Norman Rockwell usava foto pra pintar e isso não é crime

Vi essa no Gizmodo. É coisa que é obvia, mas quando a gente vê na frente fica um pouco surpreso, como ver enterro de anão, porque não é coisa que a gente, mesmo acostumado a trabalhar com desenho, vê frequentemente.
rockwell family
O óbvio, nesse caso, é que Norman Rockwell, talvez um dos maiores artistas divulgadores da arte alto-astral, tanto que ele foi fundamental pra bola de milhares de pessoas não cair nos dias mais perrenguentos da América durante e pós guerra, dono de um traço ingênuo e realista que é impossível não abrir um sorriso na maioria das capas que ele fez pro Saturday Evening Post (já escutei que quando tinha capa do Rockwell a tiragem da revista dava um salto de perereca). Tanta riqueza de detalhes, tanto apuro, é claro que ele usava referências fotográficas. Mas como ele é um ícone da pintura e ilustração, quase uma entidade desenhante, tem horas que a gente acha que esses caras atingiram um nível que dispensam a lente e o flash. E ver isso é ótimo porque sim, eles também são humanos.
rockwellcamera
Esse livro, “Norman Rockwell Behind the Camera” lançado lá nos EUA, mostra esse lado referencial dele. A cada quadro que ele fazia ele tirava uma chapa. E isso só aumenta o fascínio pelo trabalho do cara, até pelo registro farto de vários objetos, roupas, cabelos e expressões da época. E de quebra, dá pra ver que muitos apatetados que ele pinta, inclusive ele mesmo, são realmente e simpaticamente aparvalhados.

E não só ele, mas também Gil Elvgreen, Al Hirschfeld e vivo Alex Ross e absolutamente todos os que trabalham com ilustração realista usam fotos como referência de trabalho. Sem exceção. Afinal, ninguém sabe como é um trenó de cachorro gelado ou um limpador de bunda de lutador de sumô de cabeça, e imaginar isso de cabeça é pecar e errar nos detalhes.

Tem muito franguinho que se decepciona ao saber que seus ídolos usam fotos e não a memória fotográfica pra fazer pinturas de fraturar o maxilar. É pura tolice.
Ainda vou escrever um post só sobre isso, mas não existe essa coisa de ter dom pra desenho. O que muda é o nível de habilidade de cada um, mas de nada adianta um fodão que acha que tem o dom de desenhar se isso o faz pensar que não precisa de professor, aula, conselho ou tapa na cabeça. Mil vezes preferível um aspirante a desenhista que não tem muita habilidade mas tem muita vontade e dedicação de aprender.

A foto de referência é uma ferramenta, assim como é um lápis ou uma tablet. Rockwell sabia das coisas.

15 thoughts on “Norman Rockwell usava foto pra pintar e isso não é crime

  1. FANTÁSTICO! Lembro que quando estava na 8ª série, em um trabalho pra aula de artes, fiz uma hq, em uma das histórias eu copiei uma seqüência de imagens que havia visto em um livro; mas pra frente quando comecei a desenhar profissionalmente vim saber que a pintura que usei como referência era nada mais nada menos que Day in the Life of a Boy de Rockwell, no mesmo instante já estava estudando a carreira do Rockwell e me deslumbrando com seus trabalhos, esse foi um grande artista. Isso me deu até uma idéia vou postar no meu blog a histórinha que fiz e o original do Norman Rockwell.

    E sobre o fato de se ter dom ou talento pra desenho(ou pra qualquer outra coisa). Eu acredito que o talento nada mas é, do que a vontade incessante de querer aprender sempre mais sobre aquilo que você mais gosta, seja desenho, seja palestra, seja medicina, enfim. Abobai!!!

  2. Infelizmente ainda existem pessoas que acham que pegar referência é “copiar” e isso desmerece o artista. E o pior, tem artista que dá bola pra esse tipo de imbecilidade, confesso inclusive que por MUITOS ANOS fui um deles

    Pra essas pessoas ignorantes a resposta deve ser: “Se é tão fácil copiar, taqui o lápis, o papel e a foto, FAZ VOCÊ!”

    A referência é realmente PRIMORDIAL para um bom artista, o que não elimina de forma alguma o valor do ESTUDO de anatomia, perspectiva, composição e etc. Esse estudo é justamente o que permite que consigamos entender e aproveitar ao máximo o potencial das referências sem sermos limitados por elas.

  3. Crime algum, inclusive essa parte de pesquisa e producao de fotos ‘e uma das areas mais legais de ser um ilustrador realista que faz uso desses recursos. E, a meu ver, onde se pode ser um diretor de cena, criar seu proprio set, com seus atores, mesmo que eles sejam sua vizinha e seu irmao. E tambem se foge um pouco da sempre solitaria relacao-artista-prancheta-computador

    Eu mesmo ja posei muito pra ilustradores como o Rogerio Vilela, nos anos 90. Ja fui viking, bruxo e ate mulher. :P

    Acho que o grande “segredo”, como Rockwell fazia, ‘e usar os recursos fotograficos a seu favor, claro, mas deixar o desenho sempre falar mais alto, nao ser simplesmente um Xerox feito de grafite ou tintas.

    Desenhistas que reproduzem fotos ate ficar “de verdade” o mundo esta cheio, os que criam cenas como Rockwell sao bem poucos.

  4. “Tem muito franguinho que se decepciona ao saber que seus ídolos usam fotos e não a memória fotográfica pra fazer pinturas de fraturar o maxilar. É pura tolice.”

    E é tolice mesmo. Uma visão muito restrita e mesquinha da coisa toda… Eu acho fascinante imaginar que, ao compor as fotos, a cena já estava lá na cebeça dele, pronta, dinâmica, colorida. É de outro mundo. Antes de pintar com tinta e pincel, ele “pintava” com gente, luz e sombra.

  5. Então, sou fotógrafo profissional e comigo as coisas acontecem assim. Um cara traz um frankenstein de umas quatro fotos e pede pra fazermos uma nova em cima daquela. Às vezes é uma ilustração, às vezes é um rabisco, mas creio que, no final, dá tudo no mesmo.
    Poucos são os trabalhos que saem instântaneamente e presta. Tenho alguns no meu portfolio, são até os prediletos.
    Descobrir que Rockwell usava referências é inspirador.

  6. Nunca tive nada contra quem pinta usando fotos de referencia … só contra quem pinta COPIADO EXATAMENTE fotos ….ai q mora o perigo =P

    Ver quão diferente eram as fotos do rockwell só engrandece a pintura do cara … por mais q eu continue não sendo la muito fã da obra dele (mas isso tem muito mais a ver com gosto/feeling q a tecnica)

  7. E como sabia hein Hiro!?
    Quando eu era um dos franguinhos que citou, acreditava que haveria demerito em usar como referência fotos, quem dirá decalcar uma foto ou até mesmo um desenho, ignorância extrema, passei por um ano de curso de desenho desdenhando da importância do decalque e posteriormente da referência.

    Quanto ao dom, o professor do tal curso de desenho me disse uma vez: “Se vc ainda não é tão bom em algo é porque ainda não praticou o suficiente” concordo com ele e acho que talvez o dom seja ter persistência.

    Abç Hiro, feliz que pelo jeito está trabalhando bastante man, mesmo não reconhecendo seu traço e texto nas toalhinhas do mac, confesso que tenho comido menos lá sem ter o que olhar enquanto como, uheuhe, sucesso!

  8. Gente ninguém sabia disso??? Tem até um livro acho que é Norman Rockwell´s Characters , ele usava os visinhos , os amigos e teve criança que cresceu sendo desenhada pelo cara ( meu sonho).Usar fotografia como referencia não tirou a genialidade dele em nem uma gota de nanquim.Pronto falay!

  9. Ei Hiro, tudo bem?
    pois então, isso de usar foto como referência acontece tanto…
    Mestre Benício tem miles pastas com fotos catalogadas por todos os assuntos possíveis, tudo arrumadíssimo no estúdio dele.
    :)
    beijocas

  10. Foi pelos meados do anos oitenta que conheci Norman Rockwell. Chamou-me a atenção um livro enorme, pesadíssimo, daqueles que lembram antigos livros de registros de nascimento e afins, existentes em cartórios. Depois deliciei-me numa livraria maravilhosa e antiga, aqui no centro do Rio, a Leonardo da Vinci. Nela, se pode deleitar com livros de arte em geral. Ir nesta e em outras ótimas livrarias que temos também por aqui, é sempre a certeza de se ter prazer. Quase comparável ao nº 1 dos prazeres.
    Mas visualizar ilustrações/pinturas de Norman Rockwell é marcar encontro com o lúdico, o belo, o sonho. Faz bem a cabeça.
    Rockwell desenvolveu melhor e nitidamente seu estilo artístico, a partir dos anos trinta, quando começou a se distanciar das visíveis influências de J.C. Leyendecker e Howard Pyle, dois excelentes artistas que o precederam. Fato este extremamente comum entre artistas, quando estão em busca de seus caminhos. É natural, é compreensível a procura por identificação de idéias, gostos e estéticas. Todavia, Norman Rockwell desenvolveu posteriormente um estilo tão seu e marcante que, passou a exercer influência. O influenciado vira influenciador. Hoje eu acredito firmemente que “uma andorinha faz verão”. Exemplos não nos faltam: no Brasil, J. Carlos, Ziraldo, Maurício de Sousa, Benício, Pelé, JK, Carlos Lacerda, Tom Jobim… nos EUA, Walt Disney, Norman Rockwell, Bil Gates, Fred Astaire, Glenn Miller, Cole Porter…
    Eu sou pintor artístico de retratos e qualquer outra situação que mexa com meus sonhos. Obrigado pela oportunidade de escrever em seu blog sobre um assunto que tanto dedico minha atenção.
    O meu nome é J. G. Fajardo

  11. Mas deixar claro e bem claro, ele não tirava foto de outros trabalhos e os copiavam para depois assinar em baixar

    Tem muito “pintor de praça” que não pode ver um trabalho bem feito que logo vai tirando e foto e copiando e depois o vende como seu original, eu mesmo ja perdi a paternidade de muitos quadros meus,
    isso sim e uma vergonha, agora tirar fotos para depois trabalhar com elas como referencia isso e normal, eu ando com minha digital no bolso, quando uma cena um local algo me chama a atenção Click guardo comigo a lembraça depois trasponho para a tela,

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