Minha primeira ilustração teve algo de fezes

Graças ao seu Roque, pai da minha amiga Tina Brand, consegui recuperar algo que achei que estivesse perdido pra sempre nos anais do tempo e espaço. E bota anais nisso.

Esse repolho acima foi minha primeira ilustração. Foi o primeiro desenho que eu fiz na minha vida remunerado. O ano era 1986, e foi para um fascículo chamado “Vida” da Editora Três, que era um guia de autosuficiência que ensinava a fazer sabão de gordura de picanha a plantar milho em um barril.

Eu era um completo idiota naquela época, mas era um idiota sortudo. Tudo na minha carreira foi por acaso ou por causa de mulheres. Nesse caso foram os dois.
O lugar era perfeito. Hoje vejo como tive sorte, pois não entendia porra nenhuma de desenho, mas recebia dicas áureas do Brasílio Matsumoto, que também ilustrava para a revista (ele ilustrava, eu rabiscava). Nas redações que eu ficava dando um giro, pudo ver o Luis Gê como diretor de arte da Status (acho que era Status), pude ver o Chico ou o Paulo Caruso (impossível saber quem era quem) finalizando as charges para a revista Senhor e sempre dava um encontrão no banheiro com o Maurício Kubrusly, na época editor da Som Três.

A história desse repolho é verídica. Mesmo.

Cheguei até a editora por causa de uma paquerinha. A paquerinha trabalhava na redação da revista Vida e viu que estavam precisando de um ilustrador.
Eu não era ilustrador, mas rabiscava estupidezes nos cadernos da faculdade de Biologia, o que era suficiente para ela me indicar ao cargo, coisas que a falta de consciência faz nas pessoas.
Quando esse repolho foi encomendado como teste, Saulo Garroux, diretor de arte na época, pediu que ele fosse aquarelado.
Nunca havia feito nada em aquarela, somente com caneta Bic.
Em um final de semana, comprei uma aquarela Guitar vagabunda, um pincel Tigre ainda mais vagabundo e dois pés de repolho, também vagabundos.

Fiz o que deu pra fazer, uma merda verde e outra roxa.

Chegando na redação pra apresentar o trabalho, uma reunião de emergência invocada pelo dono da editora Triês, editor-mor e ex-galã de fotonovela Domingos Alzugaray forçou a turma da revista a me dar um chá de cadeira.

Durante a espera, fiquei fuçando uns livros na prateleira. Eis que de repente, abro em uma página com um…..repolho aquarelado!

E foi aí que apareceu a primeira referência na minha vida. Comparando a ilustração do livro com o que eu fiz, uma luz se abriu no teto e vi o que tinha que ser feito.
Como eu estava com a pasta com a aquarela e os pincéis, levei o livro pro banheiro e me tranquei na privada.

E foi lá dentro, no cantinho onde centenas de pessoas castigaram a porcelana, que eu comecei a retocar a ilustração, usando a água da privada pra molhar e lavar o pincel. Sons flatulentos úmidos e pastosos, sons de jatos de líquidos mornos sendo expelidos e sons de bolas de bolos alimentares fazendo chabum acompanhados de cheiros nauseabundos de gás metano e enxofre belzebúlico vinham das pessoas que ocasionalmente vinham ao banheiro para despejar seus excretas, mas estava tão entusiasmado com a minha descoberta que isso não desviava minha atenção.

Depois de uma hora, saí do banheiro e entreguei as ilustrações ainda úmidas com a água semifecal. O diretor de arte adorou o trabalho e fui contratado, começando a partir desse momento a deixar de existir como zoólogo e a existir como ilustrador. Que na verdade levaram mais de 10 anos pra que eu pudesse ser chamado honestamente como um ilustrador.

A Caixa Forte do Tio Patinhas não é oca

Enquanto existirem pessoas com tempo e disposição sobrando, o mundo vai ser mais divertido.

Quem leu as histórias do Carl Barks sabe que ele foi o melhor desenhista de quadrinhos da Disney. A história do Donald inventando a Patomite a partir do estojo de química dos sobrinhos é mijante de dar risada. Daí veio o Keno Don Rosa, que é atualmente o melhor ilustrador da família pato.

Num momento de muita inspiração, Don Rosa criou as plantas da Caixa-Forte do Tio Patinhas, aquela que a gente jurava que era oca pra caber mais moedinhas quando criança. Mas não é, tem mais andares que o prédio da McCann. Fuçando um pouco no São Gúgol, encontrei as benditas plantas:

Mat Skull então pegou as plantas e criou uma maquete muito convincente da Caixa-Forte. Incluindo a Sala da Preocupação e as armadilhas de urso. É um iluminado desocupado. Só não vi o canhão que o Tio Patinhas usava para molestar os Irmãos Metralha.

Estava lendo um gibi do Donald ilustrado pelo Don Rosa e caiu uma ficha. Ao mesmo tempo em que os desenhos dele tentam seguir o melhor possível o estilo de Carl Barks, no fundo ele tem uma pegada underground. O uso das hachuras, das áreas escuras, tudo fica com uma cara “Robert Crumb” mais suave. Somado ao humor negro que ele usa em suas histórias, é uma mistura irresistível.

Persépolis, Ok!

[img:persepolis.jpg,thumb,alinhar_esq_caixa]Acabei de ver Persépolis graças à generosidade dos amigos que estenderam a mão para este pobre coitado que não tinha ingresso, e ele é reconfortantemente salivante de bom.

O traço é mais delicado que o quadrinho, mas a história ainda é do carvalho. Tem mais humor, é mais feminina e é até mais leve que sua versão em papel.
Para os fãs de uma boa animação em 2D, vale a pena. Vai passar ainda duas vezes na Mostra. Depois, sabe o Xá quando ele vai entrar em circuito no Brasil, se é que vai entrar.

Um vilão de bigodes não é páreo para o Super-barbeiro

Meu xará britânico Hiro Kozaka mandou outra “gordurinha de salame” que ele encontrou na net.

O site Superest é similar ao Fist-a-Cuffs, mas ele tem um contexto mais criativo. A idéia é genial, um sujeito cria um indivíduo com um poder extravagante e o próximo ilustrador cria outro com um poder que anula o anterior, e assim vai indo. Assim o homem que conta histórias sem graças por horas é vencido pelo palhaço que acha graça em tudo, que por sua vez é vencido pelo dono de circo que paga tão pouco que deixa o palhaço deprê, que por sua vez é derrotado por um barbeiro que arranca seus bigodes, a fonte da sua vilania.

Ainda está no começo, mas tem tudo pra ser um site genial. Dá até inspiração pra gente fazer uma coisa dessas aqui, com ilustradores e criativos brazucas.

Divertido ainda é a frase de alerta contra o uso indevido das imagens:

©2007, Kevin Cornell and Matthew Sutter. Use of images without permission makes you the most heinous of villains.

Se eu fosse uma mosca da banana teria essa visão da Santa Ceia

Nem indo pessoalmente pra Milão, na igreja Santa Maria Delle Grazie com uma lupa ou um microscópio você conseguiria ver as entranhas e os detalhes de “A Santa Ceia” da maneira que o site Haltadefinizione mostra. Uma benção para os amantes de Leonardo e do famigerado Código da Vinci e que não tem um puto nem pra comer um churro no Tatuapé.

Embora seja um pouco lento, talvez por causa do número de acessos gigantesco, e não sem razão, vale a pena. Quando digo que a obra está toda “zoomificada”, é pra valer. O detalhe acima é de apenas 17%, e já dá pra ver a roupa de baixo de Judas. Com 100% de ampliação a coisa quase chega ao nível molecular. Seria essa a visão se você fosse uma drosófila e pousasse em cima da Santa Ceia.

Essa nova tecnologia, feita a 4 mão, entre elas a Nikon e a AMD, abre um leque de novas possibilidades. Imagina esse recurso em sites pornôs ou de investigação forense? Quem sabe logo não aparece uma foto com essa tecnologia da Angelina Jolie pra gente ver seus poros e glândulas sebáceas?

Mestres do desenho, grátis

Minha cabeça é mais fraca que a da Samanta. Há algumas semanas atrás, um leitor desse blog me deu uma dica, daquelas que você verve uma lagriminha de tão boa. E eu perdi o e-mail dele! Se foi você quem deu a dica santificada, por favor dê um toque que eu dou os devidos créditos.

O link que ele enviou é de um brilhante ilustrador. É o blog Process Junkie, de Alberto Ruiz, um amante das mulheres volumosas e voluptosas. E adora desenhá-las.

Esse sujeito boa-pinta postou em seu blog o link para baixar quase uma dezena de livros que ensinam a desenhar, di grátis. E não são livros quaisquer, de fundo de quintal. São os livros do Andrew Loomis, de George Bridgman e o um livro que eu estava seco pra conseguir há algum tempo, que é “The Practice and Science of Drawing”, de Harlold Speed. É uma oferta irrecusável para quem ama ilustração e desenho.

Andrew Loomis é um mestre conhecido há três ou quatro gerações, dependendo da idade que você teve seu filho. Muitos ilustradores talentosos, nacionais e de fora, tiveram ele como primeiro professor de desenho. No meu caso, não foi ele, mas o Harold Foster, que também segue a mesma linha.

Aqui vai a lista dos títulos e links para fazer o download desses acepipes da arte de desenhar:

The Practice and Science of Drawing, de Harold Speed;

Drawing the Head and Hands
, de Andrew Loomis;
Figure Drawing for All It’s Worth, de Andrew Loomis;
3-Dimensional Drawing, de Andrew Loomis;
Creative Illustration, de Andrew Loomis
Fun With the Pencil, de Andrew Loomis;
The Eye of the Painter, de Andrew Loomis;
Der Nackte Mensch, de Gottfried Bammes (em alemão germânico da Europa, OK?);
Construtive Anatomy, de George Bridgman;
The Human Machine, de George Bridgman;
• E finalmente The Complete Guide to Drawing From Life, de George Bridgman. Nesse tem que acrescentar a terminação “.pdf” antes de abrir.

Baixem e refestelem-se!


Buraco quente de livros mais quentes ainda

Se isso ainda não bastasse, fuçando o blog Process Junkie você conhece a editora do Alberto Ruiz, a Brandstudio Press. É uma ameaça aos fracos de coração e de cartão de crédito.

É uma editora especializada em publicar Sketchbooks de ilustradores porretas, uma boa parte deles são contratadas pela Pixar e Dreamworks. São criadores de personagens. Da mesma forma que a livraria de Stuart Ng, só encontram livros exclusivos, que você não acha na Amazon ou Barnes and Noble.

Arrisquei e pedi esses livros:

E surpresa, chegaram em duas semanas, e autografados! Total da compra, com o frete: US$124. Sorriso de moleque abrindo caixa do correio americano: não tem preço. E os livros são pequenas Arcas da Aliança dos sketchbooks, inspiradores e lindos. Dá até raiva de não fazer um parecido. E os misóginos que me perdoem, mas só tem livro com mulheeres, bem polpudas.

Altamente recomendável.

Aracaju, aí vou eu!

[img:Papagaio2.jpg,full,alinhar_esq_caixa]Desenheiros, estudantes e ilustrantes de Aracaju.
Tive a honra de ser convidado para dar uma palestra na Universidade Tiradentes (Unit), na V Semana do Design Gráfico, o que aceitei de bom grado e com um frio na barriga (porque é na abertura do evento). Dia 5 de novembro será a palestra sobre meu trabalho com as lâminas de bandeja e ilustração, e no dia 6 vou dar uma oficina de criação de uma lâmina.

A semana também vai ter uma palestra do carioca e colega Sibiano Walter Vasconcelos, cujo trabalho gráfico e bem humorado é genial! Vou ficar mais um dia só pra ver a palestra dele. Se a minha não for boa, a dele com certeza vai honrar o nome dos ilustradores.

Com certeza trarei boas histórias e viciantes saquinhos de castanha de cajú na volta pra São Paulo.

Filhote de Cintiq

Para aqueles que vivem em estado de ereção criativa ao imaginar com uma Cintiq em mãos, a Wacom anunciou mais um fetiche, dessa vez em estilo Lolita, a versão “Baby” desse treco pra lá de caro: a Cintiq 12 UX. É uma Cintiq bem pequena, com 12 polegaas, menor que a primeira versão, que teve 15 polegadas, e 9 polegadas a menos que a versão atual.

O único problema é a manipulação dos programas em conjunto com os menus. Era complicado trabalhar com a Cintiq 15UX, dividir o espaço da área de trabalho com as janelas de settings e ferramentas (que no Painter chegam às dezenas). A solução era sempre dar um “tab” pra elas desaparecerem. Depois foi criado o Cintiq partner, pra você usar dois monitores, mas eles não vendem mais esse produto.

Mas tirando esse problema, trabalhar com a Cintiq é uma experiência que faz valer esse incômodo, é como dirigir uma Ferrari pelado, como disse Anthony Bourdain em seu programa. Desenhar diretamente na tela é muito diferente de desenhar usando uma Tablet comum. Mas como sempre digo, a Cintiq não melhora o desenho de ninguém, só torna a produtividade mais rápida. Se tiver a fins de comprar mesmo, tem que pensar como investimento e calcular o tempo que esse dinheiro retorna com trabalhos.

Agora, quanto ao preço, dizem que ela vai ser vendida na faixa dos US$1.600. A Cintiq 21UX custa US$2.500 e é uma prancha de surf de tão grande. Na visão deste ser, talvez compense juntar mais um dinheirinho pra comprar a versão grande.

No Brasil, infelizmente ela não deve custar tão mais barato quanto a 21 UX. Estupidamente ela custa oficialmente mais de 20 mil reais, e os motivos, segundo um revendedor Wacom, é que somente as montadoras de automóveis compram esse produto. Por isso essa turbinada no preço. É uma desculpa de bêbado quando chega em casa, ela é infame porque já tem imposto embutido e sobretaxado pra pagar por três gerações. Comprando nos EUA e pagado os impostos na alfândega ela não sai nem 10 paus. O problema é trazer de lá, não é coisa que você pode pedir pro seu irmão que vai viajar pra lá como se fosse um creminho hidratante básico.

Se continuar com essa política tosca da Wacom no Brasil, não acredito que a Cintiq 12X vá custar menos que 12 mil. A Bamboo, outra Tablet da Wacom popular, custa US$50 (cinquenta dólares) a mais barata. Aqui ela é vendida a R$290. Então, nesse caso, a alegria de pobre pode durar pouco. Só vale a pena mesmo com o valor de lá.

Eu acho que vale mais a pena gastar esse dinheiro aqui em terras de saci comprando uma máquina melhor pra trabalhar. Seja PC ou Mac. De que adianta ter uma Cintiq com um computador com pouca memória e tossindo fio desencapado?

Quer uma dica que custa pouco? Para os que possuem uma Tablet Wacom, não importa o modelo, essas pontinhas são o biscoito inglês do chá da tarde.

As novas Wacoms já vem com uma de cada de brinde (e conheço muita gente que joga fora sem saber que elas estão lá dando sopa). São pontinhas de caneta. Um tem molinhas que afundam a ponta quanto maior for a pressão, aumentando também a grossura do traço. E as outras, minhas preciosas, são as pontinhas de feltro, que tem uma resistência pequena em contato com o plástico, dando uma sensação mutcho agradável de desenhar com um carvão ou um lápis de grafite mole. Pena que se desgastam rapidinho.
Custam 29 dólares na Amazon. Eles entregam direitinho, o foda é pagar o frete.

Lápis lovers

Meu xará e alter-ego britânico Hiro Kozaka enviou há algum tempo um filminho que mostra como se fazem os lápis Staedtler, um dos mais bacanas e carinhos pra se desenhar. Não que o tipo de lápis vá fazer de você pior ou melhor desenhista, tem gente que faz obras de arte com um pedaço de pão queimado, outros só conseguem fazer Sudoku com uma Staedtler.

O filminho é uma espécie de “Como é Possível” mais chato, mas didático. Ao contrário do que eu imaginava, as durezas dos grafites são conseguidas através de misturas com argilas, e não fritos em óleo mineral, como em outros lapis menos afortunados.

Menos afortunados, mas todos amados pelo professor Bob Truby. Professor e colecionador de lápis, ele catalogou e fotografou toda sua coleção de magrinhas e as colocou em um site, no mínimo curioso. São centenas de marcas de lápis do mundo inteiro. Por ter saído no blog Drawn há uns dias, o tráfego pode estar um pouco congestionado.

Creative Commons vira arma nas mãos erradas

[img:Virgin.jpg,full,alinhar_esq_caixa]A Tarsila Kruse, lá de Dublin, na Irlanda, me deu esse toque.

A matéria saiu na Terra.

Resumindo, essa menina foi protagonista de uma campanha publicitária gigantesca feita pela Virgin, na Austrália. Não recebeu um puto, só amolação.

Sua foto estava hospedada no Flickr, onde todas a imagens estão sob licença da Creative Commons. Ou seja, a Virgin ficaria desobrigada a pagar um cachê para a garota e o fotógrafo contanto que os créditos fossem dados. Ao passo que essa campanha geraria uma movimentação monetária acima dos 6 dígitos para a empresa.

Demorou para um caso desses, envolvendo uma grande empresa, aparecesse utilizando qualquer material produzido sob licença da Creative Commons. Para alguns ingênuos e com mentes pueris poderiam pensar “puxa vida, que legal, minha foto vai aparecer em uma campanha nacional, vou ficar famoso!”. Dá dez reau pra ele acordar. Uma empresa que utiliza uma foto sem pagar, sob a desculpa de estar sob licença da Creative Commons, merece uma auditoria pessoal de Ashtaroth. É o ápice da mesquinharia, da falta de ética e da suprema procura pelo lucro.

Já andava rolando umas histórias sobre o uso indiscriminado de imagens sob Creative Commons. Fabricantes de brinquedo na China utilizando modelos e personagens criados por novatos e aspirantes que postaram coisas em diversos álbuns sob licença da Creative Commons para criar brinquedos. Sem dar o devido crédito.

Os mais aspiradores a um mundo melhor podem alegar que é a exceção da regra. Não é, ela é a brecha da regra. Que deve ser consertada se quiser ter o mínimo de credibilidade daqui pra frente.

Sempre perguntaram pra mim o que eu achava do Creative Commons. Como sempre, achava e ainda acho uma idéia bonita mas ainda verde demais para algumas ocorrências que ocorrem no mundo real.
A idéia é idealista, é boa pra quem está ´à procura de divulgação do trabalho. Infelizmente, o uso depende do bom senso de quem utiliza as imagens, ou material cultural, que seja. E aí é que mora o perigo.

O Creative Commons não é lei. Ela não pode ser maior que a lei dos Direitos Autorais, que ruim ou não, é a única segurança de quem vive de produção cultural.
Vejo muita gente se atirando no Creative Commons sem nunca ter lido um contrato ou lido os termos da lei 9610. O que pode ser legal no mundo virtual pode não se encaixar no mundo real.

Gente má intencionada e babando malignamente existe por todos os cantos, em todas as línguas, esperando que algum patinho coloque um desenho bonitinho ou uma foto suspirante para ser utilizada com motivos escusos. Infelizmente essas ações poluem a idéia inicial e um tanto utópica de um universo todo azul e com cheiro de lavanda, onde todos se ajudam, dão os devidos créditos e se abraçam ao por-do-sol. Por experiência própria, somente o autor pode garantir o que é seu direito, através da lei e contratos.

O que claramente se vê por aí é uma diferença grande de raciocínio. Aqueles que dependem de direitos autorais para sobreviver encaram o Creative Commons de uma forma. Aqueles que não dependem disso pra sobreviver, encaram de outra. Simples assim.

O que fazer com a produção cultural de cada um é problema individual. Se quiser postar sob licença da Creative Commons, se quiser colocar sob a lei dos Direitos Autorais, se quiser forrar gaiola de papagaio, o problema é seu, e só seu (talvez do advogado, mas aí não é problema, é trabalho).

Agora, quem quiser saber profundamente o que é Direito Autoral e por que ele é importante para quem vive de arte, ilustração, texto e música, clique nesse site que tem todas as explicações necessárias, em português claro. É um site que fala como é um registro, o que é direito, como fazer para se proteger, o que fazer se foi sacaneado. Acho importantíssimo conhecer como as coisas funcionam legalmente antes de tomar alguma decisão que pode deixar sua boca com um gosto amargo, seja essa decisão feita pelo Creative Commons, seja por não saber ler um contrato e interpretar as leis.

Habacuc, vai procurar um cachorro do seu tamanho.

Não temam, amantes dos canitos. Essa unidade cinófila (vulgo cão) não foi marombado de maneira impiedosa por um dublê de lutador de jiu-jitsu microcéfalo. Tampouco foi manipulado digitalmente no Photoshop.

É uma anomalia cromossômica, uma mutação, que faz com que o cachorro ganhe massa muscular muito mais rápido e intensamente do que um cachorro comum. Saiu na Scientific American, então não deve ser mentira, ora pois. Perfeito para se estudar anatomia canina, o modelo vivo do supercão pra desenhar.

Kripto, o supercão, é pincher perto disso.

Dá pro Habacuc amarrar na exposição dele.

E pra relaxar um pouco, voltando ao tema anal canino, um singelo aparato para avisar o habitante interno da moradia feito com a parte posterior de um canídeo.

Em outras palavras, uma campainha-cuzinho canino.

Matando um cachorro em nome da arte

[img:Habacuc3.jpg,full,alinhar_esq_caixa]Como ilustrador, respeito todas as formas e manifestações de arte, mesmo aquelas com um gosto provocativo e escatológico, como merda enlatada, cubos de esperma ou pinturas feitas com sangue e urina. Mas é impossível ficar passivo diante de alguns que extrapolam o bom senso e criam monstruosidades, indivíduos que sequestram e violentam a expressão “arte” para justificar e validar toda e qualquer epifania pseudocriativa. Ou, na falta de um talento artístico verdadeiro, criam peças apenas para gerar comoção e discussão, fazendo-se de vítimas da censura e da opressão conservadora quando confrontados.

No começo achei que era uma daquelas notícias-pegadinhas de primeiro de abril no meio de outubro, já que recebi uns 5 e-mails de uma só vez sobre isso. Mas não era.

O costa-riquenho Guillermo Habacuc Vargas montou uma instalação repugnante na exposição “Arte e Lixo” em Honduras, com um cão faminto e doente amarrado com barbante (seu nome era Natividad) abaixo da frase “Ere que los lees” escrita com ração de cachorro. Aqui tá o relato, em espanhol.
Segundo ordens do “artista”, ninguém podia dar comida ou bebida ao canito moribundo.
Em dois dias ele morreu.

O que o coitado do cachorro tinha a ver com a história?

Não importa se Habacuc estava protestando contra a fome no mundo, contra o imperialismo americano ou contra o aumento do condomínio do prédio onde ele mora , nada justifica isso.
Como amante dos bichos, no bom sentido, isso me deixa um gosto metálico na boca, e por mim, deveriam amarrá-lo no lugar de Natividad sem água e comida, com a mesma frase escrita com empadinhas, com direito a farta distribuição de porrada em cima dele. Se tem uma coisa que eu fico realmente indignado é violência contra animais, crianças e idosos, que não tem como se defender.

Em curto e bom português, é um fiadaputa assassino que se acha artista.

Mas isso tem um lado bom, ironicamente: a arte não pode ser fachada de atos inumanos, sádicos, agressivos, atos moralmente e criminalmente condenáveis acobertados pela pecha de arte, criando uma espécie de imunidade, transformando-a em algo inimputável. A arte pela arte não se justifica, ela tem um limite, da mesma forma que não se pode fazer tudo pela paz ou pelo casamento perfeito. Senão teremos atividades performáticas de mutilação ao vivo ou apedrejamento de adúlteras em público em nome da arte

Desenho Livre

[img:Jean.jpg,full,alinhar_esq_caixa]O site Desenho Livre é um site que fala exclusivamente sobre desenho, arte, ilustração e ilustradores. É um site simples, mas como um bolo caseiro de mãe, não parece bolo de doceria, mas tem um recheio gostoso e nutritivo. Na seção Livre Arbítrio estão dezenas de entrevistas com ilustradores brasileiros, entre eles este que vos digita. Fui entrevistado no primeiro mês que saí do trabalho fixo pra virar autônomo, então muita água rolou desde então.

Todo mês eles entrevistam algum ilustrador, que conta um pouco da sua vida e do processo de criação. São leituras interessantes para quem curte o universo dos que trabalham correndo risco. Este mês tem uma entrevista muito legal com o Jean Galvão, cartunista da Folha e da revista Recreio, um trabalho que admiro há tempos. Tem também entrevistas com o Spacca, o Fernando Gonsales, a Marisa da Folha e outras feras da tinta.

Tem também uns textos bacanudos. Um desses textos é do Montalvo, velho de guerra, um ilustrador escritor, finesse em ambas funções.

É um site muito respeitoso com os ilustradores e a ilustração.

Emily é Estranha mas não joga dinheiro fora

[img:Emily1.jpg,full,alinhar_esq_caixa]Emily, a Estranha é uma mistura da Wandinha (Wednesday, da Família Addams) com uma Amelie Poulain em permanente luto, é a versão negativa inversa da Barbie. É a gotiquinha de 13 anos, pálida como bunda de padre e amarga como a alma da sua tia solteirona, é sex symbol entre os emos, deprimidos, ou os dois ao mesmo tempo, e rainha da tribo dos adolescentes revoltados com todas as coisas belas e ensolaradas do mundo.

Ela foi criada pelo skatista Rob Reger em 1991 como personagenzinha sem muita expectativa para os cacarecos que eram vendidos em sua firma de skate, a Santa Cruz, da Cosmic Debris. Buzz Parker é o camarada ilustrador oficial. Passados alguns anos, ela continua Estranha, mas adquiriu o gosto pelo dinheiro. Seu site oficial tão entulhada de produtos à venda que parece um quarto bagunçado de uma patricinha das trevas.

Produzem entre 200 a 400 itens anualmente, possuem 3 lojas ao redor do mundo, e ironia do destino ou pagação de karma, Britney Spears é uma das maiores consumidoras dos seus produtos. É a versão financeiramente viável de um Império das Trevas.

Não vi nenhuma mulher caindo, mas vi que o cafezinho custava 10 centavos.

Há alguns anos eu trabalhei com um diretor de arte espanhol que era uma vesícula biliar em forma de gente, de tão amargo e bilirrubento que era. O leite coalhava em sua mão e as canetinhas de nanquim Rotring secavam só com seu olhar, mesmo as mais grossas.

Ele criava os anúncios e folders com a mesma cara, não importa qual o cliente ou para que finalidade. A justificativa era sempre a mesma: “Idiota, o olho humano SEMPRE vasculha a página da esquerda pra direita e de cima pra baixo.” Então ele criava anúncios que pudessem ser lidos da esquerda pra direita, de cima pra baixo. De panela de pressão a remédio para berne em vacas, era sempre a mesma lógica.

Encontrei um artigo que dá vontade de voltar no tempo e esfregar na cara dele. Como a lógica e bom senso diz, tudo depende do seu referencial.

É um artigo da Michigan Ross School Business (o link vai baixar um arquivo em pdf em inglês, sorry) que mostra um estudo curioso sobre como os olhos se movimentam ao analisar uma imagem, no caso, de uma estranha foto de uma mulher se suicidando com uma dezena de elementos à sua volta, como se fosse um balé congelado estilo Matrix .

Os caminhos feitos pelos globos oculares e o tempo em que eles fixam o olhar em determinados pontos na foto não são os mesmos, variam de pessoa pra pessoa (na foto acima, as trilhas coloridas são os caminhos dos olhos). Muitos fixam o olhar na mulher suicida. Outros nas placas do hotel, tem gente que olha os caras dentro da janela. O artigo em pdf mostra uma pesquisa estatística de quem viu o quê, qual o caminho que os olhos fizeram e em quê eles ficaram olhando por mais tempo.

E acredite, 52% dos entrevistados NÃO viram a mulher caindo numa primeira vista.

Um ótimo ponto pra pensar quando for construir uma composição em uma ilustração. Talvez o óbvio não seja tão óbvio, talvez, se você desenhar uma peituda com um gatinho, este sai ganhando em frequência visual. Geralmente o consenso da pesquisa é, se o objeto principal não está no centro, os olhos ficam meio perdidos.

Em tempo, ao que parece, a foto da mulher caindo é real. Era uma mulher de 35 anos que pulou do 8º andar e um fotógrafo de um jornal de Buffalo tirou a foto, daquelas que se tira uma vez em um milhão.

Tudo por Money Money

Nos últimos anos, a grande maioria filmes publicitários na TV daqui andam com um espírito remerrenho, medorrento e em alguns casos, até mesmo constrangedor (a dos monitores AOC e do guaraná Dolly chegam a criar pedras nos rins).
Felizmente, e mais do que felizmente, toda regra tem exceção, e nesse caso são as campanhas ambientais. Elas tem se mostrado um poço de criatividade num ambiente seco e arreganhado desses elementos, e o que é mais importante, passando uma mensagem clara de maneira lúdica, simbólica ou pegando no nervo mesmo. Dessas que não se esquece durante anos, iguais aos filmes dos cobertores Parahyba e da bala de leite Kids.

Esse filme, da WWF mostrando o Efeito Dominó ambienta em sincronia perfeitíssima com a canção “Money Money”, que os com mais idade viram há uns 30 anos Joel Grey cantando em “Cabaret”, quando Liza Minelli ainda era jovem e sóbria, mostra de forma lúdica que tudo volta e tudo tem consequência.
É tão bom que dispensa comentários. Ficaria redundante elogiar.

Restam os créditos: a agência de publicidade responsável pela jóia joinha foi a DM9DDB e quem fez a animação foi o estúdio Pix Post e a música foi recomposta e reescrita pela Play It Again.

Aqui tem um mini making off do filme.

Alguém precisa criar um santo pro Youtube.

10 maneiras de raquetar um pedido néscio de um cliente

[img:Leone.jpg,full,alinhar_esq_caixa]Todo ilustrador, fotógrafo, diretor de arte, designer, pedreiro ou cabelereiro vai passar por isso um dia. Várias vezes na vida.
São os pedidos e argumentos acéfalos que alguns clientes microcéfalos fazem. Coisas como aumentar o logotipo, pedir pra esposa aprovar um trabalho, querer exatamente a mesma coisa que outra empresa já fez. São como rituais de passagem para a vida adulta. Quanto mais adulto e experiente, mais glicerinado e calmo você fica diante de uma entidade com palha no lugar do cérebro fazendo esses pedidos. E isso acontece em todas as classes sociais, todos os tamanhos de empresas, todo tipo de cliente. Desde a tiazinha que vende esmalte paraguaio na esquina até o diretor de marketing de multinacional automotivo.
Existirão momentos em que o cliente terá razão, mas serão poucas. Nesse caso a humildade e bom-senso juntas pedem pra você abaixar a cabeça e refazer o trabalho (refazer um trabalho sob um argumento lógico e pertinente do cliente é obrigação de um ilustrador). Mas na maioria das vezes isso não acontece, então, o melhor é saber conviver com isso. E isso é tão fundamental para a vida de um autônomo quanto saber desenhar ou saber cobrar.

O blog Ideas on Ideas ((via Drawn) lançou uma lista de dar um pitaco de maneira educada, polida e civilizada, os 10 pedidos mais equinos que os clientes cometem.
Existem períodos na vida de um freelancer em que o ideal é levar isso dobradinho na carteira.

Em inglês e sem legendas:

My neighbours don’t like it.

I can appreciate your looking to friends for support on this project; however, it’s often difficult for others to understand the needs of the project at this stage. If you really believe these parties’ opinions to be valuable, we should involve them in the full process. Let’s schedule a sit-down with any new stakeholders next week, so that we can review the brief, strategy and challenges with them, and see if they still hold the same perspectives.


We really liked your portfolio; can you make our project look more like what you did for Client X?

It’s funny you ask that because we try to do the opposite. In our minds, we have to look at each client’s needs individually, and deliver a solution that’s uniquely theirs. It’s funny that you mention Client X, as they were initially very unsure of the approach we took, and it has ultimately served them very well.

Let’s not worry about what others are doing. I want the approach we deliver to be distinctly yours. Think of it as a new suit that you wouldn’t have thought of trying on. We’re pretty objective, and as such will help you find something that meets your needs. In time to come, you’ll find that it fits you quite nicely.

Someone in accounting mocked-up a really neat idea for this.

We’re happy to take a look at other ideas but sometimes doing so increases the overall time requirement, as we would need to answer more questions and increase the number of meetings. If you would like to do this, I can draft an addendum to the estimate to make a provision for this. Alternately, if budget is a key concern, I’d ask you to sit down with this individual and find out if there’s a specific problem they are working to solve. This may save some billable time, and help crystallize the concerns in a fashion that will help us respond best.


It’s a great start, but we need to add this, and this, and this…

I can understand your desire to not leave anything out, and it’s a not an uncommon sentiment. At the beginning of the project, however, you noted that you really wanted to build something around your customers’ needs. In my experience, the organizations that do this best focus on a few key items, and work to deliver them in the best way possible. Adding more can confuse customers and sometimes even scare them away. Just look at the most successful brands in the marketplace and you’ll see that they are highly selective in their messaging.

I love beige; can we get more beige in this?

Personal preferences are powerful motivators; personally, I love hot pink, but it doesn’t work in all settings. I’d like to step back to the creative brief for a moment. You note that your company really wants to connect with adolescent males who love hardcore sports. Do you think beige will connect with them?

I don’t really know what I think about this approach.

That’s fair; this is a big change from what you’ve done in the past, and in my mind, it’s a bold new direction for you. As a result it may take a while for you to absorb this one fully. So, let’s start with more strategic concerns. I’ve made a copy of our original assessment document, and have flipped to the project and messaging directives section. Let’s look over that, and see if we’re not meeting any of the requirements we set out with.


I just don’t know; it’s just so different.

That’s great; different is good! A key aspect to positioning your firm is to find an approach that others aren’t employing. It makes sense that you’re not sure about it though; new things often make people feel that way. I remember hating espresso when I tried it for the first time! Thank goodness I gave it a chance, as I feel quite differently now. Let’s look at the creative brief, and see if we’re meeting your predetermined criteria for the project. If we are, it could indicate that we just need take a little time to get used to this new direction.


Can we make the text bigger?

Yes. Could you perhaps show me a couple of other websites that employ a text-size that feels right to you? We can then compare the two to see how much larger we should make it. (Note: This often leads to us finding that the proposed text is actually larger than what the client had believed.)

I’ll know what I like when I see it.

A lot of people feel that way when it comes to visual treatments, but it’s hard for us to respond with such vague direction. Can you imagine ordering food like that? “Bring me something that’s good, and I’ll eat it if I like it. Otherwise, you’ll just have to make different dishes until I’m satisfied.”

Let’s me ask some questions that might help us identify what you are looking for. Is this approach too conservative or non-traditional? Does it feel overly light or dark? Are the images too passive or overly active? (Note: These questions can go on for some time; the focus is to keep them polarizing, in order to extrapolate some kind of hard response to aesthetic leanings.)

I was at this sandwich shop the other day, and they have an amazing website. Can we make ours look like theirs?

I don’t believe that doing so would result in a solution that meets your needs. Creative strategies are generally tailored to meet the particular requirements of a specific effort. That being said, it sounds like their site really resonated with you. Let’s take a look at their site, and try to extrapolate what points felt good to you. Maybe it will help us better learn what sensations you’d like to elicit on behalf of your audience.

I’ll end with two other little suggestions that you may find helpful. First of all, don’t just toss the design comps in front of the client. Start meetings with a review of the problems you’ve solved and the steps you went through to do so. This sets the stage for you to unveil the work and orients the clients in your process.

Additionally, don’t screw-up. Make sure you’ve addressed all of the necessary design challenges thoroughly and accurately. If there’s a hole in one part of your solution, it can raise questions about the entire approach. Even a small chink in the armor can erode your client’s trust.

Prosperidade e longa vida para Bilbo, diz Sr. Spock alegre e cantante

Estava ontem a zapear na TV a cabo quando deparo com um documentário meio tosco e malfeito sobre a história da idolatria do “Senhor dos Anéis” desde a época de 60 até os dias de hoje, competindo com Star Trek, Arquivo X e Guerra nas Estrelas no priorado das coisas feitas pra comer com pipoca que viraram religião para alguns.

E no meio do programa, algo que marcou minha mente como ferro quente marcando bunda de vaca.

Um clipe do Dr. Spock – Leonard Nimoy – com cabelinho de tigela, mas sem as orelhas pontudas, fazendo uma performance com uma canção (e uma coreografia de garotas mais do que constrangedora) sobre Bilbo! Não Frodo, mas Bilbo! Star Trek encontra O Senhor dos Anéis em regado com LSD com ração de cachorro.

Não consigo esquecer a música, são como moscas que ficam presas dentro da cabeça desesperadas pra sair.

Como o próprio Spock diria: “Ilógico!”


Pra linkar com ilustração, já que Bilbo foi mencionado, mas não honrado, foi repassado esse link lá no Ilustragrupo pela Ana Monteiro que mostra o processo de criação e trabalho de Greg e Tim Hildebrant, ilustradores que criaram boa parte do visual do universo de Tolkien há alguns anos atrás, antes do Legolas virar símbolo sexual com os filmes de Peter Jackson.

Um peido pra virar foto

No mundo existem os extremos. Na arte, em termos de compreensão e assimilação de signos e imagens, de um lado temos Jackson Pollock, com suas pinturas fractais quase indecifráveis. Do outro existem artistas e ilustradores que não se conformam em ter apenas uma máquina fotográfica. O lápis também tem que deixar de ser Conté pra virar uma Nikon.

São primores de técnica, e muita paciência, digna de um monge budista pintando uma mandala grão de areia por grão de areia. Pintados com aquarela ou tinta a óleo.

Ralph Goings é uma versão 2.0 de Norman Rockwell, em termos de apuro técnico e realismo, além de só retratar as fontes de colesterol da América, mas é muito mais soturno, focado e tematicamente limitado. Os cafés que vendem donuts com café fraco são os mesmos. As garrafas de ketchup Heinz são as mesmas. A gorjeta é a mesma.

É lindo, maravilhoso, estonteante, mas sempre quando vejo essas ilustrações superultrahiperrealistas fica aquela sensação de que um clique numa máquina fotográfica teria o mesmo efeito (não tem muita intervenção artística nessas composições, são praticamente fotos).
É um Ed Hooper vitaminado, com muita fome e um pouco menos poeta.

Digitalmente também existem vários ilustradores-fotógrafos. Um dos que eu fico meio passado são com os que trabalham com programas vetoriais. São ilustradores com um terceiro olho pra enxergar os caminhos para se fazer uma obra de arte fotográfica e um terceiro testículo pra ter culhões de enfrentar a tormenta de milhares de cliques-cliques no Illustrator pra chegar no resultado. Principalmente trabalhando com Gradient Mesh, que as vezes lembra mais um cobertor amarrotado se você não tiver as habilidades para domar a ferramenta..

Esse fetiche vetorial para pedólatras foi criado por uma mulher tailandesa, Ussa Methawittayakul.

Existem outros destemidos do vetor que fazem coisas que sairiam mais em conta se usassem uma Nikon ao invés de um computador, como Yukio Miyamoto ou Koji Masui. Sabe-se lá porque, tiveram seus sites retirados do ar.

A infância de um ilustrador na frente da TV

Enxurrada de links do Youtube com sabor Toddynho e Sessão da Tarde

O conversando com o Kako sobre os Trapalhões, fui no Youtube fuçar uns sketches com o Mussum, meu Trapalhão preferido na minha tenra infância.

A partir daí devo ter perdido duas horas fuçando vídeos que há mais de trinta anos não eram vistos (nesse ponto o Youtube é um perigo pra quem tem prazos colado nas costas) Centelhas de memórias são reativadas, relembrando cada musiquinha, cena e até cheiros, mostrando como é enigmática a memória humana. Em que partição do cérebro essas coisas ficam guardadas? Coisas que a gente acha que foi faxinado da memória, mas ficam guardados e esquecidos, igual presente de casamento repetido?

Pois bem, esses programas de TV com cheiro de naftalina e gemada tiveram um papel definitivo e crucial para que eu me tornasse um ilustrador, e garanto que vários outros profissionais que correm o risco e o traço na faixa dos 40 também começaram assim. Dezenas de caixas de lápis de cor e cadernos espirais de desenho foram sacrificados durante anos para que eu desenhasse continuamente todos esses personagens e monstros. Sim, eu também curtia animê, só que das antigas.

Acho que se eu não tivesse assistido tanto desenho na minha infância, eu teria me traficante de esteróides ou um dono de videolocadora pornô bizarro com animais.

O tour começou pela primeira abertura dos Trapalhões. Toda vez que acabava os Trapalhões no domingo à noite baixava uma deprê tão grande, principalmente quando se escutava a música do Fantástico porque a mensagem era bem clara: o domingo acabou e amanhã tem aula. Hoje acontece algo parecido, só que ao invés de aula na segunda tem reunião ou entrega de trabalho…

Esse quadro acho o melhor dos Trapalhões, literalmente inesquecível depois de tantos anos.

Depois entrei no link da abertura do antigo Globinho (que hoje vi que se chamava Globo Cor Especial). A música, que há anos não escutava, arrepiou até a úvula. Paula Saldanha, a apresentadora, foi responsável pelo amadurecimento hormonal precoce de milhares de garotos em idade pré-onanística:

Tanto nessa abertura como na dos Trapalhões eu queria saber de quem são os desenhos.

Animês geriátricos

Passando pros internacionais, Speedy Racer dispensa comentários, mas a abertura original japonesa não (feche os olhos enquanto escuta a música e você vai ver vários havaianos gordos de saronge de palha de milho cantando e dançando essa música). Graças ao Speedy Racer eu aprendi a desenhar carros (aprendi numas, foi só o desbloqueio lúdico. O processo técnico foi mais espinhoso, pois quem me ensinou a desenhar carros mesmo foi o Brasílio Matsumoto):

Marine Boy era um desenho que acho que só eu assistia. Eu mascava chiclete Ping-Pong como o chiclete que fazia ele respirar debaixo da água (mas nunca explicava como ele aguentava a pressão):

Zoran e Shadow Boy eram outros bem obscuros. Shadow Boy então dava uma sensação ruim, parecia que você havia assistido uma sessão da brincadeira do copo na TV.

Fantomas era um clássico. Não é sempre que aparece um desenho com um esqueleto desidratado. Mas eu curtia era o Dr. Zero. Desenhava tanto ele que chegava a fazê-lo de olhos fechados, numa vã tentativa de conseguir atenção de tias apáticas e sedentárias.

Super-Dínamo. Eu sonhava em ter um robô-cópia pra fugir das provas. Chorei feito uma moça atropelada quando vi o último episódio.

Série “Animais que traumatizaram minha infância”
Com Lancelot Link foi minha fase “primata”, larguei os monstros por um tempo pra desenhar roupas de chimpamzé.

Saturnino era o patinho gay que eu adorava. Eu tinha várias tias e professoras que eu chamava de “Dona Doninha”. Os bichinhos eram bonitinhos e eu era ingênuo.

Ben, o urso amigo, até que ele lhe dê uma patada de meia tonelada nas costas. Quando criança eu queria conhecer dois lugares nos Estados Unidos: a Disneylândia e os Everglades. Sempre quis ter um barco com um ventilador gigante, pois onde eu morava às vezes alagava.
Curiosidade curiosa: Dennis Weaver, o pai, é o motorista perseguido e sodomizado moralmente em “Encurralado“, talvez um dos motivos que até hoje olho torto pra motorista de caminhão em estradas vazias. Clint Howard, o filho, se tornou um dos atores mais feios do cinema americano.

O Mundo Animal foi o avô do Animal Planet. Dezenas de biólogos na faixa dos 40 devem culpar ele e a série do Jacques Costeau pela escolha da profissão.

Sessão da Tarde

Esse filme me fazia desenhar por horas. A Festa dos Monstros passava direto na Sessão da Tarde e ainda é muito bom. Tim Burton bebeu dessa fonte antes de Jack e James. Nunca me esqueci da Francesca nem do vampiro com cara do Paulo Maluf.

Dr. Phibes foi inspirador na minha infância porque era proibido criança ver. Era tão bizarro (parecia com uma série da revista Kripta, “Dr. Archaeus”) e tão divertido que nunca entendi por que ele era proibido. “Ah Vulnávia, minha querida Vulnávia”… Phibes virou um porco mascote que eu criei, fiel companheiro do Homem-Maravilhoso. O melhor papel de Vincent Price.

Proibido era legal. Principalmente “Sala Especial” que passava na Record. Você ficava assistindo a TV baixinho durante duas horas só pra ver seis minutos de peitinho descoberto.

Terra de gigantes

Agora esses foram os verdadeiros inspiradores para a minha carreira de ilustração, mas como disse na página de apresentação, eu entendi tudo errado e fui fazer faculdade de Biologia.
Eu tinha pilhas de cadernos com desenhos de todos os monstros sem zíper nas costas e dobras de borracha. Olhando hoje, naquele tempo eu fazia mais sketchbooks do que hoje.
Devo minha carreira à família Ultra (e é por isso que não chuto o pau da barraca com gente que adora Power Rangers, tudo tem a sua fase).
Ultraman era o luxo, tanto o original quanto o Jack.


O meu preferido era o UltraSeven. O design de gladiador dele, as músicas e as pílulas de monstros que ele tinha, era o tataravô dos Pokemóns. Parece que a atriz que fazia Annie, a única mulher da patrulha, virou atriz pornô depois de finada a série. A locução é verborrágica e redundante, mas é legal pacas.

Robô Gigante e Goldar. Esse último era sexualmente ridículo, pois um robô que possuía cabeleira (!!), era gigante mas era casado com uma mulher normal e teve filhos (!!). A gente era sexualmente ingênuo naquela época, tanto que ninguém suspeitava do carater bissexual de “A Princesa e o Cavaleiro).


Por fim, o mais tosco de todos. Todos esses ultras, robôs gigante e afins eram toscos, mas Spectreman é Rei e Imperador juntos nessa categoria.
Impagável mesmo são os vilões, Karas e Dr. Gori. Gorilas que na verdade eram versões primatas de Roberto e Erasmo Carlos na Jovem Guarda, pelo menos as roupas e adereços eram os mesmos.

Pra provar que o que é tosquíssimo vira cult, a Flávia, uma leitora do blog, designer e dona do blog”Meu Querido Liquidificador”, fez um Spectreman tipográfico que é uma obra de arte. É algo como Tarantino trazendo de volta John Travolta, pegar algo brega e sem valor e dar um novo ponto de vista bem mais glamouroso.

American Pie, Japanese Noodle

A Sociedade do Design do Mal ataca novamente. Tudo bem que designers não vão descobrir a cura do câncer ou o sentido da vida, mas desenvolver isso é como um gato jogar terra em cima de milhares de anos de evolução do homem.

Esse produto é tão tosco que até parece chinês. No entanto, é japonês >suspiro<
Cup Nude é uma paródia ao insosso porém salvador Cup Noodles, o último bastião alimentar do solteiro ou do faminto solitário.
Mas ele não é de comer, pelo menos não com a boca. Ele é um instrumento facilitador de onanismo. Em palavras curtas e grossas, é um masturbador masculino.
O procedimento de uso é similar ao uso da torta de maçã visto em “American Pie”. Em ambos os casos, enfiar o instrumento do amor carnal em um preparado de massa podre recheado e assado ou em um copo de plástico simulando um pote de macarrão não é bom sinal.

Como o grotesco e o bizarro pedem bis, a coisa não para por aí.
Se olharem com olhos de águia, na superfície do produto existem camarõezinhos de silicone.
No meio é o buraco para introduzir o falo. Depois, como na versão comestível, é só acrescentar água quente para o produto adquirir temperatura feminina (ou pelo menos uma temperatura animal).

E dentro do copo existem macarrõezinhos de silicone que se viram viscosos ao acrescentar o “tempero”, garantindo ao onanista insólito a sensação de estar copulando com dezenas de minhoquinhas. De novo a tara do japonês por tentáculos.

Fico imaginando a cena de um sujeito mandando uma em homenagem à Fernanda Lima com um copo de macarrão no meio das pernas. Escorrendo lágrimas de vergonha pelo rosto.

O lado sombrio de Norman Rockwell

Os quadros de Norman Rockwell que mostram o cotidiano americano perfeito pré e pós guerra (como em Veludo Azul de dia) são ícones tão, mas tão americanos como Ronald McDonald e as tortas de maçã da Vovó Donalda. Ele tem um apuro técnico excelente (embora quase todos os homens em seus trabalhos humorísticos tenham o sorriso do Stan Laurel, o Magro, e tem um ar aparvalhado de Forrest Gump), o clima em suas pinturas cristaliza um EUA ingênuo, perfeito e feliz, até demais. Talvez seja ele o grande idealizador do “american way of life”.

Você não vê nenhum defeito em seu trabalho. Ou melhor, não via. Há algumas semanas, durante aulas de desenho com Gilberto Marchi, ele abriu um livro de Rockwell e pediu para que eu apontasse um defeito em seus quadros. Quem sou eu pra procurar piolho em trabalho de mestre? Mas mesmo com uma curiosidade perscrutativa de como quem tenta resolver um jogo dos 7 erros, não consegui ver nada de errado.

Marchi então começou a apontar para os pés de quase todos os quadros de Rockwell do livro.

Com os olhos no tamanho de ovo frito, eu disse “uia!”. Faltavam sombras em todos os quadros. Os personagens das pinturas parecem receber uma luz tão forte e tão perpendicular que praticamente tem uma manchinha de sombra embaixo dos pés, e olhe lá. Eles praticamente flutuam na tela.
Fica a questão: por que alguém com um preciosismo fabuloso como Rockwell em pintar rostos, tecidos, expressões e toda sorte de elementos de maneira magnífica, deixa as sombras em segundo, quiçá terceiro plano? Seria proposital? Seria uma mensagem secreta, como o Código de Rockwell? Sofreria ele de uma doença neurocognitiva chamada assombria maculata?

Deu vontade de dar uns tapas nos olhos por não perceber essas coisas. É como a técnica do ilusionista, você não percebe uma coisa porque está focada em outra.



Em tempo, isso não dimini em nada a obra de Rockwell, é mais uma curiosidade e uma pulga atrás da orelha.

O paraíso das capas de gibis

Alguém com muito tempo disponível, um scanner tão robusto que deve ter sido feito com chapas de ferro e uma obstinação maníaco-compulsiva criou o site Coverbrowser, que é um catálogo de mais de 5 mil (!!) capas de revistas em quadrinhos americanas bem antigas. São coleções inteiras de Spirit, Batman, Action Comics, Novos Mutantes e alguns outros títulos muito obscuros e sombrios, mas que fazem parte da época de ouro dos quadrinhos, onde havia uma ingenuidade no roteiro e também no traço, bem no espírito homenageante de “As Incríveis Aventuras de Kavalier e Clay”.

Entendeu ou quer que eu desenhe?

Mais uma inovada vista no blog Drawn.
Esse é bem prático. No site Sketchcast dá pra adicionar coraçõezinhos melosos na declaração de amor, desenhar algo bem tosco como um personagem Aqua Teen ou desenhar um pinto e ofender alguém por e-mail.
Os bravos que desenham com mouse merecem um lugar reservado no ônibus, porque esse treco fica tosco mesmo desenhando com uma Tablet.

Esse desenho que fiz é uma adivinha-brincadeira, daquelas bem infames que eu vivia fazendo na escola, aporrinhando professores e garotas com ar esnobe, mas um tantinho acessíveis (o suficiente pra mostrar o desenho, fazer a adivinha e levar uma chulapa na cabeça).

Esse Ctulhu baby tá um pouco mais acabado:

Mais Vera Bee

Esse post é só pra mostrar o novo site da Vera Brosgol.

Vera Brosgol teve mais posts nesse blog do que qualquer outro ilustrador nacional ou internacional, vivo ou morto, o que demonstra minha desacerbada admiração pelo seu trabalho. Das ilustradoras além-mar, ela é a número um na minha preferência. Eu perco um tempão que não volta mais reparando em cada detalhe dos seus desenhos. Isso já tá deixando de ser admiração pra virar tara sexual.

Flavio Colin

[img:Flaviocolin.jpg,full,alinhar_esq_caixa]Flávio Colin era um grande quadrinista, tão importante que deveriam erguer uma estátua gigante em sua homenagem no lugar da estátua do Borba Gato. Ou refazerem aquele bandeirante por um no estilo do Flávio.

Foi com o Flávio Colin que aprendi a reeducar minha vista para valorizar um estilo gráfico de um ilustrador. Antes era intoxicado e saturado do estilo Marvel/DC, jamais olhei com bons olhos para a arte dele. Achava meio simplória, meio tosca e um tanto infantil. Cheguei a achar que era mal desenhado, não gostava dos riscos e dos traços serrilhados, nem da falta de sutileza em desenhar meio-tons.

Mas como a gente fica velho e troca a saúde das juntas por um tico de sabedoria, alguns anos depois, folheando uma revista em quadrinhos de terror nacional muito velha, guardada por acaso no meio de umas Playboys cujas meninas da capa já viraram avós, percebi que o estilo de Flávio Colin sobressaia do resto feito perereca espantada. Fiquei pensando em quantos tesouros passaram pelas minhas mãos na época em que era ingênuo e burro e não dei o devido valor. E quanta tranqueira que venerava nessa época e hoje tem o mesmo valor que uma ervilha no fundo da lata.

O traço de Flávio Colin é único. É grosso, forte, sem muitas sutiliezas. É quase uma xilogravura feita a nanquim. Altamente estilosa e com um estilo gráfico admirável. Seus desenhos são vivos, você percebe cada movimento de pincel que ele fez pra fazer uma página.

E fora a questão gráfica, ele era um defensor brutal do quadrinho nacional. Achava importante quadrinhos que passassem uma característica da cultura brasileira. Mesmo em trabalhos menos pretensiosos, como alguns sketches que ele fez pra revista Mad, exalava um cheiro de brasilidade contundente.

A Conrad relançou há algum tempo sua obra “Estórias Gerais”, escrita em 1998. Uma história de jagunços, bandoleiros e gente com chapéu de couro e palmeiras soberbamente desenhadas. Vale a pena mesmo.

Vale a pena repassar aqui o depoimento de Flávio Colin no prefácio da revista. Vê-se que não era apenas um excelente desenhista. Era também um excelente pensador.

“Um Depoimento

Todos sabem que as histórias em quadrinhos são um maravilhoso veículo de comunicação. Maravilhoso e importante, principalmente no Brasil, país com milhares de analfabetos e semi-alfabetizados, onde os livros são caríssimos. Quadrinhos são mais populares e baratos. Seduzem pela interessante e harmoniosa combinação do desenho com o texto curto e objetivo.

O grande problema para os desenhistas e roteiristas nativos é que nossas editras, principalmente as maiores, há muito tempo se dedicam a publicar, quase exclusivamente,material importado, alegando, sobretudo, os baixos custos.

Com essa mentalidade cruelmente mercantilista, amparada por uma lamentável falta de patriotismo e por uma vergonosa alienação cultural, que se vê e o que se lê em quadrinhos, nada, ou muito pouco, tem a ver com o nosso povo e nossa terra. E todo esse lixo,com raras exceções, anula e afasta nossos profissionais, tirando-lhes o pão da boca. Isso é criminoso.

Tenho sincera admiração pelos fanzines que divulgam temas e personagens brasileiros, com coragem, sacrifício e dedicação. Infelizmente, pagam pouco. Isso se deve, é claro, a problemas crônicos e complicados de patrocínio, divulgação e distribuição. Paraas editoras de luxo, esse é o lixo…

Nunca fui xenófobo (meus melhores mestres eram todos norte-americanso: Milton Caniff, Alex Raymond, Chester Gould, etc.). Mas é fundamental que as nossas histórias em quadrinhos mostre o Brasil aos brasileiros. Assuntos, figuras, paisagens, variedade de costumes não nos faltam. Podemos imitar os bons exemplose utilizar algumas informações dos nossos vizinhos e amigos, mas não devemos assimilar totalmente tudo o que eles fazem ou dizem. Cuidemos primeiro da nossa família e da nossa casa. Desgraçadamente, estamos substituindo o que é nosso pelo alheio. Até a nossa linguagem.

Povo que não se conhece, que não se estima e que não tem memória, não é povo. É bando.

Espero que os jovens quadrinistas brasileiros se interessem cada vez mais pelo Brasil, e com seu talento e entusiasmo consigam, afinal, vencer esse pérfido bloqueio cultural e mercantil. Quadrinho brasileiro também traz retorno financeiro. Questão de criatividade e competência. E de patrocínio também.

Abração.

Flávio Colin, 17 de agosto de 2000.”

Ele morreu dois anos depois de escrever esse desabafo.

O morcego brega encontra o morcego velho

Todas as coisas diferentes e sem classificação convencional, como o ornitorrinco e Shaolin Soccer, devem ter nascido da combinação entre mente criativa e tempo sobrando, pré-requisitos juntar duas ou mais coisas sem nada a ver entre si em algo inusitado, assombroso ou hilário.

Num choque de dimensões paralelas encontrado no blog Drawn, o pior do Batman encontra o melhor do Batman em alguns sketches mequetrefes, mas que garantem um sorriso. Kevin Church pegou fotogramas do seriado camp do Batman, aquele em que ele usava uma malha indecentemente agarrada no corpo semiadiposo de Adam West, e adicionou os diálogos que Frank Miller escreveu para “A Volta do Cavaleiro das Trevas”, esse sim um trabalho que faz qualquer morcego ficar orgulhoso.