Uma tarde com Brad Holland

Uma das coisas que não posso deixar de comentar aqui foram os encontros com grandes ilustradores pós-Scott C., que eu considerava a cereja do bolo da viagem e que nada poderia ser mais magnificente e reluzente. Pois estava eu errado como um ônibus na contramão.

Ricardo Antunes, pai do Guia do Ilustrador, veio partilhar a experiência de conviver comigo na Grande Manzana por uma semana e trouxe na bagagem uma entrevista com nada menos com o mestre Brad Holland, que eu considero o que ele é para a ilustração o que Oscar de La Renta é pra moda ou Jacques Costeau foi pra França.

[img:sodebate_1104.jpg,full,alinhar_esq_caixa]Vou apresentar um pouquinho do homem: como ilustrador e artista plástico, ele é de fraturar o maxilar em queda livre ao chão, ele é uma das grandes referências americanas e mundiais da ilustração, tanto que até hoje os bancos de imagem contratam ilustradores zumbis para fazerem ilustrações com seu estilo de maneira canhestra e sem alma a preço de milho de pipoca para quem faz, mas vendendo a preço de coroa de rei para quem compra.

E é justamente nesse quesito que Brad Holland é especial. Ele é um literato, ele escreve tão bem quanto pinta, e seus textos são letrinhas orquestradas formando críticas e ensaios iluminados, eles não só inspiram como também educam, uma combinação que é uma porrada no cérebro ou no coração, dependendo de quem lê.
Ele é um defensor canino nas questões de ética, postura e direitos autorais, e o irônico é que, mesmo sendo um dos maiores defensores destas questões, ele mesmo se considera um mero “artista que virou ilustrador por acaso”.
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Para aqueles que querem se tornar ilustradores com um pouco mais de conteúdo que não seja banha e preocupação, recomendo o livro “The Education of an Illustrator”, que eu já comentei aqui, e que tem alguns de seus textos muy poderosos. Mais textos dele nesse link, tem que escrever “Brad Holland” no campo de busca por autor.

Pois bem, lá vai o Antunes que consegue um tempinho com o homem por telefone. Saímos correndo pra encontrar com ele no Soho, tivemos que pegar até um táxi clandestino preto pra chegar em tempo. Dentro do táxi, depois de perceber que fizemos uma cagadinha, pois o russo com cara de quem deixou a mãe morrer sozinha na Ucrânia, 35 dólares pra ir até lá numa corrida que não daria nem 20, fiquei no cagaço e achei que nem deveria ir, pois Brad Holland era mais ocupado do que formiga desesperada em dia de chuva, além de deixar bem claro que ele só teria 30 minutinhos pra bater um papo e olhe lá.

Achei que iríamos no máximo sentar em um Café, tomar um expresso, comer uma bolachinha, apertar as mãos e cada um seguir pro seu caminho. Ledo engano.

A lenda viva e cabeluda da ilustração pareceu de uma hora pra outra arranjar tempo na agenda e além disso, a fada da generosidade desceu no seu cangote, pois ele simplesmente abriu seu magnífico estúdio, um apartamento gigantesco em um prédio no Soho que também era seu estúdio.

Era muito bom pra ser verdade, uma honra de dimensões cetáceas ser convidado para conhecer o lugar do homem.

Lá, ele candidamente conversou conosco sobre ilustração no Brasil e nos EUA, abriu seu coração e seu sketchbook que ele preencheu quando veio ao Brasil em Florianópolis, mostrou seu apartamento como um cicerone gentil, mandou seu gato afiar as unhas em outra vizinhança e deixou a gente ver seus trabalhos mais recentes e o caos criativo que era seu estúdio. A gentileza era tanta que juro que pensei que uma hora ele iria dar de presente um dos seus abundantes quadros que estavam em sua parede. Mas aí já era pedir demais.

No final, a conversa durou mais de uma hora e nos despedimos de maneira muito cândida, deixando este homem impressionado com a grandeza, suavidade e gentileza que um ilustrador e profissional de tamanha envergadura recebeu dois matutos brasileiros.

Sim, talvez este post esteja grande demais para quem não sabe quem é Brad Holland ou nem conexões com o mundo da ilustração, mas posso garantir que a experiência de ter passado uma parte da tarde com este homem foi algo que exigiu que eu escrevesse e deixasse um relato para que, no mínimo, alguns fiquem curiosos e conheçam quem é ele, o que ele faz e por que a gente ficou babando feito cachorro feliz com osso de açougue em seu estúdio.

E também foi pra agradecer a generosidade incondicional que Brad Holland nos ofereceu naquela tarde. Muito obrigado mesmo.

8 Comments

  1. Gilberto disse:

    Fala, Hiro! Essa honra é pra contar aos netos. Às vezes a vida nos reserva belas surpresas. Parabéns!
    Abração,

  2. MARCELO LOURENÇO disse:

    este post foi tão sensível e feminino que até parece um quadro da oprah. agora pra balancear, vai ter que ver “desejo de matar 2″, hihihi…

  3. William disse:

    Como você conseguiu conhecer todos essas pessoas batutas? Que demais isso Hiro, só pelo fato de valorizar mais ainda seu trabalho você merece =)

  4. Dayse disse:

    Adoro seu site! E sempre aprendo um pouquinho toda vez que apareço por aqui. Com certeza vou fuçar o pai Google para conhecer mais sobre o Brad. Valeu Hirooooo!!!

  5. Nihonjin disse:

    Conseguiu chamar atenção! Nunca é demais mostrar a nós, meros leitores, as referências que ronda outros grandes ilustradores. Seria como ir beber na fonte, onde as pessoas que você admira, também bebem!
    :)

  6. Luis Saguar disse:

    CLAP! CLAP! CLAP! CLAP! CLAP!
    Parabéns Hiro!
    Brad Holland! Essa visita não foi a cereja da viagem… foi a doceria inteira!
    Ficaria aqui lendo esse post, mesmo que tivesse 3 milhões de megapixels de extensão!

    Abraços

  7. Walter Junior disse:

    Imagino a surpresa e a satisfação. Sem contar que 20 minutinhos se tornaram mais de uma hora! Fantástico.

  8. O cara (Brad Holland) é um demônio no bico de pena. Alguns catálagos antigos de ilustração tem o trabalho dele. Impressionante.

    [ ]s

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