Kripta, aquilo sim é que era revista (e mais uma puxação de saco de Alex Toth)

Hoje em dia a moçadinha que começa a desenhar, e também aqueles que já estão rodando na estrada há algum tempo, em sua maioria tem duas referências principais: mangás e quadrinhos de super-heróis.

Eu também tive minha fase de adoração por esses dois estilos, comprei Dragon Ball quando saia na Shonen Jump, pra ver como isso é velho. Embora lesse à exaustão, nunca usei isso como referência de desenho. Ou em outras palavras, jamais pensei em desenhar mocinhas de olhos gigantes e homens de peitorais também gigantes.

Tampouco eram as historinhas da Mônica e Cebolinha, outra grande inspiração para aspirantes a desenhistas (eu até pensei em escrever algo sobre a conversão pseudomangá que fizeram deles, novamente devorados por essa praga chamada “politicamente correto”, que vai matando o humor na sua forma mais pura, mas o Fábio Yabu, criador dos Combo Rangers e Princesas do Mar, a quem estou devendo um post aqui, já escreveu tudo o que tinha que ser escrito sobre isso em seu blog, leiam, leiam.

Minha inspiração desde criança veio de 3 fontes: UltraSeven, a revista Mad e a revista Kripta.

Os que tem mais de 35 se lembram muito bem dessa revista. Foi a revista mais caralhosa, mas inteligente e mais variada em estilos e histórias de terror e ficção. As histórias eram muito bem boladas e os ilustradores eram geniais, tudo lençol egípcio de primeira qualidade. Eu era daqueles moleques que contavam nas moedas o dinheiro pra comprar a Kripta e montava tocaia nas bancas de jornal esperando chegar o exemplar de Kripta do mês.

Durou só 60 exemplares, e como naquela época não tinha internet, a Rio Gráfica Editora fez uma gambiarra no final dizendo que a Kripta iria passar por uma mutação e passou a se chamar Terceira Geração, uma bosta no formato impresso e que de Kripta não tinha nada. Mas a gente não sabia que a revista original nos EUA havia acabado (Eerie e Creepie). Se fizeram isso é porque a revista vendia bem.

Alguma editora de coração bondoso, o que é difícil, poderia comprar os direitos e republicar as histórias, que eram sementes de filmes de terror de qualidade. E é impressionante como não se acha quase nada na internet.

Para os saudosistas e viciados em naftalina, encontrei um site com TODAS as 60 capas da revista. Vale a pena relembrar a época em que tudo era feito na raça e no nanquim.

Naquela época era analfabeto visual, mas sabia que gostava dos traços da maioria dos desenhistas, somados roteiros de arrepiar os mamilos.
Tinha o argentino Leo Duranona, que na época achava o traço meio sujo, mas hoje acho magnífico, que fez a série “Viajantes do Horizonte” – que por um lado tinha um episódio magnífico de um enxame de criaturas cegas saindo do subsolo pra atacar o que restou da civilização, teve um final muito muito broxante, daquelas soluções tipo “Deus Ex Machina”, que se você não sabe o que significa isso, tem na Wikipédia)
duranona
Tinha a série do Dr. Archaeus, desenhada pelo Isidro Mones, que lembrava um pouco o Abominável Dr. Phibes, que contava a história de um ex-enforcado, que tinha o rosto inclinado como o George Clooney, que matava os jurados que o condenaram seguindo uma canção de Natal, que é a mesma canção usada por Carl Barks em uma genial história do Pato Donald, que havia hipnotizado Tio Patinhas para ganhar um monte de presentes, mas tudo ia pra um cachorro (lembram? “Dez perdizes numa pereira, oito tocadores de gaita de foles, e assim vai).
Archaeus

Tinha a série “Os Quatro Cavaleiros do Apocalipse”, tão bem escrita que mereceria uma versão romanceada, desenhada pelo José Ortiz. Minha memória não se lembra de quanto tenho que pagar de imposto, mas lembro muito bem da cena final do episódio “A Fome”, a dos soldados de Napoleão no inverno russo e do Gaston levando o amigo em pedaços no saco como marmita pra matar a fome no longo caminho de volta pra casa.
ortiz
Adorava as histórias desenhadas por Berni Wrightson, especialmente “Ar Frio”, do conto de H. P. Lovecraft, do cara que estavam morto e só se mantinha inteiro por causa do apartamento gelado., pois essa história lembrava muito uma agência gélida (no ambiente físico e no ambiente social) que eu trabalhei.
arfrio
Tinha uma história genial, que eu não me lembro quem desenhou ou escreveu, de uma plataforma de petróleo no meio do gelo que era invadida por vampiro, lembrando um pouco a história “30 dias de noite”.

No final, tudo isso é pra puxar esse segmento pra falar do meu favorito: Alex Toth. Esse cara era porreta, era, desculpe o palavreado, fudido ao extremo. E quando descobri que tinha mão dele em Space Ghost, ah, aí ele tinha dado um passo para o nível “divindade” dos ilustradores.
Ele fez três histórias muito muito geniais: Kui, sobre um casal que entra numa pirâmide peruana e morre soterrado por rios de areia, em três pagininhas safadas de boas; “Papai e o Pi”, sobre um alienígena bonzinho que se chamava 3,1415 e foi o precursor do E.T, e uma outra que não me lembro o nome, de um avião do correio que era seguido por um disco voador.

Vi no blog Drawn que foi criado uma galeria para Alex Toth, recheado com sketches. Olhem, olhem, como pode um homem desenhar coisas tão másculas e elegante ao mesmo tempo? Oras, ele foi o Sean Connery dos ilustradores (não ele fisicamente, ó boiola, mas o seu traço). Podem clicar na imagem que ela aumenta de tamanho, é nos detalhes que mora o diabo.
toth-threemusketeers
toth-zacharysmith
O traço refinado e hoje ainda é atual. Trabalhou um tempão na Hannah Barbera fazendo os desenhos (Shazam, Laboratório Submarino, Cavalaeros da Arábia, Space Ghost, afe) que formaram o caráter de quem tem mais de 40 e da maioria dos nerds e ilustradores, ou seja, é um patrono da cultura pop. E morreu em 2006, em cima da prancheta.
toth-sealabgoodies

5 Comments

  1. Otavio disse:

    Grandes lembranças, Hiro…

    Queria ver se você lembra de uma história do Kripta (todo dia é sexta feira, toda hora é meia noite…)?

    Lembra de uma história onde todas as mulheres do mundo tinham morrido e todos os homens tornaram-se gays? E o herói da história era desprezado por continuar sendo heterossexual? Era estranha pra um moleque mas achei aquilo super legal, especialmente considerando que no final ele traçava a mocinha… As usual.

    Por mais maravilhoso que Y – The Last Man seja, ele ainda deve respeito a histórias como essa, vindas do fundo da mente dos anos 70.

    Abraços,

    Do seu fã e amigo,

    Otavio

  2. Pedro cigano disse:

    Olha, espero que leia isso =D

    encontrei varias edições da kripta no mercado livre, da uma procurada lá, tão até baratas pela raridade delas

  3. Marcus disse:

    Tem mais galerias do Alex Toth no Comic Art Community, é so ir la que tem dele e de outros caras tambem, principalmente de quadrinhos de super herois.

    Flws !

  4. waldemar jr. disse:

    Grande matéria, Hiro. Sou fã da revista desde criança e tenho toda a coleção da KRIPTA e sempre estou comprando exemplares de EERIE, CREEPY e VAMPIRELLA do mundo inteiro), achei muito bom o seu texto. Só pra completar, a história do vampiro na plataforma de petróleo chama-se “ALVORADA DE VAMPIROS” (roteiro de Archie Goodwin e desenhos de Moreno Casares), publicada na Kripta nº 46 (abril/1980) – na capa, um lobisomem e um vampiro se fecham na porrada, numa bela pintura de Frank Frazetta. Já a história do avião e do disco voador chama-se “TIBOR MIKO” (roteiro e desenhos de Alex Toth), publicada na Kripta nº 54 (dez/80): na capa, Papai Noel sai pela chaminé com um machado ensangüentado na mão. A história que o Otávio falou sobre o mundo homossexual saiu somente num dos almanaques de Kripta (tamanho grande), e o título original era “THIRD PERSON SINGULAR” (roteiro de Bruce Jones e desenhos de Luiz Bermejo)- a Censura atrasou o lançamento dessa história no Brasil. Outros grandes mestres do traço são Esteban Maroto, Jose Bea, Felix Mas, Jaime Brocal, Tom Sutton e John Severin, só pra mencionar alguns. Grande abraço!!!

  5. Vanius disse:

    Muito boa matéria. Tem uma historia que foi publicada em um número especial de Kripta, eu acho. Um sujeito mata todo mundo em casa, com tiros de pistola com silenciador, inclusive as próprias filhas, e vai para o alto de uma colina com seus pensamentos, e diz que escolheu o melhor lugar para assistir a algo. No último quadrinho, um cogumelo atômico aparece no horizonte e o cara fica assistindo. Acho que ele quis poupar a família de sofrimento. Alguém sabe que história é essa, ou se foi realmente publicada em Kripta?

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