A infância de um ilustrador na frente da TV
Enxurrada de links do Youtube com sabor Toddynho e Sessão da Tarde
O conversando com o Kako sobre os Trapalhões, fui no Youtube fuçar uns sketches com o Mussum, meu Trapalhão preferido na minha tenra infância.
A partir daí devo ter perdido duas horas fuçando vídeos que há mais de trinta anos não eram vistos (nesse ponto o Youtube é um perigo pra quem tem prazos colado nas costas) Centelhas de memórias são reativadas, relembrando cada musiquinha, cena e até cheiros, mostrando como é enigmática a memória humana. Em que partição do cérebro essas coisas ficam guardadas? Coisas que a gente acha que foi faxinado da memória, mas ficam guardados e esquecidos, igual presente de casamento repetido?
Pois bem, esses programas de TV com cheiro de naftalina e gemada tiveram um papel definitivo e crucial para que eu me tornasse um ilustrador, e garanto que vários outros profissionais que correm o risco e o traço na faixa dos 40 também começaram assim. Dezenas de caixas de lápis de cor e cadernos espirais de desenho foram sacrificados durante anos para que eu desenhasse continuamente todos esses personagens e monstros. Sim, eu também curtia animê, só que das antigas.
Acho que se eu não tivesse assistido tanto desenho na minha infância, eu teria me traficante de esteróides ou um dono de videolocadora pornô bizarro com animais.
O tour começou pela primeira abertura dos Trapalhões. Toda vez que acabava os Trapalhões no domingo à noite baixava uma deprê tão grande, principalmente quando se escutava a música do Fantástico porque a mensagem era bem clara: o domingo acabou e amanhã tem aula. Hoje acontece algo parecido, só que ao invés de aula na segunda tem reunião ou entrega de trabalho…
Esse quadro acho o melhor dos Trapalhões, literalmente inesquecível depois de tantos anos.
Depois entrei no link da abertura do antigo Globinho (que hoje vi que se chamava Globo Cor Especial). A música, que há anos não escutava, arrepiou até a úvula. Paula Saldanha, a apresentadora, foi responsável pelo amadurecimento hormonal precoce de milhares de garotos em idade pré-onanística:
Tanto nessa abertura como na dos Trapalhões eu queria saber de quem são os desenhos.
Animês geriátricos
Passando pros internacionais, Speedy Racer dispensa comentários, mas a abertura original japonesa não (feche os olhos enquanto escuta a música e você vai ver vários havaianos gordos de saronge de palha de milho cantando e dançando essa música). Graças ao Speedy Racer eu aprendi a desenhar carros (aprendi numas, foi só o desbloqueio lúdico. O processo técnico foi mais espinhoso, pois quem me ensinou a desenhar carros mesmo foi o Brasílio Matsumoto):
Marine Boy era um desenho que acho que só eu assistia. Eu mascava chiclete Ping-Pong como o chiclete que fazia ele respirar debaixo da água (mas nunca explicava como ele aguentava a pressão):
Zoran e Shadow Boy eram outros bem obscuros. Shadow Boy então dava uma sensação ruim, parecia que você havia assistido uma sessão da brincadeira do copo na TV.
Fantomas era um clássico. Não é sempre que aparece um desenho com um esqueleto desidratado. Mas eu curtia era o Dr. Zero. Desenhava tanto ele que chegava a fazê-lo de olhos fechados, numa vã tentativa de conseguir atenção de tias apáticas e sedentárias.
Super-Dínamo. Eu sonhava em ter um robô-cópia pra fugir das provas. Chorei feito uma moça atropelada quando vi o último episódio.
Série “Animais que traumatizaram minha infância”
Com Lancelot Link foi minha fase “primata”, larguei os monstros por um tempo pra desenhar roupas de chimpamzé.
Saturnino era o patinho gay que eu adorava. Eu tinha várias tias e professoras que eu chamava de “Dona Doninha”. Os bichinhos eram bonitinhos e eu era ingênuo.
Ben, o urso amigo, até que ele lhe dê uma patada de meia tonelada nas costas. Quando criança eu queria conhecer dois lugares nos Estados Unidos: a Disneylândia e os Everglades. Sempre quis ter um barco com um ventilador gigante, pois onde eu morava às vezes alagava.
Curiosidade curiosa: Dennis Weaver, o pai, é o motorista perseguido e sodomizado moralmente em “Encurralado“, talvez um dos motivos que até hoje olho torto pra motorista de caminhão em estradas vazias. Clint Howard, o filho, se tornou um dos atores mais feios do cinema americano.
O Mundo Animal foi o avô do Animal Planet. Dezenas de biólogos na faixa dos 40 devem culpar ele e a série do Jacques Costeau pela escolha da profissão.
Sessão da Tarde
Esse filme me fazia desenhar por horas. A Festa dos Monstros passava direto na Sessão da Tarde e ainda é muito bom. Tim Burton bebeu dessa fonte antes de Jack e James. Nunca me esqueci da Francesca nem do vampiro com cara do Paulo Maluf.
Dr. Phibes foi inspirador na minha infância porque era proibido criança ver. Era tão bizarro (parecia com uma série da revista Kripta, “Dr. Archaeus”) e tão divertido que nunca entendi por que ele era proibido. “Ah Vulnávia, minha querida Vulnávia”… Phibes virou um porco mascote que eu criei, fiel companheiro do Homem-Maravilhoso. O melhor papel de Vincent Price.
Proibido era legal. Principalmente “Sala Especial” que passava na Record. Você ficava assistindo a TV baixinho durante duas horas só pra ver seis minutos de peitinho descoberto.
Terra de gigantes
Agora esses foram os verdadeiros inspiradores para a minha carreira de ilustração, mas como disse na página de apresentação, eu entendi tudo errado e fui fazer faculdade de Biologia.
Eu tinha pilhas de cadernos com desenhos de todos os monstros sem zíper nas costas e dobras de borracha. Olhando hoje, naquele tempo eu fazia mais sketchbooks do que hoje.
Devo minha carreira à família Ultra (e é por isso que não chuto o pau da barraca com gente que adora Power Rangers, tudo tem a sua fase).
Ultraman era o luxo, tanto o original quanto o Jack.
O meu preferido era o UltraSeven. O design de gladiador dele, as músicas e as pílulas de monstros que ele tinha, era o tataravô dos Pokemóns. Parece que a atriz que fazia Annie, a única mulher da patrulha, virou atriz pornô depois de finada a série. A locução é verborrágica e redundante, mas é legal pacas.
Robô Gigante e Goldar. Esse último era sexualmente ridículo, pois um robô que possuía cabeleira (!!), era gigante mas era casado com uma mulher normal e teve filhos (!!). A gente era sexualmente ingênuo naquela época, tanto que ninguém suspeitava do carater bissexual de “A Princesa e o Cavaleiro).
Por fim, o mais tosco de todos. Todos esses ultras, robôs gigante e afins eram toscos, mas Spectreman é Rei e Imperador juntos nessa categoria.
Impagável mesmo são os vilões, Karas e Dr. Gori. Gorilas que na verdade eram versões primatas de Roberto e Erasmo Carlos na Jovem Guarda, pelo menos as roupas e adereços eram os mesmos.
Pra provar que o que é tosquíssimo vira cult, a Flávia, uma leitora do blog, designer e dona do blog”Meu Querido Liquidificador”, fez um Spectreman tipográfico que é uma obra de arte. É algo como Tarantino trazendo de volta John Travolta, pegar algo brega e sem valor e dar um novo ponto de vista bem mais glamouroso.

















Nossa! Que post legal. Você é a única pessoa que eu conheço que lembra do Robô Gigante!
Eu sempre gostei (até hoje) de super-heróis, dos desenhos dos ‘meninos’, acho que é por isso que minhas amigas não lembram do Robô Gigante ou Spectreman…
Esse post ativou minha memória!
Abs
Realmente é magnífico o trabalho dela. Não só esse como muitos outros são ótimos. Aproveito o ensejo para dizer que seu blog é muito bom também.
Até
Belos posts, Hiro-san! Como a infância era bacana naquele tempo! Não tinha malícia e nem síndrome de sabichonice dessa molecada ‘mega-esperta’ de hoje!
Em tempo: eu também achei que só eu e meus irmão assistíamos ao Marino-Boy, pois ninguém mais conhecia! Só hoje descobri que estava enganado!
Abraço e bom feriado!
MW
Mundo animal \o/ Eu quase virei veterinária por conta desse programa, mas me dei conta da minha vocação um pouco mais cedo que vc.
Pow, a maioria desses vídeos eu nem assisti, por que não eram do meu tempo. Eu sou da época do Jaspion, Jiraya, Changeman. Ah, Trapalhões é muito tr00… É chato ver que Didi e Dedé estão separados, e completamente sem graça.
É realmente engraçado o quanto a gente é ingênuo quando criança. Ah, eu gostava de desenhar aqueles super-heróis do pacote de Q-refresko… Num sei se você se lembra disso.
A arte da moça é maravilhosa!!!
Hiro, você lembra de um anime que passava no fim do domingo no parque, chamado Marco?
Marco era um menino que tinha um macaquinho de estimação (um miquinho bem pequeno) e vivia em busca da mãe, que sempre partia no fim do episódio, quando tocava uma música tristíssima na qual ele soluçava “não me esqueça, mamãe! sou Marco, seu querido filhinho…”
Oi Tati.
Eu me lembro do Homem-Jarra do Q-Refresco..não sei se é isso.
Olá Stella.
Claro que me lembro do Marco. Tinha a mão do Miyazaki nessa série. Nunca me esqueci do episódio em que ele tinha que lavar garrafas pra poder comer.
Mais sofrido e miserável do que ele somente o Pinóquio que aprontava com o Vovozinho, que dava raiva de ser tão tapado.
E falando em finais tristes, quem nunca se sentia deprê quando assistia o seriado do Hulk, quando tocava a musiquinha triste , mostrando David Banner (e não Bruce) andando cabisbaixo no meio da estrada?
e naquele filme da série “planeta dos macacos” que os pais morrem e o macaquinho fica órfão, só que no mundo da gente e não deles?
nossa, isso devia ser proibido para criancinhas…
Excelente!! foi tudo aquilo que eu via e muito por sinal. Me identifiquei com você. Eu adorava essas coisas e a musiquinha do fantástico era batata. Uha! Uha! é fantástico , pronto acabou o domingo!
abraços.