Ilustração em tempos de cólera

Recentemente comprei um livro chamado “Chinese Propaganda Posters”. É uma compilação de mais de mil pôsteres ilustrados para o governo comunista de Mao Tsé Tung, de 1949 até 1973. É impressionante a técnica, o talento e os detalhes de todos os trabalhos.

Fiquei surpreso com alguns fatos sobre esse trabalho. Imaginava que o governo chinês arregimentava esses ilustradores à força, mas pelo que li, foram os próprios artistas que se ofereceram para esse tipo de trabalho depois da chegada da Revolução Cultural. Talvez por medo, talvez por entenderem que era a única maneira de expressar arte num sistema onde a cultura era considerasse perigosa, o fato é que a beleza desse tipo de trabalho encantou Mao, que se utilizou desses trabalhos para propagar o ideal comunista chinês entre a população, e se tornou um dos símbolos do comunismo no mundo inteiro.

Também imaginava que a autoria das ilustrações não existisse, que era algo feito do coletivo para o coletivo, sem um “proletariado” do talento. Mas também não, os nomes dos ilustradores apareciam nos jornais e eram amplamente divulgados pelo governo de Mao. Nomes como Sun Xikun, Gu Jianhua e Sheng Liangrong são comuns nos livros. E acho que eram os preferidos de Mao, porque não são todos os que tinham autorização para ilustrá-lo. Dá pra perceber isso pelo estilo.

Eram ilustradores que tinham trabalho a sair pelo ladrão. Logicamente não recebiam pelo trabalho como deviam e se pedissem os direitos autorais levavam bala na cabeça.

Mas entre os artistas, eles eram privilegiados porque eram exaltados pela população. Imagine, num país onde todo mundo é revolucionário, agricultor, operário ou soldado, ser ilustrador oficial do governo era um privilégio para poucos. Era o máximo de concessão que era permitido para ser um artista.

O gordinho Mao Tsé aparece em todas situações possíveis. Nas fábricas, brincando entre crianças do folclore chinês, e até em poses heróicas e bem ativas entre soldados do exército. Existem inclusive alguns que insinuam que ele é sobre-humano, em poses que lembram a do super-homem, com a capa esvoaçante.

Um detalhe de marketing negro: eles utilizavam pessoas comuns da população para representar o “herói popular”. Essa menina, por exemplo, aparece em vários cartazes.

Segundo Mao, isso era inspirador, todos queriam ser como os heróis retratados. E o pior é que queriam mesmo, era a maneira de sonhar ser diferente, dentro de toda aquela limitação.
A propaganda nunca era mentirosa, como nas colheitas fartas e todo mundo sorrindo. Era o ideal a ser atingido. A glorificação era coletiva, mas o sentido de fracasso individual, então se o camponês não tinha essa fartura em mãos era por que ele deveria se esforçar mais.

Existem quadros que não descem bem, como pôsteres mostrando humilhação de professores em praça pública ou outros de soldados ensinando crianças a usarem rifles sobre bicicletas. Não desce bem porque é um retrato que deveria não existir mais, mas ainda acontece de forma mais rígida e autoritária em lugares como a Coréia do Norte.

Pelo visto, vai ter um belo campo de trabalho para ilustradores na Venezuela.

No Comments

  1. Tatiana disse:

    Oi Hiro!
    Conversei contigo ontem na Pande, aqui está o endereço do meu post com linkzinho para você.
    http://mixirica.com.br/index.php?id=292
    Abraço e parabéns de novo pelo blog!
    Tatu

  2. Bruno Porto disse:

    http://www.iisg.nl/~landsberger/ é o link prum site do mesmo autor deste livro, com mais infos e referências. É bem melhor que o site ‘oficial’ do Propaganda Poster Centre daqui de Xangai. E tem também o http://www.chinasnippets.com/shanghai-cultural/propaganda-poster-art-centre/ com uma descriçãozinha honesta do museu.

  3. Hiro disse:

    Bela dica Bruno.
    Isso enriquece o tópico.

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