Flavio Colin

[img:Flaviocolin.jpg,full,alinhar_esq_caixa]Flávio Colin era um grande quadrinista, tão importante que deveriam erguer uma estátua gigante em sua homenagem no lugar da estátua do Borba Gato. Ou refazerem aquele bandeirante por um no estilo do Flávio.

Foi com o Flávio Colin que aprendi a reeducar minha vista para valorizar um estilo gráfico de um ilustrador. Antes era intoxicado e saturado do estilo Marvel/DC, jamais olhei com bons olhos para a arte dele. Achava meio simplória, meio tosca e um tanto infantil. Cheguei a achar que era mal desenhado, não gostava dos riscos e dos traços serrilhados, nem da falta de sutileza em desenhar meio-tons.

Mas como a gente fica velho e troca a saúde das juntas por um tico de sabedoria, alguns anos depois, folheando uma revista em quadrinhos de terror nacional muito velha, guardada por acaso no meio de umas Playboys cujas meninas da capa já viraram avós, percebi que o estilo de Flávio Colin sobressaia do resto feito perereca espantada. Fiquei pensando em quantos tesouros passaram pelas minhas mãos na época em que era ingênuo e burro e não dei o devido valor. E quanta tranqueira que venerava nessa época e hoje tem o mesmo valor que uma ervilha no fundo da lata.

O traço de Flávio Colin é único. É grosso, forte, sem muitas sutiliezas. É quase uma xilogravura feita a nanquim. Altamente estilosa e com um estilo gráfico admirável. Seus desenhos são vivos, você percebe cada movimento de pincel que ele fez pra fazer uma página.

E fora a questão gráfica, ele era um defensor brutal do quadrinho nacional. Achava importante quadrinhos que passassem uma característica da cultura brasileira. Mesmo em trabalhos menos pretensiosos, como alguns sketches que ele fez pra revista Mad, exalava um cheiro de brasilidade contundente.

A Conrad relançou há algum tempo sua obra “Estórias Gerais”, escrita em 1998. Uma história de jagunços, bandoleiros e gente com chapéu de couro e palmeiras soberbamente desenhadas. Vale a pena mesmo.

Vale a pena repassar aqui o depoimento de Flávio Colin no prefácio da revista. Vê-se que não era apenas um excelente desenhista. Era também um excelente pensador.

“Um Depoimento

Todos sabem que as histórias em quadrinhos são um maravilhoso veículo de comunicação. Maravilhoso e importante, principalmente no Brasil, país com milhares de analfabetos e semi-alfabetizados, onde os livros são caríssimos. Quadrinhos são mais populares e baratos. Seduzem pela interessante e harmoniosa combinação do desenho com o texto curto e objetivo.

O grande problema para os desenhistas e roteiristas nativos é que nossas editras, principalmente as maiores, há muito tempo se dedicam a publicar, quase exclusivamente,material importado, alegando, sobretudo, os baixos custos.

Com essa mentalidade cruelmente mercantilista, amparada por uma lamentável falta de patriotismo e por uma vergonosa alienação cultural, que se vê e o que se lê em quadrinhos, nada, ou muito pouco, tem a ver com o nosso povo e nossa terra. E todo esse lixo,com raras exceções, anula e afasta nossos profissionais, tirando-lhes o pão da boca. Isso é criminoso.

Tenho sincera admiração pelos fanzines que divulgam temas e personagens brasileiros, com coragem, sacrifício e dedicação. Infelizmente, pagam pouco. Isso se deve, é claro, a problemas crônicos e complicados de patrocínio, divulgação e distribuição. Paraas editoras de luxo, esse é o lixo…

Nunca fui xenófobo (meus melhores mestres eram todos norte-americanso: Milton Caniff, Alex Raymond, Chester Gould, etc.). Mas é fundamental que as nossas histórias em quadrinhos mostre o Brasil aos brasileiros. Assuntos, figuras, paisagens, variedade de costumes não nos faltam. Podemos imitar os bons exemplose utilizar algumas informações dos nossos vizinhos e amigos, mas não devemos assimilar totalmente tudo o que eles fazem ou dizem. Cuidemos primeiro da nossa família e da nossa casa. Desgraçadamente, estamos substituindo o que é nosso pelo alheio. Até a nossa linguagem.

Povo que não se conhece, que não se estima e que não tem memória, não é povo. É bando.

Espero que os jovens quadrinistas brasileiros se interessem cada vez mais pelo Brasil, e com seu talento e entusiasmo consigam, afinal, vencer esse pérfido bloqueio cultural e mercantil. Quadrinho brasileiro também traz retorno financeiro. Questão de criatividade e competência. E de patrocínio também.

Abração.

Flávio Colin, 17 de agosto de 2000.”

Ele morreu dois anos depois de escrever esse desabafo.

0 thoughts on “Flavio Colin

  1. Eu me sinto órfão de não poder ter acompanhado o trabalho de Colin quando ele ainda era vivo. Um grande mestre se foi e poucas pessoas sabem de sua existência.

    Tanto no quadrinhos como no design (e às vezes na animação) perdemos aquele espírito antropofágico do modernismo passado – nos digladiando e sendo consumidos por enlatados herméticos de fora.

    Concordo com o Mestre Colin: temos tanto o que mostrar e a aprender com a nossa própria cultura! Não penso que devemos ignorar o mundo, mas sim devemos seguir a risca os conselhos dos modernistas: deglutir tudo e regurgitar ao nosso modo; do bom jeito brasileiro.

    Será que um dia veremos histórias nossas contadas de forma tão grandiosa como Colin fez? Será que um dia teremos um Miyazaki tupiniquim? Espero que sim e farei a minha parte para chegarmos lá.

    Em tempo: A editora Pixel lançou recentemente o Curupira do Colin. Item necessário em qualquer estante de ilustrador/quadrinhista/designer que se preze.

    Link (tá no meio do catálogo): http://pixelquadrinhos.com.br/catalogo.php
    Capa: http://pixelquadrinhos.com.br/verfoto.php?foto=/imagens/curupira.jpg

    Um grande abraço,

    .faso

  2. Já travei algumas discussões acaloradas em comunidades de ilustradores sobre quadrinhos nacionais e fiquei surpreso de ver como muitos ilustradores têm verdadeira aversão de tocar no assunto.Muitos consideram burrice ou até mesmo loucura pensar em viver de quadrinhos no Brasil ou acreditar que um dia o mercado nacional vai se erguer e solidificar-se.
    O único tipo de quadrinho nacional que parece gozar de certo prestígio entre os ilustradores é o quadrinho institucional, e muitos realmente ganham dinheiro nesse mercado ainda pouco explorado.
    Confesso que nessas comunidades abri meus olhos e vi que a situação do mercado nacional é mais feia do que eu pensava, mas repito aqui uma frase que citei em uma dessas comunidades: “Não sei o que dói mais, acreditar que não é possível ou se conformar com isso”.

  3. Orgulho-me de ter conhecido o trabalho de Colin antes de sua morte: tenho um exemplar original de “Guerra dos Farrapos” de 1985, comemorativa dos 150 anos da Revolução Farroupilha. Ele não apenas foi um grande quadrinhista e desenhista, mas foi um grande criador de heróis que ganharam vida no Cinema e na TV, como o Vigilante Rodviário e O Anjo. Mas na minha opinião Colin viveu uma época dos quadrinhos nacionais onde havia uma aceitação melhor do público, onde o próprio mercado não é como o atual. Se o quadrinho nacional tivesse o apoio da época onde Colin e outros mestres publicavam, acho que o quadrinho nacional seria bem diferente do que é hoje…

  4. Talvez o mercado de quadrinhos nacionais torne-se mais sólido, respeitado e atraente, mas não agora, não com essas condições, enquanto o mangá made in tupiniquim for mais respeitado que o Flávio Colin, não enquanto as editoras olharem para outra coisa além do cofre-porquinho e não enquanto os ilustradores estejam dispostos a comprar briga, tanto em valores, como em direito autoral e respeito. Tudo isso faz parte da mesma equação, formando um círculo vicioso. Mas como tudo na natureza, uma hora ele se quebra e muda de formato. Com novas condições e personagens atuantes, acredito sim que isso possa ser viável. Talvez não esteja vivo pra ver isso acontecer.

    Que se siga o exemplo de Fábio Moon e Gabriel Bá,

  5. Agradeço o carinho e o valor que todos voces tem pelos trabalhos de meu pai, pois sei mais do que ninguem o que é a luta de um desenhista de HQ no Brasil. Estou tentando montar um site com todos os trabalho que eu tenho de meu pai, não só desenhos, ilustrações como tambem seus quadros e esculturas em madeira, trabalhos que pouquíssimas pessoas tiveram o prazer de conhecer.
    Caso aja enteresse em me ajudar a montar este site, para que seus fãs e com certeza seus novos fãs, deixo desponivel o meu email.
    Um abraço

    Flavio Colin Filho

  6. Infelizmente, o único desenhista que é reconhecido de uma forma geral seja Maurício de Souza. Para que Colin seja realmente reconhecido, seria necessário que mudássemos também nossa forma (digo de uma forma geral) de pensar sobre a história do nosso País. Porque falar de Flávio Colin é falar de História do Brasil, seja ela de forma positiva ou negativa. Não importa a escola artística que você siga, ele deixou bem claro isso (seja ela norte americana, européia, japonesa, brasileira, latino americana…). O que importa mesmo é o seu interesse cultural. De nada adianta você ser um excelente desenhista/ quadrinista se ainda manter se alheio a sua própria cultura, ao seu folclore, enfim ao seu próprio povo.
    Também não sou xenófobo, mas mesmo seguindo a linha da escola japonesa, antes disso fui criado por uma cultura rica que possui o meu estado natal, o Rio Grande do Sul. E o Próprio folclore gaúcho muito deve a Flavio Colin. como disse anteriormente, é necessário que se estude mais a fundo a história e o folclore brasileiro, para compreender o legado e o alerta que Flavio Colin nos deixa com seu depoimento.

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