Minha primeira ilustração teve algo de fezes

Graças ao seu Roque, pai da minha amiga Tina Brand, consegui recuperar algo que achei que estivesse perdido pra sempre nos anais do tempo e espaço. E bota anais nisso.

Esse repolho acima foi minha primeira ilustração. Foi o primeiro desenho que eu fiz na minha vida remunerado. O ano era 1986, e foi para um fascículo chamado “Vida” da Editora Três, que era um guia de autosuficiência que ensinava a fazer sabão de gordura de picanha a plantar milho em um barril.

Eu era um completo idiota naquela época, mas era um idiota sortudo. Tudo na minha carreira foi por acaso ou por causa de mulheres. Nesse caso foram os dois.
O lugar era perfeito. Hoje vejo como tive sorte, pois não entendia porra nenhuma de desenho, mas recebia dicas áureas do Brasílio Matsumoto, que também ilustrava para a revista (ele ilustrava, eu rabiscava). Nas redações que eu ficava dando um giro, pudo ver o Luis Gê como diretor de arte da Status (acho que era Status), pude ver o Chico ou o Paulo Caruso (impossível saber quem era quem) finalizando as charges para a revista Senhor e sempre dava um encontrão no banheiro com o Maurício Kubrusly, na época editor da Som Três.

A história desse repolho é verídica. Mesmo.

Cheguei até a editora por causa de uma paquerinha. A paquerinha trabalhava na redação da revista Vida e viu que estavam precisando de um ilustrador.
Eu não era ilustrador, mas rabiscava estupidezes nos cadernos da faculdade de Biologia, o que era suficiente para ela me indicar ao cargo, coisas que a falta de consciência faz nas pessoas.
Quando esse repolho foi encomendado como teste, Saulo Garroux, diretor de arte na época, pediu que ele fosse aquarelado.
Nunca havia feito nada em aquarela, somente com caneta Bic.
Em um final de semana, comprei uma aquarela Guitar vagabunda, um pincel Tigre ainda mais vagabundo e dois pés de repolho, também vagabundos.

Fiz o que deu pra fazer, uma merda verde e outra roxa.

Chegando na redação pra apresentar o trabalho, uma reunião de emergência invocada pelo dono da editora Triês, editor-mor e ex-galã de fotonovela Domingos Alzugaray forçou a turma da revista a me dar um chá de cadeira.

Durante a espera, fiquei fuçando uns livros na prateleira. Eis que de repente, abro em uma página com um…..repolho aquarelado!

E foi aí que apareceu a primeira referência na minha vida. Comparando a ilustração do livro com o que eu fiz, uma luz se abriu no teto e vi o que tinha que ser feito.
Como eu estava com a pasta com a aquarela e os pincéis, levei o livro pro banheiro e me tranquei na privada.

E foi lá dentro, no cantinho onde centenas de pessoas castigaram a porcelana, que eu comecei a retocar a ilustração, usando a água da privada pra molhar e lavar o pincel. Sons flatulentos úmidos e pastosos, sons de jatos de líquidos mornos sendo expelidos e sons de bolas de bolos alimentares fazendo chabum acompanhados de cheiros nauseabundos de gás metano e enxofre belzebúlico vinham das pessoas que ocasionalmente vinham ao banheiro para despejar seus excretas, mas estava tão entusiasmado com a minha descoberta que isso não desviava minha atenção.

Depois de uma hora, saí do banheiro e entreguei as ilustrações ainda úmidas com a água semifecal. O diretor de arte adorou o trabalho e fui contratado, começando a partir desse momento a deixar de existir como zoólogo e a existir como ilustrador. Que na verdade levaram mais de 10 anos pra que eu pudesse ser chamado honestamente como um ilustrador.

28 thoughts on “Minha primeira ilustração teve algo de fezes

  1. É um dia eu espero ter uma hitória legal como a sua…
    essa foi boa uma aquarela de água de privada

    um abs

  2. Maravilhoso depoimento! Sério.
    Hiro, você tem um humor muito peculiar no trato com as palavras. Fui de fato transportado para aquele banheiro e juro que vi você ali pintando os repolhos.

  3. Muito simpática, ainda mais por ser a primeira e considerando o método hehe Que bom que deu certo, garantiu que tivéssemos mais um excelente ilustrador.
    Mas não tinha uma pia por perto? rs

  4. É Hiro, eu acho que ainda estou umas fases atrás dessa, mas já sei que sou um completo idiota. :)

    Só me fala uma coisa, em 85 qual era sua idade? Mais do que 18?

    Vamos ver quanto tempo eu demoro pra conseguir fazer um repolho, e remunerado. Se é que eu consigo fazer um. :P

    Po, e sobre a história, haheh, fantástica.. Aquarela com água de merda, quem pensaria nisso?

  5. Em 85 eu tinha 20 anos recém-adquiridos.

    E na editora Três tinha pia, claro, mas eu tive que me esconder na privada porque não queria correr o risco de alguém da redação da revista me pegar no flagra. Era o único lugar com o mínimo de privacidade, com a vantagem de ter uma fonte de água disponível.

  6. Cara, v. é muito engraçado! Quase me “borrei” de tanto rir, só de imaginar a bizarra situação! Acho sua arte e seus textos extremamente interessantes, esclarecedores e, sobretudo, muito bem humorados (diga-se de passagem, uma qualidade fundamental)! Sou leitor assíduo do seu blog, v. está de parabéns, Hiro! Forte abraço.

  7. Eu ri muito lendo isso. Mas fiquei com uma dúvida: aquele pessoal da editora ficou sabendo depois dos detalhes nojentos da execução da ilustração, ou só devem estar sabendo disso agora ao lerem esse blog ,depois de tanto tempo?

  8. Em 1985 e já fazia ilustração com cheirrinho… Você é genial!!! hahaha…

  9. A água era de privada, mas era água limpa. E eles nunca ficaram sabendo, é claro. Mas como dizem, o que importa é o resultado.

  10. Samanta, minha biografia melodramática começa antes.
    Um dia vou contar a história dos meus avós: da parte do meu pai, que saiu de Hiroshima antes da bomba estourar, e da parte da minha mãe, que iam viver nos EUA, mas fugiram para o Brasil por causa de um “incidente” com a Ku Klux Klan.

  11. Repolhos, privadas e um zoólogo ilustrador??… Uma históra que beira o absurdo, não acha?? A não ser, talvez, por três verdades: que a falta de consciência sempre traz bons frutos, que a inspiração, aquela autêntica sempre brota nos lugares mais… inesperados, e que o acaso é parte desta história. Depois de meses hoje resolvi entrar no seu blog. Feliz com seu sucesso!!!!!!!!!!! Too

  12. Hiro,
    Faz um bom tempo que não entro no teu blog. Achei genial a tua iniciação. Minha esposa Regina,gostaria de deixar uma recado para você: nem o mister Bean acharia uma solução melhor e isso é digno de se escrever um livro, ou história em quadrinhos.
    Grande abraço,
    Marchi

  13. Ouvi essa história no nerdcast. A ilustração tá muito legal pra quem nunca tinha visto aquarela antes!
    Hiro, tô fazendo biologia, mas às vezes penso seriamente em passar a vida só desenhando…me identifiquei muito com sua história (queria me identificar ainda mais se eu tiver a sorte de um dia começar a trabalhar com desenho! hahaha)
    Já ouviu um boato que o desenhista do Bob Esponja era biólogo também? Vocês dois são a fonte de inspiração e esperança dos biólogos que desenham (e olha que na minha sala de aula tem mais outros que queriam ser ilustradores).

    Beijos

  14. Parabéns Hiro, você é um cara supimpa, realmente o que importa é o resultado.

    Abraço

  15. Cara! Muito engraçado o jeito que vc escreve hahaha…muito boa história…
    flw

  16. Essa é da série “não tentem isto em casa, crianças!”

    Só soube deste texto a partir da recente discussão na Ilustragrupo. Foi bom você ter esclarecido lá que este foi o início, e que rolaram altos e baixos até as bandejinhas do MacDô. Favoritei aqui e lá. ;)

    Mais baixos do que altos em algumas épocas.

  17. Hiro, você foi persistente. E além da sorte teve a visão da oportunidade. Hoje você tem o poder da palavra, do traço, e acima de tudo, da humildade de repassar toda tua experiência.

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