Um milhão e meio de desenhos

Coincidentemente vi dois posts sobre ilustrações a granel. Esse foi no blog Drawn!:

Robert Shadbolt tem um projeto de fazer um milhão de desenhos para serem vendidos na internet. Um milhão! No próprio site ele já alega que não é dirigido para o mercado de ilustração, o que naturalmente o torna um artista.
Ou o cara é megalomaníaco ou ele é um desses savants, autistas com poderes especiais. Vejamos, se ele demora 10 minutos pra fazer um desenho, trabalhando 10 horas por dia, todos os dias, ele levaria 45 anos pra terminar esse projeto, sem descanso. Levando em conta que ele nasceu em 1960, ou seja, tem 47 anos, só com 102 ele iria conseguir fazer um milhão de desenhos.


Não querendo comentar nada sobre o estilo ou a qualidade do trabalho, mesmo temendo pela saúde de seus tendões e juntas, existe um gostinho amargo nesse tipo de projeto que é o de simplificar a ilustração, de parecer que é fácil demais ao ponto de conseguir fazer um milhão de desenhos. É o conceito da ilustração virar grão de feijão, que se compra por quilo e se dois ou três grãos caírem fora do saco nem são contabilizados como perda, fica pro rato.
É o tipo de argumento que faz o cliente querer pagar menos por um trabalho porque é “fácil” ou “tem mais de onde veio”. Não curti.
E isso porque ele já desenhou anteriormente uma série chamada “1000 Cats”:

E eu que achava um absurdo fazer 60 ilustrações numa toalhinha de bandeja.

E esse foi no BoingBoing:

John Hodgman quer fazer um angariar “parceiros ilustradores” para desenvolver um projeto chamado “700 desenhos”. Na verdade ele quer criar 700 categorias(700 piratas, 700 mutantes, e assim vai), com 700 desenhos cada um, o que dá 490.000 desenhos, menos do que nosso amigo acima e sem intenções de ficar rico, até porque nesse caso, ele não desenha, mas junta desenhos (tem um cheiro rançoso de criar um tipo de “stock” ou banco de imagens, mas pode ser só minha neurose de ilustrador solitário).
Esses são exemplos da categoria “700 coelhos” que por enquanto, só tem 2 desenhos:


Mesmo assim esse tipo de projeto também deixa o gosto ruim de banalizar a ilustração como algo vendido por quilo e que é tão comum como folhas de árvores.

O dia que esse tipo de conceito vingar, vou virar açougueiro e vender sebo pra passar em bola de capotão que saio ganhando.

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