Mes petit amis de voyage

Pra quem perguntou que materiais que eu usei e uso nas viagens, ei-los, bonitinhos e faceiros.
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É um conjuntinho de aquarela do tamanho de um maço de cigarros da Winsor & Newton, uma caixinha de metal com um tanquezinho de água ou conhaque, dependendo da sua necessidade primordial. US$ 85 na Dick Blick de NY.

E os pincéis são compactos, daqueles que a capinha protetora vira parte do cabo quando abertos.

Cabem até no bolso da jaqueta. Por isso adoro as baixinhas.

Gobelins, não foi dessa vez

Juro que eu tentei.

Meu contato para entrar dentro da escola de imagens Gobelins deu uma furada bacana, daquelas de fazer você se sentir Scarlett O’Hara erguendo cenoura no ar.
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Sem um contato foi impossível entrar para conhecer a escola por dentro. Não sei se a recepcionista estava num dia com o hemisfério sul sangrando, ou se o mau humor é o típico parisiense, mas o fato é que não passei da porta da frente, nem falando que eu vim do Brasil só para conhecer a escola, nem dizendo sivuplê ou que usei o dinheiro da comida dos meus filhos pra viajar pra Paris. Nada. Era possível sentir o ar ficar mais frio perto da recepcionista, que falava inglês mas preferia falar na língua dela.
Pra não dizer que não entrei na escola, eu enfiei a cabeça pra dentro de uma porta, totalizando talvez uns 7 metros de penetração forçada na Gobelins, incluindo a recepção.
Mas até se entende o porquê, afinal a escola Gobelins tem se tornado referência em animação e consequentemente, tem aumentado muito a procura apenas para fins de matança de curiosidade, e vai saber se também a concorrência é outro motivador da restrição. Restou-me então sentar confortavelmente na recepção enquanto assistia os filmes em uma TV na parede e pegar os folders.

Pelo menos dá pra passar a informação dos cursos de lá, que é o que interessa.

Existe um curso de verão na Gobelins – Character Animation.
É um curso que, neste ano, vai de 1º a 18 de julho. As aulas são ministradas em francês com tradução simultânea em inglês.
É um curso de duas semanas que resume o “Master Class”, o curso mais longo, focando basicamente na animação de personagens.
Custa 2.200 Euros sem acomodações e 2.600 com cama, privada e algum carinho. Comidas e sexo à parte.

Não é um curso para iniciantes e amadores. Só são aceitos quem já tem um traço bem desenvolvido, tem uma avaliação que deve ser feita através do site deles.

O curso Master Class, que levam alguns anos, esse nem informação eu consegui. Só por email. Só sei que esse curso, em módulos, lida não só com animação, mas também com desenvolvimento de personagens, de cenário, estudo de roteiro, música e harmonia visual.

Mas tem uma coisa legal que soube lá: a Gobelins tem um projeto já montado onde ela leva o curso Master Class ou o de verão para outros países. Vai que um dia uma alma boa e gentil não decida trazê-los aqui no Brasil? Esperança é a última que morre, mas morre.

Galeria Arludik, ponto turístico para ilustradores em Paris

Assim é a vida. Um dia você está atravessando o rio Sena. No dia seguinte, o rio Tietê.

Já retornei ao Brasil e devido à minha mente frouxa como elástico de cueca velha, perdi meu caderno Moleskine com todos os desenhos que eu fiz em Paris, vide post abaixo. O jeito agora é postar o que restou da viagem baseado em fotos. Ainda queria postar alguns desenhos de tipos que encontrei nas ruas de Paris e outras coisinhas mais. Madame Sorte , faz uma forcinha pra ele voltar aqui em casa são e salvo.

Eu havia dito que Paris era uma cidade ótima para quem é artista, mas em termos de ilustração não havia muita coisa específica. Isso se tornou 50% verdade. Depois de ter conhecido o acervo de livros de sketches explode-cartão da Album e da Pulp, eis que conheci no finalzinho da viagem algo para endurecer os mamilos de qualquer ilustrador, principalmente os que amam criação de personagens de cinema e animação.

A Galeria Arludik (Rue St. Louis en l’ille, 12-14, perto do metrô Pont Marie da linha 7) fica numa rua bonitinha em Cité des Arts e se resume grotescamente nessa frase: é de foder.
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Imagine um lugar onde periodicamente são expostos sketches e originais de Bobby Chiu, Katsuhiro Otomo, Miyazaki, Satoshi Kon, Alessandro Barbucci, de Monster Allergy, Claire Wendling, concepts de Ratatouille, Ice Age 3, etc, etc e bota etc nisso. Dá uma olhada nessa galeira de artistas pra ver se você também não sairia de lá pingando algo, não necessariamente lágrimas.

A Galeria em si é bem pequenininha, um ovinho de codorna, mas uma prova de que tamanho não é documento, ou que coisinhas pequenas fazem maiores estragos, entendam isso como quiserem. Resume-se a duas salas pequenas com uns 20 quadros especificamente de um artista, que é trocado constantemente, ou seja, a galeria não tem uma exposição permanente.

No dia em que eu fui era a vez do Sylvain Despretz, que fez storyboards e concepts de filmes como “De Olhos Bem Fechados”, “Eu Robô” e “I’m Legend”. O próximo, que começa essa semana, é a exposição do Devin Crane.
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Amostra grátis do Devin Crane.
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Parece que o forte da Galeria não é a galeria em si, mas as exposições que ela faz na França e Europa em museus grandes, espaçosos e renomados, elevando os concepts e desenhos de cinema e animação pra categoria de arte. Você também não pensaria em vender partes do seu corpo, incluindo orifícios, para frequentar uma exposição com o Miyazaki bebendo vinho ao seu lado?
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Só pra saber, esse daí é “O” Otomo. Aquele.
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A responsável pela galeria, Diane Launier, uma parisiense simpaticíssima (vale frisar que essas duas palavras nem sempre andam juntas) não é ilustradora, mas é uma apaixonada por esse tipo de arte, sentimento que nós entendemos muito bem.
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Em sua salinha existem dezenas de quadros que não estão à venda, porque talvez não tenham preço, como uma sequência de Persépolis feita a mão. Foi lá que eu vi um original do Peter de Sève, num momento em que eu arregalei tanto os olhos pra ver os detalhes que deixei de ser oriental por alguns minutos.

Lá vende muitas prints giclées das exposições passadas, que se esgotam rapidinho como táxi em dia de chuva. Eu comprei esse sketch do Spike Jonze que ele fez para “Where the Wild Things Are”, o máximo que 100 euros conseguem comprar naquele lugar, onde tem trabalhos por até 10 mil euros.
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Tem um carnet de croquis chorando sozinho por aí

Sei que pedir com jeito faz milagres, então…
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Meu querido amigo ou amiga, se você encontrou um caderninho Moleskine pequeno, de capa preta, repleto de aquarelas que você viu nesse blog, com desenhos de Paris.. Esse caderno tem todas as aquarelinhas que fiz lá na França e tem um valor inestimável pra mim.

Eu o perdi em algum lugar entre o aeroporto de Guarulhos ou no banco traseiro do táxi. Já liguei pra companhia e pro motorista, mas nada.

Se você estiver em posse dele, mande uma mensagem aqui ou no telefone 11 9113 6698. Você terá minha eterna gratidão e algo mais.

Pimenta no cuisine dos outros é refresco

Tirando comprar pão de boulangerie e queijo e vinho de algum marché por perto do seu hotel, comer bem em um restaurante, ao contrário do que se pensa, não é tarefa fácil. Se não tiver uma boa indicação, você corre sério risco de gastar vinte euros num prato de bife feito sem amor e tempero, ou comer um churrasco grego, aqui chamado de gyro, que é um corneto com tudo o que o homem fez de gorduroso e perigoso, um dinamite oleoso. Comer num McDonald’s aqui é um tapa na cara do dinheiro que você gastou com as passagens.

Mas, como disse antes, existe a Paris dos turistas e a Paris dos parisienses. Em termos de comida, vale a pena – muito a pena – fugir dos lugares turísticos, principalmente os locais com fotos dos pratos na frente, dos locais onde tem uma atendente fantasiada de odalisca e de qualquer pizzaria, e se perder em ruas vazias e tentar entrar em restaraurantes isolados e que praticamente não tem placas na frente.

Tomar café da manhã e almoçar sozinho em Paris é tarefa fácil. Difícil mesmo é JANTAR sozinho. Paris é uma cidade que exige que você tenha uma companhia a noite.
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O francês tem o hábito saudável de respeitar o horário das refeições, de comer bem e de comer sempre bem acompanhado, seja dos amigos ou de um objeto de desejo. E dá-lhe bate-papo regado a vinho.

Na maioria dos lugares não turisticos, jantar sem ter feito uma reserva é quase como querer entrar de cueca furada. Some-se isso ao mau humor de alguns gerentes e você tem um souvenir em forma de trauma pra levar pra casa.
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Quando deixam você entrar, é intimidador. Todas as mesas estão lotadas com mais de uma pessoa e você tem que ligar o seu botão do foda-se imaginário, com a ajuda de um livro ou do sketchbook, e partir pra cima do entrecôte.

Viva para Steve Martin em “The Lonely Guy”.

Mas em compensação, quando você acerta, seja comendo com os amigos ou quando um residente daqui indica um lugar bacana, o lugar e a comida fazem uma cicatriz do bem no seu cérebro.

A melhor maneira pra não errar e gastando muito mas muito pouco mesmo é comprar pão, qualquer um dos centenas de tipos doces e salgados, entre paninis e pains du chocolat, que são vendidos lá, um melhor que o outro. O problema é ficar com o estômago nauseabundo de tanto comer amido.

Tá rindo do quê, Mona Lisa?

É fato. Paris É a cidade mais turística do mundo. Muito mais que NY, muito mais que Barcelona, é abrir os braços nas ruas e acertar 6 turistas ao mesmo tempo, todos de nacionalidades diferentes.

Assim, não há como ficar um pouco irritado com alguns pontos turísticos em Paris. Torre Eiffel? Turistas a granel. Champs Elisées e Arco do Triunfo,? Turistas fluindo como colesterol nas veias. Catedral de Notre Dame? Gárgulas não conseguem afastar os turistas. Até aí tudo bem, são locais muito grandes, abertos, ao contrário, por exemplo, de Montmartre e a igreja de Sacre Coeur, cujas ruas são estreitas como cintura de modelo e os turistas formam muralhas entre as calçadas.

Não poderia esperar nada mais do que claustrofobia, contato humano forçado e odores miseráveis (sempre tem um desgraçado que peida e foge nessas multidões) no museu do Louvre.

Infelizmente não tive sorte.

O Louvre estava com várias salas fechadas, sei lá por qual motivo. O fato é que somente as principais estavam abertas – Egito antigo, arte italiana, francesa, o que fez o que eu achava impossível – visitar o Louvre em apenas um dia. O Metropolitan, em NY, fiz em 3 dias e ainda faltaram algumas salas.

Mas, pra piorar, somados com o frio intenso (o que aumenta o número de visitantes) e o acúmulo de turistas em pouco espaço, visitar o Louvre virou uma experiêcia irritante e excruciante. Tranquilidade somente nas alas do Egito antigo e Mesopotâmia. Na parte das pinturas, o caos.
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Ficar observando um quadro com calma era impossível. Hordas de turistas chineses, com uma educação e grosseria de lenhadores com diarréia davam empurrões, tomavam conta do espaço e me faziam aflorar o que um homem tem de pior dentro de si.
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A Mona Lisa é um caso à parte. Mesmo sabendo com antecedência que acontece uma histeria coletiva organizada em algo que se pode chamar de fila, onde você é empurrado inexoravelmente pra frente, sem chance de observar os detalhes com calma, nada te prepara para esse festival de irritação e vontade de chutar o pau da barraca. Não, obrigado. Mona Lisa, te vejo na internet.

Parar pra sentar e desenhar uns sketches dos quadros, nem pensar.

Outros museus também são cheios, com filas pra entrar que andam em passo de taturana sonolenta, mas todos eles sem o fator “histeria coletiva”, o que os tornam…agradáveis. O Museu Rodin, Grand Palais, Centro Pompidou, Galeria Toquio, todos eles tão…tranquilos! Até os banheiros são mais agradáveis, você urina assobiando.
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O Museu D’Orsay foi o meu preferido. Foi construído em uma estação de trem desativada, tem um charminho todo especial. Tem uma mostra paralela muito bizarra chamada “Crime e Castigo”, com quadros e objetos com esse tema, com destaque para uma máquina de tortura elétrica que parece ter saído do filme “Jogos Mortais”.

Onde comprar Canson na terra do Canson?

Em Paris as lojas de material de desenho são como os cinemas daqui: são numerosas, mas a maioria são pequenininhas. Mas esse é o pensamento europeu, que acho correto. Eles não precisam de lojas de materiais de desenho gigantescas ou cinemas como o Cinemark. Elas vendem o que eles precisam, não são afetados por novidades (como no cinema, só agora o hábito de comer pipoca dentro da sala está começando a chegar, a contragosto bufante de alguns franceses). Se a loja tem um papel Canson, uma tinta Sennelier e um lápis Torchon, mais que isso é exagero.

Assim, se formos pensar em tamanho, São Paulo ainda está muito bem servida com a Casa do Artista e a Pintar, fazendo propaganda de graça. Poucas aqui chegam aos pés delas em termos de tamanho e diversidade de materiais. Em NY, ao contrário, até pela natureza da cidade, você espera o contrário: lojas gigantes com materiais de desenho que parece terem sido criados por Hefesto, o que não acontece, as lojas estão reduzidas porque quase todas as vendas são feitas online.

Eis algumas impressões das poucas que eu visitei:
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SENNELIER – Parada obrigatória nem que seja só pra conhecer uma das lojas de material artístico mais antiga da Europa. Fica no Quai Voltaire, pertinho do museu do Louvre.
Não me deixaram fotografar a loja por dentro, mas ela é bem pequena, apertada e até um pouco sufocante. Quatro fregueses dentro já enchem o pequeno espaço na frente do balcão. Tem um número limitado de materiais de desenho, vendem muito pigmento, aquarelas, tintas, telas e pincéis, a maioria da própria Sennelier.
A loja parece uma farmácia do final do século passado, repleta de armários de madeira envidraçados, muitos papéis e caixas empilhados de maneira bem displicente e atendentes simpáticos vestidos com avental branco. Até parece que dá pra tomar injeção na bunda nos fundos da loja.
Frequentada não sei por que por muitos ingleses.

UPDATE: O leitor do blog Alan Bariani mandou essa foto de dentro da Sennelier pra mostrar a cara de botica que ela tem:
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DUBOIS – Outra loja bem antiga, fundada em 1861, fica na rua Soufflot, entre o Pantheon e o Jardim de Luxemburgo. É um pouco maior que a Sennelier, também bagunçada e com alguns materiais antigos e diferentes de caligrafia. Tem uma seção interessante e escondida que vende – pasmem – bússolas, relógios e lentes de aumento.

LE GÉANT DE BEAUX ART – Fica na rua Roquefort, é bem grande, mas nada muito diferente do que você encontra em qualquer loja.

BHV – Dica do Japs, achei estranho porque o Bazar Hotel de Ville (Rua du Temple 14, Hotel de Ville) é uma megaloja de departamentos, tipo “El Corte Inglés”. Mas surpreendentemente, dentro tem uma seção inteira, no segundo andar, só de materiais de desenho e profiças – dezenas de marcas de papel de aquarela, das mais caras as mais vagabas, cadernos de sketchbook, pincéis, aquarelas, todos tipos de tintas, pincéis e acessórios. É quase uma Géant pela metade, e os preçøs são os menores que eu encontrei.
O lado ruim é que tem muito material exposto desgastado porque muita, mas muita gente mesmo passa pelo lugar, é um lugar bem frequentado por turistas.

ROUGIER ET PLÉS – (Boulevar Filles des Calvaries, 13, no metrô Filles de Calvaries) Essa é a maior loja que eu entrei, são 4 andares de material de desenho, um andar inteiro só de artesanato e uma boa seção de materiais de encadernação de livros. Dá pra descabelar um bocado o cartão de crédito nessa loja.

Devem existir mais de uma dezena de outras lojinhas em Paris, mas com essas 5 eu fecho a conta de materiais de desenho por aqui, senão, da mesma forma que comprar sapatos pra mulheres, isso não tem fim.

Ma vie de nerd

Embora Paris seja regada a arte, e ela própria é um modelo vivo meio esnobe, não é muito fácil encontrar um programa para ilustradores aqui. Nova York tem dezenas de locais pra fãs do traço, como a Sociedade dos Ilustradores e suas aulas de modelo vivo, a Illustration House, a Animazing, etc. Mas Paris tem seus museus, suas galerias e vira e mexe tem uma exposição com algum ilustrador ou quadrinista por aqui. No momento tem uma do Robert Crumb e do Sempé. Em outro post eu falo da experiência de frequentar um museu abarrotado por chineses mal-educados.
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Pra compensar, eu conheci logo que cheguei a rua mais nerd de Paris: a Rue Dante, perto da catedral de Notre Dame, do museu Cluny de Idade Média e do Boulevard Saint Germain.

O nome da rua se justifica: nerds com cartão de crédito, deixai aqui vossas esperanças.

É uma rua abarrotada com lojas de cultura POP. Logo de cara, fãs de mangás, otakus alienadamente orgulhosos (sim, ser chamado de otaku também é palavrão aqui em Paris), tem essa lojinha, Le Maison du Mangá, pequena mas com muita coisa legal e diferente. Tem um Totoro tipo relógio cuco, por 500 euros, pelúcias do Ponyo assustadoramente fiéis e outras japonices. Além de gibis.
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Logo depois tem uma loja ao lado, Jeux Video, que vende videogames antigos, de Atari, nintendinho e Mega Drive. Em estado trincando de novo. Procurei por Might And Magic pra Mega Drive mas não encontrei, se você tiver um eu até compro.

Na frente tem a loja Gotham, uma perdição pra quem gosta de filmes de terror e filmes de terror trash. Tem quase tudo o que foi feito no mundo com essa temática, desde os filmes atuais, passando pelos tranqueiras-espreme-sangue japoneses, fimes holandeses de terror dos anos 70, filmes mexicanos, franceses, pornografia antiga sueca, tipo Rudolph pra baixo. Além vendem muitos objetos de filme. Lá vende a melhor máscara do Jason que já vi. Comprei Mic Mac, o filme novo do Jean Pierre Jeunet e que ainda nem estreou nos EUA. Achei que seria um novo Amelie Poulain, acreditando no trailer. Uma bosta com cheiro de roquefort.
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Por fim, o golpe de misericórdia da carteira, a guilhotina afiada que corta sem causar dor. As lojas Álbum. Eu conheci só uma logo de cara, o que já me fez um estrago danado, mas depois ao tomar um café com a Mariana Newlands – post futuro sobre isso – me apresentou pra mais 3 lojas da mesma rede, ou seja, fudeu.
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Album é uma mega loja de quadrinhos. Até aí tudo bem, mega loja de quadrinhos não fazem mal pra quem tem algum controle. Uma delas é gigantesca e só vende gibis e livros europeus. Um dia é pouco pra visitar essas lojas.
O problema, e bota problema nisso, é que ela também vende….sketchbooks! De todo mundo, do Alberto Ruiz, da Brandpress, da Fluide Glacial, do Stuart NG…aí a coisa pega. Vi livros que só achava que conseguiria comprar pela internet, como os do Stuart Ng, além de novas editoras só de sketchbooks.

Eu acabei com boa parte do dinheiro da viagem nessa loja, com um livro generoso do Peter de Seve, sketchbooks do Guarnido, do James Jean, Ronnie del Carmen, os novos do Adam Hughes, Chris Sanders, etc., etc., e bota etcetera nisso. Deu uns 7 kg de livros nessa brincadeira. Somado com a outra passada que eu dei numa loja de livros infantis chamada Chantelivre, perto do metrô Sevres, a coisa deu uns mais um quilo de conhecimento não-perecível.

E a cereja no topo do mamilo: uma bonequinha da Clara, a personagem voluptosa do Artur De Pins. Não sou do tipo que compra bonequinhos, mas meu caro, essa gostosa tinha que voltar pro Brasil comigo.
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Alguns vem aqui pra comprar Cartier e Luís Vitão na Champs Elisées. Não é o meu caso, desolée.

Detalhe cruel e sexista: dentro dessas lojas de quadrinhos você não encontra os mesmos tipos que encontraria na Forbidden Planet, em NY, ou nas lojas paulistas.

Meu amigo, o que tem de menina bonita e bem vestida e fãs de quadrinhos frequentando essa loja só faz você se sentir mais nerd ainda. Realmente aqui é outro país.

UPDATE:

Voltei pra rua Dante hoje e descobri MAIS UMA loja que vende quadrinhos e sketchbooks: A Pulp comics. Ela estava fechada quando eu fui pela primeira vez, e tem tantos livros de ilustração quanto a Album, só que é mais organizada. Lá encontrei o último livro do Ronnie del Carmen, “And There You Are” e descobri um grande livro de um grande ilustrador, chamado Stephen Silver.

Em Trocadero….

Essa foto foi tirada dentro da estação Trocaderó de metrô (depois que você perde a travada inicial, por causa da complexidade quase fractal, andar de metrô em Paris se torna divertido, porque é retardadamente simples, embora algumas conexões são quilométricas), são bancos de espera da estação.
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Não acredito que a forma tenha sido escolhida de propósito, o bom humor vem involuntariamente.

Dica pra quem quiser ver a Torre Eiffel, descer nessa estação lhe propiciará a melhor visão da Torre na cidade. Dica de cachorro sabujo, mesmo se você não quiser subir na Torre – se levou quase duas horas no dia mais frio do ano, imagine o quanto não leva num dia ensolarado – essa visão fica pra sempre na sua memória, da mesma forma aquela memória da primeira mulher pelada que você viu na sua vida.
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Esses monumentos da humanidade – a Torre, a Estátua da Liberdade, as pirâmides do Egito – causam uma catarse na primeira vez que um mortal as vêem ao vivo. Acho que, de tanto vermos as imagens em livros, internet, TV, um bombardeio constante de referência, a visão “in loco” desses monumentos te deixam pasmo um momento porque alguma engrengem dentro do cérebro roda pra te dizr “sim, isso é de verdade”. O processo de aceitação só se completa quando você tira as SUAS fotos, fazendo parte da sua experiência particular.

Subir na Torre Eiffel no frio deveria ser proibido. É o mesmo que brincar com arma de fogo com uma bala na agulha, é querer brincar com algo perigoso e achar que nada de ruim vai acontecer.

Luke, je suis ton pére!

Assim como na Espanha, tudo o que vem de fora é dublado. Nos cinemas e na TV.
Um dos motivos que acho que me motivariam a não morar aqui é a TV a cabo.
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Além de ter que assistir House falando francês, eles também fazem adaptações de seriados americanos, mas que ficaram muito, mas muito ruim mesmo. C.S.I. aqui é R.S.I, Policie Criminale, por exemplo, feita com atores franceses muito feios! Se você esticar o braço na rua vai pegar caras e moças muito mais bonitos e menos canastrões. Nem CSI Miami é tão ruim quanto isso.
Tenso! Vou ter que ver o final de Lost em francês mesmo. Ver Hurley falando “dude” com sotaque francês faz quebrar alguma coisa dentro da sua cabeça.

Mas nem tudo no cinema vem dublado. Alguns filmes passam em V.O., ou Version Originale. Assisti Kick Ass, um belo filme nerd sobre super-heróis (nenhum poder trazem nenhuma resposabilidade) , em V.O. Mas Homem de Ferro 2 foi com Tony Stark falando “Je suis l’homme de fer”.

Adele Blanc Sec é um filme francês baseado em quadrinhos daqui, daqueles que tem cara de americanos, dirigido pelo Luc Besson. Quando voltar faço uma Fast Girl com ela.
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E hoje entrou em cartaz “Robin des Bois”. Lê-se Robán DiBoá.
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Dias de frio em Paris

Já cansei de dizer isso, mas falo de novo: aqui está frio como o coração de um carrasco. Somando a chuva fina e o vento, a sensação térmica é quase glacial. As orelhas parecem trincar e as coisas líquidas parecem que vão ficar logo sólidas. Pra quem já veio gripado do Brasil, consegui a façanha de conseguir re-gripar aqui, chegando ao ponto de subir no altar com 39 de febre.
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O frio em maio como está fazendo é um caso raro. Alguns dizem que o parisiense anda mais mal-humorado que o normal por causa dessa friagem.
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Essa é a janela do meu quarto “meu-amor” aqui no Quartier Latin. Tem dias que faz tanto, mas tanto frio que alguns pombos ficam encostados no vidro da janela, porque dentro do quarto é mais quentinho.
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Dá até dó, se esses bichos não fossem tão nojentos eu convidava pra entrar e tomar um chocolate quente.

O pão e as belas

Paris é uma cidade muito, muito “meu amor”. Ela é linda, limpinha e toda charmosa. Se Nova York é aquela tia que já foi rica e fica lembrando da época em que tinha grana, Paris é aquela tia refinada que não deixa ninguém ficar correndo no meio da casa. (Tudo aqui fecha muuito cedo). Paris é tão bonita, todos os lugares e ruas são bonitos, pelo menos a parte central, que chega um hora que começa a ficar…chato!!! Seus pontos de referência não são os prédios de 6 andares lindinhos com telhado cinza porque TODOS são assim. Isso não é uma reclamação, veja bem.
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E isso se extende para….os homens e mulheres parisienses, em sua grande maioria naqueles em torno de 20 a 50 anos. Todos são belos. As mulheres são lindas, magras, com rosto bem cuidado e delicado, roupas elegantes e sem exagero. Andar de metrô é colecionar mentalmente mulher bonita. Os homens também, como diretor de arte tenho que admitir que os caras aqui são muito bonitos, também magros, com rostos bem angulados. O que faz pensar que raios Adrien Brody, com seu nariz do tamanho de um cotovelo, e Gerard Depardieu, com uma barriga do tamanho do nariz do Adrien Brody, fazem sucesso.
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O parisiense, e acredito que o francês em geral, é apaixonado por….PÃO!!
Aquela figura do francês segurando a baguete debaixo do braço é verdadeira! De manhã você vê dezenas de pessoas levando pão pra casa, as filas nas boulangeries são muito grandes.

Segundo um francês que conheci aqui, “não existe pão como o pão francês”. Aham.

Aliás, nosso pãozinho francês não tem nada de francês. Com certeza foi uma brincadeira ou uma agressão relacionado ao aparelho reprodutor masculino francês.

De qualquer forma, você só vê gente comendo pão a toda hora. Inclusive andando na rua, até mesmo andando de bicicleta. Alguns deles comem até pão puro!
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Pessoalmente, eu não aguento mais comer pão!

E não é só pão! Além do terror das nutricionistas, o reinado de Amido também é acompanhado pelo reinado da Manteiga – aqui se come manteiga com pão, o que é fabuloso, Julia e Julie estavam certas. E também queijo, muito, mas muito queijo mesmo! E croissant de chocolate, e açúcar (adoçante e guardanapo nos restaurantes praticamente não existem). Leite desnatado é cuspe pra eles, bota aí um chocolate quente e grosso com leite bem gordo na goela. Nesse frio é o mata-dieta.
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A impressão que dá é que as francesas e franceses tomam vacina contra calorias. Como comer pão, manteiga, queijo e vinho nessa quantidade com esse corpinho de modelo? Essa história de que o parisiense não engorda porque ele come devagar e tranquilo não me convence.

Ne vous parlez français? Ce n’est pas mon problème

Ou traduzindo a frase acima: Você não fala francês? Não é problema meu.

Uma das lendas mais comuns, de que o parisiense trata mal quem não fala a língua da Carla Bruni, é verdade.
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Lógico, óbvio – NEM TODOS – te tratam mal em Paris, mas o número de atendimentos impacientes, grossos e em um caso, quase expulso do restaurante, é muito grande pra ser só um problema estatístico. Mesmo falando educadamente “Pardon messieur, je ne parle pas français. Parlez vous espagnol?”. Quanto mais idoso o atendente, mais chance de bico, bufo e cara feia tem de você levar.

Mesmo em lugares como a Fnac, encontrei atendentes tão grossos que me contagiaram com o mau humor e tive vontade de dar um safanão na cabeça, bem ao estilo do Didi. Quer falar anglais sem problema, tem que ir nas lojas da Champs Elisées ou da Place Vendôme.

Como sou ilustrador, o caderninho sempre está a mão. Caso a educação e a lógica não funcionam, eu desenho ou escrevo o que eu quero. Escrever o endereço e mostrar pra motorista de táxi é regra.

Basicamente encontrei esses tipos de reação aqui em Paris, depois de dizer que você não entende francês :

1 – O sujeito fica te encarando com um silêncio intimidante e embaraçante;
2 – O sujeito desata a falar em francês MESMO sabendo que você não entende porra nenhuma
3 – O sujeito BUFA! Ficam parecendo uma lhama prestes a cuspir na cara e na mão daquele que vai colocar comida no prato.

Em compensação, também tive a sorte de pegar pessoas adoráveis, como a funcionária da farmácia que faltou passar a mão na minha testa pra ver se eu estava com febre e o motorista de táxi, um negão enorme que fez uma corrida de graça porque ele estava terminando o dia e pediu descupas porque estava muito cansado por ter trabalhado a noite inteira e me deixou na metade do caminho, em outro ponto de táxi.

Mas isso faz parte do folclore. Não charme, como diriam alguns, mas folclore.
Em São Paulo tem um restaurante chinês chamado Chi Fu, muito famoso pela má educação e grosseria dos funcionários. Toda vez que vou lá sei que o atendimento é um inferno, um exercício de tolerância e controle muscular, mas não dá, o sangue sobe assim que a chinesa joga a lata de coca na mesa como se você fosse um macaco na jaula.

Hoje, depois de alguns dias, o mau humor deles me fez também criar coragem pra falar mais grosso e usar a cara feia na hora de pedir um café.

O primeiro padrinho de casamento a gente não esquece

Ficar pedindo desculpas depois de uma semana em Paris sem postar nada é tão degradante como um bêbado pedir desculpa por vomitar no meio da sala.

Então seguem alguns desenhos que fiz. Devido ao frio filhadaputamente escandaloso que vem acontecendo na França, foi impossível até agora fazer um sketch ao vivo. A Torre Eiffel, o Arco do Triunfo e as pontes do rio Sena não passam frio, eu sim.

O casamento em St. Bethervin

Se já é uma honra receber o convite de ser o padrinho de casamento da sua melhor amiga, pois é o maior atestado que você é gente boa e não tem tendências sociopatas – como num videogame, essa honra é multiplicada por 3 quando o casamento acontece no meio da zona rural da França, onde absolutamente ninguém fala inglês ou português e todas as garotas da região se parecem com a Juliette Binoche.
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Esse desenho eu fiz de cabeça. Na França os noivos ficam sentados de frente para o público, não existem casais de padrinhos (eram todos homens, com exeção de uma tia da Paula) e tudo é muito, muito simples. Nada de órgãos tocando “Carruagens de Fogo” ou dezenas de quilos de flores na igreja.

Felizmente não precisei cantar ou recitar nada, e também os padrinhos ficam sentados quase a cerimônia inteira.

Como disse minha amiga, uma cerimônia falada em francês fica muito mais romântica.

Paulinha, minha amiga querida e a noiva mais feliz da Europa naquele dia, estava tão feliz e espontânea que não teve um sujeito na igreja, seja ele emo ou lenhador, que não soltou uma lágrima de ver tanta felicidade em uma só pessoa.
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A festa depois…esqueçam risolis, coxinha e kibe com guaraná daqueles casamentos que acabam em pagode ou briga entre os cunhados da noiva. Nesse ponto, francês sabe ser fino, já nasce falando “excuse moi”. Aqui o esquema foi “meu amor”. Quatro pratos refinées, regados a vinho dubom e água. Nada de Coca-Cola, pra azar meu.

0,7% de ilustração

Desculpem pela falta de posts. Viajo pra França na nesta segunda e ainda estou finalizando 70 ilustrações para a Copa, a toque de caixa de Pandora.
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Esse aí é 0,7% da encomenda. Vai sair só pro site do McDonald’s, quando for liberado eu coloco o link aqui.

Queria ainda fazer uma última Fast Girl, anunciar a nova Revista Ilustrar e fazer um desenhinho de fechamento.

Com fé e cafeína eu consigo entregar tudo e ainda resolver as pendências.