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(Texto: Juliana Tieko Octavini/NB
Fotos: Ricardo Hara)
Você pode não conhecê-lo, mas certamente já leu, se
divertiu e até comeu sobre os trabalhos de Marcos Hiroshi
Kawahara, 39. Hiro, como é conhecido, é, nada mais nada menos,
que o ilustrador das famosas lâminas de bandeja e criador
também das caixinhas de lanche da rede de fast food Mc
Donald’s, projetos que desenvolve com a equipe da agência onde
trabalha, a Taterka Comunicações. Em nove anos de
trabalho, o diretor de arte já criou cerca de 125 lâminas,
distribuídas mensalmente por todo o País. Mas, apesar de
gostar de desenhar desde a infância, sonhava ser biológo, sua
grande paixão. Nascido em Mogi das Cruzes, veio morar em São
Paulo para cursar a faculdade de Biologia, na Universidade de
São Paulo (USP). Em entrevista ao NB, Hiro fala sobre sua
carreira, trabalhos que já desenvolveu e projetos para o
futuro. |
Como começou sua carreira? Fui privilegiado
porque nunca trabalhei. Depois de três anos e meio de
faculdade, conheci uma garota que trabalhava numa editora e,
por acaso, eles precisavam de desenhista. E daí pensei: ‘não
vou ser biólogo, vou ser ilustrador’. E ‘cair’ na Taterka foi
muita coincidência. Trabalho nessa área meio que por acaso.
Nunca procurei trabalho.
Mas você sempre sonhou em ser
ilustrador? Não, queria ser Jacques Costeau, trabalhar
com biologia, ser pesquisador. A habilidade de desenhar era
uma coisa que eu fazia naturalmente, mas eu nunca via isso
como uma carreira. Hoje, sempre procuro juntar as duas coisas:
a biologia e a ilustração. Me incomodava ver coisas mal
desenhadas de anatomia, então, procurei fazer a minha versão.
Na visão dos meus pais, ser artista não era uma coisa muito
bem vista, tanto que uma grande frustração do meu pai foi que
eu não fui doutor, não fiz doutorado. Em compensação tenho
esse meu trabalho atual. Naquela época, quando eu falei que ia
parar minha carreira de biologia, ele não gostou nem um pouco.
Falou que artista morre de fome.
Como surgiu essa oportunidade de ilustrar as lâminas
do Mc Donalds? Na verdade as lâminas surgiram pelo dono
da Taterka. E quando ele me apresentou a proposta, eu falei:
‘vou tentar’. Muita gente não queria pegar esse trabalho,
justamente porque não vende nada. Comecei pegando uma, duas,
três, quatro. Depois de uns anos eu passei a ter mais
liberdade para escolher os temas e criei um subgrupo de
lâminas: educacionais, divertidas, cívicas, e faço um rodízio
delas até hoje.
Como é o processo de criação? O padrão é
fazer uma lâmina por mês, mas o tema varia muito. Muitas vezes
a informação bate na minha cara e eu falo: ‘puxa, isso aqui dá
uma lâmina de bandeja!’. A de Portugal, por exemplo, eu não
tinha informação, então viajei para lá e acabei fazendo em uma
semana ou menos. Hoje em dia, metade dos temas está
relacionado com a campanha que tem na loja, e a outra metade,
quando não tem uma promoção, eu faço livre. A lâmina da Arca
de Noé, por exemplo, está relacionada com a campanha dos
bichos que a loja está tendo. A lâmina é o temperinho da
campanha. O produto, no caso a caixinha, gera dinheiro, já a
lâmina não, pois como não tenho a preocupação de vender, sou
totalmente aberto para criar.
Onde busca inspiração? Meus grandes
inspiradores são Hayao Miyazaki, que fez o filme A Viagem de
Chihiro, e o caricaturista americano Al Hirschfeld. Miyazaki é
o único desenhista japonês que eu abaixo a cabeça e o
Hirschfeld, que tem hoje 99 anos, é um grande caricaturista.
Minhas inspirações também vêm desde freqüentar uma livraria,
assistir televisão ou conversar com crianças. As idéias vão
muito de onde estou, o que estou fazendo, o que estou
assistindo, o que eu estou lendo. Tento passar para as
crianças essa cultura de ler, que é muito importante. Por isso
as lâminas têm muito texto.
Em suas obras, há alguma influência dos
mangás? Ao contrário. Tenho a preocupação de não fazer
mangás porque percebi que os traços de mangá são genéticos.
Por causa da influência desde criança, você tem a tendência de
desenhar olho grande. Eu tenho que me vigiar para não desenhar
mangá, porque sem querer acabo desenhando. Agora estou fazendo
uma lâmina de ideogramas. É complicado porque percebi que você
precisa saber falar chinês, porque todos os kanjis vieram da
China. Eu estou pesquisando mais a fundo e nessa lâmina
pretendo fazer tudo em mangá também, pois acho que tem tudo a
ver.
É verdade que seu cachorro, o labrador Bisteca, está
sempre presente em seus trabalhos? Verdade. Também
coloco sempre alienígenas. Como eu não posso colocar minha
assinatura no texto, a minha assinatura faz parte do desenho.
Ela não fica na cara, fica bem escondida no desenho. Sempre
está num detalhezinho.
E com relação aos outros personagens?
Eles são caricaturas de pessoas que você
conhece? Depende do caso. Evito pôr gente conhecida.
Coloquei minha esposa algumas vezes, mas gente não é igual
cachorro. Se você põe uma, tem que colocar todo mundo. Às
vezes sai alguém que eu conheço, mas isso é inconsciente. Eu
procuro não colocar gente conhecida justamente para não criar
conflito, porque a pessoa pode não gostar.
Como é a receptividade do público? Descobri
que tem gente que coleciona, tem fã-clube, e até alguns
professores que utilizam na escola. Esse é o meu grande
orgasmo de trabalho, porque era isso o que eu queria. Sei que
a intenção de uma lâmina de bandeja é passar um pouco de
informação. Geralmente uma lâmina tem umas 80, 100 trocas de
informações. Isso me dá margem para colocar desde o que é
básico até o absurdo, o bizarro. Tem uma lâmina que eu fiz um
detalhe bem pequeno com personagem do Evangelion (animê) e os
otakus, fãs de desenho animado, perceberam. Por isso, eu
preciso ter muito cuidado com o que eu coloco na lâmina.
E como é, para você, ver as pessoas lendo, se
divertindo com o seu trabalho? Mexia muito comigo no
começo. Hoje eu acho muito legal, mas não tenho muito apego.
Isso nunca me veio como glória, mas como responsabilidade. São
10 milhões de lâminas por mês. Então, teoricamente, estou
conectado com 10 milhões de pessoas sem saber. Isso aqui é meu
mascote. Fico orgulhoso com o que eu faço.
Além destes trabalhos, você ainda está engajado na
produção e elaboração de dois livros, projetos pessoais seu. O
que eles abordam? Um deles é infantil, que fala de
fadas. Escrevi sem nexo, sem pé nem cabeça, mas com uma
lógica. No fim ele acaba sendo um livro como Alice no País das
Maravilhas, você bota muita coisa escondida sem querer passar
nenhuma mensagem, ele é só bonito. E o outro é só texto e
também fala da relação entre as pessoas, mas é uma coisa muito
mais lúdica. Ainda não tem previsão para lançamento, pois não
tem nem editora ainda. (risos)
De todas as lâminas que fez, qual foi a que mais
gostou? Foi a de direitos porque o livro que escrevi
nasceu por causa dessa lâmina de bandeja. Eu descobri que eu
tinha capacidade de fazer uma linguagem poética. Essa lâmina
foi a que eu mais cheguei perto na perfeição do texto. Ela
passa uma coisa muito séria, mas pensando como criança. Já
escrevia textos, mas a minha capacidade de escrever histórias
foi nessa aqui.
Para finalizar, qual a dica que você dá para aqueles
que queiram seguir a carreira de ilustrador? Para ser
ilustrador tem que ter a mente aberta, treinar sempre e
observar tudo. Não adianta falar que você estudou com um cara
bam-bam-bam na área . É importante não se apegar a um estilo,
como mangá. O mercado de ilustração é grande. A pessoa precisa
ir muito além de mangás, grafites para skate ou histórias em
quadrinhos. É preciso desenhar desde um repolho a uma mulher
pelada. Essa é uma das poucas carreiras que não precisa de
diploma e você não pode recusar
trabalho. |