Por que não ilustrar de graça

Todo mundo já ganhou uma caixa de lápis de cor ou um jogo de lápis de cera quando criança e desandou a desenhar os pais, monstros, o cachorro e o que passa na TV. Gastou uma floresta em cadernos de desenho e várias paredes tentando expressar sua criatividade.

Isso faz do desenhista o primeiro ensaio de profissão que uma criança pode ter, tanto quanto ser um jogador de futebol (virar médico por causa da prima não conta).

Portanto, é natural que todo ilustrador tenha uma paixão natural pelo seu trabalho.
Quem era desenhista e virou ilustrador é porque tem um talento nato ou desenvolveu com a prática, mas sempre teve um motivador que percebeu que tinha o poder de criar algo com a mente e as mãos.

Se você resolveu ganhar a vida com o dom do traço, com certeza passou por alguns micos na família e entre amigos. “Você vai morrer de fome”, ou “vai vender desenho na Praça da República”, ou “Seu irmão é quem deu certo, virou advogado”. Você vai conhecer um ou outro que foi abandonado pela namorada porque achava que ele não tinha futuro, que ia acabar com o cabelo sebento, com um bloco de desenho e um vira-latas amarrado com barbante, deitado no meio da sarjeta. Mesmo assim foi em frente, mesmo com o mundo apostando as fichas em outro cavalo.

Sou ilustrador e não desisto nunca

Nunca vi um ilustrador que desenhasse por obrigação ou só para pagar as contas. Nunca vi um ilustrador que ficasse olhando o relógio a cada 5 minutos na expectativa de chegar as 6 da tarde e ir embora correndo pra casa. Todo ilustrador tem uma característica: tem uma paixão pelo que faz.

E por que não me refiro mais como desenhistas, mas sim como ilustradores?

O desenhista desenha por pura paixão. Desenha a todo momento, aproveita qualquer canto pra rabiscar, fica traçando firulas enquanto assite novela, no meio da aula de moluscos, considera seu trabalho como arte e sem pensar em retorno financeiro, só retorno emocional e egóico .

O ilustrador também desenha por paixão. Mas ao contrário do desenhista, ele vira profissional.

E ser profissional não é simplesmente ganhar dinheiro com desenho. Primeiro grande erro que a maioria dos desenhistas têm.
O ilustrador têm que ganhar dinheiro sim, e isso se torna uma relação comercial. São negócios. O ilustrador vira um comerciante de si mesmo, vende o que tem de melhor que é seu talento.

O ilustrador segue regras. Simples assim.

Regras comerciais (entre ele e o cliente) , regras contábeis e financeiras (passar nota e administrar a grana), regras legais (saber seus direitos e deveres perante a lei), regras pessoais (para não desvirtuar do que acredita) e regras éticas (para ter uma coerência com toda a classe dos ilustradores).

Se não segue regras e desenha o que quer, por que quer e não consegue argumentar com o cliente, então desculpe, tá confundindo arte com negócios.

E um dos maiores erros que vejo por aí é a terrível combinação de talento + insegurança pessoal + picaretagem dando frutos monstruosos.

Isso gera gente que pede desenho de graça. E gente que aceita fazer isso.

Uma coisa é sua namorada ou sua tia pedindo um desenho pro cartão de aniversário da irmã.

Outra coisa é um empresário que pede uma ilustração de graça (ou para teste) com as mais variadas desculpas. As mais famosas são:
“Seu trabalho vai ter uma divulgação tremenda”.
“É bom pro seu portfólio”.
e a mais famigerada: “Esse é de graça, mas depois você vai ter outros bem remunerados”.
“É um trabalho de risco, se for aprovado você ganha”.
Tem uns mais indecentes que dizem simplesmente “Se não fizer, tem gente que faz”.

Pois bem. Acho que nesse ponto eu tenho alguma autoridade pra dizer que isso é a mais pútrida e cadavérica mentira.
Trabalhei mais de 10 anos numa grande agência fazendo o papel duplo de diretor de arte e iustrador. E nesse período, fiz o trabalho também do que hoje se chama “art buyer”, ou seja, contratava ilustradores e fotógrafos para alguns trabalhos.

E eu posso dizer com certeza:
• Nenhum trabalho garante que outros trabalhos virão por causa dele.
• A divulgação é uma conseqüência natural do seu trabalho, é como dizer para um barbeiro que não vai pagar o corte porque vai divulgá-lo por aí.
• Quem é a anta que disse que ilustrador precisa de material publicado para colocar no portfólio?

Primeira coisa que deve ser lembrada, ó desenhista desesperado por atenção e do vil metal para dar estímulo à carreira:
O que você vai dar de graça vai ajudar o lamuriante picareta a ganhar dinheiro. Seja em embalagem, anúncio, revista, tatuagem, o que for. Ele vai ganhar dinheiro e você não!

Isso é uma afronta, uma ofensa profissional e um desrespeito pessoal.
Você não sai na sorveteria pedindo um sorvete de graça prometendo comprar um monte na próxima vez, certo? Nem pede pra cortar o cabelo de graça pra você fazer divulgação do salão. Nem pede pro marceneiro fazer um armário de graça para ele colocar no portfólio.
Mas por que pedem isso pro desenhista?
Por que ele não liga, desenha com paixão e faz rapidinho…na verdade estão fazendo um favor pra ele.

Acontece algo parecido com os médicos.
Qualquer médico em uma festa é interpelado uma ou duas vezes por um gaiato que quer um diagnóstico na hora mostrando um furúnculo na bunda enquanto segura um copo de vinho.
Já que está ali, vamos aproveitar.
Mas pelo que eu sei, a maioria dos médicos já cortam o barato no meio. Dá o cartão e pedem pra passar amanhã no consultório.

Desenhistas deveriam ter a mesma postura.
Isso é necessário para ter uma integridade pessoal e financeira para o ilustrador, e principalmente, para todos os ilustradores.
A regra é simples: Se existem pessoas que pedem isso é porque existem pessoas que o fazem.
E não trazem leite pra casa, mas algumas promessas e um punhado de feijões mágicos.

Abrindo as portas da percepção

Eu já passei por isso. No começo da minha carreira como autônomo, inseguro, perdido e ingênuo como coelho Tambor, aceitei um trabalho de risco, ainda mais porque era amigo de um amigo meu que não vejo há anos.
Quando vi o quanto o cara ganhou com meu trabalho e vi que toda dor e lágrimas que me passaram eram falsas como as promessas, minha barriga doeu de raiva e indignação. A partir daquilo nunca mais.

Existem situações mesmo em grandes agências onde me pedem um “trabalho de risco”. Ou mais descaradamente, “precisamos de um desenho para layout da campanha que ainda vai ser aprovada”. Não é coisa vinda de um Zé Ruela da esquina.
Mesmo dizendo que tenho uma tabela de valores para ilustrações para layouts, sem aprovação do job, há aqueles insapientes que insistem na “filosofia do risco”.

Recuse e recuse com orgulho. É estupro profissional e pessoal, sua auto-estima vai ficar no nível da sola do pé com o tempo.

Não existem exceções? Claro que existem, mas são raras e tem critérios muito pessoais. Pra fins beneficentes, por exemplo. Nem encaro como risco, mas como doação mesmo. E pára por aí.

Recebo todos os dias pedidos de trabalho de graça, de ongs, de cultos religiosos, de escolas, de empresas falimentares, de meninas mimadas, de editoras sem noção, de tudo quanto é tipo.
Para estes, ignorá-los não se tornou apenas uma opção, virou uma necessidade.

O Efeito Borboleta

Só pra entenderem o que isso causa, há 20 anos os valores pagos por ilustração eram bem diferentes. Tudo bem que antes não existia computador e tudo era feito na raça, mas a relação entre valor e direito de uso de imagens não mudou.

A diferença é gritante, principalmente no meio editorial. Uma ilustração de página dupla que hoje sai por uns R$600,00 antes era o dobro do valor, e até mais do que isso. O achatamento dos valores foi progressivo até chegar o que é hoje. E sabe o que é pior? O achatamento não parou por aí. Vai continuar até chegar na espessura de uma panqueca. E, se isso acontece em uma das maiores editoras do Brasil, imagine o que não acontece nas Boca-de-Porco Publishings?

Cheguei a pegar uma época em que ser ilustrador era sinônimo de ser rico, sem exageros. Ganhava-se muito bem, e foi um dos motivadores de eu largar a Biologia pela Ilustração. Não me arrependi de ter feito a troca, mas fico triste e ensandecido quando vejo o respeito financeiro que a ilustração vem tomando no Brasil, o suficiente para cogitar a possibilidade de trocar de país.

Até mesmo Cacilda Becker, cansada de receber pedidos de convites de graça das suas peças de teatro, grudou um recado no vidro da bilheteria dizendo:
“Não me peça de graça a única coisa que tenho pra vender”.

Se você quiser aprender a cobrar pelo seu trabalho, nesse post eu dou umas dicas bem básicas de como montar um orçamento.

Frutas Frescas

Novidades fresquinhas como memória de peixinho dourado.

Eu fiz as ilustrações das frutas da promoção Tangalera. Abaixo tem algumas amostras (não posso postar muitas por causa da estratégia da promoção, mas dá pra ter o gostinho). Foi fruta que não acabava mais.
São mais de 70 ilustrações diferentes de figurinhas que vão dentro dos pacotinhos de Tang. Foi um período que não faltou Tang nem fruta em casa. Até o Bisteca teve que comer maçã para ajudar a esvaziar a fruteira.

Ainda é novidade no meu site (é mais fácil postar no blog do que no meu site), mas até o final do ano eu atualizo meu portfólio.

Foram todos feitos em Illustrator. Pensei em fazer no Photoshop, mas executar esse tipo de trabalho é mais rápido sendo vetorial, pois já consigo fazer os layouts diretamente, sem passar pelo rascunho a lápis. E bota filtro blur pra dar efeito de volume.

Curiosidades à parte, o abacaxi foi inspirado no ator Jack Black, depois de assistir “Nacho Libre”.

Foi feito agora um hotsite com todos os personagens.
Quem quiser fazer download de wallpapers, emoticons e imagens é só clicar.
Lá tem mais frutinhas.

Sketches

Existem lugares que vendem livros muito, muito, muito específicos. Nem na Amazon ou na Barnes & Noble você consegue encomendá-los. Quando encontro um lugar desses é uma alegria pra minha estante, mas um sofrimento pra carteira. Tento ser taoísta nessa hora e não ter apegos mas é difícil. Livros são uma fraqueza pra mim. Brrrr!

Esse site é um projeto particular desse cara, Stuart Ng (acho que ele é vietnamita). Ele só vende livros de sketches (ou rascunhos) de ilustradores famosos.

Sketches não são desenhos descartáveis. Como o ilustrador não fica preso à necessidade de chegar a um resultado definitivo, as linhas correm naturais em termos de velocidade, traço, pressão, estilo e outros “n” fatores. Vendo um sketch de um ilustrador você percebe qual é o seu ponto fraco e forte, como ele deve pensar enquanto rabisca, como é o processo criativo na evolução de uma ilustração, como ele erra e acerta seu desenho. Assim como o desenho deveria ser, o mais fluido possível.

Fiquei meio encanado de comprar com esse cara pela primeira vez, pois ele não tem um sistema de compras direto através do site. Você tem que mandar um e-mail dizendo em quais livros você está interessado, ele responde dizendo a disponibilidade deles e as instruções de pagamento.

Como ele só vende por cartão de crédito, você tem que dividir a informação em duas mensagens em separado. Uma parte do número do cartão numa mensagem, a outra parte com seus outros dados em outra mensagem. Lá, em Nova Jersey ele junta as informações e procede o pagamento. Com muito receio, fiz uma comprinha bem pequena na primeira vez.

Veio tudo direitinho em uma semana. Dentro do pacote inclusive vem a segunda via do pedido do cartão de crédito, tudo bonitinho. Criei coragem e pedi o resto da minha lista de ansiedade em forma de traço e papel. Veio novamente tudo em ordem. O cara ganhou minha confiança.

Qual é o grande barato? Os livros têm uma tiragem limitadíssima, pois não são edições convencionais de editora. E todos os livros vêm autografados! Afe!
Além de sketchbooks, ele também vende artes originais. Caaaras pra xuxu.

Abaixo são algumas amostras dos sketchbooks que agora fazem parte da família da minha estante:


Esse cara é Justin Ridge. Desenha umas mulheres maravilhoosas, por pouco não são mangás, que eu não curto, mas têm um toque ocidental que as desvirtua desse caminho oriental.
Ele é um dos “character designers” da série “Avatar“, que é muito boa. As cenas de luta desse desenho realmente são bem feitas (embora tenha um defeito imperdoável, pois o roteiro remete a um ambiente oriental, e Avatar controla os 4 elementos. 4 elementos vem da filosofia ocidental, especificamente dos gregos. Os orientais, em especial os chineses, usam 5 elementos como forças principais da natureza).


Esse aí é o Ronnie del Carmen. Tem um traço delicado, suave, quase feminino. E também tem um tempero dos anos 30/40 nas suas ilustrações. As imagens são do livro “Paper Biscuit”. Del Carmen também é “character design” e ilustrador da Pixar.

Del Carmen também trabalhou na Warner trabalhando na série do Batman, Super-Homem e Batman do Futuro.


E esse é meu preferido, uma das minhas referências de ilustração. Peter de Sève é um ilustrador e aquarelista com um extenso portfólio em publicações, livros e cartazes de teatro. Ele é um monstro na aquarela. Tem uma leveza nas cores e no traço que parece que ele tem penas nas mãos. No Brasil, seria equivalente ao Renato Alarcão, outro monstro ilustrador e aquarelista.
Hoje o trabalho mais conhecido de deSeve, no grande público, são os personagens de “A Era do Gelo” que ele desenvolveu.

Tenho tantos rabiscos e sketches que acho que também vou fazer um livrinho de garatujas e gatafunhos, como dizem os portugueses.

Pedido errado

O que difere o homem dos animais é que o primeiro tenta convencer seus semelhantes usando argumentações, pertinentes ou não. O segundo morde ou foge. Mais fácil assim.

Esse trabalho foi feito para o McDonald’s, mas não foi pra frente por causa de um erro de comunicação (queriam uma coisa, mas pediram outra). Não é uma bandejinha, era uma ilustração permanente que seriam impressas nos tampos das mesas. É, eu também não entendi.

O Homem-Maravilhoso

Curiosidade de bandejinha:

Há muuito tempo atrás, num passado não muito distante, eu criei um personagem, chamado o Homem-Maravilhoso. Coisa típica de adolescente ocioso (se o ócio é a oficina do diabo, então vamos equipá-la corretamente). Grandes aspirações, pouca consciência e pouca auto-estima.
Lembro-me que faltei no trabalho pra desenhar umas historinhas e meus amigos riam de mim e do personagem sem futuro. Acho que insisti tanto nele por vingança.

O traço era terrível, as histórias eram de uma pobreza digna de favela, o personagem em si tinha a profundidade de um pires de gato.

Mas passados 18 anos, não é que ele ainda sobrevive? Acho que sem querer eu enfiei ele dentro do meu subconsciente e ele foi aparecendo nas toalhinhas de bandeja como astro convidado.
Ele não virou um super-herói, nasceu desse jeito, com capa e máscara. Vive numa cidade onde todo mundo tem superpoderes, e era totalmente incorreto, só pensava em fama e dinheiro. Tinha um porco aliado chamado Phibes (tirado de “O Abominável Dr. Phibes”, quem não assistiu tá perdendo uma obra prima cafona), que andava com guarda-chuva que virava espada. Entre os seus amigos havia a Princesa Urina; Jimmy, o Garoto-Larva e OXO, o Homem-Empate. Seu maior inimigo, além dele mesmo, era seu irmão invejoso, o Homem-Impressionante e seu primo bulímico, o Homem-Importante.

Hoje vejo que ele não tem força nem potencial nem pra virar uma tirinha de quatro quadros, mas ele me diverte com aparições esporádicas, como o Fofão, que deu as caras na nova campanha do Prisma. Se bem que nunca gostei do Fofão, achava que ele tinha tumores malvados (isso mesmo, nem malignos eram) na bochecha e usava a camiseta do Chucky, o boneco assassino. E ainda sempre que der, eu vou colocá-lo, igual ao meu cachorro, o Bisteca, que aparece em quase todas as toalhinhas de bandeja também.

Apesar de tosco, imaturo e sem sentido, esse personagem me fez continuar desenhando, mesmo nos períodos onde ou eu não ilustrava muito, pois trabalhava como diretor de arte, ou quando eu achava que ainda não estava pronto pra virar um ilustrador profissional e pensava em desistir no meio do caminho. Ele merece.
E, no final das contas, acho que ele conseguiu seu intento. Nada por nada, quando ele aparece nas bandejas, ele é visto por 12 milhões de pessoas. Nesse ponto, ele saiu melhor que o Batman.

Bandeja Direitos das Crianças

Bandeja McDia Feliz

Capa Revista Macmania

Simpsons Style


Pra quem não viu ou não percebeu, fiz essa toalhinha das Olimpíadas de 2004 usando o estilo de desenho dos Simpsons. Pensei em até usar o Homer, disfarçadamente, como Dionísio, deus do vinho. Mas aí seria brincar demais com a sorte.

Acima, Apolo, Afrodite e Hefestos. Hefestos, especificamente, tem a cara do chefe Wigley, o chefe de polícia corrupto.

A mitologia, tanto grega, como romana ou de outra nacionalidade, usam arquétipos que se repetem continuamente. Tive vontade de fazer uma outra lâmina comparando os deuses da mitologia grega, romana, nórdica, hindu e egípcia ao mesmo tempo, mas ela foi bombada.

Os mesmos arquétipos aparecem nos quadrinhos e atualmente em seriados de TV. Ou nunca ninguém imaginou que Super-Homem era um carbono de Hércules, Namor e Aquaman de Netuno, Flash de Mercúrio e Thor…de Thor (aliás, quando irão fazer um filme dele?). Os modelos permanecem, as formas mudam.

Falando em arquétipos, quem já não se sentiu na pele desse fulano?

Esse desenho é original, do Matt Groening. Pena que o seriado tenha terminado tãão mal…

Falando em Matt Groening, para quem não sabe, um pouco antes dele criar os Simpson ele trabalhava numas tirinhas chamadas “Life in Hell”. Tinha um coelho depressivo com uma orelha só e dois homossexuais com chapéus de turco chamados Akbar. Eram boas, mas um pouco sérias demais.

Gianni Rodari e os Binômios Fantásticos

Anos e anos atrás, quando eu tinha que defender uma idéia muito maluca de uma ilustração ou o conceito de um jogo formidável mas absurdamente difícil de explicar para vender ao cliente (diga-se McDonald’s), eu ficava de cabelo em pé porque sempre faltavam argumentos. Afinal era um criativo contra um calculista, um falando de criatividade e o outro querendo resultados. E eu queria que ele apenas entendesse o que eu estava falando, mas as palavras saíam como se eu falasse a língua dos Klingons.

Um tempo depois eu descobri um pedagogo italiano simpático, chamado Gianni Rodari. Seu livro, “A Gramática da Fantasia” virou de ponta-cabeça a minha maneira de enxergar o processo criativo, principalmente vindo do ponto de vista de uma criança.

Ele quebra dogmas que a gente carrega desde que a gente esquece de ser criança e coloca em palavras de gente grande, de forma ridiculamente simples.

Um exemplo:
Todo erro em uma criança não deve ser ignorado, pois quando uma criança erra, gera uma potencialidade criativa. Assim, se uma criança escreve um livvro com 2 vês e é questionada, ela poderá responder: o livvro com dois vês é um livro grande e pesado.

Nada que quem tenha filhos, sobrinhos ou netos não tenha vivenciado. Essas lógicas de crianças que desconstróem o racional adulto.

Gianni Rodari analisa esse processo e ensina a gente a explicar uma coisa que era aparentemente difícil de ser explicada, porque é muito criativa, usando uma lógica diferente do nosso costumeiro.


Essa toalhinha de bandeja foi feita usando uma variante de uma teoria desenvolvida por Giani Rodari: a teoria dos Binômios Fantásticos (combinando as frases você consegue mais de 147.000 histórias diferentes. Podem fazer as contas, é análise combinatória).

Apesar do nome matemático-espirituoso, é um processo criativo onde você pega duas palavras aleatórias, de preferência dadas por duas crianças diferentes, e gera uma história com elas, usando a relação menos lógica e óbvia possível.

Novamente exemplo:

Alguém diz “Cachorro” e outro diz “Armário”.
As possibilidades de se construir uma história:
Um cachorro em cima do armário? Não, muito simples.
Um cachorro dentro do armário? Pfff!
Um cachorro carregando um armário nas costas! Isso sim é diferente, dá história e gera um binômio fantástico.

O cachorro carrega o armário nas costas pra quê?
Pra levar um osso? Óbvio demais.
Pra levar um gato? Cruel demais.
Ele leva armário que tem um monte de mapas e garrafas de leite dentro! Mais um Binômio Fantástico.

Por que ele leva leite e mapas dentro do armário?
O cachorro entrega leite a domicílio e precisa do mapa pra ele nunca se perder e lembrar por que ele faz isso, que é pra juntar dinheiro e comprar uma motocicleta e viajar pela Espanha….(mais binômios fantásticos)

Pra quê? – e dando a resposta menos óbvia, a história não tem fim.

E essa é uma das dezenas de teorias que ele comenta no livro. Todas elas parecem malucas mas são adoravelmente funcionais pra quem trabalha com criatividade. Aliás, elas parecem simples, e até simplórias de um ponto de vista. Mas por trás dessa simplicidade se esconde uma capacidade de observação lúdica sem igual. Quem ler o livro e entender a reflexão sobre o “0 anjo e o diabinho” vai entender que a coisa não é tão simples.

Ele já morreu faz tempo. Antes disso ele fez um livro que fez muito sucesso na Itália, “O Livro dos Porquês”.
É uma compilação de textos que ele escrevia num jornal, na época da Segunda Guerra. Crianças escreviam para o jornal perguntando coisas que adultos não respondiam, inclusive referentes aos pais que não voltavam do front, morte, essas coisas. Ele assumiu a correspondência e foi explicando os porquês das crianças de forma que ela simples e lúdica.

Aos Navegantes de Explorer

Essa garrafa expressa o que sinto pelos problemas informáticos alheios que me são causados.

Quem usa o Explorer vai ver que os posts estão indo lá embaixo. Isso não acontece com os outros navegadores, e só tá acontecendo em PCs, pelo menos até agora.

Já pedi explicações pra Locaweb, mas parece que o problema vem do navegador mesmo.

Vamos esperar pra ver como é que fica.

Calvin

Hoje eu me dei meu presente de Natal (“me dei”? socorro!!):

The Complete Calvin & Hobbes.

Três volumes encadernados, capa dura e caixa. Parece leitura de gente grande. E é!!
São mais de 5 quilos de arte. Mais de 1400 páginas que fazem parar o tempo. Tive até que pegar um táxi pra voltar pra casa, por causa do peso. Alisando a caixa de proteção no caminho de volta de maneira quase indecente.

Curiosidade intelectual: Os nomes Calvin e Hobbes vieram de John Calvin, teólogo francês, e Thomas Hobbes, filósofo inglês. Enquanto Calvin renegou a autoridade do papa e criou a igreja Calvinista, uma variação da igreja Protestante, Hobbes acreditava que o homem só viveria em paz se fosse controlado por um poder único formado por estado e igreja.

Sempre fui fã de Calvin, sempre observei cada detalhe do traço do Bill Watterson, tentando imaginar que tipo de pincel ou caneta esse cara usava. Mas o que mais me impressionava era a sua capacidade de escrever histórias. Dava raiva de tão bom. Sabe aquela inveja saudável, que empurra você a fazer melhor, para tentar ser pelo menos 10% o que ele é? Pois é.

Ele conseguia pontuar o exagero que toda criança tem na hora de fantasiar, e não apenas e simplesmente fantasiar. Quantas vezes não imaginei quando criança um tentáculo entrar pela janela da escola e pegar a professora, ou me revelar como um alienígena em pele de gente numa festa abarrotada de amigos, para dizer adeus por que estou voltando pro meu planeta?

Até hoje as crianças que eu desenho tem um quê de Calvin, pelo menos nos olhos de botãozinho.

Todas as histórias eu já li pelo menos duas vezes. Mas essa edição traz os originais, os kodalites, as tirinhas feitas em papel vegetal. Lá estão as marcas de lápis, as falhas de densidade do naquim e as pinceladas de guache branco por cima, para apagar ou dar efeito. Watterson não é Hirschfeld, mas é um criativo, mais do que um ilustrador.

Sou um profundo admirador de Watterson também por causa da sua filosofia de trabalho. Ele é radicalmente contra ganhar qualquer dinheiro em cima do Calvin que não seja através das tirinhas, através das Syndicates. Nada de filminhos, canecas, publicidade de cuecas, bichinhos de pelúcia (quem não compraria um Haroldo de pelúcia?). Sabiam que em seu testamento, Watterson proíbe qualquer tipo de merchandising, filme ou qualquer outra coisa com seus personagens? Ou seja, Calvin só vai existir em quadrinhos mesmo. Tem as piratarias, mas aí é outra história.

Admiro porque eu, como ilustrador e consultor de marketing infantil, sempre vejo propriedades infantis como potencial comercial para levantar as vendas de um produto ou seu potencial como marca (a gente chama personagens como “Harry Potter” ou “Dexter” como “propriedades”). É algo que admito que jamais conseguiria fazer, caso criasse um personagem.


Mas o irônico é que entendo a visão de Watterson. Ele nunca imaginou Calvin como uma animação ou adesivo de carro. É algo muito particular, quase uma obra de arte, criada para aquele fim. Ou seja, ele se respeita a si mesmo como autor. Não importa quando dinheiro ele perde com essa decisão, pois não é um dinheiro correto, em sua visão. Teve um princípio e o respeita com afinco. Não é qualquer um que faz isso. Alan Moore, talvez.

Em compensação, o Garfield….

Quick steps

Essa ilustração saiu na EGM de dezembro.
Era sobre uma matéria de como soavam errados alguns nomes em inglês de games ou de seus personagens.
Quem vai curte games vai entender do que se trata.

Fiz toda a ilustração no Painter IX.


O esboço fiz direto no programa usando o pincel “Soft Charcoal”. Esse pincel simula bem o grafite macio, bem mais do que o próprio lápis do programa. Assim, quando apresento para o cliente não parece que foi feito em computador. Não que isso tenha alguma influência, talvez ainda seja um apego antigo do lápis e do papel (apego? essa palavra tem que ser praticada todo santo dia).


O traço preto final foi feito no pincel “Liquid Ink” que eu customizei. Ele dá as “falhadinhas maravilhosas” no traço, novamente dando uma cara mais natural. Não é um pincel fácil de se trabalhar, precisa de uma máquina parruda, com bom processador e memória pro trabalho sair com fluidez.


Por fim, a pintura foi feita com o pincel “Digital Watercolor”, usando como textura de papel um de aquarela que eu escaneei e virou “papel digital”, que funciona melhor que os papéis que vem como opções no programa. Quanto mais reentrâncias de fibras, melhor.
E dá-lhe camadas, camadas e mais camadas de tinta.


Finalizando a ilustração dentro do Illustrator, para colocar as palavras e os balões .

Basicamente só uso essas ferramentas quando trabalho no Painter ( o pincel acrílico eu uso de vez em qando, pra dar uma cara mais “suja” ao desenho).

Intolerância de Plantão

Trabalhar com entretenimento popular não é fácil. Você entende perfeitamente a expressão “não dá pra agradar a gregos e troianos”.

Afinal, esse trabalho das toalhinhas tem uma tiragem mensal de 12 milhões de unidades. É visibilidade demais. O tamanho da vidraça é muito grande(Será que dá pra me incluir no Guiness?)

Se o assunto é sobre água no mundo, tem sempre um estatístico de plantão para confrontar os dados publicados, ou alguém que reclama que trabalho com os temas superficialmente (como se eu tivesse espaço, intenção e objetivo para sê-lo).

Se o tema é folclore e crendices, tem sempre céticos armados com pitbulls querendo uma retratação imediata perante processo na justiça porque acreditam que o objetivo do trabalho é o obscurecimento da ciência, como se fosse a época de Galileu e Giordano Bruno. Esse perdeu a língua por causa do que acreditava.

Já fui ameaçado porque eu não coloco nada sobre poesia nas toalhinhas. Inclusive um senhor me ameaçou porque ele pediu para eu colocar as poesias dele nas toalhinhas e eu recusei, por motivos óbvios. Ele se sentiu duramente ofendido e me chamou de imperialista vendido. Coisa parecida aconteceu com uma senhora que escreveu um conto junto com o neto e queria que eu publicasse nas toalhinhas com meus desenhos. Pelo menos essa não quis me processar, mas ofendeu meus antepassados.


Já teve gente que reclamou que eu ilustrei uma coisa que não existia. Era uma invenção lúdica, a toalhinha era sobre besteirol. Ele mandou várias cartas pedindo para me retratar publicamente, dizendo que aquela invenção não tinha lógica e que se funcionasse, representaria perigo para as crianças.

Já tive reclamações por que eu não faço nada em estilo mangá. Teve uma menina que inclusive fez uma toalhinha de personagens de animê famosos, por conta própria, na esperança dela ser publicada. Esperta, no meio dos desenhos tinha a personagem dela. Quando recusei, disse que eu era intolerante com a “causa” dos mangás. Será que existe uma ONG para defender os mangás?


Essa lâmina, por exemplo, embora tenha dado um trabalhão para fazer as constelações vistas no hemisfério sul, na melhor das intenções, foi bombardeada por cartas que reclamaram que eu coloquei informações (no box lateral, isolando do resto do trabalho) sobre poesia (que tipo de gente reclama de uma poesia do Olavo Bilac?), um adendo sobre crendices (que apontar o dedo para uma estrela dá verruga) e uma crendice que as pirâmides no Egito foram construidas baseadas na posição das estrelas da constelação de Órion.
Me senti o Salman Rushdie das curiosidades, na época.

Já fomos ameaçados de processo na justiça porque ilustrei um cidadãode um país porque havia colocado um chapéu que não é usado regularmente lá (pra ver a gravidade da situação, quase que colocaram a embaixada do país no meio da história).

Tem gente que não acredita que elas sejam feitas no Brasil, que são feitas nos EUA, pois tudo o que sai não tem familiaridade com o país. Teve gente até que disse que isso era uma estratégia de marketing imperialista…

Pois é, tecnicamente eu não existo.

Em tempo: eu não acredito na maioria dessas coisas esotéricas, extraterrestres ou fantasmagóricas, mas gosto de ler sobre isso. Como Mulder dizia, faz a gente pensar nas “possibilidades extremas”. Não é por que não acredito que deixo de gostar.

Natal

Essa ilustração é livre pra quem não vê o espírito natalino em ganhar chave de fenda no amigo secreto, de chupar osso de frango nem tomar sorvete de creme mole no na ceia de Natal.

Podem fazer o download e enviar sem medo de ser feliz, é meu presente de Natal pra quem vai ver aquela tia feia no dia 25.

Brincadeiras à parte, Feliz Natal pra quem pode.

O Manuscrito Voynich

Esqueçam o Código da Vinci.

Apresento-lhes um dos livros mais estranhos do mundo: O Manuscrito Voynich.

Tentei colocar essa informação numa toalhinha de bandeja, mas foi cortada sem dó.

O Manuscrito Voynich é um livro escrito por volta do ano 1200, não se sabe exatamente por quem. Foi encontrado por acaso por um russo chamado Voynich (é isso mesmo, Voynich é quem descobriu o livro, e não quem o escreveu).

O livro foi escrito numa língua estranha, com um alfabeto misterioso, recheado de ilustrações de animais, plantas, constelações e pessoas estranhas. Muito bizarro.

Ninguém até hoje conseguiu decifrar os códigos pictóricos do livro.

Tem gente que acredita em teorias extraterrestres ou extradimensionais. Ou foi algum abade ilustrador de iluminuras (ilustrações góticas de livros antigos, vejam “O Nome da Rosa”), num arroubo de humor e criatividade medieval, deu pra escrever um livro sem pé nem cabeça mesmo. Ou alquimistas que escreveram em livros seus pontos de vista do lado da transmutação.

Adoro essas aberrações estatísticas, coisas que fogem do padrão. Tomando emprestado as palavras do Dr. House: “This is an anomaly. I love anomalies”.

Fundação Telefônica

Dias antes da minha viagem, Tomás Lorente, VP de criação da Young & Rubican me liga pedindo um trabalho. Embora seja um dos pesadelos para quem é freelancer (ligarem pedindo trabalho nas vésperas de viajar), era um trabalho que valia muito a pena fazer, por quem estava me pedindo, pois sempre admirei o trabalho do Lorente, e pela causa. Aceitei fazer isso em 3 dias.

Ainda tá rolando na mídia.

Essa era a ilustração original que serviria para o anúncio impresso e outras peças:

O rafe de apresentação dessa idéia foi esse. Dá pra ver como as coisas mudam com o desenvolvimento do trabalho:

Depois eles mudaram o acabamento (acredito que a pedido do cliente), e fizeram em 3D (não foi feito por mim). Mas o legal é que eles respeitaram o meu estilo e os detalhes das ilustrações. Isso é meio raro no mercado hoje em dia. Aliás, preciso agradecer ao Tomás por isso.

Al Hirschfeld

Quem me conhece sabe que meu coração é duro e frio como mármore de banheiro, que minha diversão é chutar cachorrinhos pro meio da avenida.

Mas tem coisas que fazem a gente soltar uma lagriminha.

Encontrei esse vídeo no Youtube, através do Orkut:


Al Hirschfeld ilustrando Paul Newman aos 99 anos.
Só de assistir a esse vídeo dele trabalhando a gente aprende muita coisa, a maioria não dá pra ser manifestada em palavras.

A primeira coisa que vem na cabeça é querer terminar como ele. Acabar a vida nessa idade, com habilidade e consciência para desenhar tão bem quanto jovem. Convenhamos, 99 anos e ilustrando dessa maneira, é uma classe diferente de ilustrador. São aqueles que a gente coloca seus livros na prateleira de cima.

Eu assisti o documentário “The King of the Line”, que mostra a vida dele. É de chorar de tão bonito. Dá vontade de sentar e começar a desenhar melhor do que antes, depois de ver o filme. Poucos servem de estímulo nessa área, principalmente de ser profissional melhor, em traço, habilidade e cabeça.
Ele fez caricaturas de Charles Chaplin in natura até Seinfeld e Madonna, por uns 80 anos (se não me engano ele começou com 18), transformando-se num compêndio de barba branca da cultura do entretenimento americano. Ele praticamente ilustrou todos os atores, cantores, celebridades, pensadores e escritores americanos importantes nesse período. Monstruoso.

Não querendo copiar o mestre, mas foi a inspiração para que eu colocasse minha assinatura escondida nas ilustrações das toalhinhas de bandeja. Inveja da “Nina”.
Na verdade, eu queria ser ele…ter seu talento, sua barba branca, sua longevidade e sua cadeira de barbeiro, que ele usava pra trabalhar.

Quem recebeu uma dádiva foi o Guime, diretor de arte da W/Brasil. Eles fizeram uma campanha com ele há anos e o danado do velhinho fez uma caricatura dele, de graça e do nada, só pra ver se era isso o que ele queria. Imagine, ter uma caricatura sua feita pelo Hirchfeld pendurado na parede…

Como se alguém precisasse duvidar do Rei da Linha..

Toalhinha do Baú


Essa eu recuperei de um disco de backup Pinnacle que havia dado pau em 1997. Eram uns trambolhos do tamanho de um disco de vinil, mas pesava como um bebê recém-nascido. E vivia dando pau a toda hora.

Dando uma lida nessa lâmina, nem acredito que eles deixavam passar algumas coisas (que eu acho maravilhosas). Nessa em particular, quem tem mais de 35 anos e vivia grudado na TV vai lembrar

Eu coloquei uma referência ao robô-cópia, personagem de um desenho japonês chamado Super-Dínamo, como uma invenção que deveria ser inventada (toda criança na minha época sonhava com um). Era um robô que clonava quem apertava o botão no nariz, assim ele fazia a lição de casa e as coisas chatas que a mão pedia, enquanto o original saia pra brincar ou salvar o mundo. Eu a-do-ra-va assistir esse desenho, mesmo em preto e branco. Passava sempre antes do Fantomas e o morceguinho dourado!

E ele saiu assim integralmente, sem censura nem repreensão….

Falando em censura, quem se lembra desse atestado que passava antes de qualquer programa de TV na ditadura militar? Como eu sou velho, afe.

Títulos Portugueses

A lâmina de Portugal tá ilegível, então vou colocar aqui uma coisa impagável que tem nela.

Sim, títulos de filmes em Portugal!! Fiquei uma tarde na seção de DVDs na Fnac de Lisboa anotando essas pérolas:

O Planeta dos Macacos (o original, com Charlton Heston) lá se chama…O Homem Que Veio do Futuro!! Mas para quem não se lembra do filme, Charlton Heston veio…do passado!!!

A série Duro de Matar, na ordem: Assalto ao Arranha-Céu (Duro de Matar 1); Assalto ao Aeroporto (Duro de Matar 2) e…..Die Hard 3 (Duro de Matar 3)!

O bonitinho O Ratinho Encrenqueiro lá se chama Não Acordem o Rato Adormecido!

A Mulher-Maravilha lá se chama A Super-Mulher!

Alice no País das Maravilhas muda de lugar. Lá se chama Alice no País das Fadas.

A Noviça Rebelde lá se chama O Som do Coração. O motivo é mais engraçado: eles achavam que Noviça Rebelde soava como um título de filme pornô.

Um Tira da Pesada lá virou O Caça-Polícias.

Jornada nas Estrelas é chamado de Caminho das Estrelas.

Arquivo X é Ficheiros Secretos.

O Gordo e o Magro são Bucha e Estica.

Agora essa eu não consegui segurar o riso quando eu vi. E foi numa loja de conveniência. Lá eles vendem filmes pornôs. Imagine o cenário:
Produção portuguesa (conforme letras garrafais na capa). Na foto, um cara bem-dotado, vestido de policial, de bigode e óculos escuros, cercado por várias mulheres peladas, não necessariamente lindas.

O título do filme? O Tira…E Põe!!!

Monstros S.A.

Rolou alguns meses atrás uma campanha da Caixa Econômica com um monstro roxo, o monstro da anuidade. A campanha foi criada pela Fischer América.

Eles me contactaram para desenvolver o bichão.
Fiz várias opções, mas foram todos reprovados. Apenas o último, o inferior da direito, estava seguindo nos moldes que eles queriam (pense em Monstros S.A., diziam eles):

Na sequência: o layout do monstro aprovado; a ilustração final com elementos em 3D feitos pelo Adelmo Barreira e por último eles fizeram um boneco em tamanho real, que ficou divertido de tão tosco:

A fruta mais fedida do mundo

Durian é uma fruta espinhosa e muito, muito,mas muito mal-cheirosa. Fedida, para ser mais exato. Tão fedida que existe uma lei na Tailândia onde ela é proibida de ser comida em público. Em hotéis existem placas proibindo tal fruta.

Agora imagine: como deve ser o peido de um cara que come essa fruta?

Português de Portugal

É impressionante e engraçado como algumas palavras portuguesas soam estranho no Brasil, e vice-versa (meia-de-leite é pingado, cueca é calcinha, penso rápido é curativo). É um país onde os homens chamam as mulheres de João e as mulheres chamam os homens de Maria (é sério, por causa que algumas mulheres se chamam de Maria João e alguns homens de José Maria). Só estando lá pra verificar in loco o que é ler um jornal português – nem vou comentar das seções de piadas das revistas masculinas.
Foi difícil entender por que um intervalo de 15 minutos no meio de um filme de 90 (fui ver o péssimo “A Máquina do Tempo”). Pro pessoal fumar, oras.

Eu tive a idéia de fazer essa lâmina de bandeja, um mini dicionário português-brasileiro em 2002, quando fui pra Portugal pela primeira vez:

Eu tive a idéia de criar a lâmina passando de metrô pela estação Colégio Militar, por causa das paredes cobertas com esses azulejos:

Essa estação leva ao Shopping Colombo, que é gigantesco.

Cidade inspiradora essa, que tem bairros chamados Chiado e Rato e Arquivo X chama-se Ficheiros Secretos.

Quem quiser saber mais, recomendo o livro Schifazfavoire, do Mário Prata, que fala exatamente sobre isso.

O Tao do Papel Branco

Antigamente as ilustrações eram feitas em papel caro – Schoeller, Ingres, Fabriano. Antes de começar um trabalho havia uma preparação mental. Ninguém começava um trabalho ansioso ou nervoso,com medo de estragar o papel. Geralmente quando era assim, a gente dava uma espairecida. Tinha ilustrador que ficava olhando um tempão para o papel, quieto..tinha gente que ia no banheiro fazer número 2, outros fumavam um cigarrinho, outros bebiam um whisky.
E depois voltavam mais tranquilos, prontos para começar o trabalho.

Era um respeito que havia pelo papel branco.

Hoje, com as facilidades do computador, isso não existe. A pressa do cliente é nossa pressa redobrada, é só apertar command +N para gerar um novo documento. Se errar, tem o undo ou delete o arquivo inteiro, não custa nada.

Mentes ansiosas passam ansiedade para o desenho, seja na criatividade, seja no acabamento.

Não sou contra a idéia de acreditar que a ilustração seja business, porque ela é. São negócios, você precisa gerenciar números, administrar rendas, conseguir trabalho constantemente, saber se vender, entre outras coisas.

Mas também sou a favor de voltar essa preparação mental antes de começar um trabalho, nem que ele seja feito no computador. Para retomar uma prática benéfica, para não se viciar na desculpa da falta de tempo pra fazer um trabalho que levaria duas horas em uma.

Na filosofia oriental isso se chama “esvaziar o centro ou esvaziar o coração”. Um dos métodos pra que isso aconteça é a meditação para acalmar a mente, que acalma o coração, que estabiliza a mão, que acalma a mente.