Gosto não se discute, e eu gosto de Norman Rockwell

Há algum tempo eu fiz um post sobre um livro chamado “Norman Rockwell Behind the Camera“. Achei a proposta do livro muito interessante, mas não havia lido e não estava com carga energética no cartão de crédito pra encomendar um exemmplar na Amazon, então esse havia ficado pra chupar dedão de vontade. Mas eis que, durante o curso de caligrafia da Andrea Branco, que eu recomendo com manteiga em cima de tão bom, o ilustrador Alexandre Eschenbach deu uma eslapeada dizendo “Você viu que estão vendendo aquele livro do Rockwell na Cultura”?
rockwell camera
E bazinga direto pra lá. Saí todo pimpão com esse livro. E pode ser a menopausa chegando, mas esse livro me fez ficar emocionado, li de cabo a rabo em algumas horas e repeti o processo mais uma vez só admirando as fotos.

Basicamente já expliquei sobre o que é o livro: são as fotos que Norman Rockwell tirou antes de fazer as pinturas e que serviram como referência, o que não tira mérito algum do talento desse homem.

Porém, todavia, no entanto, existe dentro desse processo um quê a mais.

Rockwell era um sujeito divertido. Deveria ser gente fina também, porque ele mesmo se posava de modelo em posições ridículas pra deixar outros modelos mais à vontade, segundo suas palavras, “despojado de dignidade e vaidade”, além de ser contra segregação racial numa época em que isso era visto como beijar outro homem de língua na vizinhança. Um sujeito que sempre pensa com bom humor, como você vê nesse desenho que ele fez quando seu estúdio pegou fogo em 1943. Ao invés de entrar em desespero ao ver as suas pinturas virarem fuligem, ele aproveitou para desenhar bombeiros, familiares, contando a história de maneira engraçada, com direito a café e bolachas pros bombeiros no final do rescaldo.
My Studio Burns Down  71743
Escaneei algumas fotos do livro, são docinhos de confeitaria para os olhos:

Talvez “Gossip” seja quadro mais conhecido do Rockwell, se não o mais chupado e vulgarizado, assim como a Santa Ceia e a palavra “amor”.
rockwell_gossip_large
E essa é a foto.
gossipers
Esse é um dos quadros que acho pavorosamente divertidos dele: “A day in the life of a girl”, só menos engraçado que “A day in the life of a boy”.
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E essa foi a sessão de fotos:
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Um quadro com outro clima, de dignidade. “Suffleton’s Barber sozinho conta uma história, só reparando nos detalhes, assim como quase todos seus quadros.
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E a foto.
barber
Rockwell usava um tipo de projetor do tamanho de um caixão pra tracejar seus trabalhos. Um processo que diversos artistas usam até hoje, incluindo Alex Ross.
Chamber
Todo e qualquer trabalho, de pinturas a vinhetas, tinha uma referência fotográfica.
O livro é magnífico porque mostra o processo de criação, o que ele pensava, como ele produzia, quem o ajudava,como ele agia (basicamente como um ilustrador comercial, porque quase toda a produção dele era encomenda de editoras ou particulares, mas extremamente focado e metódico).
Olhando para as fotos do Rockwell, você percebe que as fotos são maravilhosas, e o tratamento que ele dá em cima delas, a interpretação do artista, melhorava o que já era bom em película simplesmente exacerbando o tipo de sentimento que ele queria passar na tela. Ou seja, se era algo bem humorado, ele passava um verniz aparvalhando e apatetando as pessoas, na maioria delas homens, mas com uma dignidade cômica. E quando os quadros eram sérios, as fotos adquiriam uma camada de dignidade e honra imensa.

Talvez seja por isso que o livro seja tocante. Ele mostra que Rockwell não pensava apenas no trabalho final na tela, ele considerava todo o processo porque tinha uma idéia muito boa por trás disso. Desde a hora em que ele colocava filme na máquina ele já sabia como tudo deveria acabar e qual sentimento deveria passar. Devia ser daqueles cara que ficavam rindo sozinho enquanto trabalhava.
spanking-norman-rockwell
Todos os quadros dele, sem exceção, ou passam uma sensação de você dar um sorriso ou de sentir um respeito muito grande. E talvez seja isso o que me agrada nele, o conceito. Todos os artistas que eu admiro passam não o delírio cômico para quem vê os trabalhos, como Vera Bee, Bill Pressing, Elvgreen, Scott C. e uma caralhada diversa, mas passam um clima que fazem você interagir com a obra, que vai do “que bonitinho”, ao sorriso involuntário, passando por “que gostosa simpática”, todos eles tem simpatia e carisma incorporado no traço. O lado yin desse exemplo, por exemplo, são as sensações que os quadros do H. R. “Alien” Giger com seus cadáveres passam pra você. Ele também consegue.

Talvez por esse clima que ele passa em seu trabalho, que muita gente também não gosta e o chama de Poliana (e talvez o seja, no bom sentido, porque ele deliberadamente optou por pintar o otimismo de qualquer forma, o que fazia suas pinturas parecerem irreais e falsas, com fãs e detratores de sua arte), fez com que as edições do Saturday Evening Post com suas capas multiplicavam exageradamente as vendas. Naquela época de perrengue da Segunda Guerra, bom humor era tão raro quanto sexo na trincheira .

Mais importante do que a execução ou a técnica, o clima e a idéia que o trabalho passa pra mim tem muito mais significado. Prefiro mil vezes um desenho meio tosco que me faça rir ou me passe uma sensação boa do que um hiper realismo que não consegue minha atenção de tão monotonamente perfeita, como uma modelo photoshopada. Rockwell era mirrado mas poderoso porque misturava o melhor dos dois.

São idéias e conceitos que inspiram, não os traços. Não gosto de trabalhos que agridam gratuitamente, trazem melancolia mimimi sem propósito ou coisas que tem que ter uma legenda embaixo explicando. E sim, não sou um grande fã de arte conceitual, aquelas coisas do tipo lâmpada queimada no meio da sala ou mosca alfinetada no pênis, meu cérebro é muito primata pra essas coisas e me orgulho disso.
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18 Comments

  1. Falso Testemunho disse:

    Em resumo: Um Herói, né Hiro :P … Sempre admirei o trabalho dele
    mas nunca tinha parado pra pensar porque.. Obrigado por me fazer
    entender… e por me fazer ler um post gigante as 4 e meia da
    manha… Até mais… e boa noite.

  2. tio .faso disse:

    Como o Bozo dizia, sempre rir, ou nesse caso, fazer sorrir.

  3. Mario Cau disse:

    Hiro, tbm adoro Rockwell, apesar de não ter muito a ver com o tipo de estética que uso nos meus trabalhos. Mas as pequenas coisas, os gestos, as expressões, me lembram Will Eisner, com aquelas poses meio teatrais.
    Tbm amo fotografia, e esse livro me deixou muito empolgado. Vou tentar achar por aqui!
    E acho, pra finalizar, extremamente importante, e é algo que eu insisto pros meus alunos, que muitos daqueles ilustradores hiper-realistas usam fotos de referencia e muitas vzs tbm, usam projetores ou mesa de luz.
    Acaba um pouco com aquele ar de mega gênios, feiticeiros, ciborgues, sei lá, que eles têm.

    Po, agora fiquei afim de escrever algo sobre isso no meu blog. Passe lá pra ver!

    Abração!

    Muitos garotos acham que pintar realismo é um superpoder, e se usar uma referência fotográfica para isso ele cai do pedestal. Coisas que o tempo tira da cabeça deles.

  4. Priscila disse:

    Que mais e mais artistas “polyanna” surjam, pois nem só de drama se baseia a vida. A sobremesa está nos detalhes cômicos e na beleza sutil dos momentos em que somos belamente ridículos. Rockwell é sem dúvida admirável.

  5. Renato disse:

    Faço minhas suas palavras!

    Sou extremamente apaixonado pelo trabalho do Rockwell… do seu também.

  6. Nessa última imagem dá pra ver bem que ele só usava o realismo até onde era interessante pra imagem, “exacerbando o tipo de sentimento que ele queria passar na tela”, como você mesmo comentou. Reparou como ele alargou as costas do guarda até o cara ficar quase do tamanho do Hulk? Deu uma imponência bem maior ao personagem.

    Olha só o que ele fez então no quadro “Lincoln, the Railsplitter”:

    tudo o que ele faz é mudar a perspectiva, o ponto de fuga está mais ou menos na altura dos joelhos, você tem que levantar os olhos pra ver o resto, como se ele fosse um gigante, além do fundo ter muito mais céu e as casinhas e a cerquinha no fundo aumentar essa sensação. Quanto não poderia ser aprendido com um curso analisando as obras de Rockwell?

  7. Seus posts tem algo “Rockwellesco” tb.
    Quando eles não me fasem RACHAR de rir, me fazem refletir profundamente sobre a minha arte.
    Alguns, como esse conseguem os dois.

    Vc deveria dar aula em FACULDADE, seu Hiro.

    A matéria chamaria “Aprenda a PENSAR do jeito certo.”

    Valeu!

    Talvez um dia eu abra minha própria instituição de desenho e ilustração, e aí sim poderei ser além de professor, o reitor do lugar.

  8. O que eu achei mais legal dessas fotos foi ver os pequenos detalhes que ele ‘acartuniza’ nas pessoas, tipo diminuir o queixo dos velhinhos e aumentar a cabeça das crianças, deixando elas com o pescoço mais fininho, etc… é uma das coisas que eu acho que dão esse ‘tchans’ que voce falou no fim do post, de não ser simplesmente uma cópia hiper realista da foto (que poderia muito bem ser/chega bem perto, visto a monstruosidade desse cara)
    Outra coisa legal foi justamente dar uma respirada de alívio ao ver que ele não tira 100% do que ele faz do chapéu!

    E eu concordo plenamente com você sobre arte conceitual e arte que nao diz nada… meu cérebro pelo jeito também não evoluiu(?) o suficiente pra compreender o primeira; e a segunda, tem uma frase que um conhecido soltou ao ouvir uma banda enlatada, que define muito bem o sentimento: “(…)essa música não me deu vontade de chorar, nem de rir, nem de bater em alguém…só me deu vontade de ouvir outra coisa”

    parabéns pelo seu blog hiro, seus posts e as fast girls são sempre uma maneira boa de começar o dia ;)

    O mais interessante é que os queixos de pateta não eram tão adaptados assim, tem várias fotos onde os modelos são daquele jeito mesmo. As expressões é que tinham um tratamento muito mais divertido. Mas também é divertido ver como uma ruga mais evidenciada deixa um sujeito muito mais engraçado sem estourar suas formas como em uma caricatura.

  9. Celso Mathias disse:

    Muito boa mesmo a sua matéria!! EScrita com seriedade e toques de descontração! Sou suspeito pra falar de Rockwell!! Tenho uns 10 livros dele e meu sonho é visitar seu museu. Parabéns!!!FORTE ABRAÇO!!

    Eu vi um origial dele no Metropolitan em NY. É como passar eletricidade pelo corpo. Imagine estar no muse

    u.

  10. É isso aí Hiro agora sou mais fã ainda do cara e de você tambem. Abraços.

  11. sudou disse:

    caramba, sonho de consumo com certeza.

  12. Gilberto disse:

    Olá, Hiro! Beleza de post. Esse livro é imperdível! Bacana vc ter postado algumas fotos dele. Valeu! Coloquei um link pra essa postagem sua lá no meu blog.
    Abraço,

  13. raffribeiro disse:

    Que legal me sinto um desenhista menos safado agora por desenhar em cima de fotos… Gostei muito fo post! Assisti uma palestra sua lá no Mackenzie me ajudou bastante a entender como as coisas funcionam! Valeu!

    Desenhar sobre referência fotográfica nunca foi pecado, pois a maioria dos artistas que trabalham com arte figurativa fizeram ou fazem isso. O problema é como ele faz isso e de onde vem a foto.

  14. Mestre Hiro, sempre nos presenteando com ótimos textos e imagens idem. Sou fã do Rockwell, bem antes de saber que os trabalhos eram dele. Tenho uma deficiência em guardar nome de autores, mas quando fico conhecendo e o trabalho me cativa, não esqueço mais. Igual a aquele rapaz que faz aquelas bandejinhas do Mac Donalds, já ouviu falar dele, pois é tb é bom… Já tinha lido aqui sobre esse livro e também me interessei, vou ver se depois de passado o assalto de início de ano eu adquiro esse ai.

  15. weno disse:

    ótimo artigo. eu não estudei o rockwell ainda, mas desde moleque eu gostava das cenas, que pareciam tiradas de algum livro contando um dia de uma cidade bacana, meio interior.

  16. MARCELO LOURENCO disse:

    finalmente um post decente. agora só falta um com fantasmas…

  17. Paulo Seabra disse:

    Euureka. Passo a explicar. Era miúdo (7/8 anos) via as Selecções do Readears Digest que o meu pai comprava, algumas em versão Brasileira. Ficou-me uma imagem que fazia sentido “gossip”. Não sabia a quem pertencia, apenas as cores vivas, as expressões faciais, a mensagem, o comportamento, a atitude. De volta e meia procuro aqui na web e pela palavra “gossip” e nada. E eis que o acaso promove o acaso e reencontro-me diante das imagens que me ficaram desde infância. Lembro-me que havia mais ilustrações e sobre a barbearia, vaga ideia de um auto-retrato tb. Obrigado por este “flash-back” e pelas ilustrações com nome, Rockwell. Bom, eu hoje tenho quase 50 aninhos, um jovem portanto. Obrigado por me ter trazido o ontem.

    Somos dois jovens, então!

  18. O mais interessante é que se repararmos, ele usava as fotos como referência mesmo e quase nunca como um simples modelo a ser copiado. algumas fotos de rosto ele mudou o ângulo, linha de corte dos cabelos etc…
    Um artista tremendo; um mestre para ser admirado ‘eternamente’…

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