Isaac Mendez não, Eduardo Schaal

Coicidências são fascinantes, mais ainda pra quem estudo um pouco de filosofia antiga chinesa como eu, pois no fundo elas são relatos de sincronicidade de arrepiar os mamilos. Histórias como aquelas em que o sujeito que escapa ileso do ataque das Torres Gêmeas descobre que sua irmã estava em um dos aviões ou como de um ex-aluno meu que morria alguém na família toda vez que uma garça pousava no telhado da casa são o molho tártaro que deixam a vida menos modorrenta e mais interessante.

Eduardo Schaal é um ilustrador brasileiro, um prodígio de talento que não só eu, mas todos ilustradores que o conhecem dizem que a capacidade de desenhar desse cara é sobrenatural. Hoje ele vive na terra do Wallace & Gromit dominando e administrando as coisas belas feitas em 3D. Como o cara não é café pequeno nem em tamanho, ele já fez os concepts de “Ensaio Sobre a Cegueira” e agora ele manda brasa nos filmes de divulgação da National Geographic e History Channel.

E foi na segunda que ele mandou pros seus mais chegados o último trabalho que ele fez pra National Geographic, estapafurdicamente agora sendo chamada de NatGeo, um filme chamado “Draining the Ocean”: (clica no link porque ainda não tá no Youtube).

E amedrontadoramente, umas quatro horas depois eu vejo daqui pertinho de casa que o lago da Aclimação ficou vazio como carteira no final do mês!! E pior, numa conjunção de palavras que faz seu cérebro estalar de agonia, na hora fiquei sabendo que o lago esvaziou porque CHOVEU DEMAIS (o excesso de água deve ter rompido o dreno do lago que, numa sapiência primata, foi construido na forma de uma coluna de concreto há mais de 70 anos, sendo que quem cuidava da manutenção acreditava que o conceito de imortalidade servia para coisas feitas de cimento).

Fui dar uma olhada de perto quando fui correr hoje e só prevejo a hora em que o sol ficar mais forte e o bodum agredir as narinas.
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Essas fotos foram tiradas pela também ilustradora Rosana Urbes, que mora também pertinho do lago. Tem mais fotos no blog dela, dá uma passada lá.
Aquela coisa no centro do ex-lago que se parece com um pequeno monstro do Lago Ness é uma cisne fêmea que todo mundo achava que estava atolada. Uma turba foi mobilizada pra tentar tirar a penosa, mas descobriu-se no final que ela não estava atolada, pois deu um chapéu em todo mundo. Devia estar um pouco deprê porque o marido foi resgatado e levado pro Ibirapuera. Me deixa em paz!

Temos que pedir para o Schaal não enviar nada do que ele fez com explosões atômicas.

Desenho feito nas coxas

Todos os que odeiam o Carnaval como eu deveriam sacrificar um bode para homenagear o sujeito que criou a TV a cabo, ou jogar uma praga do Egito para quem inventou que ir para a praia nesse período carnal, juntamente com o final de ano, é sinônimo de descanso e harmonia.

Essa noticia já andou rolando uns dias atrás na lista da SIB, mas é tão boa que merece ser lançada aos quatro ventos.

O Baptistão, um dos melhores dois cartunistas do Brasil, cujo poder de desconstruir e reconstruir comicamente as pessoas é quase mutante, teve suas ilustrações indevidamente usadas por uma gostosa genérica (créditos para Azaghal) durante o Carnaval (e esse tapa-sexo do tamanho de um micróbio deveria se chamar placebo hipócrita, só dá segurança emocional pra dublê de modelo, porque entre estar ou não com a rachada perseguida exposta vira somente uma questão conceitual).

Lula na coxa direita, Obama na coxa esquerda chupados (êpa) diretamente e sem pudor (êpa êpa) das ilustrações do Baptistão, cujo resto do corpo foi diagramado de uma maneira que parece trabalho de escola, daqueles feitos com recortes de revista em cartolina.

Se isso tivesse acontecido com um desenho meu, não sei se me sentiria ofendido ou excitado. Tiradas à parte, o fato é que usaram o desenho do Baptistão sem autorização e sem pagamento.

O mínimo que eles deveriam ter feito é ter dado um espaço na bunda dessa menina pro Baptistão assinar, bem grande.

Momento cultura sobressalente que não saiu nas lâminas de bandeja:

A expressão “feito nas coxas” vem desde a época da escravidão brasileira. Escravos doentes demais pra trabalhar no pesado moldavam barro nas coxas pra fazerem as telhas das casas. Mas como uma coxa não é igual a outra, as telhas não ficavam uniformes e quando instaladas davam uma péssima impressão de coisa malfeita.

Como o politicamente correto é um cachorro raivoso e almofadinha, não consegui colocar essa informação numa lâmina de bandeja por que contém a palavra “coxa”. Coxinha pode, porque tem “inha”.

Peteleco da próxima lâmina de bandeja

Como havia dito, a próxima lâmina de bandeja que vai entrar nas lojas do McDonald’s terá o tema “Astronomia”. Por questões dignas de jogar cristão para os leões no coliseu, só posso mostrar a ditacuja quando ela for oficialmente liberada para o público, que será por volta de abril ou meio de março, numsei.
Mas nada me impede de dar uma amostra grátis dela, então esse é um dos 30 desenhos que irão fazer parte desse trabalho.

Adoro esse tipo de lâmina, aprendo tanto quanto um macaco num laboratório. Por exemplo, até que enfim entendi o que é um “Horizonte de Eventos”, que deu o nome para aquele filme de ficção que começa muito bem e termina muito mal, o “Event Horizon”, e também fiquei feliz porque também finalmente o conceito de supercordas e buracos de minhoca. Tipo de informação que não serve pra nada na cadeia, mas levanta um sorriso no canto da boca, de qualquer forma.

Bateu uma vontade de falar sobre alienígenas nessa lâmina, mas fui aconselhado por um amigo astrônomo que mora na Alemanha que “esse tipo de assunto o pessoal da área torce o nariz e catarra no chão”.

Mas dane-se, se eu passar muito azeite, eu consigo passar essa informação über-nerd, de causar ereção no Sheldon (Big Bang Theory). Basicamente, é uma equação que calcula o número de civilizações extraterrestres que possuem inteligência suficiente pra dar um alô ou construir uma Estrela da Morte.

Foi como apontar lápis com uma banana, mas consegui explicar esse pesadelo alfanumérico de forma lúdica. Quem viver, verá.

OFFTOPIC
Falando de novo no Sheldon, estourei meus testículos de tanto rir com o episódio dessa semana em que ele ganha de presente da Penny um guardanapo autografado pelo Leonard Nimoy.
“Agora só preciso de um óvulo saudável para ter meu próprio Leonard Nimoy!”

Watching the Watchmen

[img:watchbook.jpg,full,alinhar_esq_caixa]Mais um livro que comprei que faz você se lembrar para que dinheiro serve.

Para um über fã de Watchmen como eu – que li pelo menos umas dez vezes sem exageros, pois cada vez você reparava em coisas novas – e também um devorador de sketches, esse livro, Watching the Watchmen, que você encontra por 100 arames em qualquer livraria decente, esse livro é tão bom ao ponto de tirar sua libido. Assim como eu, muita gente deve ter tomado a decisão de ler Watchment em três partes diferenetes: primeiro a história, depois os “Contos do Cargueiro Negro” e depois as notas dos personagens no final da revista, e depois juntar as três coisas.

São centenas de sketches, planilhas de programação e pensamentos de Dave Gibbons (sem Alan Moore, que azeda até copo de leite se estiver por perto) dessa obra prima que, ao lado do “Cavaleiro das Trevas” de Frank Miller – o Benjamin Button dos quadrinhos, pois começou muito, muito bom e foi desaprendendo com o tempo – fez com que qualquer moleque nerd fã de quadrinhos tenha saudade do ano de 1986.


Entre outros estudos, Rorschach tinha um uniforme todo feito do tecido da máscara, o que dava pra ele uma aparência de um dálmata. Dêem um dólar pra mente de bom senso que não aprovou esse costume.

Watchmen foi a mola que me fez interessar por ler sobre teoria dos caos, fractais e filosofia da ciência – o livro de James Gleick, Caos, é de tirar o chapéu, e esse livro me levou a outro melhor ainda, por tratar de desenho, chamado “O Poder dos Limites”, de Gyorgi Doczi, que mostra como estruturas, formas e proporções se repetem constantemente na natureza em todos os níveis de tamanho, até chegar a junção com o I Ching, esse um conhecido bem mais velho.

Esperemos agora o filme. Se não for no mínimo ótimo, mandaremos sentimentos de ódio aos milhões para Zack Snyder para suas bolas caiam no chão e virem brinquedo de gato vadio.

Coraline, ou como fazer um marmanjo gostar de bonecas

[img:coralinevisual.jpg,full,alinhar_esq_caixa]Vou dar uma de Silvio Santos e falar sobre Coraline, que eu ainda não vi por causa de um cliente que desceu na Terra na forma de um diabo, mas que eu sei que é muito bom! Logo abrirei um espaço na agenda a faca para ver esse acepipe de animação.
Pois bem, já aguardava algum tempo por ser apaixonado por Harry “A Nightmare Before Christmas” Selick e duplamente apaixonado por Vera Brosgol, que fez os storyboards do filme.

Na impossibilidade de assistir o filme (e espero que não aconteça o que aconteceu com “Juno”, que eu só assisti nesse sábado na TV a cabo porque não baixo filmes no estilo caribenho e, pasmem, o dono da locadora perto de casa não comprou o filme porque o achava imoral, mesmo alugando os filmes da Silvia Saint e Ginger Lynn mofados mostrando as mortadelas fatiadas no meio da perna), comprei o livro “Coraline, a Visual Companion” – 124 mangos na Cultura, que mostra o making of do filme.

E não é que minhas pestanas berraram de agonia quando vi que o conceito visual de Coraline foi feito por nada menos que Tadahiro Uesugi, o japonês mais francês do mundo e que já foi devidamente relatado neste blog. E analisando com outros olhos, você percebe que Coraline realmente tem traços do danado.


É a feijoada da ilustração animada, Harry Selick, Vera Bee, Tadahiro Uesugi, Chris Applehans…eu PAGARIA sete libras de carne da própria bunda pra trabalhar com esses caras!

Voltando pra Juno, se eu sobresse que veria desenhos da Tara McPherson ali eu teria assistido o filme antes. Aliás, Juno e Coraline, como não se apaixonar?

Thundercats, gooo!

Jogando as meninas de lado agora, tem outro filme onde ilustrador é um personagem principal, e não é “American Splendor”, aquele sobre a vida de Harvey Pekar e bom pra carvalho – e assustadoramente, o amigo de Harvey é aquilo mesmo, um alienígena mamífero, ele apareceu em um episódio do programa do Anthony Bourdain e ave maria….

Não sei como se chama o filme em português, mas em inglês é “Secondhand Lions”, com Michael Caine, Robert Duvall e aquele menino que via gente morta. O personagem do garoto é um cartunista, mas os desenhos feitos para o filme foram de autoria de Berke Breathed, autor de uma tirinha muito, muito boa chamada “Opus”.

Conheci “Opus” quando comprava regularmente as revistas italianas “Corto Maltese” e “Linus”, há uns vinte anos atrás, o que me consumia todo o dinheiro da minha já parca alimentação, forçando-me a manter uma dieta exclusiva de pastel de palmito quando era dia de comprar essas revistas. Foram as melhores revistas em quadrinhos que tinha naquela época. Aos poucos leitores que tiveram o privilégio de acariciar suas páginas, sabe que foi uma das poucas revistas que misturavam reportagens e quadrinhos de gente de peso com uma elegância que só um europeu conseguiria dar.

Aqui pra vocês em escala cósmica

[img:Carina.jpg,full,alinhar_esq_caixa]Cá estou eu preparando a próxima lâmina de bandeja com o tema “Astronomia”, um pouco atrasada mas levantando a bola do Ano Internacional da Astronomia.
Feliz deste ser que não precisa carregar engradado de banana no cais, pois tive que assistir horas e horas do documentário “O Universo”, da History Channel para este trabalho, documentário fodástico que deixa seu cérebro algumas gramas mais gordo, mesmo se sentindo a bactéria da escova de dentes depois de ver tanta coisa em escala e quantidade absúrdicas.

Um dos assuntos que vai entrar na lâmina é sobre nebulosas, as gigantescas fábricas de estrelas – e estapafurdicamente e fantabulosamente existem muuuuito mais estrelas no Universo do que todos os grãos de areia da Terra – eis que me deparo com uma imagem belíssima e ao mesmo surpreendentemente transgressora em escala gigântica:
Esse gesto com mais de 2 milhões de anos-luz de comprimento, segundo a NASA, é chamado de Nebulosa Carina.
Ai que vontade que dá de fazer alguma coisa muito, muito divertida e ao mesmo muito violadora! Não é teste de Rorschach, mas como não pensar em besteira? Tipo, daquelas brincadeiras que o Criador fez no sétimo dia pra quebrar o tédio ou pra passar uma mensagem subliminar/cósmica do que ele acha da gente!
Se não tivesse que comer e comprar ração pro Bisteca eu publicaria isso com todo o prazer quase anal na toalhinha. Claro que se o fizesse, todo e qualquer traço da minha existência neste plano seria apagado com sal grosso.

O desenhista que nasceu sem olhos

Ainda com a TV como principal referência, salve salve TV a cabo, há algum tempo passou um programa na Discovery Channel chamado “Os Super Humanos”, um programa meio boiola que mostrava pessoas com habilidades meio que mutânticas se esforçar muito. Tem alguns que você passa vergonha alheia, como a mulher que enxerga cores em cheiros e sons.

Mas tem um que conseguiu separar meus dentes pela curiosidade e pela perplexidade (como na abertura do antigo desenho animado do Jerry Lewis, tem um trechinho na musica que diz “it’s so confusing, but is so amusing”), que é um senhor turco, Esref Armagan, que é cego de nascença e consegue desenhar, logicamente não tão bem quanto o Alarcão, mas o cara não tem os olhos e desenha!!!

Glaucoma depois de ver isso vira pelo encravado. Cogitar, e apenas cogitar, que é possível ilustrar sem depender dos olhos, é tão bizarro como imaginar sentar sem bunda.

Delicinha francesa

Estava ontem repousando meus olhos fraquejados no Disney Channel quando vi um apetitoso reclame de um novo desenho chamado “Minha Família Mágica”. Saindo do torpor achocolatado da tarde, arregalei-me pois não era possível que estava vendo um desenho animado feito pelo fabricante de gostosas francesas mais talentoso do mundo, ou seja, Arthur de Pins, cujo estilo é tão inconfundível como cheiro de panetone. Será?

Eis que cutucando o abençoado Google, não é que ele realmente fez parte do projeto? O desenho, francês como Camembert (no original, La Famille Féérique), é uma série de 26 episódios feito por Charles Vaucelles, criador do muy engraçado “Oggy e as baratas”, feito em cima de personagens criado pelo De Pins.

Cara, o desenho é bonito. Não é muito original, mas é bonitinho, mais do que o delicioso e fútil “6 Dezesseis”.

De Pins é um monstro! Ricardo Antunes fez uma entrevista com o sujeito na revista Ilustrar nº 1 e eu cheguei a fazer uma lâmina de bandeja inspirado em seu estilo.