Coisas que ninguém sabe que eu desenho

Nem só de coisas fofas e mulheres curvosas vive um Hiro. Como é preciso comer, e comer bem, temos que trabalhar de vez em sempre por dinheiro, embora muitos puristas não concordem com isso. Não sei como, mas não concordam. Na hora em que dinheiro de Banco Imobiliário puder pagar conta de luz eu repenso sobre isso.

Geralmente são ilustrações de embalagens, ilustrações menores que auxiliam instruções, ou simplesmente ajudam a vender melhor uma paçoquinha. Ou são trabalhos em situações diferentes ou cuja publicação foi num espaço de tempo muito curto. Ou outros que nem foram aprovados pelos clientes.

Por exemplo, essas são frutas estão em embalagens das barrinhas de cereais da Taeq.

Esses moais foram feitos para rótulos de vinho também do Pão de Açúcar.

Esses aqui são ilustrações de traseiras de embalagens de produtos do Pão de Açúcar. Eu particularmente adoro fazer esses desenhinhos de back de embalagens, como modo de montagem de uma garrafa de corrida, luvinhas de borracha para uso não-proctológico, temperinhos de alho e para embalagem de frango assado. No final você tem uma coleção bonitinha de desenhos que parecem brindes de Kinder Ovo vetoriais.




Saladas de frutas vetoriais também entram no meu cardápio de trabalhos de vez em quando:

Pro McDonald’s, já fiz uma versão plastificada dos acepipes servidos nas McFestas:

E de vez em quando faço painéis para exibição de brindes de McLanche Feliz, como esse com o tema de “Uma Noite no Museu 2″

Durante um ano fiz ilustrações para os pôsteres da revista Carta na Escola:



Essa aí é uma dedicatória que eu fiz pro meu amigo Leandro Robles pra revista do Macaco Albino:

E essas duas Chapeuzinhos Vermelhos foram estudos que fiz pra um anúncio da Natura, que não rolou:


Um folder que fiz pro lançamento da Zafira:

A cabeça de Miyazaki

Em épocas nada gloriosas da minha vida, particularmente quando minha carreira era fétida e sem perspectivas como uma bola de pelo de gatos, quando havia desistido de ser ilustrador para trabalhar com publicidade, uma das coisas que me deram força pra continuar gostando de desenho em circunstâncias adversas foi Totoro. Toda vez que via Totoro eu ficava fascinado como uma criança que repete o filme dezenas de vezes e canta a musiquinha no final, e esse fascínio me fazia pegar no lápis e rabiscar alguma coisa mesmo sem utilidade, sem qualidade ou sem pretensão. As cenas da árvore gigante crescendo ou do Gato Ônibus mexiam comigo. Sem esses rabiscos esporádicos durante essa fase, dificilmente eu retornaria a trabalhar com ilustração alguns anos depois.

Ninguém como Hayao Miyazaki consegue fazer trabalhos que inspiram tanto uma criança com cheiro de leite na roupa como um adulto com dívidas no banco, passando obviamente por uma renca de ilustradores, animadores e escritores que ergueriam um altar para ele em um cantinho especial da casa. Lógico, tem gente que torce o nariz pra ele, mas esses a gente não convida pra brincar.

Quem é fã dele e tem um inglês azeitado deve tem que ler “Starting Point” – R$68 dinheiros na Livraria Cultura.

O livro é um apanhado de entrevistas, ensaios e pensamentos de Miyazaki durante o período de 1979 a 1996. É um livro delicioso, é um TED escrito em papel. Ali Miyazaki fala sobre a paixão de desenhar, de como as idéias nascem, do que uma história tem que ter para ser boa, como ele constrói um personagem, o que ele acha sobre mangás, a paixão dele por aviões e pelo voar, ou as referências de filmes noruegueses e italianos, como “Ladrões de Bicicleta”. Além disso também conta o ponto de partida que levou ele a criar Totoro, Kiki, Princesa Mononoke, etc. Deliciosamente obrigatório para quem não só trabalha com desenho, mas para quem trabalha com criatividade.

Um exemplo do que ele fala sobre o ato de desenhar, devidamente traduzido:

Quando você fala sobre um belo pôr-do-sol, você sai correndo atrás de referências fotográficas de pôr-do-sol ou vai em buscá-lo em qualquer lugar? Não, você fala sobre o pôr-do-sol desenhando o que conhece dos muitos por-do-sol que você tem armazenado dentro de você, basicamente sentimentos sobre ele arraigados dentro do seu consciente, dos por-do-sol que você via nas costas da sua mãe, cujas memórias são quase um sonho, ou do primeiro pôr-do-sol da sua vida que você viu em um penhasco e deixou você perplexo e encantado, ou aqueles por-do-dol em dias de angústia, solidão ou entusiasmo…

….desenhe muito, o máximo que você puder. De vez em quando, a partir disso, um mundo pode ser criado.

O livro é lotado dessas “conversas de velhinho sábio”, deliciosamente sábias.

Esse é um dos vários sketches que Miyazaki fez sobre idéias soltas, apresentadas por um Porco Rosso fofo.

Máquina de fazer xixi e outras mecanices para crianças

Mais um jabásico. Dessa vez é um cenário que eu fiz pro McDonald’s, daquelas pecinhas de teatro que um Ronald genérico faz em diversos lugares do país. Eu sempre faço esses cenários, são sempre produzidos vetorialmente porque eles são produzidos com um tamanho generoso.

Também sempre faço, e quase ninguém sabe, também essas lâminas de bandeja mais pueris, mais simples, para diversão da moçadinha de dentes de leite. Geralmente existem espaços separados em algumas lojas do McDonald’s onde algumas crianças tem passatempos com o apoio de um monitor. Algumas delas são dadas também nos shows da série Mundo Feliz.

HQ Mix para a Revista Ilustrar

Alguém tinha que reconhecer o esforço quixotesco ou brancaleonesco que Ricardo Antunes vem fazendo com a Revista Ilustrar após anos de esforço solitário como uma masturbação numa sexta à noite, mas ao mesmo tempo também prazeirosa como uma orgia de fadas lésbicas lindíssimas. Solitário porque ele faz tudo sozinho, e prazeirosa porque o que ele ganhou de amizades e oportunidades de conversar com titãs ilustradores e ver desenhos originais que somente poucos olhos teriam a honra de ver. E esse esforço vem do prêmio HQ Mix, que acontece nessa sexta, dia 16/09. A Revista Ilustrar ganha o troféu HQ Mix na categoria Homenagem Especial, um contraponto, já que tiraram as categorias de ilustração normais da premiação. A Revista Ilustrar, junto com o Guia do Ilustrador, já fizeram muito mais em prol da ilustração e dos ilustradores do que muitas mães de ilustradores por aí. A Revista só não dá emprego e comida na boca, de resto tem informação e dedicação obrigatória para qualquer um que trabalhe com desenho, imagens, design ou sendo apenas amantes de desenhos bons.

É como sempre falo, mesmo de graça pra download ela não tem preço.

Levantemos nossas canecas de porcelana com design bacanudos e brindemos com Cocas sem gás a mais anos e anos de sucesso à Revista Ilustrar e também, consequentemente, anos de saúde e sanidade mental para Ricardo Antunes continuar na empreitada.

Em tempo: talvez eu ou o Rosso iremos receber o prêmio das mãos do Serginho Groissman, ja que o honorável mentor e construtor da revista mora em Lisboa.