O fim de um ilustrador

Há 9 anos eu vi uma cena que nunca esqueci, de tão doída.

Estava voltando do trabalho a pé pra casa, num dia frio de julho. Enquanto esperava pelo dono da banca arranjar troco, fiquei olhando um casal de mendigos bem velhinhos, com cachorros ao lado e um monte de sacos, sentados no banco da praça da frente. O senhor arrumava as tralhas enquanto a mulher dormia ao seu lado.
O velho desamarrou dois cobertores bem sujos e esfarrapados e ele cobriu a mulher com os dois, de maneira bem carinhosa. Aí quando ele terminou, ele deu um beijinho na testa dela. Aquela cena deixou meu peito pesado como um estepe de caminhão estivesse dormindo sobre ele.

Os dois, no final da vida, quando deveriam descansar e aproveitar por merecimento, estavam lá, jogados num banco de praça ao lado de sacos e sacos de latas de alumínio.
Mesmo assim, aquele senhor tentava cuidar dela da melhor maneira possível, dentro do possível e ainda com um carinho inusitado para a situação…

Imaginei uma cena dramalhão mexicano. O homem é provedor da família, acontece algo inesperado e ele vai dizendo: “calma, está tudo sobre controle”, “calma, a gente dá um jeito”, “calma, alguém vai ajudar a gente”, até chegar no “que Deus nos ajude”.

Quantas pessoas não entraram para o abismo agindo de maneira correta, sendo bons pais e maridos, mas arrastou todos à sua volta por falta de consciência e percepção? Justamente quando é tarde demais é que vem a vontade de reagir.

Desde que eu vi essa cena eu prometi pra mim mesmo que ninguém que dependesse de mim iria passar por aquilo, inclusive eu mesmo.
Pode chamar de paranóia aguda, mas é minha paranóia, e ela me faz seguir em frente.

Aqui entra o ilustrador
Pra quem vive pedindo conselhor pra mim como começar como ilustrador, vou dar uma de japonês e falar como TERMINAR como um ilustrador.


E você, amigo ilustrador JOVEM, deve estar imaginando…o que ISSO tem a ver?

Tem tudo a ver, e não só apenas pra ilustradores, mas pra qualquer profissional.
Tem a ver de ganhar seu sustento. E principalmente, tem a ver como você vai ser os últimos anos da sua vida.

Não vou retomar a questão de como cobrar nem de não fazer trabalhos de graça. A questão aqui é outra. É de como se programar pro futuro sendo ilustrador.

Como fazer isso com uma profissão que não é fixa nem é estável, que tem a fama de ser uma carreira isolada e solitária?

Primeiro: É preciso criar a consciência de que ninguém vai ser jovem pra sempre. É chavão, mas quando a gente é novo, não pensamos em nós como velhos ou inadimplentes. Afinal, cheio de hormônios e energia pra dar e arrebentar, pra que pensar em épocas decrépitas? Quando a ficha cai pode ser tarde demais.

Segundo, tem que mudar a mentalidade e perder a vergonha de cobrar o que é correto.
Tem gente que tem vergonha de cobrar caro por um trabalho que tem que ser cobrado caro mesmo. Tem gente que não sabe simplesmente cobrar.
A cada centavo não faturado é um centavo que não entra na sua conta.

Tem que pensar em sua carreira como algo pra fazer dinheiro. Simples e óbvio.

Terceiro, tem que poupar. Não importa você ganha 10 mil, 1 mil ou 100 reais, tem que poupar no mínimo, no mínimo, 15% disso e esquecer esse dinheiro lá. Tem que pensar que esse dinheiro é sua garantia na velhice. Nunca, jamais conte com esse dinheiro.
É difícil, principalmente pra quem tem filhos ou pais pra cuidar, mas TEM que ser feito. Isso não é um ítem negociável, é uma ação de sobrevivência.

Então pára de fazer desenho de graça, cobre direito, cobre a mais, aumente sua renda. Trabalhar por trocado hoje é trabalhar por latinha amanhã.

Uma dica é perder a vergonha e consultar o gerente da sua conta. Nem que você só tenha 200 reais pra investir, é um começo, que em pouco tempo pode se tornar 2.000 e muito mais além disso.

Invista em Renda Fixa, DI, poupança, ações, se tiver nervos de aço, mas poupe. É a única maneira honesta de fazer o dinheiro render. Senão você vai ter que passar vergonha e viver de favor de da caridade dos outros, mesmo que esses outros sejam seus pais ou seus filhos.

E outra dica, é chavão, mas é preciso. Nesse caso, a fábula da cigarra e da formiga encaixa direitinho, só que ao invés do violão a cigarra tem um pincel.
Planeje seus gastos, é impressionante o que dez reais aqui e quinze acolá fazem no bolso depois de um ano.

Quarto: fazer uma previdência privada com seguro em vida. Se você for embora desta para a melhor, pelo menos aqueles que estão perto de você vão receber uma renda. Caso você não morra, quando chegar aos 65 anos você vai receber um salário correspondente ao que contribuiu todo mês.
A soma de dinheiro guardado + previdência privada pode salvar sua velhice.

Garanto, já vi com meus próprios olhos doídos que a pior coisa de alguém é perceber que caiu a ficha tarde demais. Já vi ilustradores feras e que ganhavam rios de dinheiro na época de 70 caírem na miséria ao ponto de terem que dormir escondido na agência em que trabalhavam, por motivos que nem é da minha pertinência discutir aqui.

Quinto: Plano de saúde.
Plano de saúde é uma merda, é daquelas coisas que você paga uma grana esperando nunca usar.

Esse treco come um bocado de dinheiro, principalmente se você tiver filhos. E vai ficando mais caro quanto mais velho ou doente você fica. É impiedoso.
Essa dica descobri há pouco tempo, portanto vale a pena saber disso.

Primeiro, se você vive numa comunidade de tamanho razoável (igreja, clube) pode conversar com um corretor e pedir um plano de seguro em grupo.
Ilustradores, taí a dica. Por que não juntamos o pessoal da SIB pra ter um plano de saúde para ilustradores, assim como existe para advogados, engenheiros e dentistas? Tudo bem, essa é outra história.

Agora, se você é sozinho e independente, fica na dúvida em que tipo de plano comprar.
Então, se você é saudável, forte como um touro e come de maneira sapiente (ha ha), evite um plano que cubra todo tipo de exame, médico, os melhores laboratórios e os melhores hospitais.

É mais barato se você pagar alguns exames e médicos à parte, ainda com possibilidade de reembolso.

O que quebra qualquer um são diárias hospitalares. Então ao invés de pedir o melhor plano com médicos, hospitais e exames, é melhor centralizar o seu dinheiro em um plano que ofereça seguro e internações hospitalares. Ficar uma semana numa UTI pode quebrar toda sua poupança que você juntou em 20 anos, isso não é brincadeira. Tenho amigos meus que hoje estão na miséria porque tiveram que pagar dois meses de UTI, vendendo carros, apartamentos e zerando as contas.

Sexto: Pensar no que fazer quando ficar velho. Qual seu plano B?
É fato. À medida que o tempo avança a visão piora, a audição enfraquece, as juntas ficam mais duras e a cabeça começa a dar uns tilts. Sorte daqueles que conseguem ilustrar com mais idade, e com a mente funcionando beleza. Mas são poucos aqueles que conseguem ser como Ziraldo ou Hirschfeld. Mas também não precisam chegar no final da vida como grandes ilustradores que conheço que acabaram na miséria porque fizeram algumas besteiras na vida, besteiras que não podem ser mais consertadas.

Então, o que você vai fazer quando não desenhar mais? Ou o que você vai fazer pra continuar desenhando depois de velho?

Qual seu plano B?

E tem a agravante de somar a isso as seguintes idéias:
• Ninguém é insubstituível;
• Se você for empregado, um dia seu patrão não vai mais dar dinheiro pra você;
• Filhos não são garantia de que eles vão te sustentar na velhice;
• Nada é pra sempre, o que pode ser bom hoje amanhã pode ser péssimo.
• Um dia você vai embora e vai deixar o quê pra quem precisa?

Pra não extender, vou ser prático, mostrando em números.

Um fulano com 30 anos de idade. Ilustrador, tentando entrar no mercado, ganhando o básico do básico, nunca sobrando nada pra poupar. Com filhos, mulher e pais pra cuidar.

Vamos imaginar que você irá trabalhar até os 65 anos. A sorte é que ilustrador não é estivador do Porto de Santos, então o desgaste físico é menor, dá pra trabalhar além disso. Com um pouco de sorte vai chegar no patamar do Ziraldo, Hirschfeld ou Alex Toth.

Mas como um humano normal, você tem 35 anos pra fazer seu pé de meia. 35 anos pra juntar um patrimônio pra garantir sua vida e não ter que sair catando latinha em lixo de restaurante.

Não quero parecer dono da verdade, nem querer ensinar como ganhar e guardar o pão de cada um. Isso é experiência que eu tive e que comecei a (tardiamente) a colocar em prática. Não nasci em berço de ouro, venho de uma família de feirantes e não nasci com tino pra negociar até os 35 anos, bem tarde pra profissão. Mas como todo burro insiste no caminho, insisti nesse e talvez isso ajude quem tá começando a não cometer barbeiragens quando ficar mais velho. Mas tem gente mais organizada do que eu e que sabe dicas e macetes melhores do que esse pra se garantir, mas infelizmente (ou felizmente), foi isso o que eu aprendi até agora.

Para os amigos ilustradores da SIB, na faixa dos 40, 50 ou mais aninhos, essas dicas não são novidade. A vida vai dando pauladas na cabeça e a gente aprende com isso (se quiser). Senão a gente morre de overdose num quarto de hotel vagabundo no centro da cidade.

Mas pra quem é novo, onde tudo é possível, vale a pena frisar o que seu pai fala e você torce o nariz. Quanto mais cedo você guardar 20% do que você ganha, mais cedo você vai respirar aliviado na velhice.
Isso é garantia de velhice tranqüila? Claro que não, mas NÃO fazer isso com certeza vai trazer alguma conseqüência funesta nos seus anos dourados..
Ser ilustrador é fantástico e ao mesmo tempo um sacrifício. Fantástico porque me faz sentir orgulhoso do que sou e do que eu faço, e isso não tem preço. E um sacrifício porque ser ilustrador é como subir uma escada que não tem fim. Não pode parar. Sempre vai ter um degrau a mais pra escalar amanhã, e depois de amanhã, e assim por diante.

O que hoje está bom amanhã pode não estar mais. E vice-versa.

É uma merda? É, mas é nossa vida, nossa filosofia de ganhar dinheiro honestamente com ilustração.

No Comments

  1. Petra disse:

    Parágrafo único se tudo isso aí de cima falhar: Na hora H o dinheiro não te salva, os amigos não te salvam, tua familia não te salva… só você se salva. Cuida da sua cabeça, ela é a única coisa verdadeira com a qual você pode contar. Não negocie sua integridade, física, moral, espiritual. Saiba onde você começa e onde termina. Seu carro não é você, sua casa não é você, sua carreira não é você, sua história não é você. Se você ainda não sabe quem você é, descubra, porque isso é a única coisa que você precisa manter inteiro para que você possa reconstruir sua vida quantas vezes forem necessárias. E, por fim, não tome decisões baseadas no sentimento de medo ou de insegurança. Primeiro encontre a sua coragem e só depois tome decisões.
    Beijo
    da Petra (que já passou umas coisas na vida… muito antes de chegar aos 40)

  2. samanta disse:

    vou imprimir esse texto e deixar sempre a mão.

  3. Dragon disse:

    Hiro, você é um iluminado! Você tem a capacidade de pegar uma verdade já conhecida e mostrá-la com uma força que só as novidades têm.
    Eu estou chegando aos 42 e, embora dessenhe desde que me entenda por gente, só agora estou me estruturando para ser um ilustrador profissional e viver disso. Frequento algumas boas comunidades de ilustradores no Orkut e tenho aprendido muito, principalmente sobre postura profissional.
    O que você sentiu quando viu o senhor idoso cobrir a mulher carinhosamente apesar da situação miserável de ambos, eu sinto todos os dias que vejo um idoso jogado na rua, ou solitário em uma janela esperando a visita que nunca vem, ou ainda jogado num canto escuro da casa vendo aqueles que ele carregou no colo passarem por ele como se ele não estivesse ali.
    “Não importa quem você seja ou o que você faça; um dia você vai estar em cima de uma cama cuspindo sangue”
    Não lembro onde ouvi essa frase, mas ela ficou gravada em mim.
    Temos de cuidar bem de nosssa árvore para que ela ao menos nos dê uma sombra nos nossos dias de cansaço.

  4. Hiro disse:

    Oi Dragon.

    Você tem a minha idade, sei o que deve estar sentindo.

    O problema disso tudo é que a maioria das pessoas só percebe que tem que fazer alguma coisa quando é tarde demais.

    A gente tem uma vida útil, uma quantidade de anos pra fazer o que tem que ser feito e a partir disso ganhar sustento pra passar pra frente e garantir quem tá em volta da gente. Por isso é uma merda virar adulto, é uma batalha que não tem fim.

    Não é fácil ser ilustrador, mas deve ser dificílimo ser ilustrador velho e pobre.

    Abs.

  5. Laura Lopes disse:

    Olá!

    Lendo o seu texto eu consegui me enxergar na sua história. Tenho quase 30 anos e só há dois anos que decidi levar a vida a sério e planejar um futuro. Quase desisti, pois achei que já estava velha demais para fazer isso. Minhas esperanças aumentaram singificativamente quando li o livro “Casais inteligentes enriquecem juntos” e passei a adotar as dicas preciosas do Gustavo Cerbasi.

    Parabéns pelo blog. Colei um texto seu em um post, com o devido link para cá! Achei fantástico o seu texto sobre porque não desenhar de graça.

    As suas ilustras são fantásticas. Parabéns pelo seu trabalho!

  6. Hiro disse:

    Oi Laura.

    30 anos ainda é a flor da idade, dá tempo de fazer muita coisa legal, tanto em arte e design como financeiramente. Sempre dá pra fazer alguma coisa, contanto que exista abertura e vontade.

    Abs.

  7. Camilo disse:

    Putz Hiro, fazem uns 3 anos assim que eu cheguei em Sampa estava na Barra Funda esperando um ônibus e na fila um senhor veio atrás de mim para pedir uns trocados, como todos não dei muita bola… mas ele não saiu de perto de mim, eu estava rabiscando um caderninho e ele olhando… então ele soltou uma “é, eu também desenhava na sua idade, trabalhei no estadão ilustrando o caderno de esportes” e eu não acreditei quando ele tirou um quadro de uma bolsa com uma ilustra de futebol, parecia bem velhinha… pois é ele “foi” um desses ilustradores que você citou… nunca mais me esqueci desse dia.
    Depois posso colocar um link seu no meu blog?
    Abração

  8. Hiro disse:

    Camilo, essa história é daquelas de gelar a espinha.
    É o preço (??) que se paga de ter uma profissão instável como a nossa se não tiver consciência.

    Pode colocar o link a vontade.

    Abs.

  9. Kako disse:

    Perfeito.

  10. André Ceolin disse:

    Bem, como muitos, estou no início do início da minha carreira como ilustrador (estou ainda na fase da preparação do portfólio). Tenho 30 anos e espero que esta minha aventura dê certo. O seu artigo é como um daqueles “chaqualhões” que levamos para acordar para a vida. Valeu!

    Abs.

  11. Danniel disse:

    Ótimo texto!

  12. [...] Então, ontem de tarde estava dando uma passada no blog do Hiro, o culpado pela mania de todo brasileiro ler as bandeijinhas do McDonalds; e me deparei com um post dele que complementa tudo aquilo que eu falei sobre o ser ilustrador… depois dá uma olhada lá. [...]

  13. Bete disse:

    Hiro,

    Tudo o quê você disse é verdade.Nessa profissão instavel é muito díficil sustentar uma família e viver com dignidade e fazer planos para o futuro.Por melhor ilustrador que você seja,você nunca sabe quando vai entrar um trabalho e de quanto vai ser esse trabalho.É muito díficil ser ilustrador.É muito fácil um ilustrador terminar os seus dias na miséria.
    Não quero que nenhum de meus filhos sigam a carreira minha e de meu marido.Jamais vou querer ver um filho
    meu como ilustrador.Quero que eles tenham uma profissão melhor e mais respeitada.Não quero esse futuro para eles.Eu mesma estou abandonando a carreira de ilustradora e colorista (Colori trabalhos para Marvel e outras editoras americanas),além de editoras nacionais de didáticos.Ate mesmo o mercado americano,não vale a pena,além de estarem pagando muito pouco.Eles fazem
    vocês fazerem testes e mais testes(como se você não gastasse seu tempo e estivesse totalmente disponivel para eles) e depois dizem que seu trabalho é fantástico,maravilhoso e acabando escolhendo outra pessoa.Eles têm pessoas do mundo
    inteiro querendo trabalho a preço de banana.Não vale a pena.Vejo,jovens iniciantes que ficam se gabando por terem feito algum trabalho,mais tenho pena porque eles realmente não sabem com é díficil se manter nesta profissão e o que o futuro lhes reserva nesta aréa.Hoje tenho 45 anos(maio 2009)e
    acordei e ví quanto tempo perdi nesta profissão.Hoje vou procurar algo que me sustente a mim e a minha família todos os dias.Nem que tenha que vender cachorro quente,que ao meu ver sustentará minha familia com mais dignidade do que ser ilustradora.

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