Softy kitty, neko kawaii

Até num comercial japonês de 30 segundos o estúdio Ghibli faz coisa pra soltar palavrão. Fofura pura até a úvula.

Corrijam se eu estiver errado, mas parece que foi feito pelo filho do Miyazaki, o Miyazaki Jr.

Enquanto isso, aqui, comercial de cheirinho de carro com sujeito cantando cobradora de pedágio, nanana forever young e China in Box histérico faz parecer esses 30 segundos uma eternidade. Teoria da relatividade de Einstein.

Idéias ricas, garotas pobres e tipologia que vira personagem

O maior desafio em direção de arte na propaganda é fazer um anúncio all-type – anúncio que não tem imagens, apenas títulos e textos – que seja criativo, de impacto e, de lambuja, ainda dar recall. E dá-lhe fuçadas no Adobe Font Folio pra caçar uma letra bacanuda no meio de mil fontes remerrenhas pra dar um jeitinho naquele anúncio chinfrim. São poucos os bravos que conseguem.

Agora, não gosta de all-type? Acha tão sem graça como assistir máquina lavar roupa? Pois esse filme de apresentação do “The Girl Effect” é um tapa de mão aberta na cara de Hans Donner, que vê cromado e arco-íris até em linguiça pendurada em bar.

Ele é todo feito com uma só fonte, mas usa a tipologia com uma dinâmica tão eficiente que as palavras conseguem contar uma história como se fossem personagens. Sim, precisa ler em inglês, mas aqueles que possuem esse poder, verão que é uma maneira eficientíssima de se contar uma história. Tanto que até o próprio canal GNT e o Discovery andam usando esse recurso em algumas chamadas.

É tipo de criação que inspira outros criativos, fazer algo tão poderoso com pouquíssimo recurso. Nada de producão para fazer cocô na casa do Pedrinho, é explorar a tipologia ao máximo para passar o conceito (que sinceramente, não teria o mesmo efeito se mostrasse imagens de garotinhas mulambentas e empoeiradas com cara de fome).

Dá uma olhada no site do “The Girl Effect”, também baseado em tipologia, mas com algumas fotos como acompanhamento. A idéia do projeto é bacana, humanitária, onde prega que ajudar uma garota pobre pode salvar o mundo. Só a chamada no final é meio estranha, pois tem potencial pra estimular mentes mais pervertidas: “Invest in a girl and she will do the rest”, ou “Invista em uma garota que ela vai fazer o resto”. Vossas esposas que o digam.

Ainda que as letras são o tema deste post, aí vai também um filme abre-pupila da National Geographic (tem em português, mas não tá disponível pra incorporar no blog, então vai a versão inglesa mesmo). Esse conceito de ler a palavra como um todo é o segredo para se fazer leitura dinâmica.

Que a maldição de mil gafanhotos caiam sobre aqueles que propagam o miguxês.

Carburadores e ilustradores


Tudo pode ser ilustração, até mesmo rabiscos e gatafunhos feitos durante uma conversa com um art buyer agradável ou um desenho técnico.
Esse anúncio (pode clicar na imagem pra ampliar) foi feito pela Sancho BBDO, de Bogotá. O conceito é forte: as peças tem nomes dos profissionais que trabalham em uma oficina autorizada da Chevrolet chamada Los Coches, cada um com sua função, cada um com sua importância e todos fazendo parte de uma coisa maior. Nada como filosofiar em cima de uma junta homocinética, aqui reencarnada com o nome de Carlos Rey.

Não encontrei quem foi a criatura que ilustrou essa peça, mas fica aqui o elogio pelo teclado. E a idéia de fazer uma toalhinha de bandeja esquartejando um carro ou um helicóptero, para aqueles que tem sede de partes metálicas e de entender como as coisas funcionam (esses devem perder uma hora da vida assistindo a um dos melhores programas da Discovery, “Como é Possível”, que encontra beleza até na fabricação de um prego).

Tudo por Money Money

Nos últimos anos, a grande maioria filmes publicitários na TV daqui andam com um espírito remerrenho, medorrento e em alguns casos, até mesmo constrangedor (a dos monitores AOC e do guaraná Dolly chegam a criar pedras nos rins).
Felizmente, e mais do que felizmente, toda regra tem exceção, e nesse caso são as campanhas ambientais. Elas tem se mostrado um poço de criatividade num ambiente seco e arreganhado desses elementos, e o que é mais importante, passando uma mensagem clara de maneira lúdica, simbólica ou pegando no nervo mesmo. Dessas que não se esquece durante anos, iguais aos filmes dos cobertores Parahyba e da bala de leite Kids.

Esse filme, da WWF mostrando o Efeito Dominó ambienta em sincronia perfeitíssima com a canção “Money Money”, que os com mais idade viram há uns 30 anos Joel Grey cantando em “Cabaret”, quando Liza Minelli ainda era jovem e sóbria, mostra de forma lúdica que tudo volta e tudo tem consequência.
É tão bom que dispensa comentários. Ficaria redundante elogiar.

Restam os créditos: a agência de publicidade responsável pela jóia joinha foi a DM9DDB e quem fez a animação foi o estúdio Pix Post e a música foi recomposta e reescrita pela Play It Again.

Aqui tem um mini making off do filme.

Alguém precisa criar um santo pro Youtube.

Shunga, hentais e impressoras sexuais

A agência Publicis da Romênia criou anúncios para HP dirigido para onanistas com uma fixação pela perversão japonesa e que também possuem alguma aspiração artística. Misturar sexo, Japão e impressoras tem sua lógica para quem fica excitado ao ler a frase “jato de tinta”.

Dois desenhos pra pintar (ops) com números em estilo hentai e shunga. Considerando o cliente, até que tem uma dose de ousadia saudável.

Shunga são gravuras antigas japonesas de sexo, cujos mestres são Utamaro e Hokusai. São as versões arcanas e naftalínicas dos atuais hentais, subproduto do mangá e animê de baixo valor nutritivo mas amplamente aceito no Japão e no Ocidente.

Clones publicitários

Culpem os anuários de criação, o One Show ou a Archive, onipresentes nas mesas dos criativos, ou as propagandas subliminares feitas pelos ancestrais e antepassados publicitários que influenciaram também os novos trabalhadores da arte da divulgação ou aleguem uma fantástica sincronia conceitual mas não temporal. Culpem também as pizzas meia muzzarella, meia enfarto das madrugadas com café e Coca-Cola. O fato é que existe uma membrana fina como um hímen que separa a coincidência da cópia clonada.

Esse site francês deve ser a janela de identificação dos supeitos para alguns diretores de arte e redatores. É uma compilação de dezenas e dezenas de propagandas impressas que ou usam um conceito similar, mas têm o benefício da dúvida por utilizarem ícones universais, como lábios em forma de coração, até reproduções assexuadas de idéias e até layout. Define-se aqui a diferença entre plágio doloso e plágio culposo.

Falando sério, um diretor de arte ou redator nunca tem 100% de certeza se está criando algo novo, mesmo com pesquisas em anuários de quinze anos atrás. É natural alguma coisa escapar de vez em quando. Ilustradores também, às vezes na maior inocência reproduz uma idéia que já existe, de outra forma. Como disse antes, às vezes acontece por que estão trabalhando com símbolos e ícones universais, às vezes por que existe uma associação óbvia entre a forma e a idéia. Mas algumas vezes existe mesmo o espírito vilanesco da apropriação indébita em alguns. Poucos, felizmente.

O site não tem uma home page propriamente dita, então tem que fuçar nas diversas categorias. Achei no Updaters.

Namastê

Ilustrações com cheiro de curry, vindas da Índia, onde não é muito comum sua presença em listas e anuários de ilustração. A gente se acostuma com os G8 da ilustração que esquece que em todos os países existem ilustradores, mesmo em Burkina Faso e Curaçao.



Foram anúncios para uma conferência nos EUA sobre assuntos da Índia. A agência fica em Kolkata, e é a Bates David Enterprises.
O ilustrador é Timir Majumdar.

Cores

Aí vai um site pra quem ama cores. Como um ex-diretor de criação bem ruinzinho que eu tive, que tinha essa frase como marca registrada pra qualquer coisa que você criava, até mesmo pra um tijolinho pra vender carro usado:
“Precisa de mais côresh! Mais côresh!”
Os anúncios ficavam com cara de arara vermelha e arara azul batidos no liquidificador e ele ficava feliz (mas o cliente não).


O site/blog Colourlovers tem milhares de combinações de cores pra você se inspirar ou quando tiver preguiça. Alega que ele apresenta as “últimas tendências de combinações de cores”, então tá. Pelo menos ele é tão útil como aqueles livros japoneses de combinações de cores que custavam uma fortuna.

E esse anúncio da Motorola feita pela Ogilvy do Chile deve ter se inspirado nesse princípio.

Os daltônicos agradecem.

Par de vasos

Aah, o mundo da internet pode ter seus críticos, mas o legal é que ele deixa o mundo petinininho.
A fabulosa Carla teve a paciência de me enviar uma imagem do anúncio do Focus feita pela JW Thompson que é espelho do anúncio da Yazigi feito pela McCann Erickson. Resta saber se o ilustrador da outra também foi Thomas Broome, já que não existem rastros de informação sobre esse anúncio na net. Big dog fight.

E novamente o primeiro da fila:

Propagandas gemeladas

Esse anúncio da Yazigi foi feito pela McCann Erickson usando ilustrações de Thomas Broome há alguns meses. Ficou bem conhecida pela net.

Fiquei procurando minhas Vejas de maio em vão, já que foram pro tiozinho da reciclagem, pois há algumas semanas eu juro que vi anúncios de página dupla de algum carro da Ford (eu acho que era Ford, pois se foi um Chevrolet só pode ter saído da McCann, a mesma da Yazigi, o que tornaria essa confusão ilógica) usando essa mesma linguagem visual, mesmíssima. Você não encontra uma imagem do anúncio na internet, no Google, nem no site da Thompson ou da Ford. Issa!

Alguém mais viu isso ou é o Alzheimer chegando mais cedo?

Another Ads

Acrescentei mais uma categoria: another ads, só com ilustrações utilizadas em anúncios e outras mídias publicitárias. Ao contrário da ilustração editorial, a publicitária raramente é autoral, e quando é dificilmente o público consumidor sabe que as fez, pois dificilmente é dado o crédito tanto para um ilustrador como para fotógrafos.

Esse é um belo exemplo de marketing de guerrilha, que é o tipo de publicidade que você usa soluções não convencionais, foge do tradicional cartaz-anúncio-filminho, cuja proposta é gerar buzz (propaganda boca-a-boca), no que hoje todo mundo chama de marketing viral. Embora os filmes do guaraná Dolly são amplamente comentados boca-a-boca como “a coisa que o gato joga terra em cima”, o que acontece aí não é marketing viral, é propaganda bacteria mesmo, porque ela infecta sua mente que se recusa a esquecer das coisas toscas e bizarras que se levam a sério.

O próprio produtos Havaianas é um exemplo de marketing viral de sucesso. De um produto chumbrega usado pra matar barata e castigar crianças levadas passou para um status de produto de qualidade, exportado e caro, muito por graças do boca-a-boca. Os chinelos Rider, por outro lado, que eram o fino há 10 anos, hoje é considerado por muitos um artefato indispensável para um churrasco de contra-filé em metade de barril de óleo na oficina mecânica do vizinho.
A idéia foi concebida pela BBDO de NY, e o ilustrador é McFaul.