiais. Ele gasta dinheiro com algo que também gasto – livros do tipo “The Art of”, que mostram sketches, conceitos e desenvolvimentos de cenários e personagens de filmes de animação, vide o último post das minhas últimas regalias. Só que ele extrapola, sua carteira tem molho de pimenta que pede para ser aliviada toda vez que sai um livro novo. O maldito tem quase tudo o que sai lá nos Estados Unidos.

Em seu blog ele faz resenhas de todos os livros que ele compra, o que é ótimo para quem tá pensando em comprar um determinado livro e tá na dúvida, já que para esse garoto, dúvida é uma palavra que não consta em seu dicionário pessoal. Ele também compra uma caralhada de livros de arte de animês como Evangelion e os filmes de Hayao Miyazaki. Issa!

Para aqueles que não foram abençoados pela fada das finanças, ele dá uma colher de chá e coloca muitas páginas de cada livro. Não todas, porque ele não é maluco de cutucar a fera do copyright. Não é a mesma coisa que ter o livro nas mãos, pois cada livro tem uma edição primorosa e o cheiro de livro novo equivale ao cheiro de carro novo para alguns, incluindo eu.

De repente deu uma vontade de comprar o livro do Hellboy 2…

Como comprar livros da Amazon pela Cultura?

Esse post é pra esclarecer muita gente que pede informações como se compra livros na Amazon.

Bom, na Amazon é fácil, basta ter os poderes mágicos de um cartão de crédito internacional e audácia para jogar os dados na internet. Dependendo da compra, paga-se mais 30 dólares de frete e espera-se 3 ou 4 semanas até os livros chegarem pelo correio, e chegam direitinho, com plástico-bolha do tamanho de morangos cobrindo o produto.

Agora, outra maneira que eu faço pra comprar os livros é pela Livraria Cultura. Não é propaganda, é praticidade mesmo.
Mesmo se você não encontrar os livros no site da Cultura, basta que esses livros constem no site da Amazon ou da Barnes & Noble que a importação é fácil.

Basta você anotar o ISBN dos livros que você quer trazer, ligar pra Cultura ou mandar um e-mail, fazer o pedido e passar o ISBN.
A importação vem no mesmo tempo e o valor é quase o mesmo, com a vantagem de não ter que passar aperto jogando seu cartão no mundo selvagem da internet.

Acabei de receber dessa maneira dois livros supimpas: The Art of Wall.e (R$89,00) e The Art of Kung Fu Panda (r$109,00). Esses livros de sketchbooks de animações em 3D são recheados de desenhos de produção e conceitos e já são tradição. Valem a pena cada centavinho, principalmente para aqueles que trabalham com ilustração. Embora o filme da Pixar seja melhor que o da Dreamworks, o livro do Kung Fu Panda é mais rico, até por que rascunhos de bichos animados ganham de dez de rascunhos de caixas, cubos e cilindros.

Um menino, uma lhama, uma cordilheira e aquarelas de arrancar os olhos

Senhores, contemplem.
Gonzalo Cárcamo é um aquarelista tão iluminado, tão talentoso que você tem vontade de ficar apertando a sua mão indefinidamente pra ver se passa algum talento por osmose. Tive a honra de aprender alguma coisa de aquarela com ele e finalmente consegui comprar uma jóia feita de papel feita por ele.

Thapa Kunturi – Ninho do Condor (Companhia das Letrinhas) é um belíssimo-íssimo livro ilustrado e escrito pelo Cárcamo. Faz um ilustrador como eu se sentir pequeninho como uma larva de goiaba.
Não é puxação de saco barata e desproposital, é puxação de saco com motivação sim. É um livro tão belo que chega a secar os olhos, uma ironia porque tudo ali é feito com aquarela, tão bela e tão fluída, é como uma virgem tomando banho de leite impressa em papel couchê.

A história se passa nos Andes na época pré-colombiana e conta a história meiga de um menininho de poncho e sua lhama, que não cospe, de estimação.

E vale cada centavo investido nesse livro.

O Lugar Sagrado que é meu, só meu

poderdomitoHá muitos anos, precisamente nos anos de faculdade, eu li “O Poder do Mito”, de Joseph Campbell. É uma leitura que acho obrigatória pra quem trabalha com criatividade, pois é uma obra quase definitiva que fala sobre a importância do mito, dos arquétipos e dos símbolos na civilização. Vai desde a Bíblia, passando pelas diferentes mitologias até chegar aos super-heróis. É considerado por George Lucas como um dos seus mentores e responsável em parte pela saga.

Recentemente comprei o DVD com o mesmo nome, que é uma entrevista de Joseph Cambpell a Bill Moyers. Novamente surpreende pela quantidade de informação, você assiste os dois discos comendo pipoca numa noite, e se sentindo mais inteligente ao desligar o DVD, ao contrário de uma noitada com “Transformers”. É impossível não ficar com inveja do raciocínio e da eloquência de Campbell, você se sente um primata tentando abrir uma lata de milho perto dele.
Vale a pena cada centavinho gasto nele.

Tem uma parte nesse documentário que achei muito, mas muuito bacana. Nem lembro se ele fala sobre isso no livro, mas audiovisualmente é mais contundente.

Ele fala sobre o conceito do “Lugar Sagrado”. Todo mundo deveria ter um lugar sagrado. É um lugar só dele, onde ele não se preocupa com suas dívidas, com trabalho, com a família, com o nódulo que apareceu no testículo, com nada. Só pra ficar largado com ele mesmo. É o que as esposas chamam de “A Caverna” e ficam putas porque acham que acham que os maridos se isolam pra ver peito e bunda ou ficar no MSN com um cara se fazendo de mulher do outro lado. Mas não é, principalmente para homens esse espaço é uma necessidade.

Para muitos, ficar trancado nesse lugar pode não acontecer nada por algum tempo. Mas depois acontece.

Segundo Campbell (e é a resposta que vinha procurando há algum tempo pra justificar a minha caverna), o que acontece nesse lugar sagrado é a criatividade. Nesse lugar você começa a criar coisas novas, ligações novas, crenças novas. O que Campbell chama de criatividade (e é) também pode ser chamado de interiorização, e é até uma forma de meditação. Indiscutivelmente necessário para publicitários ou ilustradores. Escrevendo desse jeito é uma merda, tem que ver ele falando.

Lugar Sagrado não é lugar pra enfiar TV de plasma, conexão de banda larga pra ver sacanagem mais rápido ou XBox, que aparentemente distraem mas causam torpor, isolamento e alienação. É pra levar livros, brinquedos, papel, caneta, um colchão e um pacote de salgadinhos, ferramentas que ajudam no processo de interiorização.

Ainda segundo ele, na época dos homens das cavernas, o lugar sagrado deles era toda a planície da caça, e era ali que as coisas aconteciam. Hoje tudo foi reduzido a uma garagem oleosa, uma edícula minúscula ou para alguns, somente resta sentar na privada por quinze minutos. O espaço foi diminuindo de maneira conivente como no conto “A Casa Tomada” de Julio Cortázar.

Para os que estavam procurando por uma desculpa pra ter um lugar só seu em casa (e pelamordedeus, isso inclui também as damas e similares) mas tinha medo de causar a impressão de que é porque está de saco cheio da sua ou seu consorte, diga que é uma necessidade criativa e mostre o DVD . Aqui em casa pelo menos funcionou.

O dia em que seu João veio ao Brasil de mala e cuia

[img:jcarioca.jpg,full,alinhar_esq_caixa]Adorados leitores em fase de formação, vocês que cospem em História, Matemática, Literatura como lhamas irritadas, não culpem essas matérias . Professores e sistemas de ensino canhestros e modorrentos deveriam ser punidos por embutir a antipatia e fobia delas nas cabeças dos alunos pela maneira enfadonha e burocrática que as ministram. Deveriam ser condenados a limpar diarréia de São Bernardo todos os dias pelos restos de suas vidas por esse pecado.

Até uma aula de anatomia da Anna Hickman pode ser agonizante e interminável se for mal ministrada.

Em comemoração dos 200 anos da vinda da Família Real Portuguesa ao Brasil, O Spacca lançou um livro chamado “D. João Carioca”, da Editora Companhia das Letras, escrito pela Liliam Schwarcz. Um exemplo de que História pode ser retratada com qualidade. Você não vê mais o Santos Dumont depois que lê “Santô”, também dele. E se simpatiza um monte com D. João VI com esse livro, deixando de vê-lo como um mero comedor de coxinhas.

Agora, o toque de limão na azeitona da empada eu vi no último Bistecão. Spacca é um tarado por detalhes, um pesquisador sabujento pela história, e isso ele mostrou de maneria claríssima com seu magnificento caderno de esboços desse livro. Cada rococó de perna de mesa observado, cada fivela de sapato fresco anotado, construções belíssimas de personagens principais e secundários, esses pela primeira vez mencionados para muitos açoitados pela versão oficial e burocrática da história do Brasil.
Para os amantes de sketchbooks como eu, ver essas imagens é como um shiatsu nos olhos. Pode clicar nas imagens que elas estão grandes o suficiente pra observar os detalhes.



Walt Disney também acordava em cima do ovo esquerdo

[img:Mowgli.jpg,full,alinhar_esq_caixa]Excelente dica enviada pelo grande Spacca.

Bill Peet era um dos responsáveis pelos roteiros e storyboards das grandes animações da época de ouro da Disney, como Cinderella e Mowgli.

Há 20 anos ele lançou um livro chamado “Bill Peet, an Autobiography”, que pelo título, dãã, dispensa explanações. Ou não, já que nesse livro estão recheadas de desenhos do cotidiano de um estúdio de animação da Disney. Disponível na Amazon por módicos U$14 dinheiros americanos (mas a Cultura traz, se pedir).

Bill Peet ilustra de maneira leve o permanente como era trabalhar ao lado de um sujeito como Walt Disney, o terror que era um trabalho passar pela aprovação dele quase sempre ranzinza e perfeccionista viciado em nicotina, e o alívio refrescante de vê-lo com um sorriso aprovativo na boca. Iguais uns diretores de criação de agências vitaminados que conheço.

No blog Isn’t Life Terrible tem um post com mais imagens bem grandes desse livro. Infelizmente o link é pro conjunto de post, tem que puxar a barra de rolagem pra baixo até achar o que lhe interessa. Mas o blog é bem interessante também, pra quem gosta de coisas com cheiro de criança com naftalina.

Atrás daquela figura doce, com um bigodinho cuidadosamente encerado que apresentava desenhos na minha tenra infância, e que ocupava a maior parte da capa do já clássico “Festival Disney” escondia um chefe que comia fígados de funcionários apenas com um olhar. Sem Chianti.

Zogg, a ameaça fofa que vem do espaço

[img:Zoggcover.jpg,thumb,alinhar_esq_caixa]Certa vez, alguém escreveu e ilustrou um daqueles que tinham mensagens tão açucaradas que podiam causar diabetes, com mensagens holísticas de paz, amor e respeito ao Criador, geralmente dados por tias velhas com cheiro rançoso. Tipo, daqueles cheios de lição de moral pra dar, na tentativa de construir o caráter do garoto impúbere que folheasse suas páginas, na esperança dele não virar um apertador de campainha fugidio ou que ele não sujasse sua mente com Playboys ou pior, aquelas revistas suecas cheias de mulheres feias e sexo explícito.

Aí, sabe-se lá que tragédia aconteceu, ou se somente o autor acordou em cima do ovo esquerdo, um dia ele decide pegar aquela obra-prima do brega politicamente correto e transforma em uma cartilha de invasão alienígena. Deliciosa e incorreta.

O livro original chamava-se “The Little Golden Book About God”, ou candidamente traduzido como “O Livro Dourado Sobre Deus”. Vai saber agora se isso é uma lenda urbana da internet ou não, mas ele refez o livro como “The Little Golden Book About Zogg”, um manual de dominância e invasão alienígena, que substituíram as palavras cândidas e com cheiro de lavanda do livro original (no link tem todas as páginas do livro, para deleite de quem sofreu na mão dessas tias).

Ficou bom pra carvalho.
Na verdade, esse livro ficou menos perigoso do que a versão anterior, que podia matar quem o tivesse em suas mãos de tédio ou de encolhimento das funções cerebrais.

Fico devendo o nome do pai dessa pérola do humor negro-brega. Quem souber, dou um vale-chá.

Nessa mesma linha, do foforror, um filme no Youtube transforma “Mary Poppins” em filme da categoria do “Exorcista” usando umas cenas do filme que realmente ficam sinistras com a trilha sonora adequada.

São as maravilhas da edição. Cidade de Deus e 300 de Esparta que o digam.

O livro infantil de Saul Bass


Deu no Drawn de ontem, que saiu no blog Grain Edit, que colocou várias páginas de um pequeno tesouro feito por Saul Bass (não sabe quem é Saul Bass?) em 1962. Eu não sabia que ele havia feito um livro infantil, e de repente a simples menção desse tipo de trabalho não muito usual (pelo menos pra moi) em sua carreira pareceu apetitoso como um pastel de feira quente e crocante.

As poucas páginas de Harri’s Walk to Paris que estão postadas lá ainda são uma aula de como usar formas, cores e tipos. 45 anos depois o trabalho do velhinho ainda continua potente e atual. Isso numa época em que vetor era só um conceito de física newtoniana. Que catzo de maçãs, janelas e adobes, o quê. A principal ferramenta do bom velhinho (que na época não era velhinho) era sua cabeça, assim como devia ser a de todo designer e ilustrador.

Laertevisão – Coisas que eu não esqueci

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Laerte já é uma entidade com seus quadrinhos e tirinhas, de intensidade tão grande como o sumido Luis Gê, (mesmo as sem pé nem cabeça que saem na Folha), mas ele fica incontestavelmente porreta quando ele faz as dominicais da Folha sobre seus dias tenros e verdes. Por isso mesmo, aqueles que têm mais de 40 anos ficam com 15 ao lerem Laertevisão – Coisas que Não Esqueci (Conrad, R$46,00 na média), uma coletânea dessas tirinhas pra se ler com manteiga em cima, de tão gostosa. Como na década de 60 ainda não existia internet e o “Heroes” da TV na época era o Capitão 7 e o Vigilante Rodoviário, praticamente todos os garotos brincavam com as mesmas coisas. Está lá no livro as guerras de mamonas, as viagens na praia dormindo na Kombi do pai e as passadas de domingo na banca pra comprar os gibis da semana (que no meu caso era a revista Recreio, comprada religiosamente toda semana e que vinha com um treco pra recortar e colar muito em cada número).

Pensando um pouco, talvez seja aí a explicação do porquê que todo ilustrador (ou quase todo) na faixa dessa idade tem um comportamento muito parecido.