Como ler um calhamaço de 590 páginas e se sentir leve como uma espuma

Na minha pequena antibiblioteca não existem muitos quadrinhos. Foi-se a época em que os quadrinhos de super-heróis e os mangás me divertiam só pelos seus traços, mas me decepcionaram tristemente com o conteúdo, com suas devidas exceções, que fazem a regra.

E lá vai a lista dos quadrinhos que viraram referência mais como literatura do que como quadrinhos em si: os trabalhos dos gêmeos Fábio Moon e Gabriel Bá, do Grampá, Persépolis, Maus, Preto-e-Branco, Gorazde, Flight, etc., etc. Bem fresco e eclético, como diriam alguns em estágio inicial de alfabetização. É o círculo da vida. Para cada pseudomangá mequetrefe surge um “Catatônico” para equilibrar o caos.
retalhos
O último dessa lista foi “Retalhos”, de Craig Thompson (49 paus bem gastos, Editora Quadrinhos na Cia). Faz tempo que um quadrinho não me impressiona desse jeito, mais exatamente uns 4 meses.
O livro é fantástico, a história e a maneira de contar a história, muito pesada em alguns pontos e cercada de exorcismos pessoais, cujo cara tem que ter 3 bolas pra ter coragem de se expor assim em um romance, é uma aula de como um quadrinho jovem, e não necessariamente adulto, tem que ser feito. Foi escrito e ilustrado em 2003, e confesso que não o conhecia. Ganhou merecidamente os Harveys e os Eisners.
craig
Eu li o calhamaço de 590 páginas em 2 horas e um pouquinho, terminando o volume admirado com a narrativa. Tudo bem, posso ter me identificado um pouco com a história de Thompson em alguns aspectos na minha infância, que não foi exatamente um veludo macio.

Tem um pouco de tudo com o que acontece com um garoto pobre, um pai autoritário, cercado pela Igreja fazendo pressão em seu ser jovem como uma gorda sentada em um pequinês, sufocante. E o que acontece com esse garoto, que só consegue fugir desse mundo escroto através do desenho, quando ele se apaixona pela primeira vez por uma garota metade muito legal e metade muito pobrema.

E o traço dele é simples e belo, com linhas feitas a pincel muito soltas e suaves. Aprendam garotos, que nunca, jamais o traço será melhor do que a história (se bem que um desenho genial acompanhando uma grande história é duplamente arrasável).
thompsonpencial
Vale a pena checar o blog do Thompson. O boa-pinta desenhista mostra lá os projetos e ilustrações. E fica uma dúvida, como é que esses caras conseguem ser magros e encorpados sendo ilustradores?

16 Comments

  1. Bebel disse:

    há!
    Valente me emprestou essa pérola, que li ainda ‘Blankets’, SENSACIONAL.
    adorei seu comentário sobre traço e história.
    beijocas

  2. weno disse:

    que apoio de pincel é esse, hiro? tu conhece?

  3. Lupe disse:

    Hiro, concordo em gênero, número e grau! Conhecia o trabalho do Craig Thompson só de ouvir falar, mas agora virei fã de carteirinha! O cara é muito bom mesmo! :)

  4. Opa Hiro, tudo bem?
    Primeiramente parabéns pelo blog, de todos o que frequento é o que mais me faz passar raiva (no bom sentido, de vontade de fazer cursos, comprar livros, gastar dinheiros)…

    Um comentário um pouco nada a ver com o post. Pergunta besta… que pincel eu devo utlizar para fazer traços finos, detalhes.. como este da última foto?

    Gracias

    [ ]s

  5. Elton Cardoso disse:

    Oi, Hiro! Até assistir ao vídeo da sua participação no propgrama “Banca de Quadrinhos”, eu nunca havia ouvido nada a respeito de “Retalhos”. Mas como fiquei interessado na história, comprei o livro e, assim como você, também me amarrei. A experiência de leitura é um retalho de sensações: uma mistura de identificação com a inconformidade e o deslocamento de Craig, associada à leveza de certos momentos e ao modo particular como ele narra os eventos. “Retalhos” é mais um romance gráfico que já acomodei no aconchego da minha cabeceira, que é o lugar onde as obras que mais prezo repousam.

  6. “E fica uma dúvida, como é que esses caras conseguem ser magros e encorpados sendo ilustradores?”

    Genes. Única resposta. xD

    Cara, como eu aaaaaaaaaaaamo traço feito à pincel, se minha mão não tivesse o peso de uma suave pata de paquiderme, eu só arte-finalizaria minhas artes com ele!

    Fiquei curiosa com o quadrinho. Pena que o preço dele exceda a quantia na minha conta bancária atualmente… -_-’

    PS(ou momento rasgação de seda básica): Há muito tempo eu acompanho seu blog, mas nunca tinha tido coragem de comentar. Mas transfira todas as palavras que você já citou aqui com relação ao Benício, à mim com relação à você, e você vai entender a admiração que causou na cabeça desta pequena aspirante a desenhista, que se algum dia, quando a “probeza” desta vida permitir, vai querer ser uma ilustradora igualzinha à você quando crescer(gordinha, de óculos e predisposta ao glaucoma eu já sou xD).

    PS 2: Quando eu estava no meu curso de desenho, ministrado pelo desenhista Daniel HDR, só almoçava com meus amigos no McDonald’s, e nossa principal alegria era ler as toalhinhas de bandeija. Um dia, uma das meninas apontou a coleirinha de um cachorro e disse: “Olha, o cachorrinho se chama Hiro!”. Ninguém entendeu nada. Só quando encontrei seu site tudo fez sentido e, sinceramente, sorri saudosa daqueles tempos, ao me lembrar da nossa confusão, com o cãozinho de nome japones.

    Mil abraços, Hiro-sama! Cuide bem desses olhinhos valiosos!

  7. Leandrus Felix disse:

    Olá Hiro,

    Voce saberia me responder que tipo de pincel é esse que o Craig usa pra arte-finalizar?

    Abraços e parabéns pelo blog

    Leandrus

  8. Leandrus Felix disse:

    Olá Hiro

    Muito bons seus comentários, como sempre. Ando meio parado na leitura de quadrinhos, e saiu muita coisa boa que é um crime deixar passar.
    Deixa eu te perguntar: esse pincel que o Craig usa pra arte-finalizar, voce sabe a marca, procedência, essas coisas?
    Dei uma olhada no blog do camarada e há de fato um post sobre materiais de desenho, mas não encontrei qualquer citação sobre o pincelzinho ai. Será que li errado? Meu inglês é meio podre…..

    Valeu

    Leandrus

  9. Hiro disse:

    Sobre o pincel

    Amiguinhos, desconheço completamente que pincel é esse que ele usa. Aparentemente é um pincel comum com um tipo de apoio, e não arrisco a dizer que é algo improvisado.

    Tentarei perguntar para os gêmeos (Gabriel Bá e Fábio Moon) assim que eles voltarem da Comicon, pois eles também desenham com pincéis, e talvez eles saibam.

  10. Adriana Couto Pereira disse:

    Oi, Hiro!

    Fugindo um pouco do tópico, queria saber se vc leu isso aqui http://tecnologia.terra.com.br/interna/0,,OI3825810-EI4801,00-Artistas+se+recusam+a+trabalhar+de+graca+para+o+Google.html , sobre a linda “proposta” do google de “divulgar” desenhos dos outros sem pagar.

    Queria saber a sua opinião a respeito. Acho que dava assunto para um post bem bacana.

    Beijo da fã

  11. Hiro, aquele ali me parece (não ria do nome) um “fude”, um pincel tipo caneta de origem japonesa.

    Mas como eu nunca vi um em pessoa, só ouvi falar, não posso garantir *a que só usa pincel Tigre pra baixo*.

  12. Manu disse:

    Comprei esse livro e li em algumas horas. Quero degustar melhor.
    Mexeu demais comigo – assim como o Fun Home – e me fez relembrar com detalhes do meu primeiro amor adolescente.
    E os desenhos… Bá, me deixaram sem fôlego.

  13. .faso disse:

    Só um adendo sobre mangás e cia.: ontem, conversando com a Sra. .marcamaria, cheguei a conclusão sobre as fases da vida literária em HQs:

    1) Você começa a ler quadrinhos infantis, como Turma da Mônica ou Disney. Apesar de ler gibis esporadicamente, você não os respeita muito: quadrinhos são dilacerados para ilustrar trabalhos da escola da Tia Mariacotinha. Lá na sua pré adolescência você descobre os Comics ou Mangás.

    2) Seu quarto começa a ficar atulhado com revistas. Você trata esses nacos de papel impresso com respeito e carinho, se transformando em um sociopata quando alguém faz uma orelha na capa da revista. Com o tempo, você quer virar um criador de histórias (geralmente você que virar desenhista), tenta desenhar sozinho ou mesmo entra em cursos de desenho, com o intuito de viver na base do naquim e papel. Se essa vontade perdurar na fase a adulta, você tem dois caminhos: ou segue uma carreira guiada pela criação (vira um designer ou coisa parecida) ou se transforma um fanboy chato de primeira categoria.

    3) Se você não se transformou em um fanboy chato que adora provocar vergonha alheia fazendo cosplay, sua vida adulta de consumidor de HQs será mais refinada, deixando as tranqueiras de lado e consumindo bons álbuns e lendo mais livros sobre diversos assuntos.

    Atire a primeira pedra quem não se identificou com essa evolução? Sorte minha que não faço cosplay! (risos)

    Abraços,

    .faso

  14. Dayse disse:

    Ahhh vi sobre esse livro no site da Banca de Quadrinhos, lá tem video de um programa de tv que eles fazem. Ia até perguntar ao pessoal do Ilustragrupo se conheciam mais sobre o cara, só que a falta de tempo me consome, quando finalmente vejo esse post do Mestre Hiro. Bem se ele recomenda eu nem duvido que o cara seja phoda!

  15. Mario Cau disse:

    Hiro!

    Eu li Blankets antes de sair aqui, e sou completamente apaixonado pela arte e pela história. Eu já fazia a Pieces antes de ler, mas o contato com o trabalho do Craig me fez renovar e reciclar muita inspiração.

    Sobre o pincel, creio que ele usa um adaptador, pra ficar com um grip mais grosso, mas o píncel é o Windson&Newton Series 7 nº 2, eu acho. Lembro que perguntei pra ele que material ele usava, e é isso e muito provavelmente aquela caneta Brush Pen da Pentel, que é uma delícia.

    Ele fez um post, aliás, sobre o material que usa: http://blog.dootdootgarden.com/2007/06/16/tool-talk/

    Abração, Hiro!!

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