Alex Ross mostra o caminho
Enquanto xeretava no que pode ser meu novo blog, levei um baita susto ao deparar com essa imagem do Ultraman dando um caldo no Baltan feita pelo Alex Ross que meu irmão colocou lá só pra teste. Capaz, como dizem os gaúchos! É o melhor dos dois mundos, melhor combinação entre oriente e ocidente depois das mestiças e do sushi Califórnia.

Por incrível que pareça, eu NUNCA havia entrado no site do Alex Ross, mesmo tendo devorado Mythology e ter duas versões de Kingdom Come em casa. São aquelas preciosidades que passam direto debaixo do nariz.
E as surpresas não acabaram!
Nada a comentar sobre a arte de Ross, todo mundo já sabe que ele é referência nesse tipo de trabalho, então qualquer coisa que vier nesse sentido é redundância.
Fui dar uma olhada na seção em que ele vende artes originais. Sempre fiquei me perguntava quanto esse cara cobrava por uma arte, e agora eu sei. O cara saber cobrar muito bem!
As artes vão de 500 dólares por um sketch a 30 mil dólares por uma capa, passando por 3 a 7 mil dólares por páginas de quadrinhos ilustradas.

(Esse sketch dos Homens Metálicos por módicos 500 dólares, dinheiro de pinga pra você!)
Simplesmente é um dos melhores exemplos que já vi de como um ilustrador deve gerenciar e cuidar dos seus direitos autorais na prática. Sem escrever uma linha de texto sobre isso, Ross passa no mínimo 3 lições sobre isso:
1 – Direito autoral: Novamente entrando nessa questão, o direito autoral sobre as obras é dele, e não da Marvel, ou DC ou de que for: Como deveria ser pra todo ilustrador, o que ele desenhou ninguém tasca a mão. Por causa desse ponto de vista, que é um direito inquestionável de todo autor, ele tem um acervo que pode garantir a aposentadoria dos seus netos e bisnetos. Isso não é diferente de mim ou de qualquer outro ilustrador em qualquer país. Tem gente que vai falar, “ah, mas é o Alex Ross! O cara pode”. Ainda bem que pode, pois o que ele faz ali é um exemplo. A lei garante que um ilustrador em início de carreira possa exigir o mesmo que Alex Ross. Garantia de direito autoral pode significar garantia de subsistência no futuro, como já havia dito em posts anteriores.
2 – Exigir os originais de volta: eu acredito que Alex Ross nem corra o risco de enviar a arte pra editora, ele mesmo deve escanear e enviar o arquivo digital pra ser impresso. Mas é um tapa na nuca de “vê se acorda” pra quem tem o hábito de entregar sua preciosa aquarela na editora e ser sequestrada por mãos impuras, ou mesmo pro ilustrador que não liga pra sua arte abandonada em uma mapoteca fria e úmida ad infinitum numa editora. Imagine se Alex Ross conseguiria vender isso se estivessem na parede da casa de um editor fã da sua arte ou de arte-finalistas e diretores de arte levassem seu trabalho de fininho?
3 – Não ter vergonha de cobrar! Tudo bem, nesse caso entra a expressão “Ah, mas é o Alex Ross, ele pode!”. Os preços que Ross cobra são caros, mas não são abusivos.
Todo ilustrador deve saber que o valor do seu trabalho está ligado diretamente com o potencial de lucro do produto do cliente. O que Alex Ross ilustra vende como pão quentinho, e isso para corporações como Marvel e DC que faturam centenas de milhares de dólares por cada revista que tem o nome dele. O que ele cobra deve ser proporcional a isso, como todo ilustrador deveria fazer em qualquer tipo de serviço. Infelizmente ainda existem ilustradores que cobram apenas se baseando na mão de obra do desenho, e não pelo uso, como se fosse algo que pudesse ser cobrado por metro. Já vi gente cobrando dois mil reais por um personagem para chocolates que valeria pelo menos 40 mil. E o pior, o cara NÃO era ruim, desenhava muito bem. Claro que contrataram o fulano.
No final, o que bate o martelo final é dinheiro, sempre dinheiro.
Se eu tivesse condições de limpar merda do Bisteca com notas de vinte dólares, eu compraria um trabalho original dele. Imagine quanto não deve custar a capa original de “Kingdom Come”?

(Essa capa de Justice custa 15 mil dólares, mas tem outros trabalhos lá que chegam até 30 mil!)
Nas suas devidas proporções, o que Ross faz é ter respeito pelo próprio trabalho, não dar de graça seus “desenhinhos”. Cada traço seu vale muito, talvez não tanto como os dele, mas tem seu valor. Tem gente que se vende por valores menores do que um serviço de pedreiro, tem gente que acha que vai virar capitalista selvagem se cobrar pela sua arte, ou acha que vão linchá-lo na saída se pedir o que é correto. A insegurança, excesso de oferta de trabalho e falta de caráter ainda vão acabar com o mercado de ilustração, e a gente vai ficar falando daqui a alguns anos que “a gente era feliz e não sabia”.
E tem outro detalhe: Esses valores são cobrados para o público final, mas até chegar nesse ponto, ele também foi pago pelas editoras pelo serviço. Ou seja, ele potencializa seu lucro baseado, em seus direitos autorais.
Só por curiosidade, fiz um cálculo por cima de todo o acervo que ele está vendendo no site. Sem exageros, chega a mais de meio milhão de dólares, folgado.
Tem gente que vai alegar que isso jamais ocorreria no Brasil porque não há mercado de quadrinhos, o que concordo, mas o que se vê aqui é além disso. Pra chegar nesse ponto, a ilustração já fez seu papel, que é o de solucionar um problema, cumpriu sua função e seus direitos voltaram para o artista. Nesse ponto, ele decide vender seu trabalho sem intenção de cumprir nenhum papel, então ele começa a vender ilustração como ARTE! E vendo por esse ponto, qualquer ilustrador pode (e deveria) fazer o mesmo.

(Se eu tivesse muito, muito, muito, mas muito dinheiro sobrando em minha conta eu iria comprar essa capa de Kingdom Come pra colocar na parede e mostrar pros meus amigos como sou fodão quando desse uma festa).
Nem todo mundo tem cacife de cobrar o que ele cobra, mas todo mundo tem cacife sim de fazer o mesmo que ele faz. Talvez a gente não consiga chegar a meio milhão de dólares, mas pelo menos o caminho é esse, então tudo o que vier dele é lucro, nem que sejam quinhentos reais ou passar seu acervo para seus herdeiros e garantir um pouco mais o futuro deles.
















Excelente artigo, Hiro! Tomei a liberdade de postar o link na Central de Quadrinhos pra fazer o pessoal pensar no assunto…
Tem algo que me incomoda um pouco no trabalho do Ross, acho que falta um pouco de movimento em suas imagens. Esse lance dele usar referencia fotografica, parece deixar suas ilustrações um pouco duras.O que acontece geralmente em trabalhos com referencia.
Mas mesmo assim, considero ele um puta ilustrador.
Hiro, vc sempre posta bons artigos em seu blog.
Abraço
Concordo completamente com você, Hiro. Falta definitivamente conscientização à classe. Eu mesmo já vi os horrores da guerra e tive que me prostituir por total falta de conhecimento.
Oi Silvana, eu vou me logar na Centrald de Quadrinhos também. Pelo visto tem bons textos sobre ilustração lá.
Mesmo quem não é da área de quadrinhos pode se inscrever?
Oi Pacha.
Acho que todo ilustrador já passou e vai passar por isso no começo da carreira. Eu também já fiz cagadas homéricas quando era jovem. O importante é que ele mude de postura com o tempo (não muito longo, de preferência).
Antigamente havia menos acesso à informação para ilustradores do que hoje, e por isso mesmo esse tipo de atitude deveria diminuir.
Estou querendo ganhar dinheiro com minha arte também. Já vi que há muito ilustrador que troca seu trabalho por quase nada e acho isso um desrespeito consigo mesmo.
Em posts anteriores aqui no blog li ótimas comparações de profissões. E pretendo seguir esse exemplo de valorização do meu trabalho.
Pensem, é nosso ganha pão. Se não é o seu, não estrague a imagem do ganha pão dos outros.
Abraços!
Caraca!! Assino em baixo tambem… estou treinando ainda , buscando informaçôes sobre o assunto, ainda não estou a nivel de vender meu trabalho, mais apartir da primeiro venda estarei levando a serio todos os meus direitos. exelente artigo. A informação deve estar exposta sempre e pra todos … Abro o olho gente é o nosso que tá em jogo rsrs…. abrass .