Megaultrasuperexplicitamente realista

Essa pintura fez um certo alarde há algum tempo, mas não custa nada registrá-la aqui, já que se trata de desenho, ora pois.

Dru Blair é um daqueles sujeitos que devem ser maníaco-obsessivos por detalhes. A ilustração dessa mulher chamada “Tica” levou 70 horas pra ser feita e é uma das poucas ilustrações que já vi que podem ser chamadas de ultrarealistas, se é que existe essa palavra, pois se é realista já é fiel ao que já existe. É mais uma figura de linguagem mesmo, pra reforçar a trabalheira que esse cara teve de reproduzir o rosto de uma nariguda célula por célula, pêlo por pêlo, poro por poro.

O cara fez até a penugem que fica no queixo coberto de maquiagem, um preciosismo capilar esculpido no micrômetro.

É uma técnica primorosa de fazer cair o queixo, é uma coisa pra pouquíssimos. Porém, como ilustrador, o que vejo é uma ilustração que deixou de ser uma ilustração, é um ótimo desenho que virou uma foto mediana. Não deixa nenhuma margem pra interpretação ou imaginação, é mais perfeita que, por exemplo, as mulheres de Hajime Sorayama, mas mesmo em seus desenhos havia uma brecha artística. Tudo bem, não deixa de ser um talento (admirável).

É como um filme americano caro e cheio de efeitos especiais, mas sem história. A técnica jamais deveria substituir a idéia. Um exemplo meio tosco são os filmes da Pixar. Os caras são metidos no quesito modelagem e apuro técnico, mas é a qualidade e sensibilidade dos seus roteiros que fazem parecer “Gaia” e “Valiant” restos de almoço que descem pela privada.

Essa técnica meticulosa (sem desmerecer o artista, não joguem pedras porque machuca) só tem sentido se houver um conceito maior do que simplesmente reproduzir uma foto. E se existe a foto, não há porque uma ilustração tomar seu lugar, a não ser que seja uma linguagem ou expressão diferente. Se ele fizer uma mulher explicitamente real numa situação criativa, a coisa muda de figura.

O hiper-realismo tem sua utilidade sim, antes que se questione. Principalmente em embalagens, onde a composição do conjunto (morangos caindo num redemoinho de leite, por exemplo) é mais fácil e mais prática de ser conseguida por uma ilustração do que por uma foto, embora essas imagens também possam ser produzidas por talentosos fotógrafos. Aí é uma questão de escolha ou orçamento.

5 Comments

  1. Silvana disse:

    Ainda tenho minhas dúvidas se isso não é na verdade foto, mas vá lá…

  2. Concordo com tudo que vc disse, Hiro.

    Quando vi está imagem, minha primeira reação foi: “Mas que #$&?@#%, como ficou bom!!!”… a segunda foi: “Mas por qual motivo ele se daria a este (grande) trabalho???”

    Também acredito na utilidade do hiper-realismo (muitas vezes o cenário imaginado para a produção final é tão fantástico que ficaria muito caro fazer de outra forma)… mas desenhar um rosto humano (com todos os detalhes possíveis)que poderia ser facilmente fotografado, acho estranho… me fez lembrar do “mago do illustrator” (ver link abaixo), que tem em seu portfolio muitas ilustrações hiper-realistas, a maioria para ilustrar catálogos e manuais (com algum equipamento em “corte” ou “explodido”), mas com outras não tendo outra utilidade fora servirem para mostrar o domínio da ferramente digital pelo ilustrador…

    …para quem ainda não conhece…

    http://www.khulsey.com/masters_yukio_miyamoto.html

  3. Hiro disse:

    Oi Fabio

    Beleza os trabalhos do Miyamoto, vale um post.
    Esse sim já são trabalhados com um conceito usando hiper-realismo como ferramenta, não como finalidade.

  4. Holffman disse:

    Só tem uma palavra que pode expressa essa pintura
    perfeita arte muitos trabalgo digno de um Mestre
    esta e a asencia que parte do principio Michael angelo
    procurava atinge no perido seu existencia

  5. Marcelo DZ disse:

    Tecnica maravilhosa, mas como foi dito no texto, faltou o sal do artista, aquele sopro de frescor que da alma a arte, a visao oun o sentimento do artista, talves o fotografo da foto original deveria receber as concideraçoes de artista, pois cabe ao pintor (não querendo ser cruel), o papel de copista, xerox, scaner, rsrsrs
    Mas como ja disse uma grande tecnica e paciencia, isso o cara tem de sobra

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