A visão do novaiorquino médio por um paulistano fora da média

[img:close.jpg,full,alinhar_esq_caixa]Segundo o criativo Marcelo Lourenço – e eu concordo com ele – o iPod foi fundamental para a cidade de Nova York. Com o iPod, cada novaiorquino fica conectado em seu próprio mundinho, como se estivesse dentro de uma Matrix.

É só colocar as coisinhas no ouvido, olhar pra frente com olhar blasé e jamais fazer contato visual com outro ser.

Já disse antes, e agora ilustro, que é engraçado como o novaioquino médio vive dentro de uma bolha. O que ele faz dentro dessa bolha não é da conta de ninguém, contanto que você não incomode o outro. Se eu quiser sair vestido de papel higiênico na rua, ninguém vai me incomodar.
Isso existe também em Barcelona, e acredito que em diversas cidades de grande porte, mas aqui em NY entra um elemento que não tem nesses lugares – o novaiorquino pode ser tanto über elegante como extremamente ridículo, mas ambos acham que estão bombando. Por isso que eu vi um mexicano gordo vestido de Spock. O europeu já tem uma preocupação em não ser a segunda opção constante.

Aqui você percebe que um novaiorquino não encosta em outro, e ai de você se esbarrar superficialmente na derme de um morador local. Flechas sairão dos olhos em fúria deste.

Junto com a bolha, vem de brinde também uma área de segurança, uma área de uns 30 cm em volta do indivíduo que é seu terreno sagrado, como se cada novaiorquino andasse junto com seu solo soberano.

É comum inclusive você ver gente prevendo uma tensão de toque, alguns avisam à distância pra você tomar cuidado ou que eles estão chegando. Tocar em um americano sem querer é quase uma ofensa, mas tocá-lo de novo, como todo brasileiro faz, pra pedir desculpas, é provocação.

Não tive essa oportunidade de testemunhar isso aqui, mas as pessoas dizem que é uma maravilha ver um show ao ar livre no Central Park. Apesar de irem aos milhares pra ver um show do Pavarotti, todo mundo crava seu cobertorzinho na grama com uma área de respiro em volta. Não fica aquele pudim de gente viva no Ibirapuera quando a Rita Lee canta, uma terapia de choque pra quem tem agorafobia.

Homens aqui não cantam as mulheres, nem as feias nem as lindas. Nem vice-versa. Eu comentei com uma balconista que ela era muito bonita – ela tinha a cara da filha do Jack Bauer de avental – e ela me deu um tabefe com os olhos. Desculpa.

Pode ser até impressão minha, e não é preconceito, mas sinto nos meus velhos ossos uma tensão racial um pouco mais exacerbada aqui. Embora todos convivam em harmonia, parece que basta cair um prato no chão que sons de tiros irão acontecer. Quem andar de metrô ou pegar um táxi vai saber que isso procede.

30 Comments

  1. MARCELO LOURENÇO disse:

    ACABEI DE MANDAR ESTE E-MAIL PARA UM MONTE DE GENTE NO FACEBOOK, HIHIHIHI…(E JÁ FIZ O TEXTO DA CONTRA-CAPA DO SEU LIVRO)…

    Este e-mail é baseado numa história real:

    No ano passado o ilustrador brasileiro Marcos Hiroshi, pai e mãe das famosas “toalhinhas de bandeja” do McDonald’s, descobriu que estava com glaucoma.

    Para quem não sabe, glaucoma é uma doença degenerativa dos olhos. Não tem cura. E o resultado final é um só: cegueira.

    Uma triste notícia pra qualquer um, uma tragédia para um ilustrador.

    É por isto que este ano ele organizou com um grupo de amigos uma visita de um mês a New York. O cara nunca tinha estado na cidade e – com a ironia típica do Marcão – disse que gostaria de escrever um livro chamado “1000 Coisas para ver antes de ficar cego”. E que lugar melhor para começar do que NY.

    Viagem marcada, apê perto do Times Square alugado, vem a tal da gripe suína. E todos os amigos do Marcão (uns bananas) ficam com medinho e desistem da viagem.

    Ele não.

    É por isto que ele está lá a desenhar feito um maluco tudo o que vê na cidade. E a postar no seu blog.

    Blog ao qual eu recomendo vivamente a visita:

    http://blog.hiro.art.br/

    Espero que gostem,
    Marcelo Lourenço

    PS: Acho que isto dá um livro. Se alguém conhece uma editora interessada, por favor…

  2. Nihonjin disse:

    Oh gosh! Poisé, daí se vê que nem tudo é uma beleza não é mesmo?

    Hahaha, ri muito com os “watch out” xD

  3. Alarcao disse:

    Nah… Não é bem assim. Você é que tá enxergando com lentes de quem cresceu em Mogiguaçu, hueheh

  4. Hello Hiro! (bela aliteração xD)

    Acho que essa tensão existe aqui em São Paulo também, principalmente em ônibus cheio, metrô, e ruas tipo a Paulista, Praça da Sé… Parece que cada pessoa vive num mundinho isolado dos outros e qualquer tentativa de aproximação pode ser uma afronta a individualidade da pessoa. Claro que existem os boas praças que adoram uma conversa com pessoas desconhecidas eheh, como diria o Nerdcast, os free talkers, mas normalmente eles são sempre vistos com mals olhos por qualquer um na cidade…

    Eu mesmo quando estou no ônibus desenhando ou ouvindo mp3 odeio quando alguém vem falar comigo, ashusauhsauh, as vezes acontece de conhecer pessoas legais e conversar assuntos que saem do comum de falar mal do governo… hehehe

    Continue com o diário de bordo, está muito divertido ler suas experiências na terra do Tio Sam.. eheheh

  5. Filipa disse:

    Oi!!
    Olha, não te conheço de lado algum, mas falaram-me do seu caso de glaucoma na vista.
    Você liga para o que eu disser se quiser…

    O meu pai sofreu do mesmo caso, um glaucoma na vista esquerda. Todos lhe disseram que não havia nada a fazer.
    Foi então que uma amiga lhe falou de um médico em Coimbra (Portugal) que era o melhor profissional de oftamologia de sempre.

    O meu pai foi lá com uma réstia de esperança e o médico (apesar de não ser nada simpático) resolveu experimentar nele um novo sistema de ‘atraso’ de evolução do glaucoma. Uma injecção na vista com não-sei-bem-o-quê. Vai daí que gradualmente o meu pai recuperou a visão!

    Claro que fica sempre um risco de voltar a desenvolver, e a visão não fica a 100%. Mas fica a 90% o que é óptimo. Já lá vão 5 anos…

    Não é caso de macumba, nem de mézinhas, o que seja. É medicina mesmo.

    Se estiver interessado o site é este:
    http://www.ccci.pt/index.html

    Agora não me recordo do nome do médico, mas se estiver interessado eu pergunto pro meu pai.

    Tudo de bom!

    Filipa.

  6. Tina disse:

    Hiro esta sua impressão é beeem paulistana! como paulistana até os 25 anos qdo mudei pra Curitiba entendo bem o q vc diz, e minha impressão aqui no Paraná é exatamente esta q vc descreve, no inicio estranhei o povo curitibano se vc faz um comentário sobre algo comum numa feira ou fila raramente um curitibano vai responder, se alguem compartilhar com vc o momento pode saber q não é curitibano com o tempo aprendi e consegui criar minha bolha de segurança,(são mais 25 anos vivendo no Paraná) hj eu digo:não me toque ou seja dardejado impiedosamente!

  7. Paulinha disse:

    Pode parecer um pouco antipatico, ate antipatriotico da minha parte mas gostaria de experimentar a indiferenca dos norte-americanos ao andar na rua. Pode ser que o jeito “eu sou esquizito mesmo e ai” pudesse incomodar um tanto, mas ao meu ver (opiniao de quem nunca foi pros esteits) as bolhas-matrix servem para delimitar as coisas mesmo, e pra alguem que tem serios problemas com a falta de consciencia corporal do povo brasileiro… o gente que gosta de se esfregar viu… seria uma boa, ao menos temporariamente!

  8. Mia disse:

    =/ então tudo o que eu vi no How I met your mother é mentira??

    Barney Stintson is a lie??? noooooooooooooooooo

  9. Pacha Urbano disse:

    Estive recentemente em Portugal e Espanha, e embora os ibéricos sejam mais calorosos que os americanos, também percebi que eles gostam de preservar seu espaço, seja físico ou social.

    É comum perceber quem não é de lá, justamente por este tipo de comportamento intrusivo tão característico da gente, brasileiro, ou latinoamericanos de maneira geral.

    No metrô, mesmo quando está cheio, as pessoas têm uma preocupação visível em não esbarrar nas outras e mantêm uma distância razoável nas filas, corredores, escadas rolantes. Eu fiquei surpreso com isso, porque pensei que fosse lenda.

  10. maribel disse:

    Hiro
    e aquele “I’m sorry”, por você ter encostado no sujeito. No começo achava muito esquisito: “Ué por que ele tá pedindo desculpa se fui eu que encostei”. Depois resolvi abstrair.

    Muito legal sua viagem e seus desenhos estão incríveis e pra lá e certeiros.

    beijo
    Maribel

  11. Bruno Legitimo disse:

    Nossa perfeito a ilustração do campo invisivel de distância mínima! É exatamente assim em NY haahha… Parabéns pelo blog! Muito bom.

  12. Anderson disse:

    Acho q n é bem assim n,eu acho q é mto mais um “cuida da sua vida,q eu cuido da minha”
    E muitas vezes isso falta no Brasil.

  13. Mangabeira disse:

    Estou viciando nesse seu diário de bordo ilustrado. Você está analisando da vestimenta até a alma novayorquina e da forma mais bem humorada e criativa possível.
    Quanto às bolhas, concordo que elas existam em todos os lugares. A cultura do não me toque, não me olhe, não me incomode, não me…etc.
    Só que essa regra vai totalmente por água abaixo, em New York ou em qualquer outro canto do mundo, se existir o sofrimento. Em meio ao sofrimento, a essência humana reaparece e consegue destruir essas bolhas. Um exemplo clássico seria o 11 de setembro.
    Pena que tem que ser assim.

    ps. (e Glaucoma não é sinônimo de cegueira, pois cada caso é um caso)

    abraço Hiro!!!

  14. Rubens disse:

    Eu não gosto de andar por aí alheio ao que acontece no meu redor, com fones no ouvido. Mas acho que o interessante disso que eles fazem é cada um curtir sua individualidade sem ser incomodado.

  15. Mah disse:

    Lindo blog.

  16. Ronnie disse:

    Ola Hiro, como esta? Nao sabia q estava em NY. Cheguei ao seu blog atraves do blog do Mori. Eu tbm estou fora, estou em Amsterdam e acho q os Amsterdaners se encaixam um pouco no perfil New Yorker. Cada um se veste como quer, faz o que quer e ninguem liga ou fica fitando com cara de estranhamento. Cada um na sua e nao me incomode. Ninguem se comparando. Sem stress.
    Abs., Ronnie

  17. Muito bom teu blog e essa oportunidade de estar em NY registrando a imensidao que eh essa cidade. Estou fazendo o mesmo por aqui… e vez ou outra posto no blog. Mas escrevo todos os dias no meu blog (ainda nao sou boa com ilustracoes).

    Voce comentou sobre a matrix e, se eh assim ai… imagina aqui no Japao!! Eh como se existisse uma bolha mesmo ao redor das pessoas e ali ninguem invade. Contato visual?? Nem pensar.. estao todos muito ocupados com seus celulares e i-pods. E por aqui eles ainda evitam sentar ao lado de estrangeiros… (mais por medo da gente puxar conversa e eles nao saberem o que dizer)

    E ai? O que fazer pra mudar isso??

  18. Pelo menos eles vivem em seu mundinho, nao o querem expandir como fazem aqui ao aumentar no ultimo volume o alto falante do celular tocando forró risca faca no meio do busão lotado rsrs, mas mesmo assim ainda prefiro o brasil pois vendo os seus relatos o povo brasileiro é mais amigavel, parabens pelas descrições de NY estão muito divertidas e interessantes, um abraço Hiro!!!

  19. GAbriela disse:

    OI!

    Sou aspirante a ilustradora, e achei demais seu blog!
    Seu desenhos são lindos, e o que vc escreve é legal! é beeem motivador conhecer um pouco a mais de alguém que trabalha com ilustração, e o link do guia do ilustrador ali é a cereja do bolo!
    (olha aí, conquistou uma seguidora)

    ;D

  20. sudou disse:

    eu até entendo o desejo de não ser incomodado algumas vezes por pessoas aleatórias,
    até porque existem pessoas que são desagradáveis mesmo.

    mas fala que não é bem triste essa frieza toda?
    e isso não é só lá fora, em praticamente qualquer grande cidade dá pra se observar esse comportamento.

    é até engraçado ver a impressão de pessoas que geralmente vêm do interior morar em centros urbanos…
    elas notam um distanciamento, um isolamento entre as pessoas.
    acaba que nem mesmo se desejam mais um “bom dia” ou “boa noite”.
    quase nunca ouço isso de quem mora nos centros.
    só ouço essas pequenas amabilidades triviais de quem veio do interior.
    curioso isso.

    sei lá,
    parece que ta na moda ser frio, antipático, isolado e até mesmo esnobe.
    cada um precisa de seu espaço,
    mas também não precisa ser assim…

  21. cadu disse:

    Hiro, tenho acompanhado seu blog desde o começo do ano. Não vou comentar as ilustrações porque o seu talento dispensa maiores observações. Vou falar do texto, que tem sido uma delícia de ler e imaginar as cenas que você tem vivido e as figuras que você tem visto…
    Concordo com o Marcelo. Isso dá um belo livro.
    abração
    Cadu Lemos

  22. Isabella disse:

    Olá Marcão!
    Não sei se irá lembrar, em 2005 eu fui com meu tio, Marcelo, em São paulo e saimos contigo para tomar um café. Foi então que descobri que quem fazia aqueles desenhos super descolados do “McDonald’s” era você! Desde então, sempre que os vejo lembro-me de ti!! ;)

    Adorei o blog! Continua a escrever, estarei sempre lendo!

    Beijinhos

    Isabella Lourenço

  23. luiz disse:

    Gostaria de passar por uma experiencia dessas: Nova York: a cidade dos Porco-espinhos! Mas acho que o mundo caminha para isso.Todo mundo é uma ilha,cercado de fobias por todos os lados! Um abraço,Hiro!!

  24. Priscila disse:

    Pois é… o que aconteceria se jogassemos um norte-americano, as 17h40, dentro da estação Sé do metrô. Será que ele sairia ileso e são, ou teria uma combustão instantânea? rsrs… Demais Hiro!

  25. Luiz Machado disse:

    Muito bom!!

    O pior é que lá é assim mesmo!!
    Acho que isso faz parte da graça da cidade.

  26. INapta_Tsuki disse:

    Como a Tina disse acima, em Curitiba é meio parecido mesmo.. hahah
    Mas eu gosto, é bom vc viver sem ninguém pra te apontar o dedo. =p

    Qunato as ilustações, eu acompanho sempre o blog, toda vez que entro aqui me da vontade de voltar a desenhar… fazê-lo já é outra história.

  27. Erickson Leon disse:

    Curitiba…. hahaha. É bem assim, se alguém falar com você, se se aproximar de você…. ou é bandido ou não é daqui. Quando voltei para cá é que entendi isto. Antes de viver em São Paulo nem percebia, agora que voltei há uns três anos e meio, este modo de ser do curitibano me incomoda, e – ironicamente – acabei me tornando ainda mais trancado em minha própria bolha.

  28. Credo! Cruzi! Mas seus desenhos estão ótimos. Adorei o bom-humor do teu blog e o fato de estares levando a vida com ilustração em NY.

    sucesso!

  29. Fala Hiro, conheci teu blog através do blog do Gustavo, vc desenha muitoooooo

    Vivi em Madrid 6 meses.. ainda não tinha ipod.. mas vivi na minha bolhinha.. por causa do mesmo.. e passei situação parecida com a tua no balcão de um bar tbm..rssssss

  30. Rodrigo disse:

    Nas minhas aulas de Teoria da Arquitetura, eu vi um pouco disso e algo a mais, você pode medir em cm essa Matrix, chamada de bolha pessoal, e o seu tamanho varia de acordo com a intimidade e a aproximaçao, por exemplo, um desconhecido distante está do outro lado da rua, enquanto um desconhecido proximo ta a 2 metros, um conhecido distante tá no outro lado de uma sala, enquanto um conhecido proximo ta a um metro, um amigo distante ta na outra ponta da mesa, enquanto um amigo proximo ta a menos de 50 cm, uma pessoa muito proxima, como uma namorada, esposa ou mae/pai/irmaos distantes estao na outra ponta do sofá, uma proxima esta tocando em vc.

    Nao sei se me fiz entender hahaha mas é muito legal

    tem outras coisas interessantes, como por exemplo, quando vc senta em um banco de 3 lugares, vc sempre senta numa ponta, e a proxima pessoa a se sentar, vai sentar na outra ponta, a proxima senta no meio. E num metro, onde todo mundo é obrigado a ficar perto, as pessoas tendem a ficar de costas para o maior numero de pessoas possivel! hahaha

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